{"id":22555,"date":"2007-01-28T12:38:20","date_gmt":"2007-01-28T12:38:20","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/01\/28\/a-escola-catolica-ao-servico-da-missao-da-igreja\/"},"modified":"2007-01-28T12:38:20","modified_gmt":"2007-01-28T12:38:20","slug":"a-escola-catolica-ao-servico-da-missao-da-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-escola-catolica-ao-servico-da-missao-da-igreja\/","title":{"rendered":"\u00abA Escola Cat\u00f3lica ao servi\u00e7o da miss\u00e3o da Igreja\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Confer\u00eancia de D. Jos\u00e9 Policarpo no F\u00f3rum \u00abRisco de Educar\u00bb <!--more--> 1. O t\u00edtulo desta minha interven\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00f3bvio, pois todas as institui\u00e7\u00f5es e ac\u00e7\u00f5es da Igreja s\u00f3 ser\u00e3o leg\u00edtimas se forem meios para realizar a sua miss\u00e3o. Esta define o horizonte de legitimidade para tudo o que a Igreja faz na sociedade. Em toda a sua ac\u00e7\u00e3o devemos poder reconhec\u00ea-la como enviada com uma mensagem de salva\u00e7\u00e3o. S\u00e3o muitas as institui\u00e7\u00f5es criadas pela Igreja para ser fiel \u00e0 sua miss\u00e3o, ao ritmo do Esp\u00edrito e lendo os sinais dos tempos, isto \u00e9, percebendo as caracter\u00edsticas de cada tempo e procurando responder-lhes de modo adequado. Por outro lado, o facto das institui\u00e7\u00f5es da Igreja serem meios para realizar a sua miss\u00e3o, define-lhes a sua natureza profunda e tra\u00e7a-lhes os objectivos fundamentais. Desconhec\u00ea-los ou desviar-se deles significa p\u00f4r em quest\u00e3o a sua pr\u00f3pria raz\u00e3o de ser. Nesta interven\u00e7\u00e3o n\u00e3o citarei muitos textos de um vasto Magist\u00e9rio sobre o assunto. Tendo como pano de fundo o Conc\u00edlio Vaticano II na Declara\u00e7\u00e3o \u201cGravissimum Educationis Momentum\u201d, considerarei, em primeiro plano, o contexto presente do nosso Pa\u00eds, onde a Igreja \u00e9 chamada a realizar a sua miss\u00e3o, e nesse quadro, a nossa Escola Cat\u00f3lica. 2. A miss\u00e3o da Igreja, sendo una no seu objectivo fundamental, tem diversos aspectos diferenciados, adaptados \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o das pessoas e da sociedade em cada momento hist\u00f3rico. O aspecto concreto da miss\u00e3o da Igreja em que se situa, como meio, a Escola Cat\u00f3lica, \u00e9 o vasto dom\u00ednio da forma\u00e7\u00e3o humana e crist\u00e3 e, dentro dele, o da educa\u00e7\u00e3o, que elege como destinat\u00e1rios privilegiados as crian\u00e7as e os jovens. A pr\u00f3pria exist\u00eancia de Escolas Cat\u00f3licas afirma o direito e o dever da Igreja intervir no \u00e2mbito da educa\u00e7\u00e3o, em colabora\u00e7\u00e3o com as fam\u00edlias e com a sociedade como um todo e situa a educa\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito da sociedade civil, que os Estados devem apoiar, incentivar e respeitar. A miss\u00e3o de educar, em termos de miss\u00e3o da Igreja, engloba a miss\u00e3o de evangelizar. A Igreja evangeliza, educando. E se a educa\u00e7\u00e3o que a Igreja protagoniza deve ter sempre os mesmos par\u00e2metros fundamentais, a maneira como evangeliza pode diferenciar-se segundo os ambientes em que exerce a sua miss\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 a mesma coisa uma escola frequentada por filhos de cat\u00f3licos e uma escola cat\u00f3lica em que a maior parte dos alunos o n\u00e3o s\u00e3o, como frequentemente acontece nos chamados pa\u00edses de miss\u00e3o e que hoje come\u00e7a a verificar-se nesta nossa velha Europa. A miss\u00e3o de educar, na Igreja, n\u00e3o se esgota na Escola Cat\u00f3lica. No caso concreto do nosso Pa\u00eds, o campo mais vasto para a Igreja realizar a sua miss\u00e3o de educar \u00e9 composto pela vasta realidade da chamada escola p\u00fablica, onde a Igreja tem de encontrar outros meios para realizar a miss\u00e3o, sobretudo atrav\u00e9s dos crist\u00e3os a\u00ed presentes. A Escola Cat\u00f3lica \u00e9 um meio espec\u00edfico de realizar a miss\u00e3o e exige, \u00e0 partida, que se defina o seu enquadramento no conjunto de todas as escolas e no quadro mais vasto dos problemas da educa\u00e7\u00e3o no nosso Pa\u00eds. 3. Mas o que \u00e9, afinal, uma Escola Cat\u00f3lica? Segundo o Direito Can\u00f3nico, s\u00e3o cat\u00f3licas as escolas criadas por uma entidade can\u00f3nica, ou aquelas que, sendo de iniciativa de crist\u00e3os, t\u00eam uma filosofia e um projecto educativo consent\u00e2neos com a vis\u00e3o da Igreja sobre a educa\u00e7\u00e3o. Estas segundas, para serem consideradas escolas cat\u00f3licas, devem ser declaradas como tais pela Hierarquia (cf. c.803 do C.D.C.). Mas o facto de uma escola ser juridicamente cat\u00f3lica n\u00e3o garante \u00e0 partida, nem que seja uma boa escola, nem que realize a miss\u00e3o da Igreja. Esta qualidade define uma exig\u00eancia cont\u00ednua em qualidade de meios e em defini\u00e7\u00e3o do projecto educativo. Tentarei desenvolver, de seguida, algumas dessas coordenadas e exig\u00eancias do projecto educativo de uma Escola Cat\u00f3lica. Continuarei a ter como pano de fundo o texto do Conc\u00edlio Vaticano II j\u00e1 referido. <b>Uma vis\u00e3o do homem e do mundo repassados do esp\u00edrito evang\u00e9lico<\/b> 4. O cristianismo, ou mais exactamente, o judeo-cristianismo, n\u00e3o \u00e9 apenas uma religi\u00e3o. \u00c9 uma proposta cultural de civiliza\u00e7\u00e3o, veicula um sentido e uma interpreta\u00e7\u00e3o da vida, \u00e9 uma antropologia e uma mundivid\u00eancia. E este \u00e9 o alicerce decisivo de qualquer projecto de educa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 agora o momento para desenvolver esta vis\u00e3o do homem e do mundo. Indicarei, apenas, de modo sucinto, alguns dados fundamentais: a rela\u00e7\u00e3o do homem e do Universo com Deus seu criador, donde dimana a dignidade inviol\u00e1vel da vida humana e a sua dimens\u00e3o escatol\u00f3gica. O ser humano \u00e9 pessoa, isto \u00e9, ser em rela\u00e7\u00e3o, chamado \u00e0 fraternidade e ao amor. O homem encontra a sua realiza\u00e7\u00e3o na comunidade, onde dar-se e colaborar com os outros \u00e9 mais importante do que buscar-se a si mesmo, introduz na educa\u00e7\u00e3o o dinamismo de vit\u00f3ria sobre o ego\u00edsmo e o individualismo. A import\u00e2ncia da dimens\u00e3o \u00e9tica do conviver, expressa, n\u00e3o apenas em afirma\u00e7\u00f5es, mas em atitudes, o que introduz na educa\u00e7\u00e3o para a liberdade o sentido de responsabilidade e de generosidade. Ningu\u00e9m consegue, sozinho, ser perfeito. S\u00f3 se cresce, na linha da perfei\u00e7\u00e3o, com a ajuda dos outros e o imprescind\u00edvel aux\u00edlio de Deus, que nunca nos abandona e que, para n\u00f3s crist\u00e3os, se exprime na rela\u00e7\u00e3o viva com Cristo, que nos infunde o Seu Esp\u00edrito. Estes dados fundamentais de uma vis\u00e3o do homem e do mundo devem sempre fazer parte do projecto educativo de uma Escola Cat\u00f3lica, mesmo que os seus alunos n\u00e3o sejam cat\u00f3licos. Todos os educadores que querem trabalhar na Escola Cat\u00f3lica, devem aceitar esta vis\u00e3o, como inspiradora do projecto educativo em que colaboram, independentemente da sua posi\u00e7\u00e3o pessoal em termos confessionais. E esta \u00e9 a dimens\u00e3o mais exigente da Escola Cat\u00f3lica. N\u00e3o basta que o seja juridicamente para estar a realizar a miss\u00e3o da Igreja. Al\u00e9m disso, exige-se uma s\u00edntese harm\u00f3nica entre educa\u00e7\u00e3o e aprendizagem, num tempo em que a comunica\u00e7\u00e3o de conhecimentos numa vasta \u00e1rea de mat\u00e9rias pode sobrepor-se \u00e0s exig\u00eancias educativas. O docente tem de ser um educador, ter a qualidade de um mestre e pedagogo. A Escola Cat\u00f3lica n\u00e3o pode, em nome da qualidade do ensino, comprometer o seu projecto educativo. \u00c9 que a miss\u00e3o da Igreja n\u00e3o se exprime s\u00f3 no estritamente religioso, mas na cultura que ajuda a construir. <b>A Escola Cat\u00f3lica como espa\u00e7o de cultura<\/b> 5. As grandes altera\u00e7\u00f5es da nossa sociedade, mesmo na pr\u00f3pria Igreja, t\u00eam a sua origem na muta\u00e7\u00e3o cultural. Esta adquiriu uma acelera\u00e7\u00e3o como em nenhum outro tempo da hist\u00f3ria humana. As causas desta acelera\u00e7\u00e3o s\u00e3o m\u00faltiplas: a globaliza\u00e7\u00e3o da mediatiza\u00e7\u00e3o, pondo no tabuleiro da hist\u00f3ria outras vis\u00f5es do homem e do mundo; o sentido individual da liberdade; uma nova dimens\u00e3o pragm\u00e1tica da racionalidade, provocada pela ci\u00eancia e pela t\u00e9cnica; a perda do sentido da exig\u00eancia e do sofrimento, numa sociedade baseada na facilidade e no consumo; a relativiza\u00e7\u00e3o da perspectiva crist\u00e3 e sua substitui\u00e7\u00e3o pela indiferen\u00e7a e pelo laicismo; o abandono da exig\u00eancia \u00e9tica e perda de valores, substitu\u00edda por um sentido da verdade individual; a perda do sentido da hist\u00f3ria, da tradi\u00e7\u00e3o e da dimens\u00e3o comunit\u00e1ria e solid\u00e1ria da vida; o mito do presente, que apaga o legado do passado e n\u00e3o enfrenta o futuro. Sobretudo no Ocidente a muta\u00e7\u00e3o cultural amea\u00e7a destruir a pr\u00f3pria cultura. Por exemplo, a Europa j\u00e1 tem dificuldade em se reconhecer numa cultura, o que p\u00f5e em risco a sua identidade futura. Segundo o Conc\u00edlio, a forma\u00e7\u00e3o dos jovens sup\u00f5e a constru\u00e7\u00e3o de uma cultura. Um projecto educativo tem de ser um projecto cultural, repassado da vis\u00e3o do homem e do mundo a que me referi atr\u00e1s. \u00c9 um erro pensar que as crian\u00e7as e os jovens n\u00e3o s\u00e3o capazes de participar num projecto cultural. \u00c9 nessas idades que ele se sedimenta e adquire alicerces s\u00f3lidos, base para um sadio exerc\u00edcio da liberdade. Para dar a toda a comunidade educativa o dinamismo de um processo cultural, tem de se ir muito mais al\u00e9m do ensino-aprendizagem: \u00e9 preciso o debate cont\u00ednuo entre formadores, fam\u00edlias, comunidade humana, em que a escola se insere. \u00c9 neste projecto cultural que se pode inserir a perspectiva crist\u00e3 da vida, pois a f\u00e9 crist\u00e3 transforma-se espontaneamente, em cultura. A sintonia, longamente constru\u00edda, entre o corpo de docentes e educadores, \u00e9 parte decisiva na visibilidade de um projecto cultural. A escola n\u00e3o pode ser apenas um conjunto de actividades; \u00e9 uma vis\u00e3o da vida, persistente e longamente prosseguida e afirmada. <b>Educar \u00e9 preparar para a sociedade concreta em que vivemos<\/b> 6. Educar \u00e9 preparar os educandos para viverem a sua vida adulta no meio do mundo, numa sociedade concreta, cidad\u00e3os conscientes e competentes, para contribu\u00edrem para a edifica\u00e7\u00e3o da \u201ccidade terrestre\u201d, uma sociedade justa e fraterna. O texto do Conc\u00edlio que escolhi como refer\u00eancia atribui claramente essa fun\u00e7\u00e3o \u00e0 Escola Cat\u00f3lica. Para cumprir essa miss\u00e3o \u00e9 essencial que toda a forma\u00e7\u00e3o se situe no quadro cultural de refer\u00eancia que acabei de referir. Sabemos como \u00e9, hoje, complexa a sociedade em que os nossos jovens v\u00e3o viver a sua vida, complexidade que come\u00e7a, ali\u00e1s, na pr\u00f3pria fam\u00edlia, ela pr\u00f3pria fragilizada e em profunda muta\u00e7\u00e3o. Para isso h\u00e1 tra\u00e7os de personalidade que t\u00eam de ser criteriosamente cultivados. Em primeiro lugar o conhecimento cr\u00edtico da realidade. Educar n\u00e3o \u00e9 proteger e fechar numa redoma. O educando deve ser habituado a confrontar-se com a realidade, com esp\u00edrito cr\u00edtico e com a gradualidade exigida pelo seu crescimento. Deve ser preparado para ter um ju\u00edzo cr\u00edtico sobre essa realidade, para n\u00e3o ser esmagado por ela. Isso sup\u00f5e que o projecto educativo comunique uma vis\u00e3o da sociedade, com os seus valores fundamentais, parte constitutiva da cultura. Isto sup\u00f5e que se cultive nos educandos a arte do discernimento. Este \u00e9 pessoal, segundo a fisionomia espiritual de cada um, mas n\u00e3o estritamente individual, pois deve ser feito \u00e0 luz de um quadro de valores de refer\u00eancia, que s\u00e3o patrim\u00f3nio da comunidade, de modo particular da Igreja e da sua maneira de estar no mundo.  E, finalmente, o discernimento sup\u00f5e a forma\u00e7\u00e3o da racionalidade. Ela deve ser apresentada como abertura \u00e0 verdade, a toda a verdade, onde se inclui, para o crente, a verdade revelada, liberta de positivismos limitadores do seu horizonte, harmoniosa s\u00edntese entre raz\u00e3o e cora\u00e7\u00e3o, capacidade reflexiva e sentido est\u00e9tico. Na fase constitutiva da forma\u00e7\u00e3o, para um completo desabrochar da racionalidade, \u00e9 importante a educa\u00e7\u00e3o para a beleza. Devem aprender que a verdade e a beleza se encontram, que o homem n\u00e3o \u00e9 dono e fonte da verdade, mas peregrino da verdade. \u00c9 neste contexto que o Conc\u00edlio afirma que a Escola Cat\u00f3lica exerce uma fun\u00e7\u00e3o no di\u00e1logo global da Igreja com a sociedade. A Escola cat\u00f3lica, para desempenhar este aspecto da miss\u00e3o, tem de se identificar com a Igreja e com a sua maneira de estar no mundo, e formar cidad\u00e3os que v\u00e3o estar na sociedade com o mesmo esp\u00edrito com que a Igreja est\u00e1 no mundo. <b>Educa\u00e7\u00e3o diferenciada segundo os g\u00e9neros<\/b> 7. O Conc\u00edlio insiste que, na Escola Cat\u00f3lica, a educa\u00e7\u00e3o deve ser diferenciada segundo os sexos. No contexto actual das nossas escolas, quase todas em regime de co-educa\u00e7\u00e3o, este aspecto exige criatividade l\u00facida e, sobretudo, uma grande aten\u00e7\u00e3o \u00e0 pessoa concreta do educando. O sistema da co-educa\u00e7\u00e3o imp\u00f4s-se como \u00f3bvio, pois formar \u00e9 preparar para viver numa sociedade de homens e mulheres, \u00e9 ajudar a descobrir que viver \u00e9 conviver. Mas isso n\u00e3o significa que se caia num modelo de educa\u00e7\u00e3o uni-sexo. H\u00e1 tra\u00e7os espec\u00edficos na forma\u00e7\u00e3o para ajudar os educandos a auto-descobrirem-se como homens ou mulheres, na complementaridade das suas personalidades. N\u00e3o h\u00e1 regras nem c\u00f3digos, para p\u00f4r em pr\u00e1tica esta dimens\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o. Depende do sentido de criatividade da equipa de formadores, na certeza de que depender\u00e1 muito dessa diferencia\u00e7\u00e3o o respeito e reconhecimento m\u00fatuo de homens e mulheres, na sua diferen\u00e7a em igual dignidade. Com isso ganhar\u00e1 a fam\u00edlia e a pr\u00f3pria sociedade. <b>A Escola Cat\u00f3lica como espa\u00e7o de evangeliza\u00e7\u00e3o<\/b> 8. Ao servi\u00e7o da miss\u00e3o da Igreja, a Escola Cat\u00f3lica tem de ser um espa\u00e7o de evangeliza\u00e7\u00e3o. O Conc\u00edlio afirma, claramente, que toda a sua ac\u00e7\u00e3o \u00e9 apostolado, mesmo na sua qualidade de servi\u00e7o \u00e0 pessoa humana, \u00e0s fam\u00edlias e \u00e0 sociedade. Tudo quanto dissemos se insere nessa miss\u00e3o evangelizadora. Comunicar os princ\u00edpios b\u00e1sicos de uma vis\u00e3o crist\u00e3 do homem e do mundo, preparar para participar na cidade dos homens como presen\u00e7as da Igreja no mundo, \u00e9 evangelizar. Intervir na muta\u00e7\u00e3o cultural com os valores crist\u00e3os, \u00e9 evangelizar. Mas a Escola Cat\u00f3lica pode e deve ir mais longe na miss\u00e3o de evangelizar, segundo a situa\u00e7\u00e3o dos seus alunos perante a f\u00e9 cat\u00f3lica. Entre n\u00f3s ainda n\u00e3o se verificam situa\u00e7\u00f5es, em que a maior parte dos alunos da Escola Cat\u00f3lica pertencem a outras religi\u00f5es. Pode haver, isso sim, uma variedade de situa\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 f\u00e9 explicitamente confessada e praticada. \u00c0 semelhan\u00e7a do que se passa nas nossas catequeses, h\u00e1 muitos alunos que precisam de um primeiro an\u00fancio da f\u00e9, uma evangeliza\u00e7\u00e3o querigm\u00e1tica, que \u00e9 pr\u00e9via ao aprofundamento catequ\u00e9tico. Compete \u00e0 comunidade educativa encontrar as formas mais aptas para o fazer, na certeza de que o ambiente que se cria e o testemunho de professores e educadores podem ser elementos decisivos. Mas o Conc\u00edlio vai mais longe e fala da miss\u00e3o da Escola Cat\u00f3lica de desenvolver nos seus educandos o mist\u00e9rio do seu baptismo. Isto significa que, no contexto da Escola Cat\u00f3lica, se vai formando uma aut\u00eantica comunidade eclesial, onde se professa e celebra a f\u00e9, onde se aprofunda e cresce na f\u00e9. Esta comunidade eclesial \u00e9 enriquecida com a participa\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias e dos antigos alunos, que a Escola Cat\u00f3lica deve acolher e acompanhar com solicitude. Estas comunidades, se bem estruturadas e fidelizadas, poder\u00e3o constituir um modelo \u201csui generis\u201d no conjunto das comunidades crist\u00e3s. Mas n\u00e3o basta para isso que s\u00f3 se re\u00fanam nos dias de festa da escola, ou quando me pedem para baptizar a\u00ed os filhos e celebrar o matrim\u00f3nio dos antigos alunos. J\u00e1 o tenho permitido, mas, por favor, n\u00e3o me pe\u00e7am s\u00f3 isso. Para terem a fisionomia de uma comunidade crist\u00e3 de refer\u00eancia, tem de haver uma express\u00e3o habitual e estruturada da vida crist\u00e3, com a sua especificidade pr\u00f3pria, mas com as coordenadas comuns a todas as comunidades da Diocese. Mas reconhe\u00e7o que, na actual fisionomia da cidade, s\u00e3o cada vez mais importantes e significativas estas comunidades de refer\u00eancia. <b>A Escola Cat\u00f3lica e as outras escolas<\/b> 9. O texto do Conc\u00edlio a que me venho referindo, o n\u00ba 8 da G.E.M., come\u00e7a por afirmar que a Escola Cat\u00f3lica \u00e9 uma forma especial de presen\u00e7a da Igreja no universo mais vasto do mundo escolar. Isto sugere que a Igreja espera da Escola Cat\u00f3lica uma aten\u00e7\u00e3o dialogante e cooperante com as outras escolas. No nosso caso concreto portugu\u00eas, a Escola Cat\u00f3lica representa uma pequena percentagem no vasto universo escolar, onde predomina a escola estatal, incorrectamente chamada p\u00fablica, pela simples raz\u00e3o de que a Igreja \u00e9 t\u00e3o p\u00fablica como o Estado. Isso mesmo \u00e9 reconhecido pela actual Concordata, que considera a Igreja uma \u201cpessoa p\u00fablica\u201d e que, al\u00e9m de reconhecer o direito da Igreja de criar escolas, estabelece o princ\u00edpio da coopera\u00e7\u00e3o entre o Estado e a Igreja em sectores importantes para a vida da sociedade, como o s\u00e3o a educa\u00e7\u00e3o e a ac\u00e7\u00e3o social. Para atingir este objectivo indicado pelo Conc\u00edlio, seria de incentivar experi\u00eancias de di\u00e1logo colaborante entre as escolas cat\u00f3licas e outras escolas. Sobretudo n\u00e3o nos apresentemos como sendo as boas escolas, porque as h\u00e1 tamb\u00e9m muito boas entre as escolas estatais, com formadores competentes e dedicados, a trabalharem em condi\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas, por vezes muito dif\u00edceis, a quem sa\u00fado neste momento. 10. Na organiza\u00e7\u00e3o da nossa sociedade uma dimens\u00e3o importante continua em aberto: a natureza e fun\u00e7\u00e3o do Estado, ao servi\u00e7o da sociedade como um todo. Ao definir a sociedade democr\u00e1tica, j\u00e1 nos afast\u00e1mos dos modelos de identifica\u00e7\u00e3o entre o Estado e a sociedade, caracter\u00edstica dos Estados totalit\u00e1rios. Mas resqu\u00edcios de centralismo do Estado persistem, quer na mentalidade dos cidad\u00e3os, quer no comportamento do pr\u00f3prio Estado, que deve ser um dinamizador e regulador da sociedade civil, na sua pluralidade e potencialidade. O sistema educativo \u00e9 um dos aspectos em que persistem algumas incongru\u00eancias com a natureza de uma sociedade democr\u00e1tica. N\u00e3o \u00e9 fun\u00e7\u00e3o do Estado ser educador. \u00c9 sua fun\u00e7\u00e3o apoiar as institui\u00e7\u00f5es v\u00e1lidas de educa\u00e7\u00e3o, definir-lhes par\u00e2metros de qualidade, porventura definir-lhes linhas program\u00e1ticas dos conhecimentos a transmitir. Onde os sistemas constitucionais o prev\u00eaem, pode ser sua obriga\u00e7\u00e3o pagar o ensino, totalmente, ou em parte, tendo sempre uma aten\u00e7\u00e3o particular \u00e0s fam\u00edlias com menos posses. Num quadro democr\u00e1tico, estas fun\u00e7\u00f5es do Estado devem aplicar-se, por igual, a todas as institui\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o reconhecidas, independentemente do modo de o fazer. Afirmemos com clareza: a perfei\u00e7\u00e3o do sistema educativo portugu\u00eas n\u00e3o se atingir\u00e1 quando todas as crian\u00e7as e jovens frequentarem uma escola estatal. Caminhar-se-\u00e1 para essa perfei\u00e7\u00e3o, quando a sociedade gerar institui\u00e7\u00f5es de qualidade, com projecto educativo pr\u00f3prio e claramente definido, de modo que os pais as possam escolher em nome desse projecto educativo. Mas a realidade \u00e9 o que \u00e9, e n\u00e3o \u00e9 previs\u00edvel que mude facilmente. Que o Estado seja propriet\u00e1rio de escolas e as mantenha, n\u00e3o \u00e9 grave, desde que lhes d\u00ea autonomia pedag\u00f3gica, com capacidade de definir o seu projecto educativo, constituir equipas formadoras, identificadas com o respectivo projecto educativo. \u00c9 inalien\u00e1vel o direito dos pais de escolherem a escola para os seus filhos, segundo a proposta educativa que a escola oferece. E isso n\u00e3o \u00e9 compat\u00edvel com a afecta\u00e7\u00e3o dos alunos a uma determinada escola, decidida com crit\u00e9rios geogr\u00e1ficos. Talvez, ent\u00e3o, deixemos de contrapor ensino p\u00fablico e ensino particular e cooperativo e passemos, antes, a distinguir boas escolas das menos boas, independentemente da entidade da sociedade que as promove. Esperemos que, nesse quadro, as Escolas Cat\u00f3licas se esforcem por estar entre as melhores. A discrimina\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica entre escolas que o Estado paga e as que n\u00e3o paga, prejudica o crescimento harm\u00f3nico do sistema, a sadia competi\u00e7\u00e3o e \u00e9 injusta para com as fam\u00edlias, sobretudo as mais fr\u00e1geis economicamente, que assim lhe v\u00eaem vedada a possibilidade de escolherem a escola que desejavam para os seus filhos. Estas mudan\u00e7as estruturais t\u00eam de passar por uma mudan\u00e7a de mentalidade. A maior parte das fam\u00edlias portuguesas n\u00e3o se questionam, sequer, sobre a orienta\u00e7\u00e3o educativa da escola onde colocam os seus filhos, ou s\u00f3 despertam quando h\u00e1 problemas e conflitos. Tem de se chegar a uma consci\u00eancia colectiva sobre esta mat\u00e9ria que possa exprimir-se no voto democr\u00e1tico. Ent\u00e3o os candidatos a integrarem as estruturas do Estado ver-se-\u00e3o for\u00e7ados a dizer aos portugueses o que pensam do sistema educativo. E na forma\u00e7\u00e3o dessa consci\u00eancia colectiva, todas as escolas, com o sentido da sua autonomia pedag\u00f3gica e da dignidade da sua fun\u00e7\u00e3o social podem ajudar. Espero que entre elas estejam as Escolas Cat\u00f3licas, que devem aprender, n\u00e3o apenas a reivindicar, mas a colaborar. Tamb\u00e9m assim estar\u00e3o a realizar a miss\u00e3o da Igreja na sociedade. <i>D. Jos\u00e9 Policarpo,Cardeal-Patriarca<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confer\u00eancia de D. 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