{"id":22416,"date":"2012-02-21T11:29:00","date_gmt":"2012-02-21T11:29:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/02\/21\/d-manuel-falcao-40-anos-de-episcopado-em-revista-repeticao\/"},"modified":"2012-02-21T11:29:00","modified_gmt":"2012-02-21T11:29:00","slug":"d-manuel-falcao-40-anos-de-episcopado-em-revista-repeticao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/d-manuel-falcao-40-anos-de-episcopado-em-revista-repeticao\/","title":{"rendered":"D. Manuel Falc\u00e3o, 40 anos de episcopado em revista (repeti\u00e7\u00e3o)"},"content":{"rendered":"<p>No dia da sua morte, a Ag\u00eancia ECCLESIA recorda o percurso do bispo em\u00e9rito de Beja, descrito na primeira pessoa <!--more--> <\/p>\n<p>No dia 22 de janeiro de 2007, D. Manuel Falc&atilde;o celebrou 40 anos de ordena&ccedil;&atilde;o episcopal. Figura discreta, mas refer&ecirc;ncia incontorn&aacute;vel da vida da Igreja em Portugal, nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, o bispo em&eacute;rito e Beja desfia, em longa conversa com a Ag&ecirc;ncia ECCLESIA, o ros&aacute;rio das suas mem&oacute;rias.&nbsp;<\/p>\n<p> <em>Ag&ecirc;ncia ECCLESIA (AE) &ndash; Com a celebra&ccedil;&atilde;o do 40&ordm; anivers&aacute;rio da sua ordena&ccedil;&atilde;o episcopal &eacute; tempo de olhar para tr&aacute;s e recordar uma vida de doa&ccedil;&atilde;o.&nbsp;<br \/> D. Manuel Falc&atilde;o (MF) &ndash;<\/em>&nbsp;Era professor no Semin&aacute;rio dos Olivais e dedicava, muito do meu tempo, &agrave; sociologia religiosa e &agrave; constru&ccedil;&atilde;o das novas Igrejas do Patriarcado. Nesta altura, o Patriarca de ent&atilde;o indicou o meu nome para bispo auxiliar e fui eleito a 6 de dezembro de 1966 e ordenado a 22 de janeiro de 1967. Como bispo auxiliar fiquei encarregado da regi&atilde;o Oeste da diocese. Estive tamb&eacute;m encarregado da zona de Set&uacute;bal que, posteriormente, seria diocese.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Esteve tamb&eacute;m na lideran&ccedil;a da organiza&ccedil;&atilde;o pastoral do Patriarcado?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Sim. Foi decidido, pelo Patriarca e de acordo com o Conselho Presbiteral, criar as novas dioceses de Santar&eacute;m e de Set&uacute;bal. Estudei a cria&ccedil;&atilde;o das novas dioceses.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Neste passo importante houve discord&acirc;ncias?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;De modo geral, j&aacute; havia uma prepara&ccedil;&atilde;o neste sentido. Em Set&uacute;bal tivemos algumas dificuldades porque existia um projeto de ampliar mais a diocese mas o arcebispo de &Eacute;vora, D. David Sousa, n&atilde;o aceitou esse alargamento. Mesmo assim ficou uma boa diocese, pelo menos em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; vertente habitacional.&nbsp;<\/p>\n<p> <strong>Sociologia Religiosa<\/strong>&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Foi nessa altura que se viveu o per&iacute;odo &aacute;ureo de constru&ccedil;&atilde;o de novas igrejas no Patriarcado?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Exatamente. Atrav&eacute;s do estudo da sociologia religiosa, nomeadamente da pr&aacute;tica dominical, chegou-se &agrave; conclus&atilde;o que a cidade de Lisboa estava a esvaziar-se. O centro da cidade estava a perder a popula&ccedil;&atilde;o e, em simult&acirc;neo, crescia a periferia. A grande Lisboa estava a crescer rapidamente e estava desprovida de Igrejas. O trabalho mais urgente passava pela reserva de terrenos para essas igrejas. Foi o primeiro trabalho do Secretariado das Novas Igrejas que dirigi durante alguns anos.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Deu o impulso e a for&ccedil;a inicial para esta marca hist&oacute;rica?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Comecei neste trabalho antes de ser bispo auxiliar. Habitualmente, ia a S. Vicente de Fora onde estava sediado este secretariado. Era uma &aacute;rea de estudo de que gostava imenso.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Recorda epis&oacute;dios relevantes num tempo de ditadura e, talvez, cheios de dificuldade?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Existia colabora&ccedil;&atilde;o. Na divis&atilde;o territorial de Lisboa &ndash; o &uacute;nico feito em todo o pa&iacute;s &ndash; fez-se altera&ccedil;&otilde;es de forma racional. Isto foi poss&iacute;vel porque, da parte do Estado e da C&acirc;mara Municipal, houve colabora&ccedil;&atilde;o. Estive mais de um ano a estudar, nas instala&ccedil;&otilde;es da C&acirc;mara Municipal de Lisboa, a nova divis&atilde;o paroquial.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Nessa altura j&aacute; se falava na forma&ccedil;&atilde;o de novas dioceses?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Havia uma certa pretens&atilde;o das Caldas da Rainha ficar uma diocese. E outra era a divis&atilde;o da Portalegre-Castelo Branco. Castelo Branco tem mesmo uma catedral. H&aacute; quem fale tamb&eacute;m na divis&atilde;o dos A&ccedil;ores. Uma em Angra e outra em Ponta Delgada. Suponho que n&atilde;o &eacute; conveniente dividir mais porque as dioceses enfraquecem.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Apesar da forma&ccedil;&atilde;o em Engenharia adaptou-se ao estudo da realidade geogr&aacute;fica e sociol&oacute;gica?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;H&aacute; uma liga&ccedil;&atilde;o forte entre a sociologia e a matem&aacute;tica. Ali&aacute;s, a minha sociologia &eacute; mais sociografia do que sociologia. Foi mais a procura da investiga&ccedil;&atilde;o dos factos do que propriamente a an&aacute;lise sociol&oacute;gica deles.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Ainda sente saudades desses tempos de investiga&ccedil;&atilde;o sociol&oacute;gica?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Essencialmente, tenho saudades dos dois secretariados &ndash; das novas igrejas e da Informa&ccedil;&atilde;o religiosa &ndash; porque foi a&iacute; que me afirmei de forma mais clara.&nbsp;<\/p>\n<p> <strong>Comunica&ccedil;&atilde;o Social<\/strong><strong>&nbsp;<\/strong><br \/> <em>AE &ndash; Na comunica&ccedil;&atilde;o social tamb&eacute;m foi pai de alguns projetos?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Procurava recolher informa&ccedil;&otilde;es que eram enviadas para a imprensa cat&oacute;lica.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Ganhou-se um bispo e perdeu-se um jornalista?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;O &laquo;bichinho&raquo; da Comunica&ccedil;&atilde;o Social &eacute; muito antigo. Quando tinha 14 anos j&aacute; dirigia um jornal familiar &ndash; feito pelos meus irm&atilde;os e primos &ndash; intitulado &laquo;Seman&aacute;rio X&raquo;. Era feito nas f&eacute;rias porque tinha mais tempo para essas atividades.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Passava as f&eacute;rias em Lisboa?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Em Lisboa e na Figueira da Foz.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Os outros brincavam e D. Manuel Falc&atilde;o escrevia?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Redigia, passava &agrave; m&aacute;quina com duplicador. Tirava uma d&uacute;zia de exemplares para a fam&iacute;lia.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Meio caminho andado para posteriores colabora&ccedil;&otilde;es nos jornais da A&ccedil;&atilde;o Cat&oacute;lica&hellip;&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Colaborei nos jornais da JEC, JUC e no &laquo;Novidades&raquo;.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Trabalhou com muitos dos homens que est&atilde;o hoje no poder econ&oacute;mico, pol&iacute;tico e cultural?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;&Eacute; verdade. Muitos dos que est&atilde;o na &laquo;berra&raquo; foram do meu tempo e v&aacute;rios deles foram formados pela A&ccedil;&atilde;o Cat&oacute;lica.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Formados no &laquo;mundo cat&oacute;lico&raquo; mas alguns esqueceram esses ensinamentos. A semente n&atilde;o germinou?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Talvez a forma&ccedil;&atilde;o n&atilde;o tivesse sido suficientemente forte e enraizada. A evolu&ccedil;&atilde;o da sociedade tem influenciado muita gente.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Estamos na era da globaliza&ccedil;&atilde;o e das novas tecnologias. Como &eacute; a sua rela&ccedil;&atilde;o como o mundo da inform&aacute;tica?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;J&aacute; escrevia muito &agrave; m&aacute;quina por isso n&atilde;o foi dif&iacute;cil adaptar-me ao computador.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Adapta-se com facilidade a novas realidades?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Nasci em Lisboa e nela vivi at&eacute; aos quarenta e tal anos &#8211; fui transferido para Beja em 1975, em pleno &laquo;Ver&atilde;o Quente&raquo; &ndash; mas adapto-me com facilidade.&nbsp;<\/p>\n<p> <strong>Como viveu a Revolu&ccedil;&atilde;o dos Cravos<\/strong>&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Viveu o antes do 25 de Abril em Lisboa e o p&oacute;s 25 de Abril no Alentejo. Quando se deu a &laquo;Revolu&ccedil;&atilde;o dos Cravos&raquo; era bispo auxiliar de Lisboa. Tempos conturbados?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Trabalhava muito intimamente com D. Manuel Cerejeira que tinha muito medo do comunismo. E admitia que seria Salazar que defendia o pa&iacute;s do comunismo apesar de n&atilde;o concordar sempre com ele. H&aacute; uma frase do Cardeal Cerejeira &ndash; j&aacute; a referi imensas vezes &ndash; onde ele dizia que: Salazar era o homem mais orgulhoso que ele conhecia. Orgulhoso no sentido de ser muito firme nas ideias que tinha. Em simult&acirc;neo, o Cardeal Cerejeira tinha confian&ccedil;a em Salazar enquanto defensor do perigo comunista.&nbsp;<br \/> D. Manuel Cerejeira tinha quase um horror ao perigo comunista. Mais tarde, no per&iacute;odo final da sua vida quando estava na Buraca e confundia as coisas, disse-me: &ldquo;Oh Ant&oacute;nio, cuidado que v&ecirc;m ai os comunistas atrav&eacute;s do t&uacute;nel&rdquo;. Pensava que estava no Semin&aacute;rio dos Olivais que tem uma liga&ccedil;&atilde;o por t&uacute;nel entre o Pal&aacute;cio e o Semin&aacute;rio. Vivia atormentado por isso e morreu atormentado com isso.&nbsp;<\/p>\n<p> <em>AE &#8211; E depois?&nbsp;<br \/> MC &#8211;&nbsp;<\/em>Depois de resignar veio o Cardeal Ant&oacute;nio Ribeiro que foi de uma delicadeza extraordin&aacute;ria comigo. Quando o Cardeal Cerejeira resignou &ndash; eu era auxiliar dele e n&atilde;o do Patriarcado &ndash; fiquei sem posi&ccedil;&atilde;o. O Cardeal Ant&oacute;nio Ribeiro teve a delicadeza de dizer para eu continuar na mesma. Estive no Patriarcado mais dois ou tr&ecirc;s anos e depois vim para Beja.&nbsp;<\/p>\n<p> <em>AE &ndash; Estava em Lisboa quando se deu o 25 de Abril?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;N&atilde;o. Est&aacute;vamos em Assembleia Plen&aacute;ria, em F&aacute;tima. O primeiro alarme veio do D. J&uacute;lio Tavares Rebimbas. Tinha ouvido pela r&aacute;dio e transmitiu aos bispos presentes &ndash; est&aacute;vamos na paramenta&ccedil;&atilde;o &ndash; que tinha rebentado a revolu&ccedil;&atilde;o, em Lisboa. Fic&aacute;mos alarmados mas celebr&aacute;mos a missa. O Pe. Feytor Pinto que tinha uma reuni&atilde;o em F&aacute;tima &ndash; n&atilde;o p&ocirc;de vir pela estrada normal &ndash; deu-nos depois os primeiros pormenores da Revolu&ccedil;&atilde;o de abril. Os bispos interromperam a Assembleia e voltaram para as suas dioceses.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Veio tamb&eacute;m para Lisboa com o Cardeal?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Eu, os bispos auxiliares e o Cardeal. Na altura do 25 de Abril era Secret&aacute;rio da Confer&ecirc;ncia Episcopal. Tive um papel bastante ativo visto que, muitas vezes, tinha que levar, ao COPCON e a outras entidades da revolu&ccedil;&atilde;o, documentos.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Lidou diretamente com os homens da revolu&ccedil;&atilde;o?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Sim. Tinha que lidar com eles para os informar da posi&ccedil;&atilde;o dos bispos.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Estava numa situa&ccedil;&atilde;o delicada. Sentiu algum ostracismo para com a Igreja?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Assistiu-se a casos lament&aacute;veis no Patriarcado quando esteve cercado durante algumas horas. Algumas pessoas foram atingidas gravemente com pedras.&nbsp;<\/p>\n<p> <strong>Alentejo<\/strong>&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Durante esse acontecimento, o D. Manuel Falc&atilde;o estava no Patriarcado?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Nessa altura j&aacute; estava em Beja.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Em novembro de 1974 foi nomeado bispo coadjutor de Beja. Um per&iacute;odo conturbado da hist&oacute;ria. Como lidou com aquela efervesc&ecirc;ncia vivida no Alentejo?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;&Eacute; conveniente dizer que, embora o Alentejo tivesse sido trabalhado pelo comunismo, a massa da popula&ccedil;&atilde;o alentejana n&atilde;o tem mentalidade comunista. &Eacute; uma gente pac&iacute;fica e que n&atilde;o tem grandes ambi&ccedil;&otilde;es. As ocupa&ccedil;&otilde;es de terras foram feitas n&atilde;o pelos alentejanos, mas por aqueles que vinham da regi&atilde;o de Set&uacute;bal. Posteriormente, notou-se que o resultado das ocupa&ccedil;&otilde;es foi bastante negativo ou, pelo menos, n&atilde;o deu os resultados esperados. Pouco a pouco voltou tudo ao primitivo e as terras foram novamente devolvidas. Da parte das autarquias comunistas &ndash; eram a maior parte nessa altura &ndash; verifiquei que n&atilde;o queriam irritar nem hostilizar a Igreja.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Esta situa&ccedil;&atilde;o teve o seu cunho pessoal?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Sempre tive a preocupa&ccedil;&atilde;o de bom entendimento. Atualmente, ainda me dou bem com os Presidentes de C&acirc;mara comunistas. Amizades com muitos anos.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Chegou mesmo a afirmar que &laquo;o PCP deu voz ao povo&raquo;?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;O PCP teve o m&eacute;rito de dar consci&ecirc;ncia &agrave; popula&ccedil;&atilde;o alentejana.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; N&atilde;o sofreu com a &laquo;pacatez&raquo; desta zona de Portugal visto que era um citadino de gema?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Adapto-me facilmente aos ambientes.&nbsp;<\/p>\n<p> <strong>Miss&otilde;es Populares<\/strong>&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Com v&aacute;rias d&eacute;cadas no Alentejo deixou marcas no povo e tamb&eacute;m no territ&oacute;rio?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;O trabalho principal passou pela tentativa de evangelizar o Alentejo atrav&eacute;s das miss&otilde;es populares. Recorrendo sobretudo &agrave;s congrega&ccedil;&otilde;es religiosas com mais voca&ccedil;&atilde;o nesta &aacute;rea: Vicentinos e Redentoristas. Prestaram uma grande colabora&ccedil;&atilde;o &agrave; diocese.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; A descoberta de novas voca&ccedil;&otilde;es era algo priorit&aacute;rio?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Durante muitos anos, o Alentejo viveu com voca&ccedil;&otilde;es da zona beir&atilde; (Beira Baixa). Os padres de Beja iam recrutar mi&uacute;dos nas escolas prim&aacute;rias da Cova da Beira. Depois deixou de ser vi&aacute;vel porque as fam&iacute;lias preferiam que os mi&uacute;dos ficassem nas suas terras. Entretanto foram surgindo algumas voca&ccedil;&otilde;es alentejanas e os padres mais recentes s&atilde;o todos do Alentejo.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Se em Lisboa esteve empenhado na constru&ccedil;&atilde;o das novas igrejas, no Alentejo o primeiro an&uacute;ncio evangelizador ganhou preponder&acirc;ncia?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Ainda se fizeram tamb&eacute;m uma d&uacute;zia de capelas. Os alentejanos, mesmo quando n&atilde;o praticam, t&ecirc;m uma certa vaidade na sua Igreja ou capela. N&atilde;o h&aacute;, mesmo pequeno que seja, que n&atilde;o queira ter a sua capela. &Eacute; um sinal de dignidade. O alentejano, mesmo quando n&atilde;o vai &agrave; missa ao domingo, tem o sentido do religioso e at&eacute; reza.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; &Eacute; a religiosidade popular. Cada profissional tem o seu santo protetor, como &eacute; caso dos mineiros com a devo&ccedil;&atilde;o a Santa B&aacute;rbara?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Santa B&aacute;rbara &eacute; a padroeira dos mineiros e dos construtores do Porto de Sines. Fui l&aacute;, v&aacute;rias vezes, celebrar a Eucaristia. Este porto foi constru&iacute;do com o material extra&iacute;do das minas dos arredores de Sines.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Sentiu dificuldades em pastorear uma diocese territorialmente grande?&nbsp;<br \/> MF &ndash;&nbsp;<\/em>Beja &eacute; a maior de todas em &aacute;rea mas n&atilde;o &eacute; a mais populosa. A cidade de Beja est&aacute; muito bem situada geograficamente. Com menos de 100 quil&oacute;metros chega-se a Espanha ou ao mar.&nbsp;<\/p>\n<p> <strong>Um Alentejo diferente<\/strong>&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Existem v&aacute;rias assimetrias na sua diocese?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;O Alentejo n&atilde;o &eacute; &uacute;nico (mar&iacute;timo, Alto e Baixo Alentejo). Por exemplo, o &laquo;cante&raquo; alentejano &eacute; uma caracter&iacute;stica do Baixo Alentejo. O Alto Alentejo n&atilde;o tem este tipo de cantar.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; O seu pedido de resigna&ccedil;&atilde;o foi aceite por Jo&atilde;o Paulo II em 1999, mas quis ficar no Alentejo que o acolheu&hellip;&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Nessa altura colocou-se-me um problema: ou vou para casa dos meus irm&atilde;os ou fico em Beja. Optei por ficar em Beja porque Lisboa j&aacute; &eacute; complicada para mim. Beja &eacute; mais sossegada.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; E convida &agrave; reflex&atilde;o para os seus escritos e, quem sabe, as suas mem&oacute;rias?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;J&aacute; me incentivaram a escrev&ecirc;-las mas, naturalmente, n&atilde;o irei faz&ecirc;-lo.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Com tanto para contar n&atilde;o gostaria de deixar esse registo para a posteridade?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;N&atilde;o penso nisso&#8230; (risos). Quando acabar, acabou-se. H&aacute; coisas mais importantes.&nbsp;<\/p>\n<p> <strong>O Alqueva<\/strong>&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Com o surgimento do maior lago artificial da Europa, a Barragem do Alqueva, o Alentejo sofrer&aacute; altera&ccedil;&otilde;es significativas?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;O Alqueva est&aacute; a evoluir para aquilo que, inicialmente, se pensava. Tornar o Alentejo mais regadio. Por outro lado, notamos que ele est&aacute; a desenvolver o turismo. Verifica-se tamb&eacute;m que o Litoral tem grandes possibilidades de desenvolvimento, como &eacute; o caso de Sines. Agora, com as comunica&ccedil;&otilde;es mais f&aacute;ceis para a Espanha, esta cidade do litoral ir&aacute; desenvolver-se bastante. A diocese tem ainda outro polo de desenvolvimento, a Base A&eacute;rea de Beja.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Vivia preocupado com o seu rebanho e chegou mesmo a escrever a Jacques Santer, sobre as quest&otilde;es do Alqueva?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Tive essa ousadia mas n&atilde;o sei se teve algum resultado.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; As autarquias locais dialogavam consigo para tomar algumas posi&ccedil;&otilde;es?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Convers&aacute;vamos muito. Os autarcas estavam presentes, quase sempre, nas visitas pastorais. Estabeleceram-se boas rela&ccedil;&otilde;es entre as Autarquias e a Igreja.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Ent&atilde;o existe sintonia entre o poder local e a Igreja?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Neste momento n&atilde;o h&aacute; dificuldade nenhuma.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Mas nem sempre foi assim?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;O meu antecessor, D. Manuel Santos Rocha, com que eu trabalhei quatro ou cinco anos, era um homem bastante reservado. N&atilde;o aparecia muito nem falava muito. Por isso, as rela&ccedil;&otilde;es com as autarquias eram escassas. Comigo, as coisas alteraram-se. Sou mais dado e mais aberto.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Esse di&aacute;logo deixou marcas?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Nas visitas pastorais ia a todos os lados (Igreja, Escolas, Juntas de Freguesia, Casas do Povo, Clubes Desportivos). O conv&iacute;vio era f&aacute;cil.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; A abertura da Universidade em Beja ajudou a estancar a sangria populacional na regi&atilde;o?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Abriu a Universidade Moderna mas est&aacute; em crise. O que est&aacute; em desenvolvimento &eacute; o Polit&eacute;cnico.&nbsp;<\/p>\n<p> <strong>Cativar os jovens<\/strong>&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; O que falta ao Alentejo para cativar os jovens?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Falta confian&ccedil;a no futuro. Se as fam&iacute;lias forem fecundas haver&aacute; futuro para o Alentejo. Se isto n&atilde;o acontecer, o Alentejo morre.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Nestes quarenta anos como bispo fez parte tamb&eacute;m de v&aacute;rias comiss&otilde;es na Confer&ecirc;ncia Episcopal Portuguesa (CEP)?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Durante muitos anos fui secret&aacute;rio da CEP. Estive no setor das Comunica&ccedil;&otilde;es Sociais, do Laicado e dos Religiosos.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Temos um referendo sobre o aborto &agrave; porta, o que falta aos portugueses para valorizarem as quest&otilde;es da vida?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Neste momento o que est&aacute; a falhar &eacute; o lan&ccedil;amento do laicado na vida da Igreja. Tivemos um laicado forte no tempo da A&ccedil;&atilde;o Cat&oacute;lica (anos 40 e 50). Depois do Conc&iacute;lio notou-se uma regress&atilde;o e neste momento parece-me que est&aacute; bastante parado, embora haja alguns movimentos com alguma din&acirc;mica. Mesmo estes, est&atilde;o mais interessados na espiritualidade pessoal dos seus filiados do que, propriamente, no apostolado.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Grupos dentro do grupo enorme que &eacute; a Igreja?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Exato. Tenho pena que n&atilde;o haja tamb&eacute;m mais ardor mission&aacute;rio. Portugal foi um pa&iacute;s que missionou v&aacute;rios continentes e, neste momento, quase n&atilde;o tem mission&aacute;rios.&nbsp;<\/p>\n<p> <strong>Din&acirc;mica conciliar<\/strong>&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Com mais de quarenta anos, o II Conc&iacute;lio do Vaticano ainda n&atilde;o chegou a todos os cantos da Igreja?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Tem quarenta anos mas continua atual. Acontece que, a maior parte dos padres atuais n&atilde;o o viveram como eu vivi.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Ainda se recorda desses tempos e de toda a din&acirc;mica conciliar?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Ia a Roma todos os anos &ndash; embora n&atilde;o fosse bispo ainda &ndash; para recolher elementos e entrevistar bispos para dar informa&ccedil;&atilde;o no Boletim de Informa&ccedil;&atilde;o Pastoral (BIP), &oacute;rg&atilde;o do Secretariado de Informa&ccedil;&atilde;o Religiosa. Entrevistei todos os bispos portugueses e alguns estrangeiros.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Atualmente, como bispo em&eacute;rito de Beja tem mais tempo para colocar os estudos em dia?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;N&atilde;o leio muitos romances. Prefiro revistas, livros de Espiritualidade e Documentos da Santa S&eacute;.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Livros que serviram de base para escrever a Enciclop&eacute;dia Cat&oacute;lica?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;Foram uma boa ajuda. Penso que foi um trabalho razo&aacute;vel porque tenho tido refer&ecirc;ncias positivas. Acho que tem sido bastante visitada no site da ECCLESIA.&nbsp;<br \/> <em>AE &ndash; Como homem da Comunica&ccedil;&atilde;o Social gostaria de deixar apelos aos profissionais desta &aacute;rea?&nbsp;<br \/> MF &ndash;<\/em>&nbsp;A comunica&ccedil;&atilde;o social, sobretudo aquela que est&aacute; nas m&atilde;os da Igreja, tem um papel cada vez mais importante porque &eacute; atrav&eacute;s dela que a mensagem de Evangelho se difunde. Nesta &eacute;poca, onde a pr&aacute;tica dominical e a presen&ccedil;a das pessoas na igreja vai diminuindo, &eacute; fundamental que a Comunica&ccedil;&atilde;o Social leve esta mensagem a todos. Assim, o Evangelho mant&eacute;m-se vivo.&nbsp;<\/p>\n<p> <em>Entrevista conduzida por Luis Filipe Santos, 22.01.2007<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia da sua morte, a Ag\u00eancia ECCLESIA recorda o percurso do bispo em\u00e9rito de Beja, descrito na primeira pessoa<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[92,93,169,171,179,187,199,203,290,292,320,325],"class_list":["post-22416","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas","tag-25-de-abril","tag-aborto","tag-diocese-de-angra","tag-diocese-de-beja","tag-diocese-de-portalegre-castelo-branco","tag-diocese-do-porto","tag-espiritualidade","tag-europa","tag-redentoristas","tag-religiosidade-popular","tag-turismo","tag-vicentinos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22416","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22416"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22416\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22416"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22416"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22416"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}