{"id":22861,"date":"2007-02-13T10:47:25","date_gmt":"2007-02-13T10:47:25","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/02\/13\/no-pos-referendo\/"},"modified":"2007-02-13T10:47:25","modified_gmt":"2007-02-13T10:47:25","slug":"no-pos-referendo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/no-pos-referendo\/","title":{"rendered":"No p\u00f3s-referendo"},"content":{"rendered":"<p>Eug\u00e9nio Fonseca, Presidente da Caritas Portuguesa, destaca esfor\u00e7o cont\u00ednuo em favor da vida <!--more--> Estive a aguardar o resultado do referendo que levou o pa\u00eds a debater o grave problema do aborto para escrever estas linhas de opini\u00e3o.  Durante as \u00faltimas semanas agitaram-se princ\u00edpios, discutiram-se conceitos cient\u00edficos, falou-se de vida e de concep\u00e7\u00e3o, estabeleceram-se diferen\u00e7as entre procriar um ser e formar um futuro cidad\u00e3o, tentou-se avaliar dissemelhan\u00e7as entre a gen\u00e9tica e as influ\u00eancias do meio envolvente, politizaram-se abertamente opini\u00f5es e argumentos, falou-se do papel da Igreja e do Estado, da posi\u00e7\u00e3o e das influ\u00eancias das concep\u00e7\u00f5es religiosas de cada um, formaram-se grupos oficializados num processo mobilizador da sociedade civil &#8211; como \u00e9 uso dizer-se agora -, enfim poucas vezes se viu na r\u00e1dio, na TV, nos tempos de antena e nos jornais tanta opini\u00e3o e t\u00e3o d\u00edspares tomadas de posi\u00e7\u00e3o. E, no aceso das discuss\u00f5es e da apresenta\u00e7\u00e3o das opini\u00f5es, foi sobressaindo um facto concreto duma import\u00e2ncia que consideramos fulcral: a necessidade dum planeamento familiar que atinja todas as camadas sociais, a necessidade de implementar o ensino sobre a sexualidade na juventude, o rep\u00fadio da destrui\u00e7\u00e3o da gravidez como meio anticoncepcional, a verifica\u00e7\u00e3o de que se imp\u00f5e \u00e0 sociedade tomar medidas s\u00e9rias e urgentes que verdadeiramente permitam que a mulher (e o homem respons\u00e1vel pela gravidez) n\u00e3o necessite, nem sequer de pensar em abortar. Falou-se muito da fragilidade do ser em forma\u00e7\u00e3o, \u00e0 merc\u00ea ou n\u00e3o de decis\u00f5es da m\u00e3e, discutiu-se sobre o direito da mulher poder ou n\u00e3o dispor do seu corpo, do seu ventre, de ter ou n\u00e3o em conta os direitos desse ser fr\u00e1gil e incapaz de se defender das prepot\u00eancias dos adultos. Falou-se do direito \u00e0 vida, do direito a ser desejado e do direito a ser um ser adulto de posse de todos os seus direitos de cidadania. Mas, no meio de todo este &#8220;ru\u00eddo&#8221;, o argumento que mais me confundiu foi o de n\u00e3o sermos um pa\u00eds t\u00e3o civilizado como outros que j\u00e1 tinham assumido a liberaliza\u00e7\u00e3o do aborto, nas condi\u00e7\u00f5es sujeitas a referendo. Mais perplexo fiquei quando, ap\u00f3s a divulga\u00e7\u00e3o dos resultados, escutei que, a partir de agora, Portugal junta-se aos pa\u00edses defensores dos direitos humanos. Espante-se! Gostaria, por\u00e9m, que o grau de civismo de uma sociedade, incluindo a portuguesa, e a luta pelos direitos inalien\u00e1veis de cada ser humano fossem medidos pela necessidade de protec\u00e7\u00e3o a qualquer ser fr\u00e1gil &#8211; independentemente do seu est\u00e1dio de vida &#8211; e com poucas possibilidades de se defender das agress\u00f5es dessa sociedade. E nesta linha n\u00e3o posso deixar de pensar que, neste mundo ego\u00edsta e individualista, existem milh\u00f5es de exclu\u00eddos, de pessoas sem assist\u00eancia de qualquer tipo, sem tecto, sem \u00e1gua pot\u00e1vel, sem medicamentos, e morrendo de fome, nos quatro cantos do mundo. S\u00f3, em Portugal, s\u00e3o dois milh\u00f5es os que vivem no limiar da pobreza e a luta contra a droga, a gravidez precoce, a crescente desertifica\u00e7\u00e3o ou massifica\u00e7\u00e3o do litoral, que geram isolamento e solid\u00e3o, s\u00e3o batalhas mal sucedidas. A lentid\u00e3o da justi\u00e7a e a dificuldade dos que n\u00e3o disp\u00f5em de recursos financeiros lhe terem acesso em tempo oportuno; o acesso a cuidados de sa\u00fade, muitos deles elementares, (milhares sem m\u00e9dico de fam\u00edlia e\/ou a aguardar uma interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica) \u00e9 ainda uma miragem para muitos portugueses; o insuces-so escolar e a falta de infra-estruturas sociais (creches, por exemplo), de ensino, de desporto, de cultura e de sa\u00fade s\u00e3o realidades sentidas em vastas zonas do pa\u00eds\u2026  Por causa de tudo isto, e para que se construa um pa\u00eds verdadeiramente civilizado, gostaria que, uma vez resolvido com rectid\u00e3o e s\u00e3 consci\u00eancia este debate de opini\u00f5es sobre o aborto, ficasse bem viva no cora\u00e7\u00e3o de cada portugu\u00eas esta necessidade de cuidar dos outros necessitados de apoio e ajuda. Gostaria que, no seguimento da primeira enc\u00edclica de Bento XVI, o Amor aparecesse como fulcro da vida de todos n\u00f3s, crist\u00e3os e n\u00e3o crist\u00e3os, como guia do comportamento de todos os cidad\u00e3os levando \u00e0 anula\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es geradoras de guerras, de terrorismos ou de corrup\u00e7\u00f5es. Depois do primeiro referendo parece que se ficou com a impress\u00e3o de que pouco ou nada se modificou. Mas n\u00e3o! Felizmente, em muitas Dioceses surgiram grupos de apoio \u00e0 vida e abriram-se centros de apoio a mulheres gr\u00e1vidas. Depois deste, no campo particular do aborto, temo que n\u00e3o se eliminem os males que estiveram na origem desta consulta popular, mas gostaria e fa\u00e7o ardentes votos que os homens fiquem mais sensibilizados para o sofrimento dos outros, e para o facto de que s\u00f3 o &#8220;amor vivido&#8221; em toda a sua dimens\u00e3o de entrega, servi\u00e7o e doa\u00e7\u00e3o, pode ser a salva\u00e7\u00e3o deste desfiladeiro para onde parece descer o nosso mundo &#8211; e por esse caminho tamb\u00e9m ter\u00edamos a solu\u00e7\u00e3o verdadeira e plena do problema do aborto.  <i>Eug\u00e9nio Fonseca<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eug\u00e9nio Fonseca, Presidente da Caritas Portuguesa, destaca esfor\u00e7o cont\u00ednuo em favor da 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