{"id":22274,"date":"2007-01-16T11:23:21","date_gmt":"2007-01-16T11:23:21","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/01\/16\/referendo-sim-ou-nao-uma-questao-de-civilizacao\/"},"modified":"2007-01-16T11:23:21","modified_gmt":"2007-01-16T11:23:21","slug":"referendo-sim-ou-nao-uma-questao-de-civilizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/referendo-sim-ou-nao-uma-questao-de-civilizacao\/","title":{"rendered":"Referendo: Sim ou N\u00e3o? &#8211;  Uma quest\u00e3o de civiliza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Segundo de 5 textos do Cardeal-Patriarca de Lisboa, a respeito do Referendo sobre o Aborto <!--more--> 1. O facto de a Igreja Cat\u00f3lica ser contra o aborto volunt\u00e1rio, em todas as circunst\u00e2ncias, e devido \u00e0 influ\u00eancia da doutrina da Igreja na defini\u00e7\u00e3o dos par\u00e2metros de moralidade, leva a opini\u00e3o p\u00fablica a considerar que esta disputa entre o \u201csim\u201d e o \u201cn\u00e3o\u201d \u00e9 um confronto entre a Igreja Cat\u00f3lica e o resto da sociedade. A esta perspectiva dicot\u00f3mica n\u00e3o escapam mesmo alguns defensores do \u201cn\u00e3o\u201d. Ora n\u00e3o me parece que esta seja a maneira mais correcta de situar o problema. Uma lei que permita a destrui\u00e7\u00e3o da vida intra-uterina vai contra valores chave da nossa civiliza\u00e7\u00e3o. A defesa e a protec\u00e7\u00e3o da vida s\u00e3o um valor fundamental na estrutura de uma sociedade justa, onde o valor da vida humana \u00e9 o principal fundamento da dimens\u00e3o \u00e9tica que deve inspirar toda a conviv\u00eancia em sociedade. Mil\u00e9nios de hist\u00f3ria e de evolu\u00e7\u00e3o cultural, em que as religi\u00f5es exerceram um papel significativo, levaram a humanidade a reconhecer, de forma progressiva, valores universais humanos, que n\u00e3o se imp\u00f5em \u00e0 sociedade por serem religiosos, mas por serem dados adquiridos da evolu\u00e7\u00e3o cultural, na qual as religi\u00f5es exerceram a sua influ\u00eancia espec\u00edfica. O judeo-cristianismo, logo no dec\u00e1logo da Lei de Mois\u00e9s, confirmou estes valores universais. No que \u00e0 vida diz respeito, exprimiu esse valor cultural no preceito \u201cn\u00e3o matar\u00e1s\u201d. No cristianismo, este 5\u00ba mandamento da Lei de Deus, aprofunda-se com a exig\u00eancia do amor fraterno. Esse \u00e9 o principal mandamento da Lei: o amor de todo o seu semelhante. Como diz S\u00e3o Jo\u00e3o, \u201cse algu\u00e9m diz que ama a Deus e rejeita o seu irm\u00e3o, \u00e9 mentiroso\u201d (1Jo. 4,20). Na moral cat\u00f3lica, o valor universal do respeito pela vida, ganha a beleza e a exig\u00eancia da caridade. Uma lei que permita a destrui\u00e7\u00e3o da vida humana \u00e9 um atropelo de civiliza\u00e7\u00e3o, sinal de desvio preocupante no conjunto de valores \u00e9ticos que s\u00e3o a base das sociedades humanistas, t\u00e3o arduamente constru\u00eddas ao longo de s\u00e9culos. Os autores e defensores da proposta legislativa que vai ser referendada em 11 de Fevereiro pr\u00f3ximo encontram justifica\u00e7\u00e3o para esta deriva cultural na poss\u00edvel d\u00favida sobre o momento em que come\u00e7a a vida humana no seio materno. \u00c9 uma d\u00favida chocante, no actual estado dos conhecimentos cient\u00edficos sobre a vida intra-uterina.  2. Neste quadro civilizacional, defender o aborto volunt\u00e1rio significa uma de duas atitudes: ou se duvida acerca do momento em que come\u00e7a a vida humana, ou se tem uma atitude de desrespeito pela vida. A quest\u00e3o do momento em que come\u00e7a a vida humana \u00e9 tamb\u00e9m ela uma atitude cultural. Na pr\u00f3pria hist\u00f3ria do pensamento crist\u00e3, essa quest\u00e3o p\u00f4s-se. Alguns autores escol\u00e1sticos, numa perspectiva dualista da uni\u00e3o da alma e do corpo, defenderam que a infus\u00e3o da alma se dava numa determinada etapa da evolu\u00e7\u00e3o do feto. E nessa vis\u00e3o antropol\u00f3gica, s\u00f3 depois da infus\u00e3o da alma se podia falar de vida humana. Semelhante a essa \u00e9, ainda hoje, a vis\u00e3o mu\u00e7ulmana da evolu\u00e7\u00e3o do feto. Essa quest\u00e3o foi completamente ultrapassada pela Teologia e pelo Magist\u00e9rio. A alma est\u00e1 presente desde o primeiro momento do corpo e exprime-se nele e atrav\u00e9s dele. A alma n\u00e3o habita o corpo, anima-o e humaniza-o. Ser\u00e1 que os defensores do aborto s\u00e3o \u201cescol\u00e1sticos\u201d, do ponto de vista antropol\u00f3gico? N\u00e3o deixa de ser curioso! Mas a palavra esclarecedora sobre esta quest\u00e3o \u00e9-nos dada pela ci\u00eancia. A partir do embri\u00e3o, toda a especificidade de cada ser humano est\u00e1 definida. \u00c9 poss\u00edvel identificar, desde logo, o c\u00f3digo gen\u00e9tico e as etapas do crescimento est\u00e3o caracterizadas. \u00c9 uma vida humana, desde o in\u00edcio. Apoiar-se no car\u00e1cter incompleto de cada etapa do crescimento, para justificar a interrup\u00e7\u00e3o desse mesmo crescimento, \u00e9 incongruente. O homem \u00e9 sempre um ser em constru\u00e7\u00e3o e nenhuma imperfei\u00e7\u00e3o na realiza\u00e7\u00e3o de toda a sua potencialidade pode justificar a sua exclus\u00e3o.  3. A atitude de desrespeito pela vida humana est\u00e1, infelizmente, muito espalhada na sociedade. A viol\u00eancia, a exclus\u00e3o, o assassinato indiscriminado, a pr\u00f3pria pena de morte. Esta \u00e9 uma luta em que a humanidade n\u00e3o pode esmorecer, pela defesa da dignidade e dos direitos fundamentais de todo o ser humano, o primeiro dos quais \u00e9 o direito a viver e a ser protegido pela Lei. Passa pela educa\u00e7\u00e3o, pelas leis justas e pela vis\u00e3o do homem e da sociedade que devem inspirar uma sociedade justa. Esta \u00e9, de facto, uma quest\u00e3o de cultura e de civiliza\u00e7\u00e3o, donde, a partir do respeito pela vida, deve emergir o sentido da grandeza da maternidade.   Lisboa, 14 de Janeiro de 2007 <i>\u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segundo de 5 textos do Cardeal-Patriarca de Lisboa, a respeito do Referendo sobre o Aborto<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[93,193],"class_list":["post-22274","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-aborto","tag-educacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22274","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22274"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22274\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22274"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22274"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22274"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}