{"id":225649,"date":"2022-01-03T16:35:58","date_gmt":"2022-01-03T16:35:58","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=225649"},"modified":"2022-02-04T11:57:50","modified_gmt":"2022-02-04T11:57:50","slug":"qual-e-a-voz-que-te-levanta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/qual-e-a-voz-que-te-levanta\/","title":{"rendered":"Qual \u00e9 a voz que te levanta?"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre Manuel Ribeiro, Diocese de Bragan\u00e7a-Miranda<\/em>\u00a0<!--more--><\/p>\n<p>O tempo presente tem evidenciado diversos sinais de uma mudan\u00e7a em curso. Os paradigmas e vectores existenciais est\u00e3o em reformula\u00e7\u00e3o. Sentimos que algo de novo est\u00e1 para vir. \u00c9 certo que n\u00e3o o sabemos com a precis\u00e3o de que gostar\u00edamos, mas sabemos que algo de novo vir\u00e1. O \u2018como\u2019 e a \u2018forma\u2019 deste processo \u00e9 algo que teremos que aguardar. No entanto, podemos aferir empiricamente que o mundo j\u00e1 vive como se Deus nunca tivesse existido, como se o ontem e o passado nunca tenham existido \u2013 e, at\u00e9, condicionando e gravando a nossa personalidade, os nossos valores primordiais e a nossa universal mundivid\u00eancia \u2013 e em que as personagens da Hist\u00f3ria deveriam ser escrutinadas pela \u2018nova censura\u2019 e por este \u2018novo tribunal inquisit\u00f3rio\u2019, que se apresenta como paladino da \u00fanica verdade e do pleno conhecimento do ser humano, do seu sentido e da sua finalidade \u00f4ntica.<\/p>\n<p>Neste mundo paralelo, onde tudo anda de par em par sem nunca se cruzar ou se embrenhar, vemos, numa serenidade preocupante (!), a conviv\u00eancia de uma \u00e9tica paralela aos Mandamentos da Lei de Deus, uma \u00e9tica feita por cada pessoa humana \u2013 sustentada pelo princ\u00edpio da filosofia moderna de autodetermina\u00e7\u00e3o e de autonomia \u2013 que resulta das inten\u00e7\u00f5es pessoais e subjectivas de cada indiv\u00edduo e que responda \u00e0s suas necessidades. O mundo hoje, como nunca na Hist\u00f3ria, subjugou a realidade metafisica para o campo e para a esfera de uma espiritualidade sem rosto, niilista, v\u00e3 e egoc\u00eantrica. N\u00e3o h\u00e1 transcend\u00eancia, n\u00e3o h\u00e1 alteridade, n\u00e3o h\u00e1 caridade, n\u00e3o h\u00e1 doa\u00e7\u00e3o e oblatividade; em contrapartida, h\u00e1 iman\u00eancia (isto \u00e9, permanecer dentro), h\u00e1 filantropia, h\u00e1 interesse e contrapartida, h\u00e1 ganho e lucro, h\u00e1 o primado do \u2018eu\u2019 e da sua satisfa\u00e7\u00e3o e determina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Reitero: vivemos num mundo sem Deus, onde o sagrado foi confiscado pelo materialismo existencial consumista e aditivista. O ensa\u00edsta norte-americano David Hart afirma que \u201ca modernidade \u00e9 ela pr\u00f3pria uma ideologia, penetrante e tremendamente poderosa\u201d e que o Cristianismo \u201cfoi afastado do centro da cultura e privado de qualquer capacidade para explicitamente modelar leis ou h\u00e1bitos, e deixou de ser considerado como a fonte dos valores mais elevados da sociedade ou da legitimidade do governo, e at\u00e9 deixou de desempenhar um papel de influ\u00eancia de proemin\u00eancia sobre a imagina\u00e7\u00e3o colectiva das pessoas\u201d. Em s\u00edntese, a hist\u00f3ria da modernidade \u00e9 a hist\u00f3ria da seculariza\u00e7\u00e3o, do confinamento da f\u00e9 crist\u00e3 \u00e0 esfera privada.<\/p>\n<p>Apesar de porosa e de simplista, esta minha an\u00e1lise quer apelar \u00e0 urg\u00eancia inevit\u00e1vel de metamorfosearmos os nossos processos pastorais sob o primado do Esp\u00edrito, isto \u00e9, ao jeito e ao modo do Senhor Jesus. Profeticamente, a Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa referiu (a 11 de novembro do ano de 2021) a prem\u00eancia de iniciarmos um novo e renovado processo catequ\u00e9tico que se configure mais ao catecumenado de dimens\u00e3o querigm\u00e1tica e mistag\u00f3gica, sob pena de nos tornamos perif\u00e9ricos, de sermos pe\u00e7as de um museu obsoleto e decrepito e de serem capturados os nossos valores, as nossas matrizes, os nossos conceitos e os nossos s\u00edmbolos.<\/p>\n<p>Esta crise \u00e9 um desafio \u00fanico. Saibamos aproveit\u00e1-la para reformar, para transformar e para configurar a nossa comunidade paroquial ao cora\u00e7\u00e3o vivente e vivificante do Esp\u00edrito Santo. Sem uma Igreja discipular, militante, orante e doutrinalmente bem formada, nunca teremos a ocasi\u00e3o de sermos o \u201csal e o fermento\u201d que Nosso Senhor nos pede, de darmos raz\u00f5es e sentido, de sermos far\u00f3is de esperan\u00e7a, de sermos promotores do humanamente aut\u00eantico, baluartes do cuidar e no cuidar dos mais fr\u00e1geis e mais d\u00e9beis da sociedade humana, de sermos transpar\u00eancias da verdade e de sermos, finalmente, mission\u00e1rios criativos (que criam, animam e contagiam positivamente) e cred\u00edveis do Santo Evangelho.<\/p>\n<p>Termino, como que em s\u00edntese, com a sagacidade intemporal do grande Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski que escreveu estas linhas \u00e0 vi\u00fava de um dos conspiradores \u201cDezembristas\u201d: \u201cDe mim, dir-vos-ei que sou um filho deste s\u00e9culo, um filho da descren\u00e7a e da d\u00favida, at\u00e9 ao momento presente e, quem sabe (eu sei), at\u00e9 ao t\u00famulo. Que sofrimentos horr\u00edveis me custou e me custa esta sede de acreditar que \u00e9 tanto mais forte na minha alma, que j\u00e1 n\u00e3o tenho argumentos contra ela. E, entretanto,, \u00e0s vezes, Deus manda-me momentos de absoluta serenidade; nesses momentos eu amo e sei que sou amado; e foi nesses momentos que constru\u00ed um credo que me ilumina e que me santifica tudo. Este credo \u00e9 muito simples, ei-lo aqui: acreditar que n\u00e3o h\u00e1 nada mais belo, mais profundo, mais simp\u00e1tico, mais razo\u00e1vel, mais viril, mais perfeito que Cristo, e n\u00e3o apenas que n\u00e3o h\u00e1 nada assim, mas, digo a mim mesmo, com um amor ciumento, que n\u00e3o pode haver nada como Ele. Mais, se me demonstrassem que Cristo estava fora da Verdade e se realmente a Verdade estivesse fora de Cristo, eu preferia ficar com Cristo a ficar com a Verdade.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Manuel Ribeiro, padre.<\/u><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Manuel Ribeiro, Diocese de Bragan\u00e7a-Miranda\u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":213729,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-225649","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/225649","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=225649"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/225649\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/213729"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=225649"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=225649"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=225649"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}