{"id":22646,"date":"2007-02-02T17:37:40","date_gmt":"2007-02-02T17:37:40","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/02\/02\/ensinar-a-pensar\/"},"modified":"2007-02-02T17:37:40","modified_gmt":"2007-02-02T17:37:40","slug":"ensinar-a-pensar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/ensinar-a-pensar\/","title":{"rendered":"Ensinar a pensar"},"content":{"rendered":"<p>D. Jos\u00e9 Policarpo, no dia da UCP, referiu que <i>muitos portugueses n\u00e3o procuram o sentido da vida, querem apenas resolver problemas concretos<\/i> <!--more--> <b>Discurso de D. Jos\u00e9 Policarpo na Sess\u00e3o Comemorativa do 40\u00ba Anivers\u00e1rio da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa Faculdade de Filosofia Braga, 2 de Fevereiro de 2007<\/b>  1. Quarenta anos depois! Para muitos de n\u00f3s foram quarenta anos das nossas vidas, dedicadas ao desenvolvimento da Universidade Cat\u00f3lica. \u00c9 dever de justi\u00e7a e de gratid\u00e3o que eu, actual Magno Chanceler, evoque neste momento as figuras marcantes dos dois Chanceleres anteriores: o Cardeal D. Manuel Gon\u00e7alves Cerejeira que, com a sua persist\u00eancia, conseguiu transformar a \u201cutopia\u201d em realidade. Grande universit\u00e1rio na primeira parte do S\u00e9c. XX, viveu os tempos agitados da Implanta\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica e do choque cultural por ela provocado. Era sua preocupa\u00e7\u00e3o garantir, na muta\u00e7\u00e3o cultural, a presen\u00e7a do pensamento crist\u00e3o, garantido e credenciado pela qualidade acad\u00e9mica. E o Cardeal D. Ant\u00f3nio Ribeiro, que embora nunca tendo sido um acad\u00e9mico, esteve na base do lan\u00e7amento do Centro de Cultura Cat\u00f3lica, verdadeiro percursor da Universidade Cat\u00f3lica e que como o seu antecessor viveu o seu minist\u00e9rio episcopal em ambiente social de mudan\u00e7a de regime pol\u00edtico, com o choque cultural provocado pela Revolu\u00e7\u00e3o de Abril. \u00c9 igualmente for\u00e7oso evocar o primeiro Reitor, P. Jos\u00e9 Bacelar e Oliveira, lutador incans\u00e1vel por esta causa, e que no pragmatismo com que reagia \u00e0s circunst\u00e2ncias em tempos agitados da vida social, nunca abandonou a ideia mestra do fil\u00f3sofo, para quem a Universidade valia e se justificava pela qualidade da sua interven\u00e7\u00e3o cultural. Mais do que formar t\u00e9cnicos, a cuja hip\u00f3tese se foi abrindo por pragmatismo, para ele a fun\u00e7\u00e3o da Universidade era ensinar a pensar, a pensar a f\u00e9, o homem, a sociedade. Na sua \u00f3ptica s\u00f3 se justificava que a Universidade enveredasse pela forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica de \u00e1reas profissionais de interven\u00e7\u00e3o na sociedade, se a todos ensinasse a pensar, a f\u00e9, o homem, a sociedade. 2. A maneira como a Universidade se desenvolveu, ao longo destes quarenta anos, n\u00e3o obedeceu, necessariamente, a um projecto program\u00e1tico concreto. Queria ser uma Universidade, por conseguinte aberta \u00e0 universalidade dos saberes, mas cresceu ao ritmo das possibilidades e das circunst\u00e2ncias. A \u00fanica ideia mestra sempre presente, foi a da sua interven\u00e7\u00e3o na cultura, ensinando a pensar. T\u00ea-lo-\u00e1 conseguido? Os vindouros nos julgar\u00e3o. Neste quadro reveste-se de for\u00e7a simb\u00f3lica o facto de a Universidade Cat\u00f3lica portuguesa ter nascido nesta casa, instituindo como sua primeira Faculdade a Faculdade de Filosofia da Companhia de Jesus, j\u00e1 nessa altura um dos mais prestigiados centros do pensamento filos\u00f3fico em Portugal. Com essa op\u00e7\u00e3o, a Santa S\u00e9 e os fundadores da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa quiseram sublinhar o papel da Filosofia na interven\u00e7\u00e3o cultural e na arte de pensar. De facto, como escreveu o Papa Jo\u00e3o Paulo II, \u201ca Filosofia, cujo contributo espec\u00edfico \u00e9 colocar a quest\u00e3o do sentido da vida e esbo\u00e7ar a resposta, constituindo uma das tarefas mais nobres da humanidade\u201d1. Seguia-se-lhe a Faculdade de Teologia, cuja fun\u00e7\u00e3o primordial \u00e9 pensar a f\u00e9 e compreender o homem e a hist\u00f3ria \u00e0 luz da f\u00e9. A sua complementaridade com a Filosofia \u00e9 evidente, porque se a esta compete aprofundar os dinamismos da raz\u00e3o na prossecu\u00e7\u00e3o da verdade, compete \u00e0 Teologia mostrar que entre a f\u00e9 e a raz\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 incompatibilidade, porque ao acolher a Palavra revelada, assume a f\u00e9 que a ela responde, como um dos actos mais nobres da raz\u00e3o. 3. S\u00e3o conturbados os tempos que vivemos em termos de muta\u00e7\u00e3o cultural. Ao longo dos s\u00e9culos foi papel da Filosofia aprofundar o sentido da exist\u00eancia humana, procurando respostas para as quest\u00f5es primordiais que a caracterizam. Trata-se, no dizer de Jo\u00e3o Paulo II, \u201cdas quest\u00f5es que t\u00eam a sua fonte comum naquela exig\u00eancia de sentido que, desde sempre, urge no cora\u00e7\u00e3o do homem. Da resposta a tais perguntas depende, efectivamente, a orienta\u00e7\u00e3o que se imprime \u00e0 exist\u00eancia\u201d2. O debate que, no momento presente, mobiliza a sociedade portuguesa, revela-nos uma deriva cultural preocupante. Muitos dos intervenientes j\u00e1 n\u00e3o se confrontam com essas quest\u00f5es primordiais acerca da vida, da responsabilidade da liberdade, da dimens\u00e3o \u00e9tica da cultura. A exig\u00eancia \u00e9tica \u00e9 transposta apenas para a liberdade individual, esquecendo que tamb\u00e9m \u00e9 uma componente fundamental da cultura que inspira as leis e rege os comportamentos da comunidade. A progressiva aus\u00eancia da Filosofia na educa\u00e7\u00e3o dos portugueses n\u00e3o \u00e9 alheia a esta muta\u00e7\u00e3o cultural. Muitos portugueses j\u00e1 n\u00e3o procuram o sentido da vida, querem apenas resolver problemas concretos. A fun\u00e7\u00e3o cultural desta Universidade \u00e9 cada vez mais premente. Fa\u00e7amos tudo o que estiver ao nosso alcance, pelos meios que nos s\u00e3o pr\u00f3prios, para ensinar a pensar. Disso depender\u00e1 a dignidade da vida e a grandeza da liberdade. D. Jos\u00e9 Policarpo, Cardeal-Patriarca Magno Chanceler<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. 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