{"id":22757,"date":"2007-02-08T11:39:46","date_gmt":"2007-02-08T11:39:46","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/02\/08\/miseria-envergonhada-na-capital-algarvia\/"},"modified":"2007-02-08T11:39:46","modified_gmt":"2007-02-08T11:39:46","slug":"miseria-envergonhada-na-capital-algarvia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/miseria-envergonhada-na-capital-algarvia\/","title":{"rendered":"Mis\u00e9ria envergonhada na capital algarvia"},"content":{"rendered":"<p>Seman\u00e1rio diocesano denuncia situa\u00e7\u00e3o que atinge, na sua maioria, pessoas idosas. Muitos remexem nos contentores do lixo <!--more--> Em plena capital algarvia existem pessoas que vivem, ou melhor, sobrevivem discreta e envergonhadamente numa pobreza profunda, rodeadas de uma total aus\u00eancia de condi\u00e7\u00f5es dignas para a sua viv\u00eancia di\u00e1ria e que tentam subsistir com pens\u00f5es de mis\u00e9ria.  O seman\u00e1rio da diocese do Algarve, Folha do Domingo, foi procurar conhecer algumas destas situa\u00e7\u00f5es e percebeu que, aliadas \u00e0 falta de condi\u00e7\u00f5es financeiras e de habitabilidade, existem ainda quase sempre associados problemas familiares e de integra\u00e7\u00e3o na pr\u00f3pria sociedade.  Na maior parte dos casos, a aus\u00eancia de uma habita\u00e7\u00e3o condigna d\u00e1 origem a situa\u00e7\u00f5es humilhantes, de promiscuidade e tamb\u00e9m de perigosidade at\u00e9 para a sa\u00fade p\u00fablica. Todas as fam\u00edlias t\u00eam em comum o facto de viverem em casas alugadas, altamente degradadas, que oferecem riscos para quem l\u00e1 vive. Pressionados pela dura realidade dos fracos recursos dispon\u00edveis, alguns dos seus membros caem, por vezes nas teias da marginalidade e deixam-se apanhar pelos v\u00edcios.  &#8220;Maria&#8221;, chamemos-lhe assim, vive numa situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil. Com 78 anos de idade tem agora consigo 3 netos (de 9, 12 e 17 anos) mas j\u00e1 teve a seu cargo 10. Uma das suas filhas teve 7 filhos e outra, toxicodependente, j\u00e1 esteve presa.  &#8220;Vivo com uma pequena reforma&#8221;, esclarece &#8220;Maria&#8221;, lamentando que, apesar de ter trabalhado 36 anos na ind\u00fastria hoteleira, s\u00f3 recebe pens\u00e3o relativa \u00e0 \u00faltima unidade onde esteve empregada. Por isso, trabalhou at\u00e9 h\u00e1 5 meses atr\u00e1s, nas limpezas da constru\u00e7\u00e3o civil para conseguir um rendimento extra.  A idosa dorme num sof\u00e1 degradado numa das duas divis\u00f5es da habita\u00e7\u00e3o. As telhas, visiveis do interior, est\u00e3o nalguns casos partidas, conseguindo-se ver o c\u00e9u.  A dois passos dali, uma vizinha sua, com 85 anos, \u00e9 protagonista de outra situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria. Sem ter como sobreviver, a octogen\u00e1ria aceita ainda alguns trabalhos de costura para poder reunir alguns trocados. Com um filho enredado nas malhas da droga, a idosa n\u00e3o tem qualquer familiar que lhe possa valer. A casa tamb\u00e9m n\u00e3o apresenta melhores condi\u00e7\u00f5es que a primeira, sentindo-se \u00e0 dist\u00e2ncia o forte cheiro a humidade denunciado pela pintura das paredes a descamar.  Perto dali, uma outra situa\u00e7\u00e3o degradante. Com 69 anos, &#8220;Ana&#8221; habita com o marido doente, explica que vive de uma &#8220;reles pens\u00e3o&#8221; e garante que muitas vezes tem de recorrer ao lixo para ter o que comer. &#8220;Se vejo o panito dentro de um saquinho limpo, trago-o para casa e fa\u00e7o umas sopas de tomate&#8221;, refere, acentuando o contraste existente na sociedade. &#8220;As pessoas agora jogam tudo fora: roupas, comida, tudo\u2026 Ent\u00e3o isto est\u00e1 mau? Isto n\u00e3o est\u00e1 mau, as pessoas s\u00e3o \u00e9 mal governadas&#8221;, constata, lembrando que trabalhou muito no campo no tempo em que n\u00e3o se faziam descontos para a Seguran\u00e7a Social.  Em plena baixa de Faro, vivendo numa habita\u00e7\u00e3o que do exterior disfar\u00e7a o que se esconde l\u00e1 dentro, &#8220;Manuela&#8221; aceita cuidar de animais que lhe v\u00e3o entregar para poder, em troca, receber alguns g\u00e9neros aliment\u00edcios que a pens\u00e3o mensal de 223 euros n\u00e3o lhe permite adquirir. &#8220;S\u00f3 como uma vez por dia. \u00c0 noite bebo ch\u00e1 e como um bocadinho de p\u00e3o com manteiga&#8221;, frisa a idosa de 69 anos, escondendo o olhar triste por detr\u00e1s dos \u00f3culos partidos com as lentes estilha\u00e7adas.  Divorciada e acompanhada pelas netas que tem de sustentar e por uma das 3 filhas que v\u00ea frequentemente os bens penhorados pelo tribunal, &#8220;Manuela&#8221; vive com muitos gatos e c\u00e3es que tornam o ar no interior da habita\u00e7\u00e3o nauseabundo e quase irrespir\u00e1vel e que v\u00e3o defecando pelas v\u00e1rias divis\u00f5es. Os 18 gatos e os seis c\u00e3es que tinha consigo no dia em que a visit\u00e1mos servem tamb\u00e9m &#8211; segundo explicou &#8211; para proteger a fam\u00edlia dos muitos ratos que pela casa deambulam. &#8220;Como n\u00e3o tenho condi\u00e7\u00f5es para cuidar de crian\u00e7as, tomo conta de animais&#8221; explica, salientando que sempre ganha qualquer coisa.  &#8220;A senhoria &#8211; esclareceu &#8211; n\u00e3o faz, nem quer que se fa\u00e7a obras porque tem medo que as paredes caiam&#8221;. Moradora h\u00e1 59 anos na habita\u00e7\u00e3o alugada por 15 euros mensais e que em certas divis\u00f5es amea\u00e7a ruina, &#8220;Manuela&#8221; garante que, dentro de casa, &#8220;quando chove a \u00e1gua chega pelo joelho&#8221;.  A somar a estas j\u00e1 degradantes condi\u00e7\u00f5es de habitabilidade, junta-se ainda o facto de a habita\u00e7\u00e3o n\u00e3o ter qualquer casa de banho a funcionar. &#8220;Est\u00e1 entupida&#8221;, concretiza &#8220;Manuela&#8221;, explicando que &#8220;a \u00e1gua do banho \u00e9 deitada num cano que existe no quintal&#8221;. &#8220;Fazemos as necessidades num papel que deitamos fora todas as manh\u00e3s. O meu irm\u00e3o \u00e9 impec\u00e1vel e vai sempre deitar fora&#8221;, confessa a sexagen\u00e1ria, sublinhando ainda mais a degrada\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o vivida.  Nos quatro casos, as idosas garantem j\u00e1 ter sido visitadas, diversas vezes, por assistentes sociais que &#8211; asseguram &#8211; lhes t\u00eam deixado sempre a promessa de uma nova habita\u00e7\u00e3o, embora at\u00e9 ao momento sem concretiza\u00e7\u00e3o. &#8220;A C\u00e2mara diz que n\u00e3o h\u00e1 casas&#8221;, testemunha &#8220;Manuela&#8221;.  Contactada pela Folha do Domingo para a obten\u00e7\u00e3o de esclarecimentos sobre estes casos, a C\u00e2mara Municipal de Faro n\u00e3o respondeu, at\u00e9 \u00e0 hora de fecho da \u00faltima edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Seman\u00e1rio diocesano denuncia situa\u00e7\u00e3o que atinge, na sua maioria, pessoas idosas. 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