{"id":224618,"date":"2021-12-28T09:00:41","date_gmt":"2021-12-28T09:00:41","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=224618"},"modified":"2021-12-20T15:36:57","modified_gmt":"2021-12-20T15:36:57","slug":"lamego-o-natal-do-capitao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/lamego-o-natal-do-capitao\/","title":{"rendered":"Lamego: O Natal do capit\u00e3o&#8230;"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Historia-de-Natal.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-224624\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Historia-de-Natal.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Historia-de-Natal.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Historia-de-Natal-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Historia-de-Natal-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Historia-de-Natal-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Historia-de-Natal-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Historia-de-Natal-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Historia-de-Natal-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Historia-de-Natal-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Chamavam-lhe \u201co capit\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Em mi\u00fado fora aos Rem\u00e9dios, a Lamego, viu os tropas a marchar numa rua da cidade sob o comando de um chefe que marcava o ritmo com uma voz irresist\u00edvel de trov\u00e3o e, regressado \u00e0 aldeia, fazia de vez em quando umas marchas individuais por cal\u00e7adas e caminhos, dando ordens a si pr\u00f3prio:<\/p>\n<p>&#8211; Um, dois, um, dois\u2026esquerdo, direito\u2026um, dois!<\/p>\n<p>Casara e tivera filhos.<\/p>\n<p>Mas um dia, a mulher foi ao Douro, \u00e0s vindimas, e n\u00e3o voltou mais \u00e0 caserna\u2026 O caseiro da quinta p\u00f4s os seus olhos nos nela, arranjaram-se os dois\u2026 e o homem ficou sem algu\u00e9m que lhe acendesse a candeia, lhe aquecesse o caldo, lhe remendasse as cal\u00e7as, lhe pregasse os bot\u00f5es e lhe aquecesse os p\u00e9s.<\/p>\n<p>Para desgra\u00e7a maior, os dois filhos evaporaram-se para o Brasil e nunca mais disseram nada.<\/p>\n<p>Atolado na solid\u00e3o e na dor, substituiu a mulher por vinho, os filhos por tabaco e o trabalho pela pedincha.<\/p>\n<p>Corria as aldeias em dias certos, batia com o bord\u00e3o nas portas, estendia a m\u00e3o a quem abria, e continuava o giro, comendo c\u00f4deas, trincando m\u00e1goas e chupando cigarros. Morto o brilho do sol e nascida a negrura da noite, enrolava-se na manta que trazia consigo e dormia num alpendre de carro ou num palheiro de feno\u2026onde lhe era permitido.<\/p>\n<p>Estava-se em dezembro. O Natal estava perto.<\/p>\n<p>Na lixeira de uma aldeia, misturados com agulhas de pinheiro e ramos de azevinho, dormiam numa saquinha de amostras os tr\u00eas personagens da B\u00edblia por quem nos veio a salva\u00e7\u00e3o. Desbotados e feridos, a zeladora da capela substituiu-os por outros, mais novos e mais simp\u00e1ticos. O capit\u00e3o abriu a saca, sorriu e resmungou:<\/p>\n<p>&#8211; Afinal, n\u00e3o sou s\u00f3 eu, o pecador! A v\u00f3s, que sois t\u00e3o bons segundo dizem, aconteceu-vos o mesmo! Tende paci\u00eancia, amigos! A vida \u00e9 assim! Tudo nos pode acontecer!<\/p>\n<p>Companheiros de amarguras e maus-tratos, o capit\u00e3o nunca mais os largou de m\u00e3o.<\/p>\n<p>Chegado o 24 de dezembro, acomodado o sol no seu descanso e espreitando a lua por entre os chavascais, o velho resguardou-se no alpendre da capela do Senhor dos Desamparados, pousou no ch\u00e3o o saco das esmolas, procurou palha numa meda de quintal, acendeu uma apraz\u00edvel fogueira, sentou-se num rodelo de carvalho, e trincou mais um naco de broa e um peda\u00e7o de toucinho.<\/p>\n<p>Ouvindo, entretanto, as horas da matriz, e lembrando-se que era a noite de Natal, tirou as imagens da saqueta, deitou o Menino na sua boina espanhola e p\u00f4s os pais, de joelhos, um de cada lado.<\/p>\n<p>Ajoelhado tamb\u00e9m ele (com o joelho direito, que o esquerdo j\u00e1 h\u00e1 muito lhe n\u00e3o fazia a vontade), olhou o pequeno com enlevo de pobre, desgosto de vadio e ternura de crian\u00e7a, e disse, numa voz pastosa e rouca:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, catraio, diz que fazes anos hoje?! Parab\u00e9ns, p\u00e1! Bem merecias uma prenda, mas este pobre vagabundo n\u00e3o tem nada p\u2019ra te dar. S\u00f3 um beijo!<\/p>\n<p>E beijou-O, erguendo-O da boina e envolvendo-O entre as m\u00e3os.<\/p>\n<p>\u00c0 volta da pequena e rude ermida, a neve ca\u00eda no solo lenta e fria, e o vento assobiava intermitente e inc\u00f3modo nos beirais enregelados do telhado. O velho, sem nada nem ningu\u00e9m, embrulhou-se na capa velha e rota que o pai trouxera de Fran\u00e7a quando andou na Grande Guerra, e adormeceu.<\/p>\n<p>Por gratid\u00e3o e favor do Rec\u00e9m-nascido, certamente, foi-lhe dado ter um sonho que o embeveceu por toda a noite: l\u00e1 no Alto, acima do firmamento, muito acima das estrelas, junto a um trono dourado ornado de brancas a\u00e7ucenas e iluminado de coloridas lamparinas que tremeluziam alegres, havia louvor e festa, alegria e paz, cantares de anjos e adora\u00e7\u00e3o de beatos e de santos. C\u00e1 em baixo, numa terra de beleza e de sonho, as pessoas amavam-se, beijavam-se e abra\u00e7avam-se todas, e as crian\u00e7as, felizes, recebiam prendas e jogavam ao par e ao pern\u00e3o! Numa casa parecida com aquela onde lhe nasceram os filhos, a sua antiga mulher preparava as rabanadas e cozia o arroz-doce, cantarolando loas natal\u00edcias, umas atr\u00e1s das outras, e os seus netinhos, regressados do Brasil, subiam-lhe para os joelhos, davam-lhe muitos beijos e puxavam-lhe as barbas brancas.<\/p>\n<p>Assombrado com tanta beleza e tamanha felicidade, o velho capit\u00e3o irrompeu ent\u00e3o num c\u00e2ntico assombroso e belo, que s\u00f3 o uivar dos lobos conseguiu finalmente exterminar:<\/p>\n<p>&#8211; Gl\u00f3ria a Deus nas Alturas! E Paz aos Homens na Terra!<\/p>\n<p><em>J. Correia Duarte<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":224624,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[789],"class_list":["post-224618","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional","tag-contos-de-natal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/224618","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=224618"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/224618\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/224624"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=224618"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=224618"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=224618"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}