{"id":223663,"date":"2021-12-08T18:49:31","date_gmt":"2021-12-08T18:49:31","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=223663"},"modified":"2021-12-08T19:00:01","modified_gmt":"2021-12-08T19:00:01","slug":"saber-aprender-a-procurar-deus-com-os-ateus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-procurar-deus-com-os-ateus\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A procurar Deus com os ateus"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>O ate\u00edsmo n\u00e3o pode ser um mal. Se pensar no mal, penso no dem\u00f3nio, e n\u00e3o tenho d\u00favidas de que esse acredita em Deus. Mas n\u00e3o deixa de ser curioso que a conhecida Universidade de Harvard tenha no final de agosto de 2021 escolhido um \u201cateu devoto\u201d como respons\u00e1vel dos capel\u00e3es das comunidades crist\u00e3s, judaicas, hindus e muitas outras. As raz\u00f5es para esta escolha ligam-se \u00e0 necessidade de uma resposta ao crescente n\u00famero de jovens que n\u00e3o se identifica com qualquer tradi\u00e7\u00e3o religiosa. Ser\u00e1, por isso, a aus\u00eancia de religi\u00e3o o que responde ao desejo de uma vida profunda como manifesta\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o espiritual do ser humano?<\/p>\n<figure id=\"attachment_223665\" aria-describedby=\"caption-attachment-223665\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Procurar.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-223665\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Procurar.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1001\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Procurar.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Procurar-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Procurar-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Procurar-768x513.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Procurar-1080x721.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Procurar-1280x854.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Procurar-980x654.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Procurar-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-223665\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Chase Clark em Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>Uma ateu devoto \u00e9 um humanista que procura o bem em cada pessoa e uma vida \u00e9tica em respostas que n\u00e3o encontra em Deus, mas uns nos outros. Por\u00e9m, o ate\u00edsmo de Greg Epstein tem gerado linhas de comunica\u00e7\u00e3o entre f\u00e9s diferentes, contrariando uma cultura de guerra poss\u00edvel entre experi\u00eancias religiosas. Ele assenta a sua ac\u00e7\u00e3o num di\u00e1logo que vive no desconforto da exig\u00eancia de colabora\u00e7\u00e3o na diferen\u00e7a, em vez do maior conforto gerado pelos ambientes onde estamos todos de acordo. Como diz um estudante de Harvard \u2014 <em>\u00aba lideran\u00e7a de Greg n\u00e3o se deve \u00e0 teologia. Deve-se \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o entre pessoas com f\u00e9s diferentes e juntar pessoas que n\u00e3o se consideram, habitualmente, como religiosas.\u00bb<\/em> Mas, como <a href=\"https:\/\/nypost.com\/2021\/08\/31\/catholic-bishop-harvard-jumped-the-shark-with-atheist-chaplain\/\">disse<\/a>; o bispo americano Robert Barron, se a \u201ccapelania\u201d que coordena os l\u00edderes religiosos das comunidades universit\u00e1rias n\u00e3o tem qualquer religi\u00e3o, n\u00e3o ser\u00e1 isso um sinal de que a religi\u00e3o n\u00e3o tem significado algum?<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, esta decis\u00e3o da Universidade de Harvard indica que n\u00e3o importa em que \u00e9 que acreditamos, desde que sejamos boas pessoas. A religi\u00e3o no contexto desta capelania ate\u00edsta considera que o religioso prefere o sentimento de absoluta depend\u00eancia a uma determinada estrutura da f\u00e9, ao que Schleiermacher designou como um <em>\u00absentido e gosto pelo infinito\u00bb<\/em>, e ao que Hegel replicou com \u2014 <em>\u00abSe Schleiermacher estiver correcto, ent\u00e3o, o meu c\u00e3o \u00e9 o perfeito Crist\u00e3o!\u00bb<\/em> E este acaba por ser o que resultaria em situa\u00e7\u00f5es como a deste capel\u00e3o ateu, onde n\u00e3o interessa crer em Deus para se ser \u201creligioso\u201d. Segundo o bispo Barron n\u00e3o faz sentido haver religi\u00e3o sem crer na exist\u00eancia de Deus, seja que conceito for mediante a diversidade de experi\u00eancias religiosas, mas designar como capel\u00e3o algu\u00e9m que n\u00e3o acredita em Deus \u00e9 sinal de falta de respeito pr\u00f3prio pela experi\u00eancia religiosa, e demonstra\u00e7\u00e3o de alguma vergonha do valor da pr\u00f3pria religi\u00e3o para a vida profunda, de tal modo que a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o para nos entendermos \u00e9 escolher algu\u00e9m que n\u00e3o partilha de qualquer religi\u00e3o.<\/p>\n<p>Com os crescentes esc\u00e2ndalos na Igreja Cat\u00f3lica, e as vis\u00f5es prescritivas da experi\u00eancia religiosa em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 experi\u00eancia humana de muitas pessoas, \u00e9 natural que situa\u00e7\u00f5es como esta possam acontecer e deixar-nos perplexos. Ou at\u00e9 nos levam a concordar em nome de uma vis\u00e3o da f\u00e9 mais aberta aos outros, sobretudo aqueles que n\u00e3o cr\u00eaem em Deus, de tal modo que: talvez fosse bom encontrar ateus para outros cargos \u201creligiosos\u201d, uma vez que n\u00e3o est\u00e3o limitados pela imposi\u00e7\u00e3o das doutrinas religiosas, quem sabe, evitando o escamotear de situa\u00e7\u00f5es como os abusos de poder, etc. Quer isto dizer que a religi\u00e3o \u00e9 um mal? Ou que o \u201creligar\u201d do ser humano a Deus que est\u00e1 na g\u00e9nese da palavra religi\u00e3o seria melhor se se \u201cdesligar\u201d?<\/p>\n<p>O ate\u00edsmo n\u00e3o \u00e9 um perigo para a religi\u00e3o, mas antes o <em>indiferentismo<\/em>. Muitas vezes confunde-se a diversidade de experi\u00eancias religiosas com a confus\u00e3o mental de n\u00e3o sabermos quem \u00e9 o verdadeiro Deus. Se a Realidade \u00e9 uma s\u00f3, e Deus \u201ca\u201d Realidade \u00daltima que d\u00e1 sentido e significado a toda e qualquer exist\u00eancia, por que raz\u00e3o n\u00e3o existe uma s\u00f3 Religi\u00e3o? Eu compreendo as reservas do bispo Barron, e compreendo a decis\u00e3o dos capel\u00e3es de Harvard ao reconhecer no ateu algu\u00e9m que os pode ligar, mas no meio de todo este rebuli\u00e7o algu\u00e9m se questiona o que Deus quer dizer-nos com tudo isto?<\/p>\n<p>O desafio que o ateu representa para o crente \u00e9 o de que talvez o crente pense menos em Deus do que poderia e, na pr\u00e1tica, arrisca-se a que a sua f\u00e9 religiosa num mundo pleno de tantas coisas atractivas se torne superficial. O di\u00e1logo entre as religi\u00f5es \u00e9 uma enorme fonte de riqueza para a descoberta da pr\u00f3pria religi\u00e3o. No caso crist\u00e3o que conhe\u00e7o melhor, corresponde ao que chamamos de <em>sementes do Verbo<\/em> atrav\u00e9s das quais Deus caminha connosco das formas mais criativas, acompanhando a hist\u00f3ria cultural multifacetada da humanidade .<\/p>\n<p>A tend\u00eancia para o desligar da experi\u00eancia religiosa est\u00e1 na sua superficialidade quando restrita a prescri\u00e7\u00f5es em nome de uma doutrina incapaz de continuar o seu caminho de profundidade a par com a evolu\u00e7\u00e3o dos tempos. A exist\u00eancia de Deus \u00e9 um pressuposto de muitas religi\u00f5es e, talvez por isso, se tenha tornado uma experi\u00eancia mais intelectual do que incarnada na vida quotidiana onde as dores se misturam com os significados.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m eu pensava que Deus era um pressuposto da minha cren\u00e7a n\u2019Ele at\u00e9 explorar a f\u00e9 como a busca de uma vida profunda em Deus atrav\u00e9s das d\u00favidas. Isto \u00e9, das incompreens\u00f5es de determinadas coisas acontecerem e outras n\u00e3o, do desconforto gerado pela diferen\u00e7a de experi\u00eancias de vida e de religi\u00e3o do outro, ou dos sofrimentos para os quais \u00e9-me dif\u00edcil encontrar outro consolo sen\u00e3o chorar com quem chora e cantar o sil\u00eancio orante de quem espera em Deus a convers\u00e3o da dor em amor.<\/p>\n<p>As experi\u00eancias de Deus que levam muitas pessoas a desconsiderar a religi\u00e3o s\u00e3o, frequentemente, as do sentimento de um certo abandono da parte de Deus. Pedimos e n\u00e3o recebemos, mas ser\u00e1 que ponderamos que o nosso pedido n\u00e3o seria o melhor para n\u00f3s? Ou ser\u00e1 que colocar as coisas desta maneira \u00e9 dar uma desculpa para a incompreens\u00e3o que fazemos do modo como Deus age? O ate\u00edsmo \u00e9 a demonstra\u00e7\u00e3o que eu sempre precisei da exist\u00eancia de Deus por acreditar que Ele nos fez realmente livres. Por isso, se n\u00e3o houvesse quem n\u00e3o acreditasse na Sua exist\u00eancia, a minha cren\u00e7a em Deus seria posta em causa. Por outro lado, dado que Deus \u00e9 um Mist\u00e9rio insond\u00e1vel, e a vida faz-se de coisas cada vez mais concretas, a experi\u00eancia religiosa tem outras exig\u00eancias e outras potencialidades quando procura ligar estes dois p\u00f3los. Algo a descobrir com caminhos como o sinodal que pretendemos fazer juntos.<\/p>\n<p>Poucos est\u00e3o cientes de que tamb\u00e9m Jesus sentiu o abandono paradoxal do Pai, de Deus (Mt 27, 46), de quem disse serem um s\u00f3 (Jo 10, 30). Por isso, o sentimento da aus\u00eancia de Deus n\u00e3o \u00e9 novo no \u00e2mbito das experi\u00eancias religiosas mais profundas e transformativas, mas o convite que o testemunho de Jesus nos faz em \u00e9pocas de viragem cultural (como a nossa) \u00e9 a saber aprender a procura de Deus, com criatividade e profundidade, at\u00e9 mesmo com os ateus.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n<p>;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-223663","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/223663","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=223663"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/223663\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=223663"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=223663"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=223663"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}