{"id":2221,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/dos-massacres-ao-grito-da-vitoria\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"dos-massacres-ao-grito-da-vitoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/dos-massacres-ao-grito-da-vitoria\/","title":{"rendered":"Dos massacres ao grito da vit\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p>Jornalismo na independ\u00eancia de Timor-Leste <!--more--> <img decoding=\"async\" border=\"1\" src=\"\/pub\/1\/img\/timor.jpg\" align=\"right\"> Um espelho s\u00f3 \u00e9 importante quando reflecte a realidade, da mesma forma que os jornalistas se revelaram importantes para Timor Leste a partir do momento em que apresentaram ao mundo a trag\u00e9dia que os timorenses j\u00e1 viviam, em segredo, h\u00e1 demasiados anos.  Desde a ocupa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio pela Indon\u00e9sia que o povo de Timor foi massacrado mas, aos olhos do mundo, sem o espelho da comunica\u00e7\u00e3o social, a imagem do terror era invis\u00edvel, como se n\u00e3o existisse. M\u00e1rio Carrascal\u00e3o, antigo governador do territ\u00f3rio, garantiu-me um dia, ainda durante a ocupa\u00e7\u00e3o, que ocorreram outros massacres como o do cemit\u00e9rio de Santa Cruz, a 12 de Novembro de 1991&#8230; a diferen\u00e7a \u00e9 que n\u00e3o havia jornalistas por perto. Foram as imagens captadas por Max Stahl e a den\u00fancia da morte, e do desaparecimento, de centenas de pessoas que sobressaltaram a consci\u00eancia de alguns l\u00edderes mundiais.  Com o tema nas p\u00e1ginas dos jornais, come\u00e7ava a press\u00e3o internacional sobre a Indon\u00e9sia. Foi a d\u00e9cada em que se realizaram as chamadas reuni\u00f5es \u201cintra-timorenses\u201d, na \u00c1ustria. Enquanto jornalista da R\u00e1dio Renascen\u00e7a, tive a oportunidade de acompanhar um desses encontros, no castelo de Krumbach, n\u00e3o muito longe de Viena. A organiza\u00e7\u00e3o coube \u00e0s Na\u00e7\u00f5es Unidas. O objectivo era encontrar plataformas de di\u00e1logo entre os timorenses pr\u00f3-Indon\u00e9sia e os que queriam a autodetermina\u00e7\u00e3o. Atrav\u00e9s de uma media\u00e7\u00e3o, s\u00e1bia, por parte da Igreja Cat\u00f3lica foi poss\u00edvel sentar \u00e0 mesma mesa pessoas t\u00e3o distantes quanto Jos\u00e9 Ramos Horta e Francisco Lopes da Cruz, embaixador itinerante da Indon\u00e9sia. O mais importante era manter aberta a janela do di\u00e1logo&#8230; mas ela quase se fechou perante a rivalidade, antiga, de dois movimentos timorenses unidos agora na resist\u00eancia: FRETILIN e UDT. As feridas rasgadas em 75 ainda n\u00e3o tinham sarado apesar de estarem envolvidos numa causa comum &#8211; a liberta\u00e7\u00e3o de Timor. A Indon\u00e9-sia aproveitava, ainda, essa fragilidade. De qualquer forma, jornalistas de v\u00e1rios pa\u00edses acompanharam a reuni\u00e3o e escutaram, tal como eu, alguns relatos, na primeira pessoa, sobre o que se passava em Timor. Armandina Gusm\u00e3o, irm\u00e3 de Xanana \u2013 detido ent\u00e3o em Jacarta \u2013 vivia em D\u00edli, e contou-nos algumas das mais recentes atrocidades cometidas sobre o povo timo-rense. Relatos id\u00eanticos foram feitos por alguns jovens e por Ma\u00b4huno. Este antigo comandante da resist\u00eancia disse-nos que os guerrilheiros, nas montanhas, nunca iriam desistir de combater o inimigo&#8230; Tr\u00eas meses mais tarde consegui, finalmente, \u2018visto\u2019 para ir a Timor&#8230; n\u00e3o sem antes parar em Jacarta. Foi em Fevereiro de 1999 que conheci Xanana Gusm\u00e3o. Tinha sido transferido da cadeia de Cipinang para uma casa-pris\u00e3o. Face \u00e0 press\u00e3o internacional, a Indon\u00e9sia permitiu o impens\u00e1vel &#8211; que Xanana, apesar de detido, reunisse com Nelson Mandela ou Madeleine Albright, a secret\u00e1ria de estado norte-americana. Era um estadista preso. Sucediam-se tamb\u00e9m as entrevistas aos jornalistas de todo o mundo. A primeira foi concedida, em conjunto, a um grupo de jornalistas portugueses, de que fiz parte. Xanana, determinado, insistiu na import\u00e2ncia de ajudar a Indon\u00e9sia a libertar-se do \u201cfardo\u201d de Timor. Assim se tinha referido ao territ\u00f3rio, dias antes, o ent\u00e3o presidente indon\u00e9sio, Habibie. Xanana disse tamb\u00e9m uma frase, a prop\u00f3sito do futuro de Timor, que jamais esquecerei: \u201cUma casa com uma bandeira pode ser um pa\u00eds\u201d. O l\u00edder timorense j\u00e1 n\u00e3o tinha d\u00favidas de que Timor Leste conquistaria a independ\u00eancia, s\u00f3 n\u00e3o sabia quando.  A esperan\u00e7a crescia no mundo e tamb\u00e9m no territ\u00f3rio, atrav\u00e9s da comunica\u00e7\u00e3o social&#8230; e foi esperan\u00e7a, misturada com uma evidente apreens\u00e3o, que encontrei ao chegar a Timor, no primeiro contacto com a popula\u00e7\u00e3o. As pessoas falavam-me como se um quarto de s\u00e9culo n\u00e3o tivesse passado desde a partida dos portugueses. Um homem aproximou-se de mim e mostrou-me uma velha cigarreira, com a bandeira portuguesa gravada na tampa. Aos abra\u00e7os seguiam-se invariavelmente as queixas, em portugu\u00eas. Eram feitas em surdina, porque os militares indon\u00e9sios estavam por toda a parte e havia tamb\u00e9m os \u201cinformadores\u201d do regime. Como tantos outros jornalistas, pude confirmar e relatar, na altura, algumas das persegui\u00e7\u00f5es e atrocidades cometidas pelos militares. Nessa primeira visita que fiz ao territ\u00f3rio foram raros os dias em que n\u00e3o surgiram not\u00edcias de timorenses mortos pelos militares indon\u00e9sios. Encontrei centenas de refugiados na casa de Manuel Carrascal\u00e3o. Ele protegia-os como podia, dava-lhes arroz e sobretudo palavras de esperan\u00e7a. Vi-os rezar, em portugu\u00eas, ao cair da noite, nas traseiras da velha casa&#8230; a casa que, meses mais tarde, viria a ser incendiada pelas mil\u00edcias e onde foi barbaramente assassinado Manelito, filho de Manuel Carrascal\u00e3o.  Os jornalistas contaram tamb\u00e9m ao mundo que estavam a ser organizados grupos de mil\u00edcias integracionistas&#8230; formados pelos militares indon\u00e9sios. Encontr\u00e1mos a prova em Balib\u00f3. Vimos centenas de homens com faixas vermelhas e brancas (cores da bandeira indon\u00e9sia) na cabe\u00e7a. Nas m\u00e3os tinham catanas e armas de fogo artesanais. Eram timorenses humildes e pareciam passar fome. A troco de umas moedas para comprar comida, ou porque eram obrigados, juntaram-se \u00e0 primeira cerim\u00f3nia oficial das mil\u00edcias. Era essencialmente uma demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a&#8230; e n\u00e3o havia s\u00f3 armas artesanais. Estavam l\u00e1 para-militares, com espingardas Mauser e G-3. Os chefes da pol\u00edcia e do ex\u00e9rcito assistiam a tudo activamente, participaram na forma\u00e7\u00e3o das mil\u00edcias integracionistas que mais tarde iriam arrasar Timor. Apesar da den\u00fancia dos jornalistas e dos alertas feitos pelos dois bispos timorenses (D. Ximenes Belo \u2013 Nobel da Paz \u2013 e D. Bas\u00edlio do Nascimento), preocupados com a crescente actividade das mil\u00edcias, foram os indon\u00e9-sios a assumir a seguran\u00e7a do Referendo de 30 de Agosto de 99.  Venceu a independ\u00eancia&#8230; mas os sorrisos da popula\u00e7\u00e3o duraram pouco. Aos primeiros dias de Setembro, avan\u00e7ou o \u201cPlano B\u201d de Jacarta: o ajuste de contas. Nos ecr\u00e3s de televis\u00e3o, nas ondas da r\u00e1dio, os relatos foram aterrorizadores. In\u00fameras pessoas assassinadas, casas incendiadas por toda a parte, timorenses a procurarem ref\u00fagio nas montanhas e em Timor Ocidental&#8230; os \u201ccampos de concentra\u00e7\u00e3o\u201d vigiados pelas mil\u00edcias.  As imagens transmitidas a partir de Timor chocaram o mundo. Os jornalistas foram o espelho que divulgou a trag\u00e9dia mas tamb\u00e9m, meses depois, mensageiros da paz que os timorenses conquistaram. O resto \u00e9 de todos conhecido. A Interfet chegou ao territ\u00f3rio&#8230; ap\u00f3s uma longa maratona negocial na sede das Na\u00e7\u00f5es Unidas, em Nova Iorque, que acompanhei, como enviado da Renascen\u00e7a. Havia fortes resist\u00eancias ao avan\u00e7o da forma multinacional. O impasse manteve-se madrugada fora. \u00c0s 4 da manh\u00e3, Richard Holbrook, embaixador norte-americano junto da ONU, entrou na sala do debate e, apenas 10 minutos volvidos, saiu. A decis\u00e3o estava tomada: os EUA acabavam de \u201cconvencer\u201d a Indon\u00e9sia. Jacarta iria, tamb\u00e9m, retirar os seus militares de Timor Leste, dias mais tarde. A independ\u00eancia foi alcan\u00e7ada a 20 de Maio de 2002.   Pedro Mesquita, Jornalista da RR <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jornalismo na independ\u00eancia de Timor-Leste<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[266,291,318],"class_list":["post-2221","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-nacoes-unidas","tag-refugiados","tag-timor-leste"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2221","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2221"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2221\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2221"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2221"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2221"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}