{"id":22714,"date":"2007-02-06T12:17:47","date_gmt":"2007-02-06T12:17:47","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/02\/06\/a-dignidade-da-consciencia\/"},"modified":"2007-02-06T12:17:47","modified_gmt":"2007-02-06T12:17:47","slug":"a-dignidade-da-consciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-dignidade-da-consciencia\/","title":{"rendered":"A dignidade da consci\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>D. Jos\u00e9 Policarpo, Cardeal-Patriarca de Lisboa <!--more--> 1. Ao sermos consultados sobre uma quest\u00e3o t\u00e3o delicada como \u00e9 a legaliza\u00e7\u00e3o do aborto, a resposta \u00e9 pessoal e livre, empenhativa da pr\u00f3pria consci\u00eancia. Quanto mais grave \u00e9 a quest\u00e3o, maior \u00e9 a responsabilidade da consci\u00eancia. \u00c9 como se dependesse de cada um de n\u00f3s permitir ou proibir a legaliza\u00e7\u00e3o do aborto. S\u00e3o momentos em que a responsabilidade da liberdade \u00e9 enorme, pois cada um torna-se correspons\u00e1vel da decis\u00e3o que vier a ser tomada.             Todos parecem estar de acordo que esta \u00e9 uma quest\u00e3o de consci\u00eancia, embora na maneira como o afirmam, nem sempre transpare\u00e7a o sentido da sua dignidade. A consci\u00eancia \u00e9 o santu\u00e1rio mais \u00edntimo da pessoa humana, express\u00e3o m\u00e1xima da liberdade e da capacidade de dar sentido \u00e0 pr\u00f3pria exist\u00eancia, onde se afere o que \u00e9 bem e o que \u00e9 mal, onde se adopta o sentido radical da vida, onde se tomam as op\u00e7\u00f5es que a guiam e comprometem.             A consci\u00eancia \u00e9 o encontro das mais nobres faculdades humanas: a intelig\u00eancia, a vontade, a liberdade. Por isso, ela tem de ser iluminada pela verdade, sustentada pela capacidade de decis\u00e3o e exprimir-se livremente. O exerc\u00edcio da liberdade deveria ser sempre uma op\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia.             N\u00e3o se pode violentar a consci\u00eancia, pressionando-a, iludindo-a com falsas verdades, desviando-a do essencial da sua responsabilidade. Violentar a consci\u00eancia \u00e9 o mais grave atropelo da dignidade da pessoa humana.               2. Dada a sua dignidade e responsabilidade, a consci\u00eancia precisa de ser iluminada pela verdade. Formar a pr\u00f3pria consci\u00eancia \u00e9 sempre, mas sobretudo nas quest\u00f5es mais graves, procurar a luz da verdade. A consci\u00eancia do crist\u00e3o precisa de ser iluminada, n\u00e3o apenas pela luz natural, mas pela Palavra de Deus e pelo ensinamento da Igreja, coerente e un\u00e2nime ao longo de uma longa tradi\u00e7\u00e3o. S\u00f3 a luz da verdade indica com clareza o caminho a seguir e a decis\u00e3o a tomar.              Neste caso concreto \u00e9 preciso escutar o essencial dessa mensagem: toda a vida \u00e9 um dom de Deus, s\u00f3 Deus \u00e9 Senhor da vida, nenhuma decis\u00e3o humana contra a vida \u00e9 leg\u00edtima e honesta. Este respeito pela vida radicaliza-se no mandamento novo do amor: amai-vos uns aos outros. S\u00f3 no amor fraterno a consci\u00eancia atinge a plenitude da sua dignidade. Isso ali\u00e1s est\u00e1 expresso no quinto mandamento da Lei de Deus: \u201cN\u00e3o matar\u00e1s nem causar\u00e1s dano, a ti mesmo, ou ao teu pr\u00f3ximo\u201d. Ningu\u00e9m pode fazer mal ao seu semelhante.             Nem todos s\u00e3o capazes de acolher a luz da Palavra de Deus, que sup\u00f5e a f\u00e9. Mas no caso do respeito pela vida, esta Palavra est\u00e1 impressa no cora\u00e7\u00e3o de cada homem, \u00e9 uma lei natural, que \u00e9 parte constitutiva da dignidade do ser humano e que iluminar\u00e1 a consci\u00eancia, se esta n\u00e3o for perturbada com mentiras ou meias verdades.               3. Situa\u00e7\u00f5es como esta, em que uma comunidade inteira \u00e9 convidada, ao mesmo tempo, a tomar uma decis\u00e3o de consci\u00eancia das mais empenhativas da liberdade humana, n\u00e3o s\u00e3o frequentes, penso mesmo que devem ser excepcionais, para n\u00e3o se tornarem ileg\u00edtimas. Pedir aos portugueses que, todos ao mesmo tempo, tomem uma decis\u00e3o de tal gravidade, \u00e9 muito mais que o vulgar exerc\u00edcio da democracia, em si mesma, como sistema pol\u00edtico, orientada para a gest\u00e3o da \u201ccoisa p\u00fablica\u201d. N\u00e3o se pode perguntar, repetidamente, aos portugueses se aceitam a legaliza\u00e7\u00e3o do aborto, ao sabor dos ritmos pol\u00edticos.               4. Neste tempo de esclarecimento, todos se devem confrontar com a verdade acerca da vida desde o seu in\u00edcio. Escutem, antes de mais, a voz \u00edntima do seu cora\u00e7\u00e3o, tantas vezes abafada pelos afectos e pelo barulho feito \u00e0 volta desta quest\u00e3o. Escutem o testemunho da ci\u00eancia, de m\u00e9dicos e psic\u00f3logos que nos t\u00eam vindo a proclamar a beleza da vida, desde o seu in\u00edcio, e dos traumas humanos provocados nas mulheres que abortam. Escutem o testemunho comovido de mulheres que abortaram e a alegria j\u00e1 manifestada por aquelas que venceram essa tenta\u00e7\u00e3o e sentem hoje a alegria do filho que deixaram nascer. Escutemos, sobretudo, a Palavra de Deus e a voz da Igreja, que tem a doutrina que afirma, n\u00e3o por contradi\u00e7\u00e3o, mas na fidelidade \u00e0 verdade fundamental sobre a vida e sobre o homem. A defesa desta verdade, a Igreja f\u00e1-la por fidelidade, tantas vezes partilhando a dor de quem sofre este drama, e que ela toca ao vivo no mais discreto do seu minist\u00e9rio.             Nesta abertura \u00e0 verdade que ilumina a nossa consci\u00eancia, temos de nos defender de alguns obst\u00e1culos: da press\u00e3o sobre n\u00f3s exercida por vis\u00f5es ideol\u00f3gico-partid\u00e1rias e por movimentos de opini\u00e3o. Mas temos, sobretudo, de nos defender de meias verdades e, sobretudo, das inverdades que podem surgir no calor da campanha em favor da op\u00e7\u00e3o que se deseja. Antes da responsabilidade do voto, cada um de n\u00f3s tem, neste momento, a responsabilidade de procurar a verdade, pois s\u00f3 ela nos iluminar\u00e1. E isso faz-se escutando os outros, esclarecendo d\u00favidas, debatendo perspectivas.               5. No dia 11 de Fevereiro pr\u00f3ximo, na solid\u00e3o de um voto, cada um de n\u00f3s estar\u00e1 sozinho com a sua consci\u00eancia, tornando-se correspons\u00e1vel de uma decis\u00e3o grave para a vida de pessoas e para a sociedade como um todo. O momento do voto n\u00e3o \u00e9 compar\u00e1vel \u00e0quele em que uma mulher, tamb\u00e9m sozinha, tem de tomar a decis\u00e3o de abortar ou n\u00e3o. A\u00ed a decis\u00e3o \u00e9 envolta em drama, diz respeito a uma vida concreta, a que tem no seu seio, e a\u00ed joga a sua dignidade e o seu futuro. Mas a nossa decis\u00e3o tem tamb\u00e9m a densidade de decidir do destino de muitos seres humanos e da grandeza e dignidade da sociedade que somos. Transformar a possibilidade do aborto num direito adquirido, tem consequ\u00eancias de civiliza\u00e7\u00e3o.  <i>\u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca    * Quinto de 5 textos (semanais) do Cardeal Patriarca de Lisboa, a respeito do Referendo sobre o Aborto  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. 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