{"id":2220,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/dizer-a-verdade-em-tempo-de-guerra\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"dizer-a-verdade-em-tempo-de-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/dizer-a-verdade-em-tempo-de-guerra\/","title":{"rendered":"Dizer a verdade em tempo de guerra"},"content":{"rendered":"<p>Tony Neves, Jornalista e Mission\u00e1rio Espiritanos <!--more--> \u00c9 uma ousadia. Diria mais, \u00e9 um p\u00f4r a cabe\u00e7a a pr\u00e9mio. A guerra \u00e9 a mais frontal viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos. Aceit\u00e1-la como meio para resolver problemas \u00e9 criar um problema sem solu\u00e7\u00e3o. Que o diga a hist\u00f3ria. Raz\u00e3o tem Sophia de Mello Breyner ao propor \u2018a paz sem vencedores e sem vencidos\u2019. A guerra, na melhor das hip\u00f3teses, tem vencedores e vencidos e, regra geral, apenas vencidos. Neste contexto de viol\u00eancia assumida, que lugar pode haver para quem quer, com a isen\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, falar do que se passa? Pouco e de alto risco. A experi\u00eancia que fiz no Huambo e Kuito-Bi\u00e9, entre 1989 e 1994, falam claro a este respeito. Com j\u00e1 alguma dist\u00e2ncia, gostaria de partilhar algumas conclus\u00f5es a que cheguei.  1. A verdade est\u00e1 na ponta da espingarda Quando h\u00e1 combates, instala-se a lei do mais forte que, no caso, \u00e9 o chefe militar. Ele diz e est\u00e1 dito. Quem ousar dizer diferente torna-se inimigo a abater e, regra geral, abate-se mesmo! Quem se p\u00f5e do lado da v\u00edtima, quem questiona as raz\u00f5es das guerras ou o modo desumano como se fazem as batalhas e as \u2018limpezas\u2019 que se lhe seguem&#8230; ou tem as costas muito protegidas ou desaparece. Verdade nua e crua que faz com que os jornalistas (n\u00e3o me refiro aos que se vendem ao poder&#8230;) nunca tenham lugar nestes espa\u00e7os.  2. Quanto menos medi\u00e1tica \u00e9 a guerra mais sofrem os jornalistas H\u00e1 guerras esquecidas, \u00e0 porta fechada, que n\u00e3o interessam aos grandes e, por isso mesmo, n\u00e3o t\u00eam cobertura medi\u00e1tica. Aqui, vale tudo porque ningu\u00e9m v\u00ea nada, ou melhor, todos v\u00eaem tudo e falta quem amplifique o grito das v\u00edtimas. S\u00f3 se pode falar em surdina (falar alto, ningu\u00e9m arrisca) quem tem por detr\u00e1s uma institui\u00e7\u00e3o com alguma for\u00e7a. E, em muitos casos, nem estes. Os grandes genoc\u00eddios fazem-se nestes ambientes e a comunidade internacional s\u00f3 reage e p\u00f5e as m\u00e3os \u00e0 cabe\u00e7a depois dos massacres. Hipocrisia ou atitude de reconhecimento das barb\u00e1ries, n\u00e3o sei. Mas o certo \u00e9 que os grandes deste mundo chegam sempre tarde demais. Nunca evitam os inc\u00eandios, s\u00f3 chegam para a avalia\u00e7\u00e3o dos danos causados pelo fogo!  3. O mart\u00edrio dos jornalistas e mission\u00e1rios Todos os anos se publicam os n\u00fameros de jornalistas e mission\u00e1rios mortos. S\u00e3o aproximados. N\u00e3o me parece por acaso que sejam das \u2018profiss\u00f5es\u2019 mais flageladas do mundo. Isto de amplificar gritos dos fracos, denunciar atrocidades cometidas pelos grandes, enfrentar o fogo das armas, chamar \u00e0 raz\u00e3o quem usa sempre argumentos \u2018alternativos\u2019 a esta&#8230; \u00e9 coragem de quem entrega a vida por uma causa. E, verdade seja dita, se h\u00e1 causas que mere\u00e7am a entrega de uma vida, a da verdade \u00e9 uma delas.  4. Dias de trag\u00e9dia para as popula\u00e7\u00f5es Os senhores da guerra dizem sempre que a fazem para defender popula\u00e7\u00f5es indefesas. E massacram-nas, roubam-lhes a liberdade, os bens materiais, a paz e, muitas vezes, a vida! Ironias da hist\u00f3ria. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil concluir que as guerras existem para perpetuar ou cobi\u00e7ar interesses alheios. E, nesta onda de avareza, os pobres s\u00e3o as v\u00edtimas. Na maioria das guerras, as popula\u00e7\u00f5es simples s\u00e3o vitimadas pelos dois ex\u00e9rcitos, \u00e0 vez. \u00c9 essa a experi\u00eancia que tenho de Angola onde, em muitas aldeias, num dia atacava um ex\u00e9rcito (pilhava, matava, destru\u00eda, violava&#8230;) e, no outro, retaliava o \u2018inimigo\u2019 fazendo rigorosamente a mesma coisa. Aos que sobravam, mais n\u00e3o restava que fugir \u00e0 procura de um lugar onde n\u00e3o fossem \u2018rusgados\u2019 pelos militares. A fome, o desespero, o abandono, as doen\u00e7as&#8230; tomavam conta deles. O futuro desenhava-se sombrio. E n\u00e3o h\u00e1 nada mais terr\u00edvel que n\u00e3o permitir \u00e0s pessoas rasgar horizontes de futuro. As guerras conseguem-no!  5. Guerra: solu\u00e7\u00e3o para qu\u00ea (m)? Quando me dizem que promovem uma guerra para resolver problemas eu pergunto sempre que problemas \u00e9 que resolveram? Nenhum! Pelo contr\u00e1rio, agravaram-nos! A ONU devia ter mais for\u00e7a para intervir nos palcos de guerra. N\u00e3o para fazer mais guerra, mas para retirar as condi\u00e7\u00f5es da sua continuidade. Citando dois paup\u00e9rrimos pa\u00edses da \u00c1frica, algu\u00e9m dizia que a guerra entre ambos acabou no dia em que avariou o tanque que cada um tinha! \u00c9 urgente agir no \u00e2mbito dos lobbies da ind\u00fastria das armas. Um vespeiro onde ningu\u00e9m ousa p\u00f4r a m\u00e3o e que, sobretudo nos pa\u00edses ricos (USA, por exemplo) interfere na pr\u00f3pria elei\u00e7\u00e3o do Presidente e Senadores. Enquanto se intensificar a fabrica\u00e7\u00e3o de armas, estas t\u00eam de ser vendidas e utilizadas para n\u00e3o se estragar o neg\u00f3cio. Bem chorudo, por acaso!  6. Para a frente, jornalistas Algu\u00e9m tem de continuar a dar corpo \u00e0 luta pela verdade, pela justi\u00e7a, pela Paz e pelos direitos humanos. Os mission\u00e1rios e os jornalistas s\u00e3o quem ocupa a \u2018pole position\u2019 nesta grande corrida contra a guerra e pela dignidade das pessoas. Haja algu\u00e9m com coragem para enfrentar os poderes que espezinham a dignidade das pessoas. Falar alto e calar fundo tem de ser a miss\u00e3o dos jornalistas. Custe o que custar. A vida, talvez. Mas, sobretudo, muita dignidade e convic\u00e7\u00e3o. Contra pessoas destas ningu\u00e9m h\u00e1-de ganhar.  Tony Neves, Jornalista e Mission\u00e1rio Espiritanos <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tony Neves, Jornalista e Mission\u00e1rio Espiritanos<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[101,106,189,197,232],"class_list":["post-2220","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-africa","tag-angola","tag-direitos-humanos","tag-espiritanos","tag-incendios"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2220","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2220"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2220\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2220"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2220"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2220"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}