{"id":228868,"date":"2022-02-11T10:29:48","date_gmt":"2022-02-11T10:29:48","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=228868"},"modified":"2022-02-11T10:34:53","modified_gmt":"2022-02-11T10:34:53","slug":"o-meu-branco-engana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-meu-branco-engana\/","title":{"rendered":"O meu branco engana"},"content":{"rendered":"<p><em>Sandra C\u00f4rtes-Moreira, Diocese do Algarve<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Sandra-Cortes-Moreira-Algarve.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-201550 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Sandra-Cortes-Moreira-Algarve-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Sandra-Cortes-Moreira-Algarve-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Sandra-Cortes-Moreira-Algarve-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Sandra-Cortes-Moreira-Algarve-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Sandra-Cortes-Moreira-Algarve-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Sandra-Cortes-Moreira-Algarve-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Sandra-Cortes-Moreira-Algarve-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Sandra-Cortes-Moreira-Algarve-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Sandra-Cortes-Moreira-Algarve.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>Quem me conhece sabe que nasci em Angola. Sou filha de um casal em que a m\u00e3e tamb\u00e9m nasceu em Angola e o pai para l\u00e1 foi, com poucos meses de idade. Os meus av\u00f3s maternos e paternos, eram todos portugueses, uns do Minho e outros da Beira Alta.<\/p>\n<p>Sou, portanto, segundo a l\u00f3gica do Estado Novo, \u201cbranca de terceira\u201d, que, para quem n\u00e3o sabe, poderia ser a designa\u00e7\u00e3o constante do meu documento de identidade, dando nota de ser a terceira gera\u00e7\u00e3o ali residente, pois a minha m\u00e3e, durante muitos anos, teve no seu a men\u00e7\u00e3o \u201cbranca de segunda\u201d, facto que sempre nos fez rir bastante na fam\u00edlia. At\u00e9 porque temos, na verdade, v\u00e1rias hist\u00f3rias aned\u00f3ticas relacionadas com a nossa \u201cbranqueza\u201d.<\/p>\n<p>Vejamos: a minha m\u00e3e nasceu loira, o loiro pr\u00f3prio dos n\u00f3rdicos, quase branco. Tem olhos azuis e pele praticamente transparente, daquele tipo que, apenas com um pouco de calor, fica vermelha. A irm\u00e3 mais nova \u00e9 o oposto: morena, de cabelo e olhos escuros, com uma tez que rapidamente escurece ao sol, tomando uma cor intensa e quente, como se v\u00ea aqui, por todo o sul da Pen\u00ednsula e noutras zonas, como a It\u00e1lia, Marrocos, o M\u00e9dio Oriente, por exemplo. Ambas vieram estudar para Portugal e, durante esse per\u00edodo, visitaram a terra do meu av\u00f4 materno, onde residia a bisav\u00f3 Margarida. E foram o \u201csururu\u201d da aldeia! Certamente a mais velha era filha do C\u00f4rtes, que tamb\u00e9m tinha olhos azuis, mas a segunda, ahah, a segunda era filha de algum africano, s\u00f3 podia, com aquela derme intensamente morena das muitas horas passadas ao ar livre!&#8230; T\u00e3o diferentes eram as mo\u00e7oilas, que a honradez de sua m\u00e3e foi logo posta em causa! Mais um motivo de risota familiar, que irritava a m\u00e3e, a minha av\u00f3 Am\u00e9lia e a todos divertia, galhofando sobre o \u201cbranco mais branco\u201d de uma das irm\u00e3s.<\/p>\n<p>Eu sou igualmente branca e loira, de olhos verdes, iguais aos do meu pai, que \u00e9 moreno. Quando pass\u00e1mos a residir no Algarve, iniciando-se o <em>boom<\/em> tur\u00edstico da regi\u00e3o, sempre se dirigiam a mim e \u00e0 minha m\u00e3e em ingl\u00eas, por pensarem que n\u00e3o correspond\u00edamos ao padr\u00e3o local, ou seja, eramos brancas demais! Muito nos rimos com as diversas abordagens atabalhoadas, a que ora correspond\u00edamos, ora cort\u00e1vamos imediatamente, por serem t\u00e3o tontas.<\/p>\n<p>Nestes dias, em que tanto se tem falado de brancos e pretos, racistas e n\u00e3o racistas, estas hist\u00f3rias vieram-me \u00e0 mem\u00f3ria. S\u00e3o, para mim, a prova provada de que a cor da pele n\u00e3o importa para nada e que a nossa gen\u00e9tica \u00e9 t\u00e3o rica como as cores do arco-\u00edris, sobretudo num pa\u00eds como Portugal, onde tivemos celtas, iberos, lusitanos, judeus, \u00e1rabes, africanos subsarianos e sabe-se l\u00e1 que mais. Na minha fam\u00edlia h\u00e1 registo de ascendentes de origem espanhola, judeus convertidos e portugueses de diversas proveni\u00eancias. Ali\u00e1s, a exist\u00eancia desta nossa mescla de origens j\u00e1 estava demonstrada por v\u00e1rios estudos, um deles publicado em livro e intitulado <em>O Patrim\u00f3nio Gen\u00e9tico Portugu\u00eas<\/em> (Gradiva, 2009), da autoria da investigadora Lu\u00edsa Pereira (Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto &#8211; IPATIMUP) e da jornalista Filipa Ribeiro. H\u00e1, at\u00e9, neste nosso belo pa\u00eds, uma linhagem espec\u00edfica (explica-se nessa obra), designada U6, caracter\u00edstica dos berberes da \u00c1frica do Norte, que, imagine-se, quase n\u00e3o existe no resto de Europa. Tal caldo gen\u00e9tico n\u00e3o podia ser menos consistente com uma qualquer matriz que nos queiram dizer que \u00e9 a t\u00edpica dos portugueses!<\/p>\n<p>E vamos l\u00e1 ver: isto importa mesmo? Pensemos como cat\u00f3licos, verdadeiros seguidores de Cristo, Aquele que nos veio irmanar, como dizia S. Paulo: \u00abTodos voc\u00eas s\u00e3o filhos de Deus mediante a f\u00e9 em Cristo Jesus, pois os que em Cristo foram batizados, de Cristo se revestiram (G\u00e1latas 3:26-27)\u00bb. N\u00e3o nos compete, enquanto esses verdadeiros seguidores de Cristo, amar \u00abo que dele foi gerado (1 Jo\u00e3o 5:1)\u00bb? Qual \u00e9 a d\u00favida e porqu\u00ea tanta vontade em refor\u00e7ar diferen\u00e7as, em separar, em dividir, em colocar fatores t\u00e3o profundamente insignificantes, como a cor da pele, enquanto pontos-chave para discursos, decis\u00f5es ou tomadas de posi\u00e7\u00e3o? Jesus Menino, quando nasceu, foi acolhido por pastores judeus, por tr\u00eas magos vindos de zonas diferentes do mundo e, logo, de cores diferentes, mas uniu a humanidade! E todos somos igual e plenamente humanos!<\/p>\n<p>Este deveria, na verdade, ser um \u201cn\u00e3o assunto\u201d, como alguns gostam de dizer. Porque s\u00f3 revela a incapacidade que temos de olhar o outro como um ser \u00fanico e irrepet\u00edvel, obra maior da cria\u00e7\u00e3o e irm\u00e3o com as mesmas responsabilidades e direitos que n\u00f3s, durante a passagem por esta casa \u00e0 qual temos, como diz Carlos de Aquino (<em>Dos Rostos da Casa<\/em>, Cordel D\u2019Prata, 2021), de dar um \u00abrosto ao amor e \u00e0 paz\u00bb, sermos \u00abesperan\u00e7a\u00bb, perfum\u00e1-la \u00abde verdade\u00bb.<\/p>\n<p>Sabem, sou uma branca africana, de cora\u00e7\u00e3o, mesmo. Apesar de ter sa\u00eddo de l\u00e1 muito pequena, tenho em mim algo que me prende ao continente e que me faz ser, como costumo dizer na brincadeira e sem qualquer sentido pejorativo, a \u201cbranca-preta\u201d mais branca que conhe\u00e7o. \u00c9 que o meu branco engana. Assim como o de todos. E o preto tamb\u00e9m. At\u00e9 daqueles que se dizem perfeitos exemplos de cada tipologia humana. \u00c9 que o meu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o negro, t\u00e3o amarelo, t\u00e3o vermelho ou outra qualquer cor que possam querer impingir a um irm\u00e3o. E gosto muito disso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sandra C\u00f4rtes-Moreira, Diocese do Algarve<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":201550,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-228868","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/228868","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=228868"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/228868\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/201550"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=228868"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=228868"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=228868"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}