{"id":224146,"date":"2021-12-15T10:05:10","date_gmt":"2021-12-15T10:05:10","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=224146"},"modified":"2021-12-15T10:05:10","modified_gmt":"2021-12-15T10:05:10","slug":"saber-aprender-a-vacinar-contra-a-pandemia-silenciosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-vacinar-contra-a-pandemia-silenciosa\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A vacinar contra a pandemia silenciosa"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>A\u00efcha \u00e9 uma francesa mu\u00e7ulmana que leu na internet que a vacina contra a Covid continha \u201cprodutos su\u00ednos\u201d e decidiu n\u00e3o vacinar-se por esse motivo. Como precisava de um certificado de vacina\u00e7\u00e3o soube que o podia obter por 200 euros. Mais tarde, contraiu a doen\u00e7a e como dispunha de um certificado de vacina\u00e7\u00e3o, os m\u00e9dicos aplicaram procedimentos de acordo com o protocolo adequado para quem estava vacinada, logo, sem saberem, desadequado para A\u00efcha. Ela acabou por falecer de uma pandemia, mas n\u00e3o a da Covid. Morreu da pandemia silenciosa da desinforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_224147\" aria-describedby=\"caption-attachment-224147\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Desinformacao.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-224147\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Desinformacao.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Desinformacao.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Desinformacao-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Desinformacao-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Desinformacao-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Desinformacao-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Desinformacao-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Desinformacao-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Desinformacao-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-224147\" class=\"wp-caption-text\">Foto de ThisisEngineering RAEng em Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>A desinforma\u00e7\u00e3o espalha-se mais rapidamente do que um v\u00edrus e, como o caso acima exemplifica, pode levar \u00e0 morte das pessoas. A forma de travar esta pandemia silenciosa est\u00e1 no desenvolvimento do pensamento cr\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o ao que lemos ou ouvimos. Por isso, uma das frentes de combate \u00e0 pandemia da desinforma\u00e7\u00e3o tem sido fortalecer a confian\u00e7a na ci\u00eancia e nos cientistas, que devem comunicar cada vez mais e melhor o modo de compreender as coisas com met\u00e1foras simples e pr\u00f3ximas da vida das pessoas. Mas a nuance da experi\u00eancia acima est\u00e1 na influ\u00eancia que os preceitos religiosos podem ter sobre o pensamento cr\u00edtico das pessoas.<\/p>\n<p>No caso crist\u00e3o, muitas pessoas argumentaram que a vacina da covid continha c\u00e9lulas de fetos abortados. Ser\u00e1 verdade? No final de Agosto de 2021, um <a href=\"https:\/\/www.nebraskamed.com\/COVID\/you-asked-we-answered-do-the-covid-19-vaccines-contain-aborted-fetal-cells\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">artigo<\/a>; do <em>Nebraska Medicine<\/em> esclarece que n\u00e3o, mas explica a origem dessa ideia. H\u00e1 50 anos foram criadas linhas de c\u00e9lulas com base em fetos abortados que t\u00eam alimentado a investiga\u00e7\u00e3o e desenvolvimento de diversos medicamentos, incluindo vacinas. Ou seja, as c\u00e9lulas usadas no desenvolvimento destas vacinas s\u00e3o descendentes dessas originais, mas n\u00e3o s\u00e3o c\u00e9lulas provenientes directamente de fetos abortados. \u00c9 como se tivessem usado c\u00e9lulas estaminais do meu av\u00f4 h\u00e1 50 anos para desenvolver culturas de c\u00e9lulas que hoje s\u00e3o usadas para investiga\u00e7\u00e3o. Quanto do meu av\u00f4 existe nessas c\u00e9lulas hoje? Nada. Por essa raz\u00e3o, a pr\u00f3pria Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9 afirma em <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/roman_curia\/congregations\/cfaith\/documents\/rc_con_cfaith_doc_20201221_nota-vaccini-anticovid_po.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">comunicado<\/a>; que<\/p>\n<blockquote><p>\u00abA raz\u00e3o fundamental para considerar moralmente l\u00edcito o uso destas vacinas \u00e9 que o tipo de coopera\u00e7\u00e3o para o mal (coopera\u00e7\u00e3o material passiva) do aborto provocado do qual derivam as mesmas linhas celulares, por parte de quem utiliza as resultantes vacinas, \u00e9 remota . O dever moral de evitar esta coopera\u00e7\u00e3o material passiva n\u00e3o \u00e9 vinculativo, se houver um perigo grave como a propaga\u00e7\u00e3o, de outro modo incontorn\u00e1vel, de um grave agente patog\u00e9nico: em tal caso, a difus\u00e3o pand\u00e9mica do v\u00edrus SARS-Cov-2 que causa a Covid-19. Portanto, considere-se que neste caso podem ser utilizadas todas as vacinas reconhecidas como clinicamente seguras e eficazes, com a consci\u00eancia certa de que o recurso a tais vacinas n\u00e3o significa uma coopera\u00e7\u00e3o formal para o aborto do qual derivam as c\u00e9lulas com que as vacinas foram produzidas.\u00bb<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o se pode confundir pensamento cr\u00edtico com ser contra o pensamento do outro. O facto de acreditarmos naquilo que nos dizem ou lemos pode depender do modo como nos \u00e9 dito ou est\u00e1 escrito.<\/p>\n<p>Em 1999, Rolf Reber e Norbert Schwarz da Universidade de Michigan publicaram um <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1006\/ccog.1999.0386\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">estudo<\/a>; que analisava os efeitos da flu\u00eancia perceptiva nos ju\u00edzos que as pessoas fazem daquilo que \u00e9 verdadeiro ou n\u00e3o. Conclu\u00edram que se a verdade for apresentada com cores mais vivas, ou de um modo mais aud\u00edvel, o seu acolhimento aumenta. N\u00e3o chega a uma pessoa que lhe digam o que \u00e9 a verdade, importa tamb\u00e9m o tempo e a facilidade com que processa o que lhe dizem ou l\u00ea. Ora, como nas redes sociais a propaga\u00e7\u00e3o de videos, imagens e frases feitas \u00e9 extremamente f\u00e1cil, n\u00e3o tendo qualquer fric\u00e7\u00e3o, a \u201cverdade\u201d aceite corresponde \u00e0 que d\u00e1 menos trabalho a processar quando confrontada com o que acreditamos.<\/p>\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o torna o combate ao v\u00edrus da desinforma\u00e7\u00e3o dependente dos comunicadores mais aptos. \u00c9 nesse aspecto que os cientistas precisam muito de melhorar. Mas seria injusto se n\u00e3o coloc\u00e1ssemos o \u00f3nus desta pandemia silenciosa tamb\u00e9m em quem escuta. H\u00e1 uma grande diferen\u00e7a entre ser c\u00e9ptico e ter um pensamento cr\u00edtico, sendo o \u00faltimo uma parte intr\u00ednseca a um acto de intelec\u00e7\u00e3o. O que \u00e9 um acto intelectivo, isto \u00e9, de quem pensa bem sobre as coisas para as compreender profundamente? O te\u00f3logo jesu\u00edta Bernard Lonergan dividiu este acto intelectivo em quatro fases.<\/p>\n<p>A primeira corresponde a fazermos uma <em>experi\u00eancia<\/em>. Pode ser escutar a ideia de algu\u00e9m, ler alguma coisa na internet, ou participar de algo em primeira pessoa. E a \u00faltima fase \u00e9 o <em>ju\u00edzo<\/em>. A raz\u00e3o de ter referido a \u00faltima em vez das interm\u00e9dias \u00e9 porque muitas pessoas, como aquela senhora mu\u00e7ulmana, passam da experi\u00eancia ao ju\u00edzo sem passar pelas fases interm\u00e9dias e, por isso, podem pagar caro por esse salto, inclu\u00eddo \u2014 como aconteceu \u2014 com a pr\u00f3pria vida. As fases interm\u00e9dias correspondem ao pensamento cr\u00edtico. A segunda fase \u00e9 a da compreens\u00e3o, isto \u00e9, compreender bem a experi\u00eancia feita observando o maior n\u00famero de detalhes poss\u00edvel e confrontando a compreens\u00e3o desses detalhes com experi\u00eancias passadas, nossas ou de outros. E a terceira fase \u00e9 a da <em>cr\u00edtica<\/em> propriamente dita, onde procuramos fazer um contraponto relativo \u00e0s nossas convic\u00e7\u00f5es e compreens\u00e3o, de modo a consolidar o que compreendemos sobre a experi\u00eancia que fizemos.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o pela qual esta pandemia silenciosa da desinforma\u00e7\u00e3o \u00e9 dos maiores perigos enfrentados pela humanidade e dos menos considerados na vida quotidiana est\u00e1 na enorme distor\u00e7\u00e3o da realidade que gera \u00e0 nossa volta, de tal modo que deixamos de saber em que\/quem acreditar. Por vezes, at\u00e9 s\u00e3o pessoas da nossa confian\u00e7a que desafiam aquilo em que acreditamos e isso pode deixar-nos muito confusos. Podemos chegar ao ponto em que deixamos de saber em que acreditar ou como orientar a nossa vida.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o do pensamento cr\u00edtico como vacina para combater o v\u00edrus da desinforma\u00e7\u00e3o \u00e9 uma onda cultural contra-a-corrente da Grande Acelera\u00e7\u00e3o, ou seja, da elevada velocidade com que consumimos informa\u00e7\u00e3o e natural incapacidade de a processar convenientemente. N\u00e3o precisamos de aumentar (nem artificialmente) a nossa capacidade cognitiva de processar informa\u00e7\u00e3o. Pois, processar informa\u00e7\u00e3o permite criar rela\u00e7\u00f5es entre as coisas, mas n\u00e3o gera, necessariamente, uma compreens\u00e3o correcta das mesmas. A compreens\u00e3o induzida pelo pensamento cr\u00edtico leva tempo. N\u00e3o tenhamos medo de perder tempo a perceber as coisas confrontando-as com os outros, incluindo (e sobretudo) com os que acreditam em vis\u00f5es do mundo (inclu\u00edndo espirituais) diferentes da nossa. Dessa diversidade vir\u00e1 a unidade do conhecimento e a verdade.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n<p>;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-224146","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/224146","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=224146"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/224146\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=224146"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=224146"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=224146"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}