{"id":22522,"date":"2007-01-25T15:00:04","date_gmt":"2007-01-25T15:00:04","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/01\/25\/a-igreja-perante-a-vida\/"},"modified":"2007-01-25T15:00:04","modified_gmt":"2007-01-25T15:00:04","slug":"a-igreja-perante-a-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-igreja-perante-a-vida\/","title":{"rendered":"A Igreja perante a Vida"},"content":{"rendered":"<p>D. Il\u00eddio Leandro, Bispo de Viseu <!--more--> A Igreja tem, perante a vida humana, uma concep\u00e7\u00e3o maximalista quanto ao respeito, ao valor e \u00e0 dignidade, fundamentados no dom e no bem precioso e \u00fanico de todo e qualquer ser humano. Isto \u00e9, desde o in\u00edcio at\u00e9 ao fim terreno, provocado pela morte natural, toda e qualquer vida humana tem sentido e merece o reconhecimento da parte de todos, exigindo defesa, acolhimento e protec\u00e7\u00e3o, baseados na sua dignidade, grandeza e inviolabilidade. A Igreja diz mesmo que \u201co homem constitui o seu primeiro e fundamental caminho\u201d (RH 14 in EV 2) e esta mensagem constitui o fundamento do conte\u00fado da Boa Nova de Jesus Cristo que se torna o fundamento da Boa Nova e da Miss\u00e3o da Igreja. Esta, a Igreja, recebeu do pr\u00f3prio Fundador, Jesus Cristo, o Evangelho da Vida e \u00e9 chamada a anunci\u00e1-lo e a celebr\u00e1-lo, servindo a vida, ao jeito de Jesus que veio para que os homens \u201ctenham a vida e vida em abund\u00e2ncia\u201d (cf Jo 10, 10).  \tAo longo dos tempos existiram crises neste entendimento da grandeza, dignidade, igualdade fundamental e respeito que nos merece todo e qualquer ser humano. Estas crises mostram-nos aspectos de uma \u201ccultura de morte\u201d que a ci\u00eancia, a t\u00e9cnica, a medicina, a deontologia dos profissionais da sa\u00fade e a evolu\u00e7\u00e3o cultural dos povos foram possibilitando alterar, acrescentando qualidade \u00e0 forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia \u00e9tica. \tAs leis, quanto \u00e0 defesa da vida, sempre existiram\u2026 Matar a pessoa humana sempre foi considerado um horror, uma viol\u00eancia e um atentado\u2026 Viver \u00e9 o primeiro direito de um ser humano e as Constitui\u00e7\u00f5es, os C\u00f3digos de Direitos e outros Tratados Internacionais foram desenvolvendo e concretizando uma sensibilidade cada vez mais respeitadora e exigente para com a vida humana. As dificuldades foram estando no entendimento de quem cabe na designa\u00e7\u00e3o de \u201cpessoa humana\u201d para se exigir a defesa e o respeito. Isto provocava uma enorme incoer\u00eancia entre a teoria e a pr\u00e1tica.  \tUmas vezes foi o sexo a determinar a diferen\u00e7a; noutras ocasi\u00f5es foi a escravatura; houve \u00e9pocas em que a cidadania era um crit\u00e9rio de desigualdade; outras vezes era a ra\u00e7a, a religi\u00e3o ou a filia\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria\u2026 Parece que, agora, ser\u00e1 o tamanho, o peso, a idade, as diferen\u00e7as, a produtividade\u2026 Da\u00ed que, a seguir ao referendo sobre o aborto, certamente outros vir\u00e3o: uso indistinto de embri\u00f5es, eutan\u00e1sia, homossexualidade, uni\u00f5es de facto\u2026 Dir\u00e3o que n\u00e3o se est\u00e1 a falar disso agora, pois percebemos o intuito: uma escalada de relativismo \u00e9tico onde os valores deixam de valer, onde os princ\u00edpios deixam de ser exig\u00eancias racionais e onde a deontologia deixa de interessar para orientar a forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia e para fundamentar o comportamento.  \tParece que, \u00e0 medida que a ci\u00eancia e a consci\u00eancia v\u00e3o apurando as reflex\u00f5es e os dados inquestion\u00e1veis sobre a vida, no seu in\u00edcio e no seu fim, na sua dignidade e na sua igualdade, parece que, na mesma propor\u00e7\u00e3o, se v\u00e3o intensificando o relativismo, o utilitarismo, o individualismo, gerando o desprezo, a indiferen\u00e7a e a insensibilidade, como base das injusti\u00e7as, das guerras, das lutas que esquecem a inviolabilidade e o respeito pelas vidas mais indefesas, mais fr\u00e1geis e mais inocentes\u2026 \tPara c\u00famulo, se os Estados deveriam ser os defensores, os promotores e os arautos do respeito pela vida, pela dignidade e pela igualdade entre todos os cidad\u00e3os, s\u00e3o eles, na sua fun\u00e7\u00e3o legislativa, educativa e executiva a liderar as tend\u00eancias liberalizadoras dos atentados \u00e0 vida, a come\u00e7ar pela falta de defesa dos nascituros, ainda sem voz e sem meios de poder e de defesa. Esquece-se a fun\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica das leis e, depois, admiram-se e espantam-se pelas consequ\u00eancias\u2026 \t A Igreja quer afirmar-se, perante a vida, como o Povo da vida e a favor de toda e qualquer vida, independentemente da idade, do tamanho, da diferen\u00e7a ou defici\u00eancia, da doen\u00e7a ou fragilidade que a vida possua. A igreja apoia esta sua afirma\u00e7\u00e3o nos dados das ci\u00eancias da vida que, de forma inequ\u00edvoca, determinam o in\u00edcio e o fim terreno, natural. Fruto do contributo cient\u00edfico, a Igreja tem a certeza que a vida existe desde a concep\u00e7\u00e3o, realizada com a uni\u00e3o dos g\u00e2metas masculino e feminino, a partir da qual existe vida num ser humano que jamais deixar\u00e1 de o ser, ao longo de um desenvolvimento que, desde o in\u00edcio, cont\u00e9m todos os elementos patrimoniais, base de um programa gen\u00e9tico onde tudo est\u00e1 inscrito e determinado\u2026  \tQualquer interven\u00e7\u00e3o, seja para interromper = destruir = matar = aborto, seja para experimentar, seja para usar em proveito de outrem \u2013 ainda que seja para curar e salvar algu\u00e9m (c\u00e9lulas estaminais) \u2013 \u00e9 grave e imoral e \u00e9 absolutamente contra o direito \u00e0 vida que aquele ser humano tem desde o seu in\u00edcio. Apenas ser\u00e1 l\u00edcita uma interven\u00e7\u00e3o \u2013 hoje j\u00e1 poss\u00edvel \u2013 para curar e beneficiar o embri\u00e3o ou o feto, ainda no seu processo intra-uterino.  A Igreja, defendendo a vida intra-uterina, n\u00e3o o faz a qualquer pre\u00e7o. F\u00e1-lo defendendo a vida que, pode acontecer, sejam as duas, quando poss\u00edvel, seja a vida da M\u00e3e a ter em primeiro lugar, no caso do \u201caborto terap\u00eautico\u201d, seja a vida do beb\u00e9 se, porventura, a da M\u00e3e est\u00e1 sem possibilidades de ser salva. F\u00e1-lo num entendimento do chamado \u201cconflito de valores\u201d que, por vezes, est\u00e3o mesmo em conflito\u2026 Quem resolve o conflito? Equipa m\u00e9dica; pessoal de sa\u00fade; mulher-m\u00e3e; marido\u2026 A Igreja, defendendo a vida intra-uterina, mesmo numa situa\u00e7\u00e3o abortiva, n\u00e3o condena nem penaliza a mulher que pratica o aborto. N\u00e3o \u00e9 papel da Igreja condenar algu\u00e9m. N\u00e3o \u00e9 o seu papel penalizar nem o reivindica e, na sua miss\u00e3o pastoral, vai ao encontro da mulher, que aborta, para lhe oferecer o perd\u00e3o e a miseric\u00f3rdia de Deus, pedindo-lhe o arrependimento e a convers\u00e3o. Ali\u00e1s, sabemos que n\u00e3o \u00e9 a despenaliza\u00e7\u00e3o que est\u00e1 em causa neste referendo. Isto, o Estado poder\u00e1 faz\u00ea-lo e cabe a um Estado de direito averiguar as culpas e atribuir as penas\u2026 O que a Igreja n\u00e3o pode compreender e n\u00e3o pode calar, no seu papel e miss\u00e3o de se colocar do lado da vida e dos seres humanos mais fr\u00e1geis e pobres, \u00e9 que se esque\u00e7a a crian\u00e7a, o beb\u00e9 (em qualquer fase do seu desenvolvimento, pois n\u00e3o h\u00e1 a fase posterior se \u00e9 eliminada na anterior \u2013 ningu\u00e9m de n\u00f3s estaria aqui se lhe tivessem interrompido a vida \u00e0s 10 semanas); o que a Igreja n\u00e3o pode compreender nem calar \u00e9 que o eliminar uma vida humana = matar um ser humano, deixe de ser crime; o que a Igreja n\u00e3o pode compreender nem calar \u00e9 que se possa liberalizar desta maneira infame podendo fazer-se, impunemente, at\u00e9 \u00e0s 10 semanas; o que a Igreja n\u00e3o pode calar e quer denunciar p\u00fablica e claramente, \u00e9 que o Estado ofere\u00e7a as condi\u00e7\u00f5es, as cl\u00ednicas, os meios\u2026 tudo pago pelos cidad\u00e3os como se se tratasse de qualquer interesse e benef\u00edcio p\u00fablico\u2026 Como tolerar que se fa\u00e7am contas aos gastos e aos n\u00fameros previs\u00edveis de abortos, respondendo-se que o Estado tudo vai fazer para possibilitar essa execu\u00e7\u00e3o\u2026 se as 23.000 crian\u00e7as previstas para serem abortadas fazem tanta falta\u2026 Importa dizer, de forma clara, que n\u00e3o \u00e9 pelo facto de se legislar sobre o aborto, legalizando-o, que ele passa a ser um bem ou que deixa de ser crime\u2026 Ao contr\u00e1rio, torna o Estado e as pessoas que votam SIM, \u201cestruturas\u201d do mal\u2026 \tEst\u00e1 inerente nesta lei uma enorme fal\u00e1cia: porqu\u00ea at\u00e9 \u00e0s 10 semanas?&#8230; Porque n\u00e3o at\u00e9 \u00e0s 12, 15, 24, 36, ao nascer, aos 2, 5 ou 10 anos?&#8230; A gravidade nem era maior nem menor\u2026 O ser humano existe desde a concep\u00e7\u00e3o\u2026 \u00c9 apenas uma quest\u00e3o de idade, de tamanho, de desenvolvimento\u2026  Nada, hoje, vai na linha do aborto: a ci\u00eancia, a medicina, a demografia, o equil\u00edbrio social, o emprego&#8230; Somente o propalado direito da mulher \u00e0 sua liberdade, juntamente com uma irresponsabilidade na viv\u00eancia do prazer, do amor e da sexualidade\u2026  Quanto \u00e0 liberdade da mulher: como?&#8230; De forma ego\u00edsta, mata para se ver livre de algu\u00e9m? N\u00e3o \u00e9 a M\u00e3e a melhor defesa para um filho?&#8230; N\u00e3o \u00e9 a maternidade uma voca\u00e7\u00e3o nobre da mulher?&#8230; Est\u00e3o a ser postos em causa valores nobres como: a dignidade, o nome, o carisma e a grandeza do papel e do lugar da mulher na sociedade? \u2026 Nunca se pode separar liberdade, de verdade, de responsabilidade e de dignidade, sem o que deixar\u00edamos de ser humanos\u2026 Quanto ao facto de o tema da vida \/ aborto ser uma quest\u00e3o de consci\u00eancia individual ou religiosa\u2026 Nada mais negativo. \u00c9 uma quest\u00e3o de vida, provada e demonstrada pela ci\u00eancia e pela raz\u00e3o. \u00c9 uma quest\u00e3o de direitos, liberdades e garantias da vida humana que, no artigo 24\u00ba da Constitui\u00e7\u00e3o \u00e9 defendida como \u201cinviol\u00e1vel\u201d. E a quest\u00e3o da \u201csa\u00fade p\u00fablica\u201d?!&#8230; Ser\u00e1 de dar condi\u00e7\u00f5es seguras \u00e0 escolha de morte de algu\u00e9m?&#8230; Como iremos justificar a criminaliza\u00e7\u00e3o e a consequente condena\u00e7\u00e3o de outros atentados \u00e0 vida, \u00e0 liberdade e \u00e0 sociedade?&#8230; N\u00e3o existe o Estado para, pelas leis e pelas consequ\u00eancias da sua aplica\u00e7\u00e3o, minimizar o mal, dissuadir do erro e educar as pessoas?&#8230; \u00c9 a for\u00e7a e o papel pedag\u00f3gico das leis!&#8230; Quanto a outros aspectos\u2026 est\u00e3o em causa as responsabilidades da fam\u00edlia, da sociedade e do pr\u00f3prio Estado na revis\u00e3o de toda uma educa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o est\u00e1 a formar para a vida, para o futuro, para uma sociedade livre, feliz e socialmente justa. De facto, quando uma sociedade mata para sobreviver ou para se defender, est\u00e1 a retornar aos tempos que se deveriam ter, h\u00e1 muito, ultrapassado\u2026 Estar\u00e1 a Igreja isenta de culpas, podendo apresentar-se sem responsabilidades? N\u00e3o\u2026 A Igreja precisa de fazer mais e melhor, no campo da fam\u00edlia, no acolhimento de situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis, na prepara\u00e7\u00e3o para o matrim\u00f3nio, no respeito e amor pelas pessoas, no di\u00e1logo com todos os que nos v\u00eam ao encontro, respeitando as diferen\u00e7as, na forma\u00e7\u00e3o da juventude, na forma\u00e7\u00e3o para a viv\u00eancia da sexualidade e do amor, na corresponsabilidade pelo sentido da vida e dos valores, no an\u00fancio da Boa Nova da Vida, etc. \u00c9 hora de nos darmos as m\u00e3os, apoiados nas ci\u00eancias da vida, nas ci\u00eancias m\u00e9dicas e na tecnologia que deve estar ao servi\u00e7o de toda e qualquer vida, sem excep\u00e7\u00e3o, para encontrarmos sa\u00eddas que nos dignifiquem e que nos ajudem a criar leis s\u00e1bias e justas para podermos dizer com verdade este lema e convite: \u201cVIDA: um DOM e uma RESPONSABILIDADE\u201d, assumindo-a, tamb\u00e9m, como uma VOCA\u00c7\u00c3O e um DESAFIO.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. 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