{"id":220819,"date":"2021-11-07T09:30:41","date_gmt":"2021-11-07T09:30:41","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=220819"},"modified":"2021-11-04T13:18:06","modified_gmt":"2021-11-04T13:18:06","slug":"cop26-parte-da-humanidade-esta-efetivamente-em-risco-de-extincao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/cop26-parte-da-humanidade-esta-efetivamente-em-risco-de-extincao\/","title":{"rendered":"COP26: \u00abParte da humanidade est\u00e1 efetivamente em risco de extin\u00e7\u00e3o\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><em>Francisco Ferreira, professor no Departamento de Ci\u00eancias e Engenharia do Ambiente da Faculdade de Ci\u00eancias e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e Presidente da \u201cZERO \u2013 Associa\u00e7\u00e3o Sistema Terrestre Sustent\u00e1vel\u201d, uma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental de ambiente com atividade nacional \u00e9 o convidado desta semana da entrevista Renascen\u00e7a\/Ecclesia<\/em><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_220821\" aria-describedby=\"caption-attachment-220821\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/francisco_ferreira_da_associacao_ambientalista_zero_02_joana_bourgard.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-220821\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/francisco_ferreira_da_associacao_ambientalista_zero_02_joana_bourgard-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/francisco_ferreira_da_associacao_ambientalista_zero_02_joana_bourgard-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/francisco_ferreira_da_associacao_ambientalista_zero_02_joana_bourgard-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/francisco_ferreira_da_associacao_ambientalista_zero_02_joana_bourgard-980x654.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/francisco_ferreira_da_associacao_ambientalista_zero_02_joana_bourgard-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/francisco_ferreira_da_associacao_ambientalista_zero_02_joana_bourgard.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-220821\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR\/Joana Bougard<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>A COP26 de Glasgow decorre seis anos ap\u00f3s a Confer\u00eancia de Paris, na qual se estabeleceu um Acordo que visa limitar o aumento da temperatura m\u00e9dia global do planeta.\u00a0<\/em><em>H\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o em estabelecer, mais uma vez, objetivos palp\u00e1veis, como a limita\u00e7\u00e3o do aquecimento a 1,5 graus, a prote\u00e7\u00e3o das flores, a preserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade\u2026 Mas a opini\u00e3o p\u00fablica fica, \u00e0s vezes, com a sensa\u00e7\u00e3o de que estamos a andar em c\u00edrculos e n\u00e3o se consegue avan\u00e7ar\u2026 \u00e9 assim?<\/em><\/p>\n<p>Exatamente \u00e9 uma conferencia absolutamente decisiva. Como diz o secret\u00e1rio-geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas \u00e9 decisiva para a humanidade. E ele vai mais longe quando diz que est\u00e1 em causa a pr\u00f3pria extin\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie humana. Eu acho que aquilo que ele quer dizer \u00e9 que esta confer\u00eancia decide efetivamente que uma parte grande da humanidade que vive em condi\u00e7\u00f5es piores, que j\u00e1 est\u00e1 num estado de pobreza significativo, com aquilo que ser\u00e3o as secas, as cheias, a subida do n\u00edvel do mar; essa parte da humanidade est\u00e1 efetivamente em risco de extin\u00e7\u00e3o. Porque s\u00e3o os povos mais vulner\u00e1veis aqueles que ir\u00e3o sofrer mais com as consequ\u00eancias do aquecimento global, cujos respons\u00e1veis historicamente s\u00e3o os pa\u00edses desenvolvidos, mas onde tamb\u00e9m j\u00e1 os pa\u00edses em desenvolvimento t\u00eam a miss\u00e3o de reduzir a emiss\u00e3o destes gazes com efeito de estufa. O nosso planeta felizmente, a nossa atmosfera funciona como uma estufa e por isso \u00e9 que a temperatura m\u00e9dia \u00e9 de cerca de 16 graus, mas se n\u00f3s colocarmos determinados gazes como di\u00f3xido de carbono, metano, entre outros em quantidades excessivas, esta atmosfera vai aquecendo e j\u00e1 aqueceu cerca de 1,1 graus celsius desde a era pr\u00e9-industrial.\u00a0 Temos uma folga muito curta de 0,4 graus porque acima de um aquecimento de 1,5 os cientistas de forma inequ\u00edvoca dizem-nos que as consequ\u00eancias ser\u00e3o efetivamente dram\u00e1ticas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Qu\u00e3o urgente \u00e9 agir de imediato, como t\u00eam pedido tantos cientistas e ativistas? A humanidade enfrenta, efetivamente, uma amea\u00e7a sem precedentes?<\/em><\/p>\n<p>Muito honestamente eu acho que \u00e9 exatamente isso. A humanidade enfrenta um desafio sem precedentes. N\u00e3o apenas pelas altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas em si, mas tamb\u00e9m porque estamos a perder a nossa biodiversidade e o pr\u00f3prio aquecimento global p\u00f5e ainda mais em causa a sobreviv\u00eancia dessa mesma biodiversidade. Portanto, n\u00f3s estamos num momento extremamente complicado porque esta confer\u00eancia em Glasgow \u00e9 verdadeiramente a \u00faltima das \u00faltimas chamadas. Tudo aquilo que n\u00f3s atrasarmos a partir daqui come\u00e7a a ser praticamente irrevers\u00edvel para garantirmos que n\u00e3o vamos acima de um grau e meio. E \u00e9 t\u00e3o mias irrevers\u00edvel quando falamos principalmente dos oceanos. O que os cientistas nos dizem \u00e9 que: eu at\u00e9 posso conseguir que o clima ao longo dos pr\u00f3ximos tempos atinja um grau e meio, possa subir ligeiramente, e estabilize e depois at\u00e9 decres\u00e7a; mas h\u00e1 um lastro muito maior naquilo que \u00e9 a resposta da parte dos oceanos em termos de subida do n\u00edvel do mar devido \u00e0 expans\u00e3o t\u00e9rmica dos oceanos porque est\u00e1 mais quente e tamb\u00e9m devido ao degelo. E essas consequ\u00eancias n\u00e3o falamos de d\u00e9cadas. Podemos falar de s\u00e9culos. \u00a0E h\u00e1 muitos pa\u00edses que ficar\u00e3o literalmente inundados, desaparecer\u00e3o. Falo de ilhas no Pac\u00edfico, pa\u00edses como o Bangladesh, onde realmente est\u00e1 em causa o seu pr\u00f3prio territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Foi iniciado um processo de transi\u00e7\u00e3o, que incide na quest\u00e3o das emiss\u00f5es de g\u00e1s com efeito de estufa, mas qu\u00e3o r\u00e1pido ser\u00e1 esse processo de transi\u00e7\u00e3o e ser\u00e1 capaz de respeitar os prazos ditados pela ci\u00eancia?<\/em><\/p>\n<p>Em primeiro lugar a pr\u00f3pria ci\u00eancia atrav\u00e9s do painel intergovernamental para as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, quer no seu relat\u00f3rio especial de 2018, quer agora nos relat\u00f3rios que come\u00e7aram a ser anunciados em agosto deste ano e cujos detalhes v\u00e3o ficar a ser conhecidos ao longo dos pr\u00f3ximos meses, nos diz que \u00e9 poss\u00edvel. Mas \u00e9 poss\u00edvel se realmente n\u00f3s fizermos compromissos pol\u00edticos que cumprimos e se esses compromissos pol\u00edticos forem ambiciosos. Ora, n\u00e3o \u00e9 isso a que n\u00f3s temos assistido. E realmente, mais uma vez citando Ant\u00f3nio Guterres, ele no in\u00edcio desta confer\u00eancia, na segunda-feira passada dizia basta, n\u00e3o podemos continuar se quisermos realmente assegurar um planeta onde as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es possam viver com qualidade, e nalguns casos penso que \u00e9 mesmo j\u00e1 possam viver; n\u00f3s n\u00e3o podemos continuar a queimar o carv\u00e3o, o g\u00e1s natural, o petr\u00f3leo como temos feito. E mesmo entre Paris e agora Glasgow, tirando o ano da pandemia, e apesar de todos os compromissos, o que \u00e9 facto \u00e9 que n\u00f3s estivemos sempre acima do que aquilo que muitos dos pa\u00edses tinham j\u00e1 assumido que iriam inverter e tratar e resolver. Portanto, h\u00e1 aqui um forte pessimismo porque a urg\u00eancia \u00e9 grande. Da\u00ed o apelo de todos. O apelo de quem est\u00e1 nas manifesta\u00e7\u00f5es\u2026.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Eu queria mesmo falar-lhe disso.\u00a0Al\u00e9m das quest\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f3micas, est\u00e1 em causa um \u201cimperativo moral\u201d, digamos, face ao futuro humanidade. A voz do Papa tem sido das mais ativas, na defesa da terra e dos mais pobres, pedindo que este grito seja escutado. Qual \u00e9 a import\u00e2ncia destas interven\u00e7\u00f5es?<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Voz do Papa Francisco que come\u00e7ou ali\u00e1s uns meses antes de Paris, com a \u2018Laudato Si\u2019 e uns meses antes tamb\u00e9m de tra\u00e7armos os objetivos para o desenvolvimento sustent\u00e1vel e a agenda para o futuro\u2026<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Como \u00e9 que uma voz global incontornavelmente tem import\u00e2ncia na chamada de aten\u00e7\u00e3o para o que se est\u00e1 a passar, por aquilo que o Papa chama o grito da terra, o grito dos povos e o impacto que a altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas t\u00eam sobre o ambiente e sobre as popula\u00e7\u00f5es mais desprotegidas?<\/em><\/p>\n<p>Tem havido, n\u00e3o apenas da parte do Papa Francisco de forma extremamente ativa e assertiva, mas at\u00e9 numa perspetiva ecum\u00e9nica com outros l\u00edderes religiosos, este apelo de que precisamos de agir e de salvar o planeta. E realmente \u00e9 frustrante como vemos que n\u00f3s temos aqui uma oportunidade de mostrar a coes\u00e3o entre os povos, a solidariedade, mudarmos uma sociedade que \u00e9 excessivamente consumista e \u00e0 custa disso precisa de mais bens e de mais energia &#8211; n\u00f3s temos de ir buscar l\u00e1 bem ao fundo todos estes combust\u00edveis que queimamos\u2026 \u00e9 realmente a verdadeira ecologia integral de que o Papa fala que n\u00f3s precisamos de passar \u00e0 pr\u00e1tica, onde as pessoas est\u00e3o dispon\u00edveis, mas os l\u00edderes continuam a pensar muito no curto prazo. V\u00e3o cedendo, v\u00e3o anunciando, mas ainda longe daquilo que \u00e9 efetivamente necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>V\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es t\u00eam chamado a aten\u00e7\u00e3o para o impacto das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas nas popula\u00e7\u00f5es mais pobres, obrigadas a emigrar e sem possibilidade de defender os seus modos de vida tradicionais. H\u00e1 uma \u201cd\u00edvida ecol\u00f3gica\u201d do Norte, em rela\u00e7\u00e3o ao sul global?<\/em><\/p>\n<p>Claro que h\u00e1. Porque foi \u00e1 custa do uso cada vez extenso da energia proveniente da queima dos combust\u00edveis fosseis que se estruturou toda a nossa sociedade. E obviamente foi por a\u00ed que n\u00f3s atingimos o n\u00edvel de crescimento econ\u00f3mico &#8211; nem sempre de desenvolvimento &#8211; porque n\u00f3s termos pa\u00edses considerados desenvolvidos e ricos que t\u00eam ainda enormes desigualdades significa que nem sempre toda a popula\u00e7\u00e3o goza desse desenvolvimento que seria desej\u00e1vel. Mas sim, n\u00e3o tenhamos duvidas de que a Uni\u00e3o Europeia, Os Estados Unidos, a pr\u00f3pria R\u00fassia que est\u00e1 aqui numa situa\u00e7\u00e3o interm\u00e9dia, o Jap\u00e3o, a Austr\u00e1lia apesar de estar no hemisf\u00e9rio sul&#8230; este chamado hemisf\u00e9rio norte foi este grupo de pa\u00edses, ali\u00e1s s\u00f3 uma pequena nota: h\u00e1 10 pa\u00edses que s\u00e3o respons\u00e1veis por 64% das emiss\u00f5es atualmente, e claro que eu tenho aqui pa\u00edses como a \u00cdndia e a China. E depois os \u00faltimos 100 pa\u00edses no ranking s\u00e3o apenas respons\u00e1veis por 3% das emiss\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E h\u00e1 tamb\u00e9m a promessa de\u00a0100 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares para apoiar a a\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica nos pa\u00edses em desenvolvimento. Essa meta, por\u00e9m, n\u00e3o foi cumprida no ano passado?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o. N\u00f3s estamos em 87 mil milh\u00f5es. N\u00e3o estamos demasiado aqu\u00e9m, mas estamos aqu\u00e9m. E h\u00e1 outras necessidades porque uma coisa \u00e9 este financiamento que \u00e9 destinado aos pa\u00edses em desenvolvimento se poderem adaptar a um clima em mudan\u00e7a e por outro lado tamb\u00e9m poderem inverter aquilo que \u00e9 o seu desenvolvimento no sentido de apostarem nas energias renov\u00e1veis, apostarem na efici\u00eancia energ\u00e9tica. No fundo estruturar uma nova economia com menores impactos no ambiente, mas tenho por exemplo outras quest\u00f5es como aquilo que n\u00f3s chamamos as perdas e danos. O melhor exemplo foi um tuf\u00e3o nas Filipinas que foi avassalador em 2012. E a\u00ed a dimens\u00e3o daquela tempestade foi muito ampliada por causa das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e levantou-se a quest\u00e3o de como \u00e9 que os pa\u00edses em desenvolvimento com menos recursos face a uma consequ\u00eancia desta natureza, como \u00e9 que eles t\u00eam capacidade econ\u00f3mica de reagir. E, portanto, em cima da mesa desta conferencia est\u00e1 o financiamento. H\u00e1 um dia espec\u00edfico para esta discuss\u00e3o que \u00e9 esta segunda-feira, sobre ir buscar mais fontes de apoio para que haja um mecanismo de realmente garantir que no caso de algo excecional &#8211; que cada vez \u00e9 mais prov\u00e1vel acontecer em termos clim\u00e1ticos possa ter uma resposta imediata em termos de apoio. Porque uma coisa \u00e9 furac\u00e3o no sul dos Estados Unidos, em que em inclusive tenho dinheiro, para os pr\u00f3ximos anos. outra coisa \u00e9 uma tempestade avassaladora em pa\u00edses que n\u00e3o t\u00eam os meios para o fazer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_220820\" aria-describedby=\"caption-attachment-220820\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/1105919_rr.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-220820\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/1105919_rr-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/1105919_rr-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/1105919_rr-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/1105919_rr-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/1105919_rr-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/1105919_rr-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/1105919_rr-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/1105919_rr-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/1105919_rr-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/1105919_rr.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-220820\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR\/Joana Bougard<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>A pandemia deixou-nos uma frase marcante: que ningu\u00e9m fique para tr\u00e1s. Olhando para a mudan\u00e7a que \u00e9 necess\u00e1ria, h\u00e1 o risco de que medidas positivas, como a descarboniza\u00e7\u00e3o e a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, poderem vir a gerar novas formas de exclus\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Esse \u00e9 um aspeto absolutamente crucial, quer entre pa\u00edses, quer dentro do mesmo pa\u00eds. Por exemplo, em nossa casa usamos a eletricidade e o g\u00e1s, no dia a dia, em termos de aquecimento e conforto. Mas temos 2 milh\u00f5es de portugueses sem dinheiro para conseguir garantir esse conforto, durante o inverno. Ora, se vou penalizar os combust\u00edveis f\u00f3sseis, nomeadamente o g\u00e1s, por exemplo, isso significa custos acrescidos. \u00c9 preciso ter mecanismos de apoio, de financiamento, antecipados.<\/p>\n<p>Tenho o caso da Refinaria de Matosinhos, os trabalhadores antes do Natal souberam que ia fechar\u2026 Tenho de antecipar, de planear, de levar a s\u00e9rio esta transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, que tem de ser feita, mas n\u00e3o pode realmente deixar ningu\u00e9m para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Qual \u00e9 a import\u00e2ncia de uma mobiliza\u00e7\u00e3o global que parta dos cidad\u00e3os, das comunidades, das novas gera\u00e7\u00f5es, das associa\u00e7\u00f5es, para pressionar efetivamente quem tem o poder de decidir<\/em>?<\/p>\n<p>Eu acho que \u00e9 absolutamente crucial. Essa mobiliza\u00e7\u00e3o global tem diferentes formas, de acordo com os regimes de cada pa\u00eds, mas foi sem d\u00favida o papel de Greta Thunberg, o papel das manifesta\u00e7\u00f5es que tiveram lugar em in\u00fameras partes do mundo que resulta numa forma de press\u00e3o imediata, que funciona como alerta. Neste momento, \u00e9 atrav\u00e9s desse trabalho, do grito dos povos, dos mais desprotegidos, dos que acreditam que est\u00e1 em causa o futuro do planeta, que os pol\u00edticos acabam por ouvir. O voto, nos pa\u00edses democr\u00e1ticos, ouve-se de 4 em 4 anos, de 5 em 5 anos, mas a emerg\u00eancia clim\u00e1tica \u00e9 tal que precisamos de vir para a rua mostrar este clamor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Neste contexto, que significado assumem gestos como a declara\u00e7\u00e3o assinada a 4 de outubro por v\u00e1rios respons\u00e1veis religiosos, no Vaticano, para travar as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas? Quem tem a possibilidade de influenciar a opini\u00e3o p\u00fablica tem o dever de usar a sua voz<\/em>?<\/p>\n<p>Eu acho que sim, do ponto de vista \u00e9tico e moral, n\u00e3o tanto at\u00e9 j\u00e1 com a pr\u00f3pria sociedade deste momento ou connosco, mas acima de tudo pela responsabilidade que temos com o futuro. \u00c9 isso que temos de perceber, n\u00e3o \u00e9 fic\u00e7\u00e3o: h\u00e1 pessoas que se recusam a ter filhos, porque n\u00e3o querem que eles vivam num mundo que os amea\u00e7a, que os por\u00e1 em causa, isso \u00e9 extremamente grave. Isto significa que n\u00e3o estamos, de forma alguma, a deixar o legado que nos competia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Pouco antes da COP26, 72 institui\u00e7\u00f5es religiosas, incluindo 37 do Reino Unido, anunciaram o desinvestimento dos combust\u00edveis f\u00f3sseis. S\u00e3o mudan\u00e7as concretas que servem para marcar um novo rumo<\/em>?<\/p>\n<p>Sem d\u00favida. \u00c9 preciso sermos transparentes, esclarecer, h\u00e1 muito \u201cmarketing verde\u201d abusivo, diria. Temos de ter algum cuidado com os an\u00fancios que s\u00e3o feitos, com a sua leitura, mas todos esses compromissos s\u00e3o vitais e quanto mais imediatos forem, mais importantes s\u00e3o. \u00c9 neste juntar de vontades e no manter da esperan\u00e7a \u2013 que nasce da nossa a\u00e7\u00e3o, do nosso apelo, da nossa for\u00e7a -, que n\u00f3s \u2013 a t\u00edtulo individual, os pa\u00edses, as diferentes frentes religiosas \u2013 conseguimos fazer esta mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>As mudan\u00e7as necess\u00e1rias podem parecer assustadoras, pela escala que exigem, mas come\u00e7am tamb\u00e9m por uma mudan\u00e7a de h\u00e1bitos em que todos podem participar. \u00c9 essencial esta consci\u00eancia<\/em>?<\/p>\n<p>Eu iria mais longe: antes de mudarmos os h\u00e1bitos, precisamos de mudar aquilo que \u00e9 a nossa ideia de felicidade, percebermos que n\u00e3o \u00e9 \u00e0 custa de termos mais, mas de sermos mais, que se faz a diferen\u00e7a. E a seguir vamos aos h\u00e1bitos\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Contrariar uma ideia perversa de que a felicidade depende do que ainda n\u00e3o se tem\u2026<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. \u00c9 crucial perceber que essa \u00e9 a nossa verdadeira mudan\u00e7a de paradigma: aquilo que constru\u00edmos com os outros, a bem dos outros. A nossa qualidade de vida n\u00e3o tem a ver com termos tudo e mais alguma coisa, porque nessa altura ainda vamos querer mais. A nossa satisfa\u00e7\u00e3o pode ser feita com menos e mesmo assim temos perfeitamente toda a qualidade de vida, todo o gozo de viver. \u00c9 essa a mudan\u00e7a de paradigma que \u00e9 crucial.<\/p>\n<p>Depois, sem d\u00favida, vamos aos h\u00e1bitos: vamos preferir o transporte p\u00fablico, sempre que pudermos; moderar um pouco mais a quantidade que comemos, porque faz bem \u00e0 sa\u00fade e ao ambiente; vamos desligar umas luzes que est\u00e3o a mais. Tudo isso s\u00e3o pequenas dicas fundamentais. Mas o mais importante de tudo \u00e9 perceber que s\u00e3o precisos empregos, uma sociedade diferente, com uma pegada ecol\u00f3gica muito menor. S\u00f3 assim \u00e9 que conseguiremos garantir um futuro melhor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Francisco Ferreira, professor no Departamento de Ci\u00eancias e Engenharia do Ambiente da Faculdade de Ci\u00eancias e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e Presidente da \u201cZERO \u2013 Associa\u00e7\u00e3o Sistema Terrestre Sustent\u00e1vel\u201d, uma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental de ambiente com atividade nacional \u00e9 o convidado desta semana da entrevista Renascen\u00e7a\/Ecclesia<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":220821,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[256],"class_list":["post-220819","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-meio-ambiente"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/220819","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=220819"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/220819\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/220821"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=220819"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=220819"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=220819"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}