{"id":224600,"date":"2021-12-27T09:00:33","date_gmt":"2021-12-27T09:00:33","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=224600"},"modified":"2021-12-20T13:49:39","modified_gmt":"2021-12-20T13:49:39","slug":"maltes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/maltes\/","title":{"rendered":"\u00c9vora: Malt\u00eas*"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Alentejo_5.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-224606\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Alentejo_5.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Alentejo_5.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Alentejo_5-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Alentejo_5-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Alentejo_5-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Alentejo_5-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Alentejo_5-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Alentejo_5-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Alentejo_5-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Quem j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 jovem, sabe que s\u00f3 h\u00e1 duas direc\u00e7\u00f5es principais \u00e0 sa\u00edda da nossa porta da vida, bem como de todas as portas que d\u00e3o sobre os caminhos do mundo: &#8211; A dos vencedores e a dos vencidos.<br \/>\nEsta \u00e9 a hist\u00f3ria do que aconteceu h\u00e1 muito tempo a um vencido que andava pelos caminhos do mundo, quando ainda gemiam as velas dos derradeiros moinhos de vento sobre os montes em redor da cidade, a trabalharem de noite, \u00e0s escondidas, a ver se escapavam \u00e0 absor\u00e7\u00e3o da grande moagem mec\u00e2nica dos vencedores, que na urbe iam empunhando com frieza calculista a bandeira do \u201cprogresso\u201d, \u00e0s vezes pisando e empurrando tudo \u00e0 sua volta\u2026<\/p>\n<p>Fazendo dos suspiros de cansa\u00e7o largas passadas na negra e fria noite, o malt\u00eas de rosto jovem e agoniado, media a dist\u00e2ncia, e espelhava-lhe nos olhos a grande solid\u00e3o transtagana, t\u00e3o longa como o caminho sob as suas botas esfoladas \u2026<\/p>\n<p>Na prolongada plan\u00edcie solit\u00e1ria, sem uma cabana abandonada onde se acoite ou muro de herdade onde encoste os ossos a proteger-se do vento uivante, de forma a puxar lume ao cigarro de on\u00e7a, o jovem malt\u00eas, que j\u00e1 falava sozinho como os velhos, ia discernindo que, desde que come\u00e7ara a ajuizar e a saber que existia como gente, nunca conhecera ningu\u00e9m que lhe fosse pr\u00f3ximo, parente ou qualquer relacionamento de pessoa, com a sua obriga\u00e7\u00e3o de acolhimento. At\u00e9 as ervas rasteiras, recamadas de orvalho, t\u00eam a terra onde se agarram\u2026 S\u00f3 ele vivia, mordendo e cuspindo o p\u00f3 da estrada, esquecido de gente, desenraizado de tudo e todos. Nem casa, nem nada, apenas habitava ao \u201cDeus queira\u201d, aquela manta surrada que trazia ao ombro\u2026 S\u00f3!<\/p>\n<p>O malt\u00eas parou perto de um monte de estevas, a recapitular o f\u00f4lego. J\u00e1 n\u00e3o tombava chuva, a estrada era um rio de lama escura, nenhuma indica\u00e7\u00e3o lhe apontava povoado, lugar, monte. Com as m\u00e3os no rosto por instantes, como se fosse chorar, limpou a \u00e1gua que lhe escorria do chap\u00e9u. Olhou de novo a lonjura calamitosa, a incomodidade nocturna e, sem dar ouvidos \u00e0 voz \u00edntima que lhe dizia para voltar atr\u00e1s, o jovem malt\u00eas continuou a jornada\u2026 Viera de muito longe, todo o \u201csanto\u201d dia caminhara por atalhos e veredas, evitando os c\u00e3es dos montes dos grandes lavradores, amestrados a ladrar e morder em maltrapilhos, sem ter de manejar o seu bord\u00e3o de faia, como \u00faltimo recurso. S\u00f3 tinha parado num s\u00edtio pendurado nas traseiras de um cabe\u00e7o, com uma casa desconjuntada a encim\u00e1-lo, onde pediu o agasalho da lareira por minutos e a esmola de peda\u00e7o de p\u00e3o. Apareceu-lhe uma velha \u00e0 porta, depois de o mirar de alto a baixo mansamente e de lhe dizer \u00abDonde vem, vossemec\u00ea?\u00bb, mandou-o entrar e deu-lhe uma tigela de a\u00e7orda e um punhado de azeitonas\u2026 Aqueceu-se um pouco ao lume da chamin\u00e9, agradeceu a esmola da velha, despediu-se e partiu de novo, estrada fora, ao desamparo, como malt\u00eas que era\u2026<\/p>\n<p>N\u00e3o costuma cair neve no Alentejo, que essa brancura de montra de loja no Natal, n\u00e3o baptiza campos rasos e desertos, todavia o frio \u00e9 polar e aflige o malt\u00eas cada vez mais\u2026 Mas quem lhe vai dar guarida? Quem acredita na sua pac\u00edfica \u201cmaneira de ser\u201d?<\/p>\n<p>Dizem que no meio da plan\u00edcie, junto a uma encruzilhada aparece sempre o albergue de uma \u00abvenda\u00bb a salvar do desespero um homem velho e abandonado. A\u00ed, noutros tempos, batiam \u00e0 porta ao cair da noite os malteses e os salteadores de estrada. \u00abQuem \u00e9?\u00bb, diziam de dentro. E de fora respondia uma voz que nasceu na desgra\u00e7a e aprendeu a rentabilizar as l\u00e1grimas e o tom suplicante: \u00ab\u00c9 um pobre de Cristo que vem estafado\u2026!\u00bb \u2026 O dono da \u00abvenda\u00bb agarrava ent\u00e3o no chav\u00e3o que pesava quilos e abria a porta ao valdevinos. \u00abQue o tr\u00e1s por c\u00e1?\u00bb. \u00abVenho de muito longe, e pe\u00e7o a vossemec\u00ea a esmola de uma dormida no palheiro\u2026\u00bb. Mas quem, pedia acossado pela tempestade, era um malt\u00eas, um contrabandista em mar\u00e9 de azar, um fugido das cadeias, um bandoleiro dos caminhos, como o Z\u00e9 do Telhado? Quem ia saber, n\u00e3o nos dir\u00e3o?! &#8230;<\/p>\n<p>O dono da \u00abvenda\u00bb fica entre portas, a seguir com o olhar no escuro as \u00abmaneiras\u00bb do homem, a caminho do palheiro\u2026 \u00c9 que j\u00e1 uma vez teve \u00e0 sua mesa um assassino temeroso que por causa de um conto de r\u00e9is cortou a garganta a um pobre zagal, que vivia entontecido pelas estrelas e b\u00eabado de solid\u00e3o. O assassino parecia um animal quando a guarda o apanhou: os olhos espantados, os dentes ro\u00eddos por um micr\u00f3bio qualquer, a voz atrai\u00e7oada pelos solu\u00e7os que vinham do fundo barbarizado da sua alma, e uma surpresa de louco no seu rosto, de quem n\u00e3o sabe mais o que fez ou deixou de fazer!<\/p>\n<p>Por isso, nesta triste noite de Natal, o dono da \u00abvenda\u00bb, o senhor Pinelas, est\u00e1 \u00e0 espreita, a ver se o malt\u00eas, homem ainda novo, que lhe bateu \u00e0 porta, n\u00e3o tem a fala mansa como o louco assassino de ent\u00e3o. \u00abQue o tr\u00e1s por c\u00e1?\u00bb. E o malt\u00eas tremendo, esfregando as m\u00e3os uma na outra: \u00abO frio, meu senhor\u2026 Venho pedir a esmola de uma dormida no palheiro\u2026\u00bb. Como o outro, Santo Deus\u2026 Mas \u00e9 Natal, pensou o Pinelas, nem todos os cordeiros ser\u00e3o lobos disfar\u00e7ados\u2026<\/p>\n<p>\u00abEntre l\u00e1, homem!\u00bb. E quando o senhor Pinelas, \u00e0 luz do \u201cpetromax\u201d, iluminou cabe\u00e7a do malt\u00eas, verificando que era ainda um homem novo, ao mesmo tempo que sentiu uma long\u00ednqua familiaridade com o infeliz, apareceu-lhe por detr\u00e1s a alucinada da Mariana, a mulher, \u2026 \u00abDesde que me conhe\u00e7o, sou malt\u00eas, meu senhor. Tenho andado por todo o lado empurrado pelo destino. Conhe\u00e7o cobras e lagartos, ervas boas para ch\u00e1s que curam todo o mal\u2026 Fa\u00e7o qualquer trabalho da lavoura\u2026 Mas no Inverno n\u00e3o h\u00e1 trabalho\u2026 H\u00e1 s\u00f3 o frio, que enregela a carne e encolhe os ossos, e que tr\u00e1s a morte aos pobres como eu\u2026 Tenha piedade, deixe-me ao menos dormir ali no palheiro\u2026\u00bb.<\/p>\n<p>A mulher indagando do desconhecido com o olhar, espreitou o tempo, por entre portas, e viu a negra noite e o antigo vento uivante, uh! uh! uh!, mordendo os ramos das oliveiras, arranhando as paredes da casa, e esbofeteando a cara aos que o espreitavam\u2026 Do fundo da sua alma, Mariana gritou, com os olhos tostados pelo del\u00edrio \u00ab\u00c9 ele! \u00c9 ele! \u2013 O meu rico menino voltou!\u00bb\u2026 Pinelas, embara\u00e7ado, viu-se obrigado a dizer ao malt\u00eas: \u00abN\u00e3o fa\u00e7a caso\u2026 A coitada endoidou, desde que lhe disseram que o filho morreu na guerra do ultramar!\u00bb \u2026 Disse tudo isto j\u00e1 com os olhos rasos de l\u00e1grimas\u2026<\/p>\n<p>\u00abVossemec\u00ea vem por bem?\u00bb. E o malt\u00eas: \u00abSim, senhora! Sou apenas um pobre malt\u00eas! Mas curo ter\u00e7\u00e3s com ervas do campo. Venho perdido com o nevoeiro e j\u00e1 n\u00e3o tenho for\u00e7as para caminhar\u2026\u00bb. E Mariana: \u00abEntra, Manel, vieste passar o Natal com a gente, n\u00e3o \u00e9 verdade?!\u00bb \u2026 E Pinelas para a mulher: \u00abMariana, para que \u00e9 isso, o nosso filho morreu na guerra, em \u00c1frica!\u00bb. E a mulher: \u00abE eu n\u00e3o sei?! O que interessa \u00e9 que agora est\u00e1 c\u00e1! Entra Manel, entra\u2026\u00bb. Pinelas abriu mais a porta e o malt\u00eas entrou, acompanhado de uma rabanada de vento. S\u00fabito, vinda n\u00e3o se sabe de onde, uma brisa morna espevitou a lareira, e a casa de entrada ficou mais iluminada.<\/p>\n<p><em>Joaquim Palminha Silva<\/em><\/p>\n<p>*Malt\u00eas &#8211; Termo que designava um trabalhador rural sui generis no Alentejo. Esp\u00e9cie de assalariado n\u00f3mada, trabalhando onde queria e se a jorna lhe agradava. N\u00e3o estava muito tempo num lugar e, normalmente, n\u00e3o fazia sociedade com outros rurais. Vivendo s\u00f3, sem moradia conhecida, n\u00e3o era de seu natural d\u00f3cil face \u00e0s tiranias locais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":224606,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[789],"class_list":["post-224600","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional","tag-contos-de-natal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/224600","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=224600"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/224600\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/224606"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=224600"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=224600"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=224600"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}