{"id":22578,"date":"2007-01-30T11:40:07","date_gmt":"2007-01-30T11:40:07","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/01\/30\/o-ps-nao-e-pelo-sim\/"},"modified":"2007-01-30T11:40:07","modified_gmt":"2007-01-30T11:40:07","slug":"o-ps-nao-e-pelo-sim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-ps-nao-e-pelo-sim\/","title":{"rendered":"O PS n\u00e3o \u00e9 pelo Sim"},"content":{"rendered":"<p>Poucos dias depois do Natal, estava eu a tirar espinhas do peixe que a Marta, a minha netinha de quinze meses, ia comendo. Imagina-se o cuidado com que o fazia. De s\u00fabito, surgiu-me uma daquelas ideias que n\u00e3o sabemos de onde v\u00eam. E se eu tivesse de tirar espinhas a peixe destinado ao Saddam Hussein?&#8230; F\u00e1-lo-ia com o mesmo cuidado.  Apesar disso, n\u00e3o entendo o empenho e a f\u00faria com que tanta gente, que nunca mexeu uma letra em favor do povo que ele oprimia e torturava, tem rasgado as vestes da palavra em gritos de esc\u00e2ndalo na caixa alta dos jornais. Mas esse clamor generalizado demonstra que a Europa ainda acredita que h\u00e1 valores inviol\u00e1veis. Se matar um monstro como Saddam nos parece um acto b\u00e1rbaro, \u00e9 porque isso significa que a vida \u00e9 um direito inviol\u00e1vel, mesmo para a alma mais tenebrosa que exista sobre a face da Terra. Portanto, ao contr\u00e1rio do que muitos querem fazer crer, ainda h\u00e1 valores absolutos.\tN\u00e3o vou discutir se o aborto \u00e9 pass\u00edvel de legaliza\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o. Nem precisaria de sair do campo da \u00e9tica para entrar no debate. A minha quest\u00e3o \u00e9 muito mais simples. Deveria o meu partido, qualquer partido, afirmar em nome colectivo que \u00e9 a favor do aborto? E, se os pol\u00edticos &#8211; alguns pol\u00edticos &#8211; condenam a Igreja por entrar na disputa com a bandeira da clem\u00eancia, o contr\u00e1rio faz sentido partidariamente? A vida \u00e9 um valor moral, mas nunca pode ser politicamente negoci\u00e1vel.  O PS n\u00e3o tem no seu programa a legaliza\u00e7\u00e3o do aborto. O PS n\u00e3o pode sujeitar milh\u00f5es de eleitores ao engano de que a op\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m pol\u00edtica, n\u00e3o pode p\u00f4-los perante o dilema de tra\u00edrem as suas convic\u00e7\u00f5es \u00e9ticas e morais ou o seu partido. Quem, neste caso, est\u00e1 a trair, \u00e9 o PS, apesar de dar liberdade de escolha e de campanha aos seus militantes. Era o m\u00ednimo que havia a fazer. Uma das ideias infelizes da propaganda do pr\u00f3prio partido \u00e9 considerar a legaliza\u00e7\u00e3o do aborto um acto civilizado. Se a civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m cultura, um povo civilizado n\u00e3o necessita de matar os seus filhos para sobreviver. Um povo civilizado sabe escolher a hora certa de conceb\u00ea-los. E sabe como proteger todos os que nas\u00e7am.   O meu problema, al\u00e9m de \u00e9tico, \u00e9 tamb\u00e9m de algum modo filos\u00f3fico. O embri\u00e3o de que resultei j\u00e1 era eu? Se tivesse sido destru\u00eddo, esta mente que me define como pessoa n\u00e3o existiria? Se a identidade individual pudesse ser substitu\u00edda, se o esp\u00edrito que n\u00e3o animou o corpo a resultar de um embri\u00e3o ou de um feto &#8220;encarnasse&#8221; em outro, ent\u00e3o n\u00e3o haveria problema \u00e9tico ou moral no aborto. Mas ser\u00e1 assim? Muito provavelmente, n\u00e3o. A esquerda est\u00e1 cada vez mais transformada em movimento de liberdade sexual, em vez de ser um projecto social. A todo o custo. Tentando atirar o libelo da ignor\u00e2ncia para os que n\u00e3o v\u00e3o por a\u00ed. Al\u00e9m da falta de respeito para com a maior parte dos seus eleitores a\u00e7orianos, o meu partido corre o risco de ter de aceitar mais uma derrota. Depois n\u00e3o se justifique com o a religiosidade do povo, com isto e com aquilo. Ser\u00e1 uma derrota, e pronto. Ali\u00e1s, quanto a mim, moralmente o PS j\u00e1 se derrotou a si mesmo.  Derrotou-se? N\u00e3o, enganei-me, eu continuo no PS e n\u00e3o aceito a decis\u00e3o das c\u00fapulas. E milhares de outros, nos A\u00e7ores, fazem o mesmo. Post scriptum &#8211; Por maldade ou incapacidade para ler bem, n\u00e3o falta quem v\u00e1 acusando o Papa de ter comparado o aborto ao terrorismo. Aqui deixo o que disse Bento XVI. Facilmente se percebe que n\u00e3o p\u00f4s no mesmo plano um e outro. &#8220;Junto com as v\u00edtimas dos conflitos armados, do terrorismo e das mais diversas formas de viol\u00eancia, temos as mortes silenciosas provocadas pela fome, pelo aborto, pelas pesquisas sobre os embri\u00f5es e pela eutan\u00e1sia.&#8221;  Daniel de S\u00e1 Escritor <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Poucos dias depois do Natal, estava eu a tirar espinhas do peixe que a Marta, a minha netinha de quinze meses, ia comendo. Imagina-se o cuidado com que o fazia. De s\u00fabito, surgiu-me uma daquelas ideias que n\u00e3o sabemos de onde v\u00eam. 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