{"id":22269,"date":"2007-01-16T10:24:31","date_gmt":"2007-01-16T10:24:31","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/01\/16\/ecumenismo-cultural\/"},"modified":"2007-01-16T10:24:31","modified_gmt":"2007-01-16T10:24:31","slug":"ecumenismo-cultural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/ecumenismo-cultural\/","title":{"rendered":"Ecumenismo cultural"},"content":{"rendered":"<p>Historiador Eduardo Franco lan\u00e7a um olhar sobre os desafios do di\u00e1logo inter-confessional para o s\u00e9culo XXI <!--more--> Nunca se falou tanto como hoje de ecumenismo. Mas os acontecimentos tr\u00e1gicos resultantes da prolifera\u00e7\u00e3o beligerante do fundamentalismo religioso isl\u00e2mico, instigador de movimentos neo-cruzad\u00edsticos, parece, na verdade, lan\u00e7ar mais sombra que luz sobre as esperan\u00e7as de um entendimento global entre as religi\u00f5es. O ecumenismo imp\u00f4s-se nas \u00faltimas d\u00e9cadas no quadro das rela\u00e7\u00f5es entre as religi\u00f5es e das religi\u00f5es entre si como preocupa\u00e7\u00e3o e caminho a realizar. Imp\u00f4s-se como assunto da agenda dos l\u00edderes religiosos e passou a fazer parte do discurso oficial e das atitudes do politicamente correcto. N\u00e3o podemos esquecer que a preocupa\u00e7\u00e3o ecum\u00e9nica nasceu no seio do cristianismo, fracturado em confiss\u00f5es e seitas, motivada pelo desejo de restabelecer a unidade quebrada especialmente a partir da \u00e9poca moderna. No seio da Igreja Cat\u00f3lica o ecumenismo passa a ser promovido de forma decidida na sequ\u00eancia do Conc\u00edlio Vaticano II que declarou o trabalho em favor da unidade dos crist\u00e3os uma prioridade, ali\u00e1s, para atender ao mandato evang\u00e9lico de Cristo &#8220;que todos sejam um&#8221; e superar o esc\u00e2ndalo da divis\u00e3o dos crist\u00e3os.  No entanto, o conceito de ecumenismo, originariamente desenvolvido no seio do cristianismo, acabou nos \u00faltimos anos por ser alargado e cobrir o esfor\u00e7o de entendimento e cultivo de rela\u00e7\u00f5es pac\u00edficas e de respeito m\u00fatuo entre as diversas religi\u00f5es do mundo, em particular aquelas que t\u00eam tradi\u00e7\u00e3o conflitual entre si. O ecumenismo ergueu-se como um processo necess\u00e1rio para a paz entre os povos, aplicando-se assim operativamente o significado mais puro da palavra que significa &#8220;terra habitada&#8221;, isto \u00e9, uma terra que se quer habitada harmonicamente por todos, ou a ideia de uma casa comum para todos e onde todos tenham lugar. Esta extens\u00e3o do conceito de ecumenismo foi em grande medida motivada pelas novas formas de viol\u00eancia e conflito b\u00e9lico promovidos em nome da religi\u00e3o, que levaram Samuel P. Huntington a anunciar um novo paradigma para enquadrar as novas formas de conflito internacional: o &#8220;choque de civiliza\u00e7\u00f5es&#8221;.  A globaliza\u00e7\u00e3o do terrorismo em nome de Deus e a capacidade de redes de c\u00e9lulas terroristas afrontarem grandes estados imperiais como aconteceu no 11 de Setembro de 2001, em Nova Iorque, bem como a prolifera\u00e7\u00e3o do fundamentalismo religioso gerador de focos de viol\u00eancia em pontos sens\u00edveis de fractura civilizacional (maxime M\u00e9dio Oriente) colocaram a religi\u00e3o na ordem do dia e valorizaram o trabalho ecum\u00e9nico como caminho para a paz. O ecumenismo tornou-se omnipresente como assunto de debate e tema recorrente dos discursos pol\u00edticos. Com ele o di\u00e1logo inter-religioso adquiriu grande interesse medi\u00e1tico.  O Papa Jo\u00e3o Paulo II j\u00e1 tinha contribu\u00eddo significativamente para a mediatiza\u00e7\u00e3o do discurso ecum\u00e9nico com o gesto prof\u00e9tico da reuni\u00e3o dos l\u00edderes religiosos mundiais em Assis, em 1986 e repetida em 2002, a fim de rezarem juntos pela paz. Os respons\u00e1veis religiosos declararam nesses encontros a import\u00e2ncia das religi\u00f5es para a promo\u00e7\u00e3o da conviv\u00eancia pac\u00edfica entre os povos, come\u00e7ando pela promo\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es amistosas e fraternas entre os que professam deferentes sistemas religiosos. Nesse contexto, a Papa apelou para a necessidade de purifica\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria, do perd\u00e3o como meio e o m\u00e9todo para aplanar as cicatrizes muitas vezes ainda abertas em ferida da hist\u00f3ria sangrenta de viol\u00eancias em nome da F\u00e9. Na semana passada, Paulo Mendes Pinto, reputado historiador das religi\u00f5es com vasta obra publicada no dom\u00ednio da ci\u00eancia das religi\u00f5es, expressou, no jornal P\u00fablico, o seu desencanto perante os parcos resultados da &#8220;era do ecumenismo&#8221;. A sua desilus\u00e3o resulta tamb\u00e9m do cepticismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 possibilidade de haver um ecumenismo eficaz dada a natureza expansionista e universalizante especialmente das duas grandes religi\u00f5es mundiais historicamente conflituais entre si: o cristianismo e o islamismo. Perante os frutos que n\u00e3o v\u00ea desse esfor\u00e7o de aproxima\u00e7\u00e3o inter-religiosa, entende que se entrou na era do p\u00f3s-ecumenismo e que importa seguir outro caminho e pensar o di\u00e1logo \u00e0 luz de outro conceito, o conceito de cidadania.   <b>Religi\u00e3o e Cultura<\/b> Esta reflex\u00e3o, que levanta quest\u00f5es pertinentes e complexas em torno da natureza, da doutrina e dos fins pr\u00f3prios da religi\u00f5es equacionados com o processo ecum\u00e9nico e que o mesmo ecumenismo n\u00e3o poderia p\u00f4r em causa sob pena de anular a ess\u00eancia pr\u00f3pria dos diferentes sistemas religiosos, suscitou-nos a explicita\u00e7\u00e3o de uma reflex\u00e3o em torno de um conceito operativo que tem presidido ao nosso trabalho cient\u00edfico no plano da pesquisa da hist\u00f3ria cultural. Num tempo em que o ecumenismo se tornou moda nos discursos pol\u00edtica e religiosamente correctos, importa falar de um ecumenismo cultural antes de um (ou a par de um) ecumenismo religioso. A constru\u00e7\u00e3o de &#8220;uma casa comum&#8221;, de uma &#8220;terra habitada&#8221;, onde todos tenham lugar, passa primeiro por um ecumenismo &#8220;ecol\u00f3gico&#8221; das culturais e das mentalidades. Um ecumenismo que n\u00e3o quer dizer aqui incultura\u00e7\u00e3o, acultura\u00e7\u00e3o ou endoencultura\u00e7\u00e3o. A antropologia cultural tem contribu\u00eddo muito para afirmar o valor das diferentes tradi\u00e7\u00f5es culturais pela via da paridade e n\u00e3o pela sua valora\u00e7\u00e3o em termos de superioridade ou inferioridade. A auto-imagem de determinadas culturas, a sua afirma\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o em detrimento da anula\u00e7\u00e3o de outras conduziram no passado a desastres e perdas culturais irrepar\u00e1veis e a verdadeiros choques civilizacionais guiados pelo fito da anula\u00e7\u00e3o do outro, como aconteceu com o processo colonial euroc\u00eantrico.  O ecumenismo cultural, traduzido no respeito por aquilo que &#8220;faz com que o homem seja homem&#8221; (defini\u00e7\u00e3o de cultura segundo o Padre Manuel Antunes, sj), passa pela forma\u00e7\u00e3o de uma mentalidade pluralista, capaz de respeitar, apreciar e valorizar a diversidade das diferentes formas do homem estar, pensar, actuar e viver em sociedade e transformar a mundo, com os seus ritos, s\u00edmbolos e as diversas express\u00f5es espirituais e materiais. Um respeito activo que implique o reconhecimento do valor e da dignidade pr\u00f3prias dos diferentes sistemas culturais e civilizacionais. Aqui naturalmente que o religioso entra como forma suprema (e das mais antigas) de produ\u00e7\u00e3o de cultura e de modela\u00e7\u00e3o civilizacional. Por isso pensamos que o ecumenismo cultural deve preceder o ecumenismo religioso, pois aquele precede e \u00e9 mais abrangente do que este e mais criador de cidadania e democracia.  Se nos quisermos centrar no espa\u00e7o da sociedade portuguesa e na nossa hist\u00f3ria da cultura, n\u00e3o deixa tamb\u00e9m de ser pertinente trabalhar em favor de um ecumenismo cultural. A constru\u00e7\u00e3o da nossa hist\u00f3ria comum, nas suas derivas e diferentes andamentos at\u00e9 chegarmos \u00e0 era democr\u00e1tica em que vivemos, foi atravessada por movimentos conflituais e hostis entre si. Movimentos, correntes, grupos \u00e9tnicos, classes sociais, institui\u00e7\u00f5es produtoras de micro-universos culturais que procuraram afirmar-se atrav\u00e9s da luta contra movimentos, institui\u00e7\u00f5es, correntes eleitas como advers\u00e1rios e que procuravam eliminar ou pelo menos inibir ao m\u00e1ximo a sua influ\u00eancia. Esses dinamismos de oposi\u00e7\u00e3o conspiracionista criaram uma mentalidade &#8220;anti&#8221;, que fracturou transversalmente a sociedade e condicionou a leitura do passado pela forma\u00e7\u00e3o de uma mem\u00f3ria hist\u00f3rica dividida no plano da avalia\u00e7\u00e3o do papel dessas diferentes institui\u00e7\u00f5es no nosso passado com implica\u00e7\u00f5es no presente.  A nossa mem\u00f3ria hist\u00f3rica est\u00e1, de facto, estilha\u00e7ada por movimentos fracturantes. Anti-semistismos, anti-islamismos, anticlericalismos, antima\u00e7onismos, anticastelhanismos, antijesuitismos, anticomunismos, antiliberalismos, antifeminismos e outras formas formas de conspiracionismo e de execra\u00e7\u00e3o do Outro povoaram a nossa mem\u00f3ria de dem\u00f3nios e fantasmas que ainda nos causam medo e perplexidade.  Promover o ecumenismo cultural, em primeiro lugar pela via do conhecimento cient\u00edfico desapaixonado, contribuir para a despreconceitualiza\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria ou para a leitura despreconceitualizada do nosso passado, capaz de olhar para os deferentes produtores e reprodutores de cultura sem a atitude da suspeita met\u00f3dica, ser\u00e1 certamente um servi\u00e7o importante para a constru\u00e7\u00e3o de uma cidadania plena numa democracia madura.  Deseja-se, pois, um ecumenismo cultural que advenha do conhecimento da globalidade dos micro-universos culturais, colocando-os a olhar de frente, com gosto de conhecer e de entender, institui\u00e7\u00f5es, movimentos, grupos que historicamente estiveram de costas voltadas uns para os outros, que recearam o olhar de medusa que temiam encontrar no outro, que recusaram conhecer-se sequer, a n\u00e3o ser para obter um conhecimento estrat\u00e9gico para melhor afinar os m\u00e9todos de combate. Um ecumenismo cultural que construa um conhecimento que fa\u00e7a brotar o respeito rec\u00edproco, a aprecia\u00e7\u00e3o e a valora\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a colocando-o em paridade para uma rela\u00e7\u00e3o de di\u00e1logo e de integra\u00e7\u00e3o em conv\u00edvio sereno.  O ecumenismo cultural ser\u00e1 em Portugal, na Europa e no mundo o trabalho pr\u00e9vio \u00e0 &#8220;interioriza\u00e7\u00e3o da democracia&#8221;, como defendia o P. Manuel Antunes, o qual entendia lucidamente que n\u00e3o basta impor um regime democr\u00e1tico e aceit\u00e1-lo na forma. Decisivo \u00e9 interiorizar a ess\u00eancia da democracia e criar uma mentalidade democr\u00e1tica. O sonho de uma sociedade democr\u00e1tica quer local, quer nacional, quer mundial passa necessariamente pelo desenvolvimento do ecumenismo cultural que valorize a singularidade, a riqueza e a dignidade da diversidade das culturas humanas. Feito o ecumenismo cultural, o ecumenismo religioso, estar\u00e1 facilitado, se entendido como entendimento, respeito, di\u00e1logo, reconhecimento da dignidade do outro e n\u00e3o fus\u00e3o ou anula\u00e7\u00e3o do outro. Com o ecumenismo ergue-se o valor da diferen\u00e7a e contribui-se para a edifica\u00e7\u00e3o de uma humanidade que tenha a paz como meta.  <i>Jos\u00e9 Eduardo Franco, Historiador<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Historiador Eduardo Franco lan\u00e7a um olhar sobre os desafios do di\u00e1logo inter-confessional para o s\u00e9culo XXI<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[144,167,192,203,237],"class_list":["post-22269","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-concilio-vaticano-ii","tag-dialogo-inter-religioso","tag-ecumenismo","tag-europa","tag-joao-paulo-ii"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22269","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22269"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22269\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22269"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22269"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22269"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}