{"id":220984,"date":"2021-11-06T16:35:10","date_gmt":"2021-11-06T16:35:10","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=220984"},"modified":"2021-11-08T10:47:28","modified_gmt":"2021-11-08T10:47:28","slug":"entrevista-o-meu-pai-tambem-foi-educador-e-formador-de-um-pastor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/entrevista-o-meu-pai-tambem-foi-educador-e-formador-de-um-pastor\/","title":{"rendered":"Entrevista: \u00abO meu pai tamb\u00e9m foi educador e formador de um pastor\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>O pai queria que o filho fosse militar, a m\u00e3e advogado, mas o \u201cmenino Toninho\u201d desde cedo gostou de pregar na varanda e decidiu entrar no semin\u00e1rio aos 10 anos. 50 anos depois da ordena\u00e7\u00e3o sacerdotal, D. Ant\u00f3nio Marto partilha mem\u00f3rias do percurso formativo, acad\u00e9mico e episcopal, e da forma como foi considerando o perfil do padre<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Paulo Rocha<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<div class=\"epyt-video-wrapper\"><iframe  id=\"_ytid_45465\"  width=\"480\" height=\"270\"  data-origwidth=\"480\" data-origheight=\"270\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/j6cWNzSQt-Y?enablejsapi=1&#038;autoplay=0&#038;cc_load_policy=0&#038;cc_lang_pref=pt&#038;iv_load_policy=1&#038;loop=0&#038;rel=0&#038;fs=1&#038;playsinline=1&#038;autohide=2&#038;theme=dark&#038;color=red&#038;controls=1&#038;disablekb=0&#038;\" class=\"__youtube_prefs__  epyt-is-override  no-lazyload\" title=\"YouTube player\"  allow=\"fullscreen; accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen data-no-lazy=\"1\" data-skipgform_ajax_framebjll=\"\"><\/iframe><\/div>\n<p><em>Ag\u00eancia ECCLESIA (AE) \u2013 Na inf\u00e2ncia, na sua aldeia, em Chaves, o seu pai queria que fosse militar e a sua m\u00e3e advogado, mas o \u201cmenino Toninho\u201d j\u00e1 pregava na varanda. Que ideia tinha do ser padre na altura?<\/em><\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Marto (AM) &#8211; Eu sou oriundo de uma aldeia serrana de Tr\u00e1s-os-Montes, conservo as ra\u00edzes tel\u00faricas e as recorda\u00e7\u00f5es de inf\u00e2ncia num tempo muito diferente do atual: era uma aldeia predominantemente cat\u00f3lica, com o ritmo da vida marcado pelo campan\u00e1rio e as grandes celebra\u00e7\u00f5es eram as religiosas\u2026 Eu morava perto da casa paroquial, era ass\u00edduo \u00e0s celebra\u00e7\u00f5es e o p\u00e1roco ensinou-me latim para poder dar as respostas \u00e0 Eucaristia e, como ele era amigo pr\u00f3ximo, meu e da minha fam\u00edlia, ficava encantado com a maneira como ele se relacionava com as pessoas, pela beleza da liturgia, tendo sempre a no\u00e7\u00e3o de que era Deus que estava presente. Interiormente fui elaborando esta ideia de ser padre como ele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; E foi isso que o levou para o semin\u00e1rio?<\/em><\/p>\n<p>AM &#8211; Sim, foi isso que me levou ao semin\u00e1rio e tamb\u00e9m pelo encanto que tinha pela figura de Jesus, que se aprendia na catequese, n\u00e3o como hoje, mas ficava o encantado pelo mist\u00e9rio de Deus e da figura de Jesus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Mas houve pouco entusiasmo familiar com esta ideia\u2026<\/em><\/p>\n<p>AM &#8211; Quando revelei esta inten\u00e7\u00e3o, depois de ter terminado o 4\u00ba ano da escola prim\u00e1ria, o meu pai ficou surpreendido, porque nunca tinha dito a ningu\u00e9m. Come\u00e7ou por apresentar as suas reservas: que era muito novo, que era melhor estudar fora no liceu e depois decidiria, que gostaria muito que fosse para os Pupilos do Ex\u00e9rcito. Eu respondi que se n\u00e3o me deixasse ir para o semin\u00e1rio, n\u00e3o iria estudar para lado nenhum\u2026 O meu pai contava isso e dizia que pediu conselho aos amigos que lhe disseram: deixar ir o rapaz e depois ele decidir\u00e1, na idade mais madura. E assim foi.<\/p>\n<p>Entrei para o semin\u00e1rio com 10 anos, acompanhado pelo meu pai, com a mala e o enxoval que se exigia. O meu pai deixou-me l\u00e1 no semin\u00e1rio, n\u00e3o havia visitas frequentes, porque n\u00e3o era f\u00e1cil a mobilidade como nos tempos de hoje. Recebia uma visita a cada trimestre e depois nas f\u00e9rias, Natal, P\u00e1scoa e f\u00e9rias grandes.<\/p>\n<p>Eu gostava de ser seminarista, at\u00e9 porque as pessoas da aldeia consideravam o seminarista, davam grande aten\u00e7\u00e3o ao menino seminarista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Acredito que estas reservas, por parte do seu pai e familiares, tivessem na origem o facto de dois irm\u00e3os terem falecido muito cedo\u2026<\/em><\/p>\n<p>AM &#8211; \u00c9 natural! Ele s\u00f3 me disse mais tarde. N\u00e3o gostava muito de falar da morte dos meus irm\u00e3os porque os dois morreram de acidente e era algo doloroso para ele. Uma vez contou-me essas hist\u00f3rias mas sem me dizer que era a raz\u00e3o das reservas.<\/p>\n<p>Quando fui crescendo, fui conhecendo outros padres no semin\u00e1rio que tinham acabado de se formar e ser ordenados e exerciam a fun\u00e7\u00e3o de prefeitos com muita jovialidade. No semin\u00e1rio vivia-se boa camaradagem, embora fosse com disciplina bastante f\u00e9rrea.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Em Vila Real e depois no Porto?<\/em><\/p>\n<p>AM \u2013 Em Vila Real durante todo o tempo de semin\u00e1rio menor e alguns anos do semin\u00e1rio maior e depois fui terminar ao Porto, em 1968.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; \u00c9 nessa ocasi\u00e3o que tem de esperar dois anos para ser ordenado e opta pela experi\u00eancia fabril? Marcou-o de alguma forma essa decis\u00e3o?<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_220803\" aria-describedby=\"caption-attachment-220803\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/antonio-marto5.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-220803\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/antonio-marto5-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/antonio-marto5-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/antonio-marto5-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/antonio-marto5-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/antonio-marto5-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/antonio-marto5-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/antonio-marto5-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/antonio-marto5-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/antonio-marto5.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-220803\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p>AM &#8211; Aos 18 anos tomei a decis\u00e3o de ser padre, uma decis\u00e3o madura, com os sobressaltos que uma voca\u00e7\u00e3o conhece, at\u00e9 porque quando via os amigos a sair tamb\u00e9m me apetecia sair com eles. Mas depois veio um diretor espiritual, um jesu\u00edta, muito bom que nos ajudou a conhecer verdadeiramente a Jesus nos Evangelhos e nos ajudou no discernimento vocacional, chamava-se padre Norberto Martins. Recordo porque foi ele que me ajudou a tomar a decis\u00e3o final e amadurecida.<\/p>\n<p>Depois fui para o Porto. O bispo de ent\u00e3o, D. Ant\u00f3nio Cardoso Cunha, que recordo com muita saudade, homem que tinha acabado de estar em todas as sess\u00f5es do Conc\u00edlio, era formado em Hist\u00f3ria, com uma vis\u00e3o clarividente. O Conc\u00edlio tinha terminado em 1965 e ele, em 1968, decidiu que era insustent\u00e1vel ter um semin\u00e1rio maior na diocese, n\u00e3o s\u00f3 do ponto de vista econ\u00f3mico mas tamb\u00e9m formativo, porque eram poucos os alunos, muitos mais os professores e decidiu que os alunos de Teologia iriam para outro semin\u00e1rio. Chamou os professores e prefeitos da casa e p\u00f4s-lhes o problema: est\u00e1 decidido que termina o Semin\u00e1rio Maior na Diocese e v\u00e3o estudar para fora. E deu a escolher Lamego ou Porto. E escolheram o Porto! Ele respondeu \u2013 isto foi-me contado por ele \u2013 o meu cora\u00e7\u00e3o pendia para Lamego, por ser natural de Lamego, mas a raz\u00e3o pende para o Porto. E foi assim que fui para o Porto!<\/p>\n<p>Fui para o Porto com uma grande \u00e2nsia de abrir horizontes e foi isso que fui encontrar: um Semin\u00e1rio onde nos educavam para a liberdade e para a responsabilidade, um semin\u00e1rio onde nos ajudavam \u00e0 maturidade humana, da f\u00e9 e da voca\u00e7\u00e3o pastoral. Tive um reitor excelente, que morreu cedo, um diretor espiritual muito aberto que vinha dos movimentos da A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica, que nos p\u00f4s em contacto com os Movimentos da A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica. Era professor de Apostolado dos Leigos e de Doutrina Social da Igreja. Abriu-nos horizontes, abriu-nos para o mundo, para o di\u00e1logo com o mundo. P\u00f4s-nos a estudar a constitui\u00e7\u00e3o sobre a Igreja no mundo contempor\u00e2neo, que para mim era tudo novidade e novidade entusiasmante.<\/p>\n<p>Dentro deste clima surgiu muito naturalmente a ideia, pela primeira vez, de em vez de estagiar numa par\u00f3quia, fazer o est\u00e1gio num ambiente oper\u00e1rio (na altura era muito conhecida a experi\u00eancia dos padres oper\u00e1rios). Fui para conhecer o mundo oper\u00e1rio e testemunhar tamb\u00e9m o Evangelho e a Doutrina Social da Igreja no mundo oper\u00e1rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; E que contributo teve essa experi\u00eancia no seu percurso formativo?<\/em><\/p>\n<p>AM &#8211; Abriu-me aos problemas do mundo, que n\u00e3o eram s\u00f3 resultado de um estudo mas de uma experi\u00eancia, de uma viv\u00eancia concreta, de quem trabalha, tinha de se levantar de manh\u00e3 cedo, chegar \u00e0 f\u00e1brica e vestir o fato de oper\u00e1rio, e trabalhar diante de uma m\u00e1quina com outros (fomos tr\u00eas e inicialmente ningu\u00e9m sabia que \u00e9ramos seminaristas) e experimentar a dificuldade de encontrar trabalho. Na altura batemos a v\u00e1rias portas de v\u00e1rias f\u00e1bricas e a primeira pergunta era se j\u00e1 t\u00ednhamos feito o servi\u00e7o militar, para n\u00e3o interromper o percurso de trabalho. N\u00f3s n\u00e3o quer\u00edamos dizer que eramos seminaristas e diz\u00edamos que n\u00e3o e fechavam-nos logo as portas. Na \u00faltima tivemos de dizer quem \u00e9ramos e o que pretend\u00edamos e ent\u00e3o abriram-nos a porta com toda a hospitalidade. Foi a paix\u00e3o pelo di\u00e1logo entre o Evangelho, a f\u00e9, a Igreja e mundo moderno, os problemas concreto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Tudo na onda de renova\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio?<\/em><\/p>\n<p>AM &#8211; Na onda de renova\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio, tudo cheio de entusiasmo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>AE &#8211; Chegou muito de seguida o desafio de estudar em Roma?<\/p>\n<p>AM \u2013 Depois, estava combinado com o bispo que iria fazer est\u00e1gio diaconal na par\u00f3quia da R\u00e9gua. Ia com todo o gosto porque estava combinado mas, \u00e0 ultima hora, o bispo resolveu mudar e mandar-me estudar para Roma. Ainda pedi para pensar, mas os meus conselheiros, os padres do semin\u00e1rio, disseram que aceitasse porque era uma miss\u00e3o que a Igreja me confiava e que a Igreja precisava de gente preparada. E tenho de prestar homenagem a esse grande bispo que mandou estudar muitos padres em v\u00e1rias universidades, em Paris, em Toulouse, em Lovaina, na Alemanha, em Roma e, quando terminou o seu governo da diocese, confidenciou-me: \u201cViste que foram estudar muitos padres&#8230; N\u00e3o foram mais porque n\u00e3o quiseram, sabes porqu\u00ea? Porque v\u00eam a\u00ed tempos dif\u00edceis e a Igreja precisa de ter gente muito bem preparada para isso\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Estava a pensar na mudan\u00e7a do Conc\u00edlio, nos anos de hoje?<\/em><\/p>\n<p>AM \u2013 Porventura n\u00e3o imaginava os anos de hoje, mas todo um processo de mudan\u00e7a. Estamos a assistir a uma mudan\u00e7a de \u00e9poca, mas a seguir ao Conc\u00edlio foi uma grande transforma\u00e7\u00e3o cultural, cheia de mudan\u00e7as r\u00e1pidas. A pr\u00f3pria a constitui\u00e7\u00e3o sobre a Igreja fala disso, das mudan\u00e7as vertiginosas a que o mundo assiste e \u00e0s quais a Igreja deve responder.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ordena\u00e7\u00e3o sacerdotal em Roma<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &#8211; Neste dia 7 de novembro temos de recordar o mesmo dia em 1971: em que circunst\u00e2ncias \u00e9 ordenado em Roma por D. Ant\u00f3nio Ribeiro?<\/em><\/p>\n<p>AM &#8211; Foi um equ\u00edvoco: na altura n\u00e3o havia telem\u00f3vel, nem o telefone era muito usual, mas estava combinado entre mim e o bispo a ordena\u00e7\u00e3o ser em setembro, em Vila Real. Mas o bispo esqueceu-se de p\u00f4r na agenda e nesse m\u00eas foi de f\u00e9rias para a Alemanha e ningu\u00e9m sabia onde estava. S\u00f3 veio depois, em outubro, quando eu tinha de ir para Roma. Ele disse: \u201cOrdenas-te em Roma\u201d. Foi na ocasi\u00e3o em que havia o s\u00ednodo dos bispos, estava l\u00e1 o cardeal Ant\u00f3nio Ribeiro e aproveitei essa ocasi\u00e3o: fui ordenado na capela do col\u00e9gio portugu\u00eas (e vim a encontrar aqui na Diocese de Leiria-F\u00e1tima alguns padres que j\u00e1 eram padres e estavam a estudar em Roma e me impuseram as m\u00e3os no dia da ordena\u00e7\u00e3o sacerdotal).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Queria recordar uma frase que o seu pai lhe disse na altura: \u201cTu agora \u00e9s padre, mas n\u00e3o te suba o poder \u00e0 cabe\u00e7a\u201d. Por ocasi\u00e3o da ordena\u00e7\u00e3o, queria ser padre para qu\u00ea?<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_220804\" aria-describedby=\"caption-attachment-220804\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/antonio-marto4.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-220804\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/antonio-marto4-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/antonio-marto4-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/antonio-marto4-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/antonio-marto4-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/antonio-marto4-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/antonio-marto4-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/antonio-marto4-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/antonio-marto4-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/antonio-marto4.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-220804\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p>AM &#8211;\u00a0 Eu quando era seminarista pensei ser p\u00e1roco e trabalhar com a juventude, era o meu gosto. Tinha trabalhado com movimentos de A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica, a A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica Rural, a Liga Oper\u00e1ria Cat\u00f3lica, conheci tamb\u00e9m a Juventude Oper\u00e1ria Cat\u00f3lica e havia o Movimento Cat\u00f3lico de Estudantes. O meu sonho era ir para par\u00f3quia e trabalhar com a juventude! Mas o sonho n\u00e3o se realizou: O bispo pediu, em nome da Igreja, uma especializa\u00e7\u00e3o em Teologia. Depois j\u00e1 sabia o que me esperava, porque o bispo disse-me que iria para o Porto como educador do Semin\u00e1rio Maior do Porto, acompanhando os seminaristas da Diocese de Vila Real, e professor.<\/p>\n<p>Quando vim de f\u00e9rias, fizemos celebra\u00e7\u00e3o familiar e o meu pai disse-me: \u201cMeu filho, tu agora \u00e9s padre, n\u00e3o h\u00e1 problema nenhum, s\u00f3 te quero pedir uma coisa: lembra-te sempre que vens de uma fam\u00edlia humilde! Que n\u00e3o te suba o poder \u00e0 cabe\u00e7a! Trata sempre bem os pobres e os humildes!\u201d Eu isso nunca esqueci na vida! Foi uma marca que recordo sempre, praticamente todos os dias, sem grande esfor\u00e7o. Assim, o meu pai tamb\u00e9m foi educador e formador de um pastor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211;\u00a0 Que pertin\u00eancia v\u00ea nessas palavras, pensando no que \u00e9 ser padre, hoje?<\/em><\/p>\n<p>AM &#8211;\u00a0 Um padre tem de ser um homem de rela\u00e7\u00f5es: Rela\u00e7\u00e3o com Deus, porque as pessoas gostam de um padre muito pr\u00f3ximo mas gostam de saber que \u00e9 um homem de f\u00e9 e que \u00e9 diferente, mas depois tem de ser homem de rela\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas com todos, de acolhimento, aten\u00e7\u00e3o a cada um, de escuta, de partilha das alegrias e sofrimentos. Porque um padre pode saber muito, ter grande forma\u00e7\u00e3o em Teologia, Filosofia, Sociologia, saber explicar muito bem as coisas, fazer grandes serm\u00f5es, mas se n\u00e3o tem a proximidade com seu povo, com as pessoas, falta-lhe algo, n\u00e3o serve! E o que \u00e9 que lhe falta? Falta-lhe a l\u00edngua, falta-lhe o poder de falar? N\u00e3o, falta-lhe o cora\u00e7\u00e3o, a humanidade. O padre tem de ser humano. Eu dizia sempre aos alunos do semin\u00e1rio, quando terminavam o curso: quando fordes nomeados p\u00e1rocos, as primeiras cartas credenciais com vos apresentais ao povo ser\u00e1 a vossa rela\u00e7\u00e3o humana, o resto vir\u00e1 por acr\u00e9scimo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Foi isso que o seu pai desde cedo quis dizer&#8230;<\/em><\/p>\n<p>AM &#8211;\u00a0 Foi sempre o que o meu pai me aconselhou e depois a op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres, aquilo que o Papa Francisco diz: uma Igreja em sa\u00edda \u00e0s periferias. Na altura n\u00e3o se usava esta express\u00e3o nem o meu pai a sabia&#8230; Hoje concretizo-a deste modo: ir \u00e0s periferias, ao encontro dos que est\u00e3o s\u00f3s, abandonados e necessitados. \u00c9 isso, os humildes e os pobres.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O Professor<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &#8211; Seguiram-se sete anos em Roma, um doutoramento, olhar a f\u00e9 de forma muito racional\u2026 Alterou esta conce\u00e7\u00e3o do ser padre?<\/em><\/p>\n<p>AM \u2013 A forma\u00e7\u00e3o em Teologia \u00e9 uma coisa muito bela, porque ajuda a aprofundar realidades profundas e a conhecer o cora\u00e7\u00e3o e alma humana. N\u00e3o era Teologia abstrata (quando estudei Teologia, era a chamada Teologia Escol\u00e1stica, que era de facto abstrata, parecia um esqueleto \u00e0 qual faltava a carne), era renovada, com aten\u00e7\u00e3o, como dizia o Papa Paulo VI quando terminou o Conc\u00edlio, \u00e0 pastoral do bom samaritano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; No caso do D. Ant\u00f3nio, v\u00e1rias vezes admitiu esse racionalismo\u2026 <\/em><\/p>\n<p>AM \u2013 \u00c9 verdade, era a compreens\u00e3o racional da f\u00e9! Mas quando vim, nunca deixei o exerc\u00edcio pastoral do minist\u00e9rio, era professor e formador.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Durante 24 anos&#8230;<\/em><\/p>\n<p>AM &#8211;\u00a0 Mas procurei estar sempre ligado a uma par\u00f3quia. E as duas primeiras a que estive ligado eram pobres, a par\u00f3quia de Miragaia e a par\u00f3quia da S\u00e9. Depois as outras j\u00e1 eram mais urbanas, mais ricas, a Par\u00f3quia do Marqu\u00eas e de Matosinhos. Em todas aprendi a ser pastor!<\/p>\n<p>Recordo-me que, na par\u00f3quia da S\u00e9, havia a Missa das crian\u00e7as e, a primeira vez que o p\u00e1roco me pediu para presidir, disse \u201cMas eu n\u00e3o sei falar \u00e0s crian\u00e7as\u201d. E ele ajudou-me. Depois fazia reuni\u00f5es com ele para saber como come\u00e7ar e estabelecer di\u00e1logo com elas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Tamb\u00e9m com as express\u00f5es que usa agora no santu\u00e1rio de F\u00e1tima, os \u201cpequenitos e as pequenitas\u201d?<\/em><\/p>\n<p>AM &#8211; Sim, isso depois fui acrescentando, na altura n\u00e3o usava. Essa frase resultou desta experi\u00eancia: Eu via as crian\u00e7as nas celebra\u00e7\u00f5es com os adultos e as nossas celebra\u00e7\u00f5es s\u00e3o praticamente para adultos. Pensava comigo: o que ser\u00e1 que as crian\u00e7as levam daqui? Devem sair daqui desiludidas&#8230; Ent\u00e3o, passei a fazer essa sauda\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes uma frase s\u00f3, para elas levarem consigo algo e saberem que algu\u00e9m as considera e isso \u00e9 importante, \u00e9 uma maneira de estabelecer la\u00e7o com a Igreja e com Jesus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; D. Ant\u00f3nio Marto, tem pena de ter deixado a vida acad\u00e9mica?<\/em><\/p>\n<p>AM &#8211; Gostava muito, sentia-me como peixe na \u00e1gua. Gostava de ser professor, conviver com os alunos, conhecia-os de perto, n\u00e3o me fechava no gabinete. Quer na Faculdade de Teologia quer na de Direito, no Porto, tinha rela\u00e7\u00e3o fraterna com os alunos. Era exigente e tinha essa fama, mas ao mesmo tempo era fraterno e procurava ajud\u00e1-los tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Gostava imenso da vida acad\u00e9mica, porque puxava por n\u00f3s e est\u00e1vamos sempre a ser desafiados a estudar coisas novas.<\/p>\n<p>Quando fui chamado para ser bispo, pedi para que me deixassem 24 horas para pensar e para dar resposta. Consultei dois ou tr\u00eas dos melhores amigos e come\u00e7aram por dizer: o que a Igreja te pede est\u00e1 na linha do sim que deste no sacerd\u00f3cio. Mas, para ser sincero, chorei quando deixei a Universidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211;\u00a0 N\u00e3o conseguiu despedir-se dos alunos?<\/em><\/p>\n<p>AM &#8211; N\u00e3o consegui, por tr\u00eas vezes fiz a tentativa. Eles bateram palmas e assim ficou a despedida, na \u00faltima aula.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O bispo <\/strong><\/p>\n<p><em>AE &#8211; E neste percurso que fazemos sobre o perfil do sacerd\u00f3cio, ao longo dos 50 anos,<\/em> <em>chegamos ao momento em que \u00e9 bispo, primeiro auxiliar de Braga, depois de Viseu e<\/em> <em>agora bispo de Leiria-F\u00e1tima. Acredito que tamb\u00e9m pelo contacto com os sacerdotes e necessidades a acudir, o perfil de padre foi-se alterando enquanto era bispo?<\/em><\/p>\n<p>AM &#8211; Foi-se alterando e agora est\u00e1 diante de desafios in\u00e9ditos, como a Igreja se encontra tamb\u00e9m. Como diz o Papa Francisco, n\u00e3o se trata s\u00f3 de uma \u00e9poca de mudan\u00e7as mas de mudan\u00e7a de \u00e9poca, ao n\u00edvel cultural, econ\u00f3mico-financeiro, social e tecnol\u00f3gico: tudo isto est\u00e1 a dar origem a um novo mundo que est\u00e1 a nascer e cujos contornos ainda n\u00e3o est\u00e3o definidos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; E a Igreja Cat\u00f3lica est\u00e1 a ser capaz de pensar nesses contornos? Porque h\u00e1 problemas graves por resolver, temos de admitir, consegue pensar nessas mudan\u00e7as?<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_220808\" aria-describedby=\"caption-attachment-220808\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/antonio-marto-manchete2021.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-220808\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/antonio-marto-manchete2021-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/antonio-marto-manchete2021-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/antonio-marto-manchete2021-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/antonio-marto-manchete2021-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/antonio-marto-manchete2021-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/antonio-marto-manchete2021-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/antonio-marto-manchete2021-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/antonio-marto-manchete2021-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/antonio-marto-manchete2021.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-220808\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p>AM &#8211; Temos um grande Papa, que veio de outro mundo, diferente do ocidental, muito sens\u00edvel a aspetos que o mundo ocidental esquece, porque \u00e9 da abund\u00e2ncia e n\u00e3o imagina\u00a0 o que \u00e9 a pobreza, por exemplo. \u00c9 um mundo consumista e n\u00e3o imagina que s\u00e3o precisos limites para n\u00e3o p\u00f4r em causa a dignidade dos pobres, o reconhecimento da dignidade de todos, a sobreviv\u00eancia da casa comum.<\/p>\n<p>Temos um Papa que tem o dom do discernimento, por ser jesu\u00edta certamente, n\u00e3o s\u00f3 ao n\u00edvel pessoal, mas comunit\u00e1rio e global. Hoje, estamos a viver de forma in\u00e9dita a globaliza\u00e7\u00e3o, \u00e0 qual se junta depois a inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, com todos os meios novos, que implementam uma nova cultura. Todo este mundo digital n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 de t\u00e9cnica, mas \u00e9 uma cultura que abre muitas possibilidades, mas traz grandes riscos. Hoje, espalha-se uma mentalidade de p\u00f4r a confian\u00e7a numa esp\u00e9cie de omnipot\u00eancia nos meios tecnol\u00f3gicos digitais que dessem solu\u00e7\u00e3o a tudo. O Evangelho diz \u201cnem s\u00f3 de p\u00e3o vive o homem\u201d e hoje temos de atualizar isso e dizer \u201cnem s\u00f3 de algoritmos vive o homem\u201d. Os algoritmos s\u00e3o bons e necess\u00e1rios para encontrar meios ou solu\u00e7\u00f5es de ordem tecnol\u00f3gica e at\u00e9 financeira, mas a dimens\u00e3o humana \u00e9 insubstitu\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; \u00c9 preciso mudar as par\u00e1bolas de Jesus trazendo os algoritmos e a tecnologia para o ser padre hoje?<\/em><\/p>\n<p>AM \u2013 Naturalmente! Eu j\u00e1 n\u00e3o tenho a linguagem da juventude de hoje&#8230; Eles s\u00e3o nativos digitais, t\u00eam esta cultura, modo de ver o mundo e de se relacionar, a quest\u00e3o dos valores&#8230; Tudo isso cria um clima de incertezas e inseguran\u00e7as em que a Igreja vive e precisa de orienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O nosso Papa tem pelo menos tr\u00eas grandes chaves de compreens\u00e3o do mundo moderno. O mundo p\u00f3s-moderno que \u00e9 o mundo novo que est\u00e1 a nascer, \u00e9 de muitas desigualdades, divis\u00f5es, crispa\u00e7\u00f5es e da chamada terceira guerra mundial aos peda\u00e7os. \u00c9 o mundo de feridos e muitas feridas. E isto vale para a Igreja e para a imagem do padre: a Igreja como hospital de campanha, onde a primeira fun\u00e7\u00e3o \u00e9 acolher os feridos e ajudar a cuidar as feridas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Perfil do padre hoje<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &#8211; E isso define o papel do padre hoje?<\/em><\/p>\n<p>AM \u2013 Define tamb\u00e9m! N\u00e3o \u00e9 ir com condena\u00e7\u00f5es imediatas ou ju\u00edzos imediatos. Isso \u00e9 l\u00f3gica do poder, do autoritarismo! A Igreja hoje tem de saber falar ao mundo de hoje como Jesus, que n\u00e3o era de condena\u00e7\u00e3o ou ju\u00edzo imediato, mas de acolhimento e compaix\u00e3o, miseric\u00f3rdia. Melhor dito: proximidade, compaix\u00e3o e ternura, uma express\u00e3o do Papa que resume a presen\u00e7a da Igreja no mundo de hoje e o perfil do padre tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Outro aspeto \u00e9 o da casa comum, a ecologia integral. Os pa\u00edses que mais poluem o mundo e p\u00f5em a causa a sobreviv\u00eancia da humanidade s\u00e3o aqueles que menos se querem empenhar na diminui\u00e7\u00e3o do carbono que p\u00f5e em causa as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>E depois outro aspeto: a fraternidade. Hoje vivemos, no mundo ocidental, um relativismo de valores que leva a um individualismo exacerbado. Cada um \u00e9 o criador de si mesmo, sem olhar aos outros. \u00c9 o risco da cultura da indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o basta s\u00f3 o slogan liberdade e igualdade, mas \u00e9 preciso a fraternidade que estende e lan\u00e7a pontes entre todos e da\u00ed a necessidade do di\u00e1logo inter-religioso e o di\u00e1logo ecum\u00e9nico. Religi\u00f5es irm\u00e3s para fazer povos irm\u00e3s.<\/p>\n<p>S\u00e3o grandes chaves para interpretar o mundo de hoje.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Uma miss\u00e3o sacerdotal a construir nessas tr\u00eas linhas que define\u2026 Mas n\u00e3o se pode esconder um problema que h\u00e1 a resolver, nomeadamente dos abusos, a fragilidade com que o sacerd\u00f3cio acontece nalgumas dioceses\u2026Esse \u00e9 um problema a enfrentar sem rodeios?<\/em><\/p>\n<p>AM \u2013 Sim! Hoje a figura do padre n\u00e3o tem aquele prest\u00edgio social que teve antigamente, a Igreja n\u00e3o tem aquela for\u00e7a de atra\u00e7\u00e3o que teve no regime de cristandade, no ocidente estamos a viver aquilo que o Papa Bento XVI, quando era jovem te\u00f3logo, em 1969, previa que Igreja fosse feita de minorias, mas minorias criativas, com algo a dizer e inspirar para o mundo. Depois, o clima de seculariza\u00e7\u00e3o que avan\u00e7a no ocidente \u00e9 sentido por quem exerce o minist\u00e9rio: sente que n\u00e3o tem o apoio cultural que tinha e tem medo do momento presente. Esta nova realidade exige tamb\u00e9m inova\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos e linguagens para chegar \u00e0s pessoas e \u00e0s vezes n\u00e3o temos receitas prontas. Ent\u00e3o h\u00e1 dois riscos: ficar fechados no imobilismo (sempre se fez assim, vamos continuar) ou ficar no tradicionalismo da nostalgia do passado (o que acontece nalgum clero jovem tamb\u00e9m). Depois o medo do presente e medo ou receio de fazer face a estes desafios porque n\u00e3o h\u00e1 receitas prontas e n\u00e3o encontramos o eco que desejar\u00edamos, uma vez que somos minoria e n\u00e3o estamos habituados a trabalhar em minoria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Isso pode levar \u00e0 desist\u00eancia ou ao poder?<\/em><\/p>\n<p>AM &#8211; \u00c0 desist\u00eancia no sentido do des\u00e2nimo: \u201cPara qu\u00ea tanta fadiga se n\u00e3o consegui nada, para qu\u00ea correria, tantas coisas a fazer&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Isto exige reconfigura\u00e7\u00e3o das comunidades crist\u00e3s para que o padre n\u00e3o seja o catalisador de tudo, porque cai tudo sobre ele, \u00e9 uma infinidade de coisas a fazer, n\u00e3o tem tempo para descansar, atender pessoalmente as pessoas e pode levar a este des\u00e2nimo que eu dizia e n\u00e3o se sentir bem na sua pele, no que anda a fazer. Isso \u00e9 um risco grande.<\/p>\n<p>As comunidades crist\u00e3s tamb\u00e9m t\u00eam de se sensibilizar para dar apoio efetivo ao seu padre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O risco do poder \u00e9 real?<\/em><\/p>\n<p>AM &#8211; O risco do poder \u00e9 real, mas hoje&#8230; Deus me livre quem tenha a ambi\u00e7\u00e3o do poder&#8230; Falta-nos um laicado maduro e respons\u00e1vel! Por exemplo, agora o Papa abre um caminho novo, o modelo sinodal da Igreja, que exige participa\u00e7\u00e3o e corresponsabilidade de todos, segundo a diversidade da fun\u00e7\u00e3o e carisma que cada um exerce, todos participam, o que exige maior diversidade de minist\u00e9rios tamb\u00e9m. Uma descentraliza\u00e7\u00e3o, o padre descentrado, onde o centro \u00e9 Cristo e uma partilha de minist\u00e9rios. O minist\u00e9rio do padre n\u00e3o \u00e9 a\u00e7ambarcamento dos minist\u00e9rios dos outros, mas o minist\u00e9rio da s\u00edntese, a comunh\u00e3o entre todos, em que todos os minist\u00e9rios e servi\u00e7os confluem para o bem da comunidade mas isto leva tempo\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; N\u00e3o vai ser o s\u00ednodo a resolver? Mas pode ajudar\u2026<\/em><\/p>\n<p>AM &#8211; N\u00e3o, vai levar tempo! Isto est\u00e1 em g\u00e9rmen no Concilio Vaticano II e j\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o 60 anos, mais ou menos, e leva tempo. Agora o Papa est\u00e1 a implementar isto: inicia-se um processo que h\u00e1 de germinar, crescer e dar frutos\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Estamos a terminar\u2026 Como espera continuar a ser sacerdote nessa tal resposta que procurava e na resposta \u00e0 cultura de mudan\u00e7a que estamos a assistir?<\/em><\/p>\n<p><em>AM &#8211;<\/em> \u00c9 uma paix\u00e3o que tenho por compreender a cultura de hoje. Eu \u00e0s vezes digo ao grupo de crismandos, quando fa\u00e7o a compara\u00e7\u00e3o entre o mundo em que nasci e cresci, em que n\u00e3o havia televis\u00e3o, nem havia r\u00e1dio. Ouvi pela primeira vez r\u00e1dio aos 13 anos e televis\u00e3o aos 15 anos e era a preto e branco. Quando digo isto, eles abrem a boca dizem: \u201cahhh\u201d, como se isto fosse uma coisa imposs\u00edvel e inimagin\u00e1vel\u2026 N\u00e3o havia telem\u00f3vel, n\u00e3o havia iPad, quando fiz a tese de doutoramento n\u00e3o havia computador. Perdi tanto tempo a fazer p\u00e1ginas novas na m\u00e1quina de escrever. Quando comparo esse mundo em que nasci e cresci com este mundo em que eles nascem e crescem, parece que vim de um planeta long\u00ednquo para um novo planeta.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho medo da morte (fui professor de escatologia, da esperan\u00e7a crist\u00e3). Irei para o c\u00e9u com todo o gosto. Acho que ser\u00e1 um encontro bel\u00edssimo, surpreendente. Mas gosto de andar no mundo, n\u00e3o tenho ressentimento em rela\u00e7\u00e3o ao mundo, deste tempo que \u00e9 nosso, sem lamenta\u00e7\u00f5es do que passou. Vivi uma inf\u00e2ncia feliz, com os outros na rua, n\u00e3o havia medos de raptos de crian\u00e7as, as portas das casas ficavam abertas de noite, se algu\u00e9m batia \u00e0 porta ningu\u00e9m perguntava quem era, dizia-se \u201cEntre!\u201d Hoje n\u00e3o h\u00e1 nada disso\u2026 Mas n\u00e3o vale a pena chorar junto ao muro das lamenta\u00e7\u00f5es! Vamos viver este tempo como um desafio e com as novas oportunidades que oferece, sabendo que se assemelha a um parto e, por isso, temos de sofrer as dores de parto, at\u00e9 que chegue um mundo mais fraterno, mais justo, em que todos os homens se possam encontrar como irm\u00e3os.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei quantos anos mais viverei, mas farei o que puder ao servi\u00e7o da Igreja e do Mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pai queria que o filho fosse militar, a m\u00e3e advogado, mas o \u201cmenino Toninho\u201d desde cedo gostou de pregar na varanda e decidiu entrar no semin\u00e1rio aos 10 anos. 50 anos depois da ordena\u00e7\u00e3o sacerdotal, D. Ant\u00f3nio Marto partilha mem\u00f3rias do percurso formativo, acad\u00e9mico e episcopal, e da forma como foi considerando o perfil [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":220808,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[338,177],"class_list":["post-220984","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","tag-clero-seminarios-e-vocacoes","tag-diocese-de-leiria-fatima"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/220984","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=220984"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/220984\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/220808"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=220984"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=220984"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=220984"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}