{"id":22386,"date":"2007-01-19T15:47:37","date_gmt":"2007-01-19T15:47:37","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/01\/19\/um-programa-eclesialmente-incorrecto-2\/"},"modified":"2019-09-19T17:00:43","modified_gmt":"2019-09-19T16:00:43","slug":"um-programa-eclesialmente-incorrecto-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/um-programa-eclesialmente-incorrecto-2\/","title":{"rendered":"Um programa eclesialmente (in)correcto?"},"content":{"rendered":"<p>Come\u00e7o esta mem\u00f3ria por um quase caso de atentado de que fui alvo quando residia na Rua da Bela Vista, em Lisboa, nos anos oitenta.<\/p>\n<p>A proximidade de uma escola prim\u00e1ria mantinha na rua muitos mi\u00fados que um dia descobriram que eu era um dos autores do programa \u201c70 x 7\u201d. E n\u00e3o foram simp\u00e1ticas as palavras que ouvi ent\u00e3o: \u201cEste, das barbas, \u00e9 um dos que nos tiram os desenhos animados para por l\u00e1 aquelas coisas das missas&#8230;\u201d E mais prometeram um apedrejamento se a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o mudasse! Tratou-se, \u00e9 evidente, de um conflito infantil, sem consequ\u00eancias, a incomodar, por raz\u00f5es \u00f3bvias, um universo especial.<\/p>\n<p>Apraz-me registar oportunamente o cuidado da RTP em colocar no primeiro canal, o programa num hor\u00e1rio favor\u00e1vel para as fam\u00edlias que se reuniam para o almo\u00e7o. N\u00e3o esque\u00e7o aquele funcion\u00e1rio banc\u00e1rio que um dia me disse que se fartava de me convidar atrav\u00e9s do \u00e9cran para me sentar \u00e0 mesa com eles e que nunca lhes dei esse prazer&#8230;<\/p>\n<p>Afectos \u00e0 parte, o programa tinha na sua g\u00e9nese, a inquieta\u00e7\u00e3o dos dias da hist\u00f3ria que viv\u00edamos, do quotidiano por onde pulsava a vida das gentes, que \u00e9 como quem diz da Igreja e mais do Evangelho que era a sua verdadeira chancela. Nada nos era estranho mesmo que surpreend\u00eassemos os mais pusil\u00e2nimes.<\/p>\n<p>O pa\u00eds, ainda atordoado pela revolu\u00e7\u00e3o, tinha reconquistado a liberdade e um lugar com mais sol no jardim. A Igreja pouco afeita \u00e0 vertigem da velocidade, trope\u00e7ava por vezes nos passos excessivamente medidos. O programa assumia o risco de tocar algumas vezes o intang\u00edvel, e por isso eclesialmente incorrecto. Mas tamb\u00e9m tenho atravessada aquela reportagem, jamais realizada, com os \u00fanicos padres oper\u00e1rios portugueses&#8230; Era o andar que fazia caminho, em expresso na \u201ccabe\u00e7a\u201d do programa que deixou preocupa\u00e7\u00f5es de car\u00e1cter ideol\u00f3gico no pensamento de alguns. \u00c9 verdade que eram muitos os espectadores que sociologicamente n\u00e3o pertenciam ao rebanho. Mas esses eram os nossos predilectos. N\u00f3s n\u00e3o est\u00e1vamos no p\u00falpito nem no templo. N\u00f3s vest\u00edamos mangas curtas ou camisolas enroladas e fal\u00e1vamos no la-meiro, da terra queimada, do azedume do trabalho, da trag\u00e9dia da fome, das perturba\u00e7\u00f5es do sil\u00eancio. Compet\u00edamos com a linguagem da caixa que mudou o mundo. E fomos, porventura, mais longe, ao introduzirmos, no meio \u201csacral\u201d da TV as altas refer\u00eancias simb\u00f3licas do cristianismo.<\/p>\n<p>O mais representativo feed-back dos 400 programas que fiz durante a d\u00e9cada de oitenta em que estive na realiza\u00e7\u00e3o do \u201c70 x 7\u201d, foi a imprensa, sobretudo a laica, que mais reflectiu no que acontecia de novo no programa. M\u00e1rio Castrim, o indefect\u00edvel cr\u00edtico do Di\u00e1rio de Lisboa, n\u00e3o deixava de se referir \u00e0s surpresas que chegavam via Igreja Cat\u00f3lica&#8230;<\/p>\n<p>A longevidade do programa deve-se, diga-se em abono da verdade, \u00e0 tenacidade de uma equipa que se desmultiplicou em esfor\u00e7os e em alguns casos para al\u00e9m do que \u00e9 consentido \u00e0 for\u00e7a humana. Apesar da generosa operacionalidade da equipa, por vezes \u00e0 procura (como os realizadores) do melhor momento criativo, foram muitas as noites e os dias contados, de norte a sul do pa\u00eds, incluindo todas as ilhas, que ensoparam a camisola que, com profissionalismo, t\u00ednhamos todos vestido. E aqui o vil metal estava longe de pagar o que jamais teve pre\u00e7o &#8211; a criatividade.<\/p>\n<p>O advento das televis\u00f5es privadas e sobretudo esse pecado mortal da televis\u00e3o da Igreja, veio perturbar o percurso do programa, entretanto a competir com outros tempos de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o religiosa. A coloca\u00e7\u00e3o sem piedade, no segundo canal, (impossibilitando a sua chegada ao universo da emigra\u00e7\u00e3o portuguesa) foi outra machadada nas ambi\u00e7\u00f5es do programa, ent\u00e3o nas m\u00e3os generosas quase exclusivas de leigos. Seria, porventura, necess\u00e1rio um maior arsenal de artilharia para o combate dos sat\u00e9lites&#8230;<\/p>\n<p>Hoje, entregue a din\u00e2micas religiosas, aparentemente mais preocupadas com o lucro financeiro que o servi\u00e7o \u00e0s comunidades e pessoas que se interessam pelo transcendente, o programa corre o risco de n\u00e3o acender nenhuma lareira, salvaguardado o profissionalismo dos jornalistas que, semanalmente, o p\u00f5em ainda no ar, nesse lugar de degredo (09,30) que \u00e9 a hora do sono dos espectadores, sobretudo dos meios urbanos. Se a hierarquia n\u00e3o me mereceu qualquer refer\u00eancia neste texto \u00e9 porque pecou por omiss\u00e3o. Se \u00e9 verdade que n\u00e3o impediu a liberdade &#8211; esse valor cada vez mais em causa nos dias que correm \u2013 n\u00e3o amou de cora\u00e7\u00e3o o lugar mais decisivo para as tarefas da humaniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Manuel Vilas-Boas, Ex-realizador do \u201c70&#215;7\u201d<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Come\u00e7o esta mem\u00f3ria por um quase caso de atentado de que fui alvo quando residia na Rua da Bela Vista, em Lisboa, nos anos oitenta. A proximidade de uma escola prim\u00e1ria mantinha na rua muitos mi\u00fados que um dia descobriram que eu era um dos autores do programa \u201c70 x 7\u201d. 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