{"id":224346,"date":"2021-12-19T09:00:34","date_gmt":"2021-12-19T09:00:34","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=224346"},"modified":"2021-12-20T13:10:06","modified_gmt":"2021-12-20T13:10:06","slug":"angra-ouvir-o-natal-outra-vez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/angra-ouvir-o-natal-outra-vez\/","title":{"rendered":"Angra: Ouvir o Natal outra vez"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_224348\" aria-describedby=\"caption-attachment-224348\" style=\"width: 434px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/seara-menino-jesus.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-224348\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/seara-menino-jesus.jpg\" alt=\"\" width=\"434\" height=\"326\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/seara-menino-jesus.jpg 564w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/seara-menino-jesus-346x260.jpg 346w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/seara-menino-jesus-510x382.jpg 510w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/seara-menino-jesus-480x361.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 434px) 100vw, 434px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-224348\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Quiosque de Turismo- News ArtAzores<\/figcaption><\/figure>\n<p>Que m\u00fasica ficou em mim? Estou sentado refasteladamente numa cadeira, saco vermelho enorme entre os joelhos. Desta vez, sou o Pai Natal da fam\u00edlia. Afogueado de calor naquela noite fria, com as barbas brancas a picarem as faces, vou ouvindo aquele \u201cI Wish You a Merry Christmas\u201d sem sabor nem cheiro, enquanto os sobrinhos descobrem quem \u00e9 o Pai Natal, porque o \u201coh-oh-oh\u201d saiu demasiado meu. V\u00e1 l\u00e1 que eles j\u00e1 n\u00e3o acreditam no Pai Natal, um dos mitos urbanos que mais angustiam os pais desta gera\u00e7\u00e3o. Ao fundo, dois gordos perus presidem a uma mesa farta, farta de tudo. Ao meu lado ergue-se, branca e estilizada, a \u00e1rvore de Natal, j\u00e1 com as luzes embutidas, brancas de neve como a \u00e1rvore que cobre uma montanha de cubos vermelhos com la\u00e7o dourado, a fingir que s\u00e3o prendas. Prendas, essas, s\u00e3o \u00e0s dezenas grandes, muitas para cada crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Que m\u00fasica ficou em mim? O gato \u00e9 enxotado porque j\u00e1 se aproximava perigosamente da \u00e1rvore, das suas bolas e das suas fitas, tudo a condizer artificialmente com tudo. O Natal \u00e9 ingratamente igual em todo o mundo crist\u00e3mente rico. \u00c9 o Natal americano, que invadiu o mercado e as gentes.<\/p>\n<p>\u00abEnvolveu-O em panos e deitou-O numa manjedoura, porque n\u00e3o havia lugar para eles na hospedaria.\u00bb (Lc 2, 7). O Natal \u00e9 o lugar onde n\u00e3o havia lugar para Jesus.<\/p>\n<p>Olhando os meus irm\u00e3os, regresso a mais de quarenta anos atr\u00e1s, ao nosso Natal, porque o Natal s\u00f3 \u00e9 nosso quando fomos crian\u00e7as. A primeira az\u00e1fama era a chegada da criptom\u00e9ria, o nosso pinheirinho, com um cheiro t\u00e3o \u00fanico que ficava pela casa durante aquele m\u00eas inteiro. Do s\u00f3t\u00e3o desciam os caixotes com as figuras do pres\u00e9pio, barro tosco e pintado, as fitas, as luzes e as bolas, muitas delas vindas em sacos americanos, as prendas dos nossos emigrantes. Nos A\u00e7ores, o Natal sempre teve o cheiro da saudade dos nossos emigrantes. No dia seguinte, pela manh\u00e3, frio de cortar, penetr\u00e1vamos nos matos e nas clareiras, \u00e0 procura de leivas, pedras e h\u00famus para compor, religiosamente, a mais bela obra: o nosso pres\u00e9pio. As casas de cart\u00e3o, que vinham para ser recortadas e coladas, representando as habita\u00e7\u00f5es populares portuguesas, ponteavam o cen\u00e1rio, onde n\u00e3o faltava a igreja, porque n\u00e3o se pode imaginar um Natal sem uma igreja. J\u00e1 l\u00e1 ponteavam os pratos de trigo a espigar em \u00e1gua. Ao cheiro da \u00e1rvore, ao piscar das luzes e diante do pres\u00e9pio, rez\u00e1vamos o ter\u00e7o do Menino Jesus e, pelo menos nessa altura, ningu\u00e9m refilava. A consoada era bacalhau ou galinha, temperados com a missa do galo e a cama, naquela noite mais longa da vida. P\u00fanhamos o sapatinho na chamin\u00e9, porque a primeira vez que vimos um Pai Natal j\u00e1 foi tarde, um Pai Natal insufl\u00e1vel que veio dos primos da Am\u00e9rica. S\u00f3 l\u00e1 para as duas ou tr\u00eas da manh\u00e3 preg\u00e1vamos o olho, tal era a excita\u00e7\u00e3o da espera, de ouvir os passos do Menino perto dos nossos sapatinhos. Adorava cantar a \u201cNoite Feliz\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/PraiaVitoria_CantarReis_Vitec_2021_GrupoFonteBastardo-1024x558-1.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-224349\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/PraiaVitoria_CantarReis_Vitec_2021_GrupoFonteBastardo-1024x558-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"558\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/PraiaVitoria_CantarReis_Vitec_2021_GrupoFonteBastardo-1024x558-1.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/PraiaVitoria_CantarReis_Vitec_2021_GrupoFonteBastardo-1024x558-1-400x218.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/PraiaVitoria_CantarReis_Vitec_2021_GrupoFonteBastardo-1024x558-1-768x419.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/PraiaVitoria_CantarReis_Vitec_2021_GrupoFonteBastardo-1024x558-1-980x534.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/PraiaVitoria_CantarReis_Vitec_2021_GrupoFonteBastardo-1024x558-1-480x262.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Que m\u00fasica ficou em mim? Olho para a minha septuagen\u00e1ria m\u00e3e, sentada na cabeceira da mesa, matriarca doce e distra\u00edda. Recordo as recorda\u00e7\u00f5es dela, do seu Natal de h\u00e1 quase setenta anos atr\u00e1s. Numa faia-do-norte eram pendurados postais de Natal dos anos quarenta e cinquenta, todos eles escritos com as saudades dos nossos, estampados com igrejinhas cobertas de neve ou grutas de Bel\u00e9m em noite estrelada. Laranjas e tangerinas inundavam a \u00e1rvore e o pres\u00e9pio. Era esse o cheiro a Natal em tempos de minha m\u00e3e. Hoje o Natal n\u00e3o tem cheiro. Ou tem tantos que o nosso nariz nem alcan\u00e7a. N\u00e3o havia prendas para ningu\u00e9m e, \u00e0 consoada, a canja de galinha marcava a diferen\u00e7a dos outros dias. \u00c0 porta, noitinha dentro, batiam os \u201creizes\u201d, que vinham cantar e degustar os figos passados e a aguardente que recebiam as visitas. Rezava-se. Cantava-se \u201cEntrai, pastores, entrai por esse portal sagrado\u2026\u201d<\/p>\n<p>Que m\u00fasica ficou em mim? Tenho esses tr\u00eas Natais dentro de mim. Apareceram as prendas, partiram as laranjas; apareceu o Pai Natal, partiu o Menino Jesus. O Natal \u00e9 o lugar onde n\u00e3o h\u00e1 lugar para Jesus.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 Natal. Nasceu o Deus Menino. O mundo que era grande tornou-se pequenino.\u201d Ainda n\u00e3o sei que m\u00fasica ficou em mim.<\/p>\n<p><em>Jos\u00e9 J\u00falio Rocha, Assistente diocesano da Comiss\u00e3o Justi\u00e7a e Paz e do Movimento da Mensagem de F\u00e1tima, p\u00e1roco em Porto Martins e Fonte do Bastardo (ilha Terceira) e professor de Teologia Moral no Semin\u00e1rio Episcopal de Angra<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":224585,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[789,267],"class_list":["post-224346","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional","tag-contos-de-natal","tag-natal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/224346","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=224346"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/224346\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/224585"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=224346"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=224346"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=224346"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}