{"id":22143,"date":"2007-01-10T12:25:47","date_gmt":"2007-01-10T12:25:47","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/01\/10\/investigacoes-modernas-sobre-jesus-de-nazare\/"},"modified":"2007-01-10T12:25:47","modified_gmt":"2007-01-10T12:25:47","slug":"investigacoes-modernas-sobre-jesus-de-nazare","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/investigacoes-modernas-sobre-jesus-de-nazare\/","title":{"rendered":"Investiga\u00e7\u00f5es modernas sobre Jesus de Nazar\u00e9"},"content":{"rendered":"<p>Raniero Cantalamesa <!--more--> <b>1. No rastro do ciclone <\/b> O ciclone \u201cO C\u00f3digo da Vinci\u201d de Dan Brown n\u00e3o tem passado em v\u00e3o. No seu rastro est\u00e3o a florescer, como sempre acontece nestes casos, novos estudos sobre a figura de Jesus de Nazar\u00e9 com a inten\u00e7\u00e3o de revelar o seu verdadeiro rosto, coberto at\u00e9 agora sob o manto da ortodoxia eclesi\u00e1stica. At\u00e9 quem diz que se distancia disso, mostra-se influenciado de v\u00e1rias maneiras.  O tal fil\u00e3o pertence na It\u00e1lia o livro de Corrado Augias e Mauro Pesce, um jornalista de fama e um historiador de profiss\u00e3o, Investiga\u00e7\u00e3o sobre Jesus (Inchiesta su Ges\u00fa, Mondadori, 2006). Este presta-se a uma avalia\u00e7\u00e3o global de toda a literatura sobre o \u201cverdadeiro Jesus da hist\u00f3ria\u201d, que se publica aos montes na Europa e na Am\u00e9rica, inspirando novelas, filmes e espect\u00e1culos. Examino-o com a inten\u00e7\u00e3o de levar um pouco de clareza sobre toda a quest\u00e3o, em nome da \u201cHist\u00f3ria das origens crist\u00e3s\u201d que ensinei durante anos na Universidade Cat\u00f3lica de Mil\u00e3o. Existem, como \u00e9 natural, diferen\u00e7as entre um e outro autor, entre o jornalista e o historiador. Por\u00e9m, n\u00e3o quero cair eu mesmo no erro que, mais que qualquer outro, compromete, em minha opini\u00e3o, esta \u201cinvestiga\u00e7\u00e3o\u201d sobre Jesus, que \u00e9 o de ter em conta \u00fanica e exclusivamente as diferen\u00e7as entre os evangelistas, jamais as converg\u00eancias. Parto, ent\u00e3o, do que \u00e9 comum aos dois autores, Augias e Pesce. Pode-se resumir assim: existiram, no princ\u00edpio, n\u00e3o um, mas v\u00e1rios cristianismos. Uma das suas vers\u00f5es tomou vantagem sobre as demais; estabeleceu, segundo o pr\u00f3prio ponto de vista, o c\u00e2non das Escrituras e se imp\u00f4s como ortodoxia, relegando as demais \u00e0 categoria de heresias e suprimindo a sua lembran\u00e7a. Contudo, actualmente podemos, gra\u00e7as a novas descobertas de textos e a uma rigorosa aplica\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo hist\u00f3rico, restabelecer a verdade e apresentar finalmente Jesus de Nazar\u00e9 por aquilo que foi verdadeiramente e que ele mesmo tentou ser, isto \u00e9, algo totalmente diferente do que as diversas Igrejas crist\u00e3s t\u00eam pretendido at\u00e9 agora que fosse.  Ningu\u00e9m contesta o direito de historiadores a aproximar-se da figura de Cristo, prescindindo da f\u00e9 da Igreja. \u00c9 o que a cr\u00edtica, crente e n\u00e3o crente, vem fazendo desde h\u00e1 ao menos tr\u00eas s\u00e9culos com os instrumentos mais refinados. A quest\u00e3o \u00e9 se a presente investiga\u00e7\u00e3o sobre Jesus recolhe de verdade, mesmo de forma divulgadora e acess\u00edvel ao grande p\u00fablico, o fruto deste trabalho, ou se em contrapartida traz logo de in\u00edcio uma dr\u00e1stica escolha dentro dele, acabando por ser uma reconstru\u00e7\u00e3o de parte. Considero que, lamentavelmente, este segundo \u00e9 o caso. O fil\u00e3o elegido \u00e9 o que vai desde Reimarus a Voltaire, a Renan, a Brandon, a Hengel, e hoje a cr\u00edticos liter\u00e1rios e \u201cprofessores de humanidades\u201d, como Harold Bloom e Elaine Pagels. Completamente ausente est\u00e1 a contribui\u00e7\u00e3o da grande exegese b\u00edblica, protestante e cat\u00f3lica, desenvolvida no p\u00f3s-guerra, em reac\u00e7\u00e3o \u00e0s teses de Bultmann, muito mais positiva acerca de possibilidades de tirar, atrav\u00e9s dos evangelhos, o Jesus da hist\u00f3ria.  Nos relatos da paix\u00e3o e morte de Jesus, por exemplo, em 1998, publicou Raymond Brown (\u201co mais distinto entre os estudiosos americanos do Novo Testamento, com poucos rivais em \u00e2mbito mundial\u201d, segundo o New York Times) uma obra de 1608 p\u00e1ginas. Foi definida pelos especialistas do sector como \u201ca medida segundo a qual todo futuro estudo da Paix\u00e3o ser\u00e1 medido\u201d, por\u00e9m de tal estudo n\u00e3o h\u00e1 rastro no cap\u00edtulo dedicado aos motivos da condena\u00e7\u00e3o e da morte de Cristo, nem figura na bibliografia final, que refere diferentes t\u00edtulos de obras em ingl\u00eas. Ao uso selectivo dos estudos corresponde uma utiliza\u00e7\u00e3o igualmente selectiva das fontes. Os relatos evang\u00e9licos s\u00e3o adapta\u00e7\u00f5es posteriores quando desmentem a pr\u00f3pria tese; s\u00e3o hist\u00f3ricos quando concordam com ela. At\u00e9 a ressurrei\u00e7\u00e3o de L\u00e1zaro, apesar de estar atestada somente por Jo\u00e3o, se levada em considera\u00e7\u00e3o, se pode servir para fundar a tese da motiva\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e de ordem p\u00fablica da pris\u00e3o de Jesus (p\u00e1g. 140).  <b>2. Mas que dizem os ap\u00f3crifos? <\/b> Entremos no debate mais directo da tese de fundo do livro. Antes de tudo a prop\u00f3sito das descobertas de novos textos que haveriam modificado o marco hist\u00f3rico sobre as origens crist\u00e3s. Trata-se essencialmente de alguns evangelhos ap\u00f3crifos descobertos no Egipto em meados do s\u00e9culo passado, sobretudo os c\u00f3dices de Nag Hammadi. Sobre eles se realiza uma opera\u00e7\u00e3o bastante subtil: atrasar o mais poss\u00edvel a data de composi\u00e7\u00e3o dos evangelhos can\u00f3nicos e adiantar o mais poss\u00edvel a data de composi\u00e7\u00e3o dos ap\u00f3crifos para pod\u00ea-los usar como fontes v\u00e1lidas alternativas aos primeiros. Por\u00e9m, aqui se choca contra um muro n\u00e3o facilmente ultrapass\u00e1vel: nenhum evangelho can\u00f3nico (tampouco o de Jo\u00e3o, segundo a cr\u00edtica moderna) se deixa fechar mais al\u00e9m do ano 100 depois de Cristo, e nenhum ap\u00f3crifo se deixa fechar antes de tal ano. (Os mais ousados chegam, com conjecturas, a fech\u00e1-los no in\u00edcio de III ou em meados do s\u00e9culo II). Todos os ap\u00f3crifos tomam ou sup\u00f5em os evangelhos can\u00f3nicos; nenhum evan-gelho can\u00f3nico respeita um evangelho ap\u00f3crifo. Um exemplo actualmente mais em voga: dos 114 ditos de Cristo no Evangelho copta de Tom\u00e9, 79 t\u00eam um paralelo nos Sin\u00f3pticos, 11 s\u00e3o varia\u00e7\u00f5es das par\u00e1bolas sin\u00f3pticas. Somente tr\u00eas par\u00e1bolas n\u00e3o est\u00e3o atestadas em outro lugar.  Augias, seguindo o rasto de Elaine Pagels, cr\u00ea poder superar este desvio cronol\u00f3gico entre os Sin\u00f3pticos e o Evangelho de Tom\u00e9, e \u00e9 instrutivo ver de que maneira. No Evangelho de Jo\u00e3o assiste-se, segundo o autor, a uma clara tentativa de desacreditar o ap\u00f3stolo Tom\u00e9, a uma verdadeira persegui\u00e7\u00e3o contra ele, compar\u00e1vel \u00e0 de Judas. Prova: a insist\u00eancia na incredulidade de Tom\u00e9! Hip\u00f3tese: o autor do Quarto Evangelho n\u00e3o quer talvez desacreditar as doutrinas que j\u00e1 em seu tempo circulavam sob o nome de ap\u00f3stolo Tom\u00e9 e que confluir\u00e3o depois no evangelho que leva seu nome? Assim se supera o desvio cronol\u00f3gico. Esquece-se, desta maneira, que o evangelista Jo\u00e3o p\u00f5e precisamente na boca de Tom\u00e9 a mais comovedora declara\u00e7\u00e3o de amor a Cristo (\u201cIremos tamb\u00e9m n\u00f3s morrer com ele\u201d) e a mais solene profiss\u00e3o de f\u00e9 nele: \u201cSenhor meu e Deus meu!\u201d que, segundo muitos exegetas, constitui a coroa\u00e7\u00e3o de todo seu evangelho. Se Tom\u00e9 \u00e9 um perseguido pelos evangelhos can\u00f3nicos, que dizer do pobre Pedro com tudo o que referem dele! A menos que n\u00e3o tenha ocorrido, tamb\u00e9m no seu caso, para desacreditar os futuros ap\u00f3crifos que levam o seu nome&#8230;  Por\u00e9m o ponto principal n\u00e3o \u00e9 tampouco o da data; \u00e9 o dos conte\u00fados dos evangelhos ap\u00f3crifos. Dizem exactamente o contr\u00e1rio daquilo pelo que se invoca a sua autoridade. Os dois autores sustentam a tese de um Jesus plenamente introduzido no juda\u00edsmo, que n\u00e3o tentou inovar nada a respeito daquilo; por\u00e9m os evangelhos ap\u00f3crifos professam todos, uns mais e outros menos, uma ruptura violenta com o Antigo Testamento, fazendo de Jesus o revelador de um Deus diferente e superior. A revaloriza\u00e7\u00e3o da figura de Judas no evangelho hom\u00f3nimo explica-se nesta l\u00f3gica: com a sua trai\u00e7\u00e3o, ele ajudar\u00e1 Jesus a libertar-se do \u00faltimo res\u00edduo do Deus criador, o corpo! Os her\u00f3is positivos do Antigo Testamento passam a ser negativos para eles, e os negativos, como Caim, positivos.   Jesus \u00e9 apresentado no livro como um homem que somente a Igreja posterior elevou \u00e0 categoria de Deus. Os evangelhos ap\u00f3crifos, ao contr\u00e1rio, apresentam um Jesus que \u00e9 verdadeiro Deus, por\u00e9m, n\u00e3o verdadeiro homem, revestido somente da apar\u00eancia de um corpo (docetismo). Para eles, o que representa dificuldade n\u00e3o \u00e9 a divindade de Cristo, mas a sua humanidade. Est\u00e1-se disposto a seguir os evangelhos ap\u00f3crifos sobre este seu terreno? Poder-se-ia alongar a lista de equ\u00edvocos no uso dos evangelhos ap\u00f3crifos. Dan Brown baseia-se neles para endossar a ideia de um Jesus que exalta o princ\u00edpio feminino, que n\u00e3o tem problemas com o sexo, que se casa com Madalena&#8230; E para provar isso apoia-se no Evangelho de Tom\u00e9 onde se diz que, se se quiser salvar, a mulher deve deixar de ser mulher e fazer-se homem!  O facto \u00e9 que os evangelhos ap\u00f3crifos, em particular os de matriz gn\u00f3stica, n\u00e3o foram escritos com a inten\u00e7\u00e3o de narrar factos ou ditos hist\u00f3ricos sobre Jesus, sen\u00e3o para transmitir certa vis\u00e3o de Deus, de si mesmos e do mundo, de natureza esot\u00e9rica e gn\u00f3stica. Basear-se neles para reconstruir a hist\u00f3ria de Jesus \u00e9 como basear-se em Assim Falava Zaratustra n\u00e3o para conhecer o pensamento de Nietzsche, mas o de Zaratustra. Por isso no passado, mesmo sendo j\u00e1 conhecidos quase todos, ao menos em amplas passagens, ningu\u00e9m pensou jamais em poder utilizar os evangelhos ap\u00f3crifos como fonte de informa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas sobre Jesus. Somente a nossa era medi\u00e1tica, em busca exasperada de novidades comerciais, est\u00e1 a fazer isso.  Existem, certamente, fontes hist\u00f3ricas sobre Jesus fora dos evangelhos can\u00f3nicos, e \u00e9 estranho que se deixem praticamente de fora desta \u201cinvestiga\u00e7\u00e3o\u201d. A principal \u00e9 Paulo, que escreveu menos de trinta anos depois da morte de Cristo e depois de ter sido um orgulhoso opositor seu. O seu testemunho somente \u00e9 discutido a prop\u00f3sito da ressurrei\u00e7\u00e3o, por\u00e9m para ser naturalmente desacreditado. N\u00e3o obstante, que h\u00e1 de essencial na f\u00e9 e nos \u201cdogmas\u201d do cristianismo que n\u00e3o se encontre j\u00e1 atestado (em sua subst\u00e2ncia, se n\u00e3o na forma) em Paulo, isto \u00e9, antes que ele tivesse tempo de absorver elementos alheios? Se pode, por exemplo, definir n\u00e3o hist\u00f3rico e fruto da preocupa\u00e7\u00e3o posterior de n\u00e3o alarmar a autoridade romana sobre o confronto entre Jesus e os fariseus e a pr\u00f3pria mentalidade legalista de um grupo deles, sem levar em conta o que diz Paulo, que foi um deles e que precisamente por isso tinha perseguido firmemente os crist\u00e3os? Por\u00e9m, sobre este assunto voltarei mais adiante, ao falar da hist\u00f3ria da Paix\u00e3o.   <b>3. Jesus: judeu, crist\u00e3o ou as duas coisas? <\/b> Chego agora ao ponto principal compartilhado pelos dois autores. Jesus foi um judeu, n\u00e3o um crist\u00e3o; n\u00e3o tentou fundar nenhuma religi\u00e3o nova; considerou-se enviado somente para os judeus, n\u00e3o tamb\u00e9m para os pag\u00e3os; \u201cJesus \u00e9 muito mais pr\u00f3ximo dos judeus religiosos de hoje que dos sacerdotes crist\u00e3os\u201d; o cristianismo \u201cnasce nada menos que na segunda metade do s\u00e9culo II\u201d. Como conciliar esta \u00faltima afirma\u00e7\u00e3o com a not\u00edcia dos Actos dos Ap\u00f3stolos (11,26) segundo a qual n\u00e3o mais de sete anos depois da morte de Cristo, por volta do ano 37, \u201cem Antioquia foi donde, pela primeira vez, os disc\u00edpulos receberam o nome de \u2018crist\u00e3os\u2019\u201d? Pl\u00ednio, o Jovem (uma fonte n\u00e3o suspeita!), entre os anos 111 e 113, fala repetidamente dos \u201ccrist\u00e3os\u201d, de quem descreve a vida, o culto e a f\u00e9 em Cristo \u201ccomo em um Deus\u201d. Pela mesma altura, In\u00e1cio de Antioquia fala cinco vezes do cristianismo como diferente do juda\u00edsmo, escrevendo: \u201cN\u00e3o \u00e9 o cristianismo que acreditou no juda\u00edsmo, mas o juda\u00edsmo que acreditou no cristianismo\u201d (Carta aos Magn\u00e9sios, 10,3). Em In\u00e1cio, isto \u00e9, em in\u00edcios do s\u00e9culo II, n\u00e3o somente encontramos atestados os nomes \u201ccrist\u00e3o\u201d e \u201ccristianismo\u201d, mas tamb\u00e9m o conte\u00fado deles: f\u00e9 na plena humanidade e divindade de Cristo, estrutura hier\u00e1rquica da Igreja (bispos, presb\u00edteros, di\u00e1conos), at\u00e9 uma clara alus\u00e3o ao primado do Bispo de Roma, \u201cchamado a presidir na caridade\u201d. Antes mesmo, pelo demais, de que entrasse no uso comum o nome de crist\u00e3os, os disc\u00edpulos eram conscientes da identidade pr\u00f3pria e expressavam-na com termos como \u201cos crentes em Cristo\u201d, \u201cos do caminho\u201d, ou \u201caqueles que invocam o nome do Senhor Jesus\u201d.  Entre as afirma\u00e7\u00f5es dos dois autores que acabo de referir h\u00e1 uma que merece ser considerada seriamente e discutir \u00e0 parte. \u201cJesus n\u00e3o tentou fundar nenhuma religi\u00e3o nova. Era e continuou a ser judeu\u201d. Absolutamente verdadeiro: com efeito, tampouco a Igreja, em rigor, considera o cristianismo como uma \u201cnova\u201d religi\u00e3o. Se considera junto a Israel (uma vez que se dizia injustamente \u201cem lugar de Israel\u201d) \u00e9 herdeira da religi\u00e3o monote\u00edsta do Antigo Testamento, adoradores do mesmo Deus \u201cde Abra\u00e3o, de Isaac e de Jacob. (Ap\u00f3s o Conc\u00edlio Vaticano II, o di\u00e1logo com o Juda\u00edsmo n\u00e3o \u00e9 levado adiante pelo organismo vaticano que se ocupa do di\u00e1logo entre as religi\u00f5es, mas pelo que se ocupa da unidade dos crist\u00e3os!). O Novo Testamento n\u00e3o \u00e9 um in\u00edcio absoluto, \u00e9 o \u201ccumprimento\u201d (categoria fundamental) do Antigo. Pelo mais, nenhuma religi\u00e3o nasceu porque algu\u00e9m tentou \u201cfund\u00e1-la\u201d. Acaso Mois\u00e9s tentou fundar a religi\u00e3o de Israel, ou Buda o budismo? As religi\u00f5es nascem e tomam consci\u00eancia de si depois, por parte daqueles que recolheram o pensamento de um Mestre e o fizeram raz\u00e3o de vida. Por\u00e9m, feita esta precis\u00e3o, pode-se dizer que nos evangelhos n\u00e3o h\u00e1 nada que fa\u00e7a pensar na convic\u00e7\u00e3o de Jesus de ser portador de uma mensagem nova? E as suas ant\u00edteses: \u201cOuvistes o que foi dito&#8230;, Eu, por\u00e9m, vos digo\u201d com as que reinterpreta at\u00e9 os dez mandamentos e se p\u00f5e ao mesmo n\u00edvel de Mois\u00e9s? Elas enchem toda uma sec\u00e7\u00e3o do evangelho de Mateus (5, 21-48), isto \u00e9, o mesmo evangelista sobre o que faz refer\u00eancia, no livro, para afirmar o pleno juda\u00edsmo de Cristo!  <b>4. Legado para os judeus, para os pag\u00e3os ou para ambos? <\/b> Teria Jesus a inten\u00e7\u00e3o de dar vida a uma comunidade sua e previa que a sua vida e doutrina teriam continuidade? O facto indiscut\u00edvel da escolha dos doze ap\u00f3stolos parece precisamente indicar que sim. Mesmo deixando de lado o grande mandato: \u201cIde por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura\u201d (algu\u00e9m poderia atribu\u00ed-lo, em sua formula\u00e7\u00e3o, \u00e0 comunidade p\u00f3s-pascal), n\u00e3o se explicam de outra forma todas aquelas par\u00e1bolas cujo n\u00facleo origin\u00e1rio cont\u00e9m justamente a perspectiva de um alargamento aos gentios. Pense-se na par\u00e1bola dos vinhateiros homicidas, dos trabalhadores da vinha, no dito respeito a que os \u00faltimos ser\u00e3o os primeiros, ou sobre muitos que \u201cvir\u00e3o do Oriente e do Ocidente para sentar-se \u00e0 mesa com Abra\u00e3o\u201d, enquanto que outros ser\u00e3o exclu\u00eddos, e outras inumer\u00e1veis afirma\u00e7\u00f5es&#8230; Durante a sua vida Jesus n\u00e3o saiu da terra de Israel, excepto alguma breve viagem aos territ\u00f3rios pag\u00e3os do Norte. Por\u00e9m, isto explica-se com a sua convic\u00e7\u00e3o de ter sido enviado antes de tudo para Israel, para depois lev\u00e1-lo, uma vez convertido, a acolher em seu seio todas as gentes, segundo as perspectivas universalistas anunciadas pelos profetas. \u00c9 muito curioso: existe todo um fil\u00e3o do pensamento judeu moderno (F. Rosenzweig, H. J. Schoeps, W. Herberg) segundo o qual Jesus n\u00e3o teria vindo para os judeus, mas somente para os gentios. Segundo Augias e Pesce em contrapartida, Ele teria vindo somente para os judeus, n\u00e3o para os gentios. H\u00e1 que agradecer a Pesce que n\u00e3o aceita liquidar a historicidade da institui\u00e7\u00e3o da Eucaristia e a sua import\u00e2ncia na comunidade primitiva. Este \u00e9 um dos pontos nos que mais emerge o inconveniente assinalado ao princ\u00edpio, o de levar em conta somente as diferen\u00e7as, e n\u00e3o as converg\u00eancias. Os tr\u00eas Sin\u00f3pticos e Paulo unanimemente atestam o facto quase com as mesmas palavras, por\u00e9m para Augias isto conta menos que o facto de que a institui\u00e7\u00e3o seja calada por Jo\u00e3o e que, ao referi-la, Mateus e Marcos tenham \u201cEste \u00e9 o meu sangue\u201d, enquanto que Paulo e Lucas t\u00eam \u201cEste c\u00e1lice \u00e9 a Nova Alian\u00e7a em meu sangue\u201d. A palavra de Cristo: \u201cFazei isto em mem\u00f3ria de mim\u201d, pronunciada em tal ocasi\u00e3o, recorda o \u00caxodo 12,14 e mostra a inten\u00e7\u00e3o de dar ao \u201cmemorial\u201d pascal um novo conte\u00fado. N\u00e3o por nada, Paulo em pouco tempo falar\u00e1 de \u201cnossa P\u00e1scoa\u201d (1 Co 5, 7), distinta da dos judeus. Se \u00e0 Eucaristia e \u00e0 P\u00e1scoa se acrescenta o facto incontroverso da exist\u00eancia de um baptismo crist\u00e3o desde o dia seguinte \u00e0 P\u00e1scoa, que progressivamente substitui a circuncis\u00e3o, temos os elementos essenciais para falar, se n\u00e3o de uma nova religi\u00e3o, de uma forma nova de viver a religi\u00e3o de Israel. Quanto ao c\u00e2non das Escrituras, \u00e9 certo o que afirma Pesce (p\u00e1g. 16) a respeito de que o elenco definitivo dos actuais vinte sete livros do Novo Testamento foi fixado somente com Atan\u00e1sio no ano 367, por\u00e9m n\u00e3o se deveria silenciar o facto de que o seu n\u00facleo essencial, composto pelos quatro evangelhos mais treze cartas paulinas, \u00e9 muito mais antigo. Formou-se at\u00e9 o ano 130 e no final do s\u00e9culo II goza j\u00e1 da mesma autoridade que o Antigo Testamento (fragmento Muratoriano). \u201cIgual Paulo, como Jesus, &#8211; se disse &#8211; n\u00e3o \u00e9 um crist\u00e3o, mas um judeu que permanece no juda\u00edsmo\u201d. Tamb\u00e9m isto \u00e9 certo; n\u00e3o diz acaso ele mesmo: \u201cS\u00e3o judeus? Tamb\u00e9m eu! At\u00e9 eu mais que eles!\u201d? Por\u00e9m, isto n\u00e3o faz mais que confirmar o que acabo de advertir sobre a f\u00e9 em Cristo como \u201ccumprimento\u201d da lei. Por um lado, Paulo sente-se no pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o de Israel (do \u201cresto de Israel\u201d, precisar\u00e1 ele mesmo); por outro, separa-se dele (do juda\u00edsmo de seu tempo) com sua atitude para com a lei e a sua doutrina da justifica\u00e7\u00e3o mediante a gra\u00e7a. Sobre a tese de um Paulo \u201cjudeu e n\u00e3o crist\u00e3o\u201d seria interessante ouvir o que pensam os pr\u00f3prios judeus&#8230;  <b>5. Respons\u00e1vel por sua morte: o Sin\u00e9drio, Pilatos ou os dois? <\/b> Merece discuss\u00e3o \u00e0 parte o cap\u00edtulo do livro de Corrado Augias e Mauro Pesce sobre o processo e a condena\u00e7\u00e3o de Cristo. A tese central n\u00e3o \u00e9 nova. Come\u00e7ou a circular depois da trag\u00e9dia da Shoa e foi adoptada por aqueles que propugnavam nos anos sessenta e setenta a tese de um Jesus zelota e revolucion\u00e1rio. Segundo esta tese, a responsabilidade da morte de Cristo recai principalmente, talvez at\u00e9 exclusivamente, em Pilatos e na autoridade romana, coisa que indica que a sua motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 mais de ordem pol\u00edtica que religiosa. Os evangelhos desculpam Pilatos e acusam os chefes do juda\u00edsmo para tranquilizar as autoridades romanas sobre o assunto e mant\u00ea-las amistosas. Esta tese nasceu de uma preocupa\u00e7\u00e3o justa que hoje todos compartilhamos: cortar de raiz todo o pretexto de anti-semitismo que tanto mal tem causado ao povo judeu por parte dos crist\u00e3os. Por\u00e9m, a ofensa mais grave que se pode fazer a uma causa justa \u00e9 defend\u00ea-la com argumentos err\u00f3neos. A luta contra o anti-semitismo deve ser situada num fundamento mais s\u00f3lido que uma discut\u00edvel (e discutida) interpreta\u00e7\u00e3o dos relatos da Paix\u00e3o. O distanciamento do povo judeu, enquanto tal, \u00e0 responsabilidade pela morte de Cristo, repousa em uma certeza b\u00edblica que os crist\u00e3os t\u00eam em comum com os judeus, por\u00e9m que lamentavelmente por muitos s\u00e9culos foi estranhamente esquecida: \u201cSim, a pessoa que peca \u00e9 a que morre! O filho n\u00e3o sofre o castigo da iniquidade do pai, como o pai n\u00e3o sofre o castigo da iniquidade do filho\u201d (Ez 18,20). A doutrina da Igreja conhece um s\u00f3 pecado que se transmite por heran\u00e7a de pai a filho, o pecado original, nenhum mais.  J\u00e1 assegurada a recusa do anti-semitismo, desejaria explicar porque n\u00e3o se pode aceitar a tese do total distanciamento das autoridades judaicas a respeito da morte de Cristo e portanto da natureza essencialmente pol\u00edtica dela. Paulo, na mais antiga de suas cartas, escrita por volta do ano 50, apresenta, da condena\u00e7\u00e3o de Cristo, a mesma vers\u00e3o fundamental dos evangelhos. Diz que os \u201cjudeus mataram o Senhor Jesus\u201d (1 Ts 2,15), e sobre os factos decorridos em Jerusal\u00e9m pouco tempo antes de sua chegada \u00e0 cidade ele devia estar melhor informado que n\u00f3s, os modernos, havendo, em certa altura, aprovado e defendido \u201cobstinadamente\u201d a condena\u00e7\u00e3o do Nazareno.  Durante esta fase mais antiga o cristianismo considerava-se mesmo destinado principalmente a Israel. As comunidades nas quais se tinham formado as primeiras tradi\u00e7\u00f5es orais conflu\u00eddas depois nos evangelhos estavam constitu\u00eddas na sua maioria por judeus convertidos. Mateus, como observam tamb\u00e9m Augias e Pesce, est\u00e1 preocupado por mostrar que Jesus veio cumprir, n\u00e3o a abolir, a lei. Se havia portanto uma preocupa\u00e7\u00e3o apolog\u00e9tica, esta teria induzido a apresentar a condena\u00e7\u00e3o de Jesus como obra mais dos pag\u00e3os que das autoridades judias, a fim de tranquilizar os judeus da Palestina e da di\u00e1spora em rela\u00e7\u00e3o com os crist\u00e3os. Por outro lado, quando Marcos e, com seguran\u00e7a, os demais evangelistas escrevem o seu evangelho j\u00e1 tinha sucedido a persegui\u00e7\u00e3o de Nero. Isso deveria impulsionar a ver em Jesus a primeira v\u00edtima do poder romano e nos m\u00e1rtires crist\u00e3os que tinham sofrido a mesma sorte que o Mestre. Tem-se uma confirma\u00e7\u00e3o disso no Apocalipse, escrito depois da persegui\u00e7\u00e3o de Domiciano, no que Roma se faz objecto de uma inj\u00faria feroz (\u201cBabil\u00f3nia\u201d, a \u201cBesta\u201d, a \u201cprostituta\u201d) por causa do sangue dos m\u00e1rtires (Ap 13 ss.). Pesce tem raz\u00e3o ao divisar uma \u201ctend\u00eancia anti-romana\u201d no evangelho de Jo\u00e3o (p\u00e1g. 156). Por\u00e9m, Jo\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m quem mais acentua a responsabilidade do Sin\u00e9drio e dos chefes judeus no processo contra Cristo: como se concilia isto?  N\u00e3o se podem ler os relatos da Paix\u00e3o ignorando tudo o que os precede. Os quatro evangelhos atestam, pode-se dizer que em cada p\u00e1gina, um confronto religioso crescente entre Jesus e um grupo influente de judeus (fariseus, doutores da lei, escribas) sobre a observ\u00e2ncia do s\u00e1bado, sobre a atitude com os pecadores e os publicanos, sobre o puro e o impuro. Jeremias demonstrou a motiva\u00e7\u00e3o anti-farisaica presente em quase todas as par\u00e1bolas de Jesus. O dado evang\u00e9lico \u00e9 tanto mais cr\u00edvel enquanto que o confronto com os fariseus n\u00e3o \u00e9 em absoluto geral e por preconceito. Jesus tem amigos entre eles (um \u00e9 Nicodemos); encontramos Jesus, \u00e0s vezes, comendo na casa de algum deles; estes aceitam ao menos falar com ele e lev\u00e1-lo a s\u00e9rio, diferentemente dos saduceus. Sem excluir portanto que a situa\u00e7\u00e3o posterior tenha influ\u00eddo em carregar ulteriormente as tintas, \u00e9 imposs\u00edvel eliminar todo o confronto entre Jesus e uma parte influente da lideran\u00e7a judia de seu tempo, sem desintegrar completamente os evangelhos e faz\u00ea-los historicamente incompress\u00edveis. A obstina\u00e7\u00e3o do fariseu Saulo contra os crist\u00e3os n\u00e3o tinha nascido do nada e n\u00e3o levara consigo de Tarso! No entanto, uma vez demonstrada a exist\u00eancia deste confronto, como se pode pensar que ele n\u00e3o tenha feito, ainda que contrariado, alguma coisa no momento do ajuste final de contas e que as autoridades judias se tivessem decidido por denunciar Jesus a Pilatos unicamente por temor a uma interven\u00e7\u00e3o armada dos romanos? Pilatos n\u00e3o era certamente uma pessoa sens\u00edvel a raz\u00f5es de justi\u00e7a, como preocupar-se da sorte de um desconhecido judeu. Era um sujeito duro e cruel, disposto a reprimir com sangue o mais m\u00ednimo ind\u00edcio de revolta. Tudo isso \u00e9 muito certo. Por\u00e9m, ele n\u00e3o tenta salvar Jesus por compaix\u00e3o para com a v\u00edtima, mas somente por porfia contra os seus acusadores, com os quais estava em marcha uma guerra surda desde a sua chegada a Judeia. Naturalmente, isso n\u00e3o diminui em absoluto a responsabilidade de Pilatos na condena\u00e7\u00e3o de Cristo, que recai sobre ele n\u00e3o menos que sobre os chefes judeus. N\u00e3o \u00e9 coisa, sobretudo, de querer ser \u201cmais judeu que os judeus\u201d. Das not\u00edcias sobre a morte de Jesus, presentes no Talmud e em outras fontes judaicas (por mais tardias e historicamente contradit\u00f3rias que sejam), emerge algo: a tradi\u00e7\u00e3o judia jamais negou uma participa\u00e7\u00e3o das autoridades religiosas do tempo na condena\u00e7\u00e3o de Cristo. N\u00e3o fundou a pr\u00f3pria defesa negando o facto, sen\u00e3o em todo caso negando que o facto, do ponto de vista judaico, constitu\u00eda delito e que a sua condena\u00e7\u00e3o fora uma condena\u00e7\u00e3o injusta. Uma vers\u00e3o, esta, compat\u00edvel com a das fontes neotestament\u00e1rias que, enquanto por uma parte tiram \u00e0 luz a participa\u00e7\u00e3o das autoridades judias (dos saduceus talvez mais que dos fariseus) na condena\u00e7\u00e3o de Cristo, por outra parte frequentemente a excluam, atribuindo-a \u00e0 ignor\u00e2ncia (Lc 23,34; Hch 3, 17; 1 Co 2,8). \u00c9 o resultado a que chega tamb\u00e9m Raymond Brown, no seu livro de 1608 p\u00e1ginas \u201cLa muerte del Mes\u00edas\u201d.   Uma nota \u00e0 margem, mas que toca um ponto bastante delicado. Segundo Augias, Lucas atribui a Jesus as palavras: \u201cPor\u00e9m \u00e0queles inimigos meus, os que n\u00e3o quiseram que eu reinasse sobre eles, trazei-los aqui e matai-os diante de mim\u201d (Lc 19, 27), e comenta dizendo que \u201c\u00e9 em frases como estas que cobram for\u00e7as os partid\u00e1rios da \u2018guerra santa\u2019 e da luta armada contra os regimes injustos\u201d. H\u00e1 que precisar que Lucas n\u00e3o atribui tais palavras a Jesus, mas ao rei da par\u00e1bola que est\u00e1 a narrar, e que n\u00e3o se podem transportar tal qual da par\u00e1bola \u00e0 realidade todos os detalhes do relato parab\u00f3lico, e que em qualquer caso h\u00e1 que transp\u00f4-los do plano material para o espiritual. O sentido metaf\u00f3rico daquelas palavras \u00e9 que aceitar ou recusar a Jesus n\u00e3o carece de consequ\u00eancias. \u00c9 uma quest\u00e3o de vida ou morte, por\u00e9m vida e morte espiritual, n\u00e3o f\u00edsica. A guerra santa n\u00e3o tem nada a ver.   <b>6. Um balan\u00e7o<\/b> \u00c9 hora de encerrar esta minha leitura cr\u00edtica com alguma reflex\u00e3o conclusiva. N\u00e3o compartilho muitas respostas de Pesce, por\u00e9m respeito-o reconhecendo-lhe pleno direito de cidadania a uma investiga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Muitas delas (sobre a atitude de Jesus para a pol\u00edtica, os pobres, as crian\u00e7as, a import\u00e2ncia da ora\u00e7\u00e3o na sua vida) s\u00e3o inclusive iluminadoras. Alguns dos problemas suscitados &#8211; o lugar de nascimento de Jesus, a quest\u00e3o dos irm\u00e3os e das irm\u00e3s dele, o parto virginal &#8211; s\u00e3o objectivas e debatidas inclusive entre historiadores crentes. Por\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o estes problemas que far\u00e3o permanecer ou cair o cristianismo da Igreja. Menos justificada numa \u201cinvestiga\u00e7\u00e3o\u201d hist\u00f3rica sobre Jesus me parece a aten\u00e7\u00e3o com que Augias recolhe todas as insinua\u00e7\u00f5es sobre supostos v\u00ednculos homossexuais existentes entre os disc\u00edpulos, ou entre ele mesmo e \u201co disc\u00edpulo que amava\u201d (mas n\u00e3o tinha que estar apaixonado pela Madalena?), como tamb\u00e9m a detalhada descri\u00e7\u00e3o de escabrosos sucessos de algumas mulheres presentes na genealogia de Cristo. Da investiga\u00e7\u00e3o sobre Jesus fica-se com a impress\u00e3o de que se passa, \u00e0s vezes, a falat\u00f3rio sobre Jesus. Por\u00e9m, o fen\u00f3meno tem uma explica\u00e7\u00e3o. Sempre existiu a tend\u00eancia de revestir Cristo com as roupagens da pr\u00f3pria \u00e9poca ou da pr\u00f3pria ideologia. No passado, se bem discut\u00edveis, tratava-se de causas s\u00e9rias e de grande alento: o Cristo idealista, socialista, revolucion\u00e1rio&#8230;  A nossa \u00e9poca, obcecada com o sexo, n\u00e3o consegue pensar nele mais que concentrado em problemas sentimentais.  Considero que o facto de haver situado juntas uma vis\u00e3o de corte jornal\u00edstico declaradamente alternativa com uma vis\u00e3o hist\u00f3rica tamb\u00e9m radical e minimalista levou a um resultado no conjunto inaceit\u00e1vel, n\u00e3o somente para o homem de f\u00e9, mas tamb\u00e9m para o historiador. Ao final da leitura, um pergunta-se: como o fez Jesus, que n\u00e3o trouxe absolutamente nada novo a respeito do juda\u00edsmo, que n\u00e3o quis fundar nenhuma religi\u00e3o, que n\u00e3o realizou nenhum milagre nem ressuscitou mais que na mente alterada de seus seguidores, como o fez, repito, para converter-se no \u201chomem que mudou o mundo\u201d? Uma certa cr\u00edtica parte com a inten\u00e7\u00e3o de dissolver estas roupagens postas a Jesus de Nazar\u00e9 pela tradi\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica. Por\u00e9m, no final, o tratamento revela-se t\u00e3o corrosivo que dissolve tudo em volta. A for\u00e7a de dissipar os \u201cmist\u00e9rios\u201d sobre Jesus para reduzi-lo a um homem comum acaba por criar um mist\u00e9rio ainda mais inexplic\u00e1vel. Um grande exegeta ingl\u00eas, falando da ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, diz: \u201cA ideia de que o imponente edif\u00edcio da hist\u00f3ria do cristianismo seja como uma enorme pir\u00e2mide situada sobre um facto insignificante \u00e9 certamente menos cr\u00edvel que a afirma\u00e7\u00e3o de que todo o acontecimento \u2013 o dado de facto mais o significado inerente a ele \u2013 tenha ocupado realmente um lugar na hist\u00f3ria compar\u00e1vel ao que lhe atribui o Novo Testamento\u201d (Cf. H. Dodd).   A f\u00e9 condiciona a investiga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica? Inegavelmente, pelo menos em certa medida. Por\u00e9m, creio que a incredulidade a condiciona enormemente mais. Se um se aproxima da figura de Cristo e dos evangelhos como n\u00e3o crente (\u00e9 o caso, creio perceber, pelo menos de Augias) o essencial j\u00e1 est\u00e1 decidido de partida: o nascimento virginal n\u00e3o poder\u00e1 sen\u00e3o ser um mito, os milagres frutos de sugest\u00e3o, a ressurrei\u00e7\u00e3o produto de um \u201cestado alterado da consci\u00eancia\u201d, e assim sucessivamente. Algo, no entanto, nos consola e nos permite seguir respeitando-os reciprocamente e continuar o di\u00e1logo: se nos divide a f\u00e9, nos une em compensa\u00e7\u00e3o \u201ca boa f\u00e9\u201d. Nela os dois autores declaram ter escrito o livro e nela asseguro que o li e discuti.   (Tradu\u00e7\u00e3o adaptada para Portugu\u00eas por Ant\u00f3nio Jesus Cunha, <i>Voz Portucalese<\/i>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Raniero Cantalamesa<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[104,144,154,203,275],"class_list":["post-22143","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-america","tag-concilio-vaticano-ii","tag-crianca","tag-europa","tag-pascoa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22143","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22143"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22143\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22143"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22143"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22143"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}