{"id":22070,"date":"2007-01-08T10:51:01","date_gmt":"2007-01-08T10:51:01","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/01\/08\/o-esplendor-da-vida\/"},"modified":"2007-01-08T10:51:01","modified_gmt":"2007-01-08T10:51:01","slug":"o-esplendor-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-esplendor-da-vida\/","title":{"rendered":"<i>O Esplendor da Vida"},"content":{"rendered":"<p>1. Celebramos hoje a festa da Epifania do Senhor; a festa da sua manifesta\u00e7\u00e3o esplendorosa como Filho de Deus, Rei do Universo e Salvador. O Epis\u00f3dio de uns magos vindos do Oriente relatado, no novo Testamento, s\u00f3 pelo Evangelho de S. Mateus constitui o quadro que identifica o dia de Hoje. O Evangelista n\u00e3o chama reis a estes s\u00e1bios vindos do Oriente; tamb\u00e9m n\u00e3o diz que s\u00e3o tr\u00eas e muito menos lhes d\u00e1 nomes determinados, como o fez a tradi\u00e7\u00e3o posterior chamando-lhes Baltazar, Melchior e Gaspar. O facto, por\u00e9m, de o relato b\u00edblico falar de ouro, incenso e mirra, presentes que levam impl\u00edcita uma refer\u00eancia \u00e0 realeza (ouro), \u00e0 divindade (incenso) e \u00e0 humanidade (mirra) de Jesus justifica, de alguma maneira, as elabora\u00e7\u00f5es posteriores da tradi\u00e7\u00e3o popular.  Hoje somos chamados a contemplar com eles, no rosto da crian\u00e7a do Pres\u00e9pio de Bel\u00e9m, no rosto do Menino Jesus a beleza e o esplendor divinos que s\u00e3o um bem para todas as criaturas, principalmente para aquelas que pela sua intelig\u00eancia, t\u00eam especial capacidade para entrar dentro desta beleza e deste esplendor. Claro que todo o universo canta a grandeza e o esplendor de Deus, mas a sua express\u00e3o mais acabada \u00e9 o homem que vive, \u00e9 a vida humana. \u00c9 este o momento de lembrar que o grande t\u00edtulo da dignidade de todos e cada um dos seres humanos \u00e9 a sua condi\u00e7\u00e3o de criados \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus e sobretudo a sua voca\u00e7\u00e3o \u00e0 filia\u00e7\u00e3o divina. Cada homem e cada mulher, pelo simples facto de viverem, s\u00e3o um bem com dimens\u00e3o de infinito, que tem sempre de ser colocado acima de todos os bens materiais e, por isso, passageiros, incluindo obviamente os simples bens de consumo.  Diante de cada pessoa, seja qual for o seu grau de desenvolvimento, a quantidade dos bens que possui ou a capacidade de os adquirir, seja qual for o grau da sua sa\u00fade ou da falta dela, seja qual for o n\u00famero de anos j\u00e1 vividos ou daqueles que constituem ainda a sua esperan\u00e7a de vida, diante de qualquer pessoa n\u00f3s curvamo-nos em atitude de respeito, de contempla\u00e7\u00e3o de uma beleza que excede todas as belezas materiais e de um bem absoluto, porque acima de todo o jogo de interesses a que infelizmente, em muitas circunst\u00e2ncias, est\u00e1 sujeita a gest\u00e3o da coisa p\u00fablica.  Neste dia da Epifania, em que o Calend\u00e1rio Lit\u00fargico nos convida a celebrar a manifesta\u00e7\u00e3o do Filho \u00fanico de Deus \u00e0 Humanidade na pobreza do Menino de Bel\u00e9m, n\u00f3s desejamos tamb\u00e9m aprender a contemplar no rosto de cada pessoa, sem qualquer excep\u00e7\u00e3o, a beleza divina que nele se espelha. \u00c9 esta, sem sombra de d\u00favida, a grande raiz da dignidade humana e a base de justifica\u00e7\u00e3o \u00faltima dos direitos humanos.   2. Nesta solenidade da Epifania, como dissemos, aparece destacado o Epis\u00f3dio dos Magos vindos do Oriente, que a tradi\u00e7\u00e3o popular chamou reis, sendo por isso, o dia de hoje tamb\u00e9m denominado, em muitos dos nossos ambientes, o dia de Reis.  Estamos perante personagens an\u00f3nimos, identificados como s\u00e1bios, vindos do Oriente, sem se dizerem de onde, \u00e0 procura do Salvador desejado das na\u00e7\u00f5es. Interpretam assim uma necessidade geral das pessoas, dos povos e mesmo das culturas, que obriga a procurar fora de si, portanto em algu\u00e9m que possa vir ao seu encontro, resposta para as grandes interroga\u00e7\u00f5es da vida. Esta tend\u00eancia para a procura de valores essenciais \u00e0 vida e, no final, de algu\u00e9m que venha ajudar a cumprir projectos de exist\u00eancia pessoal e comunit\u00e1ria abertos est\u00e1 inscrita no mais fundo de todos os seres humanos e, por isso, o epis\u00f3dio b\u00edblico hoje relatado tamb\u00e9m a revela. A figura de Herodes, com o seu calculismo e ambi\u00e7\u00e3o sem medidas, aparece-nos, neste quadro, a revelar tamb\u00e9m as dificuldades que esta procura encontra. H\u00e1 aut\u00eanticas armadilhas, maquiavelicamente pensadas e estrategicamente organizadas, que s\u00e3o montadas para impedir o cumprimento dos anseios mais nobre da consci\u00eancia humana, no exerc\u00edcio da sua aut\u00eantica liberdade e responsabilidade. Essas armadilhas s\u00e3o de ontem, como aconteceu com a figura repulsiva de Herodes, que n\u00e3o hesitou em recorrer \u00e0 matan\u00e7a de inocentes para atingir os seus fins e s\u00e3o tamb\u00e9m de hoje, onde continua instalada a tenta\u00e7\u00e3o de justificar todos os meios para atingir determinados fins.  O Menino de Bel\u00e9m que os magos adoraram, oferecendo-lhe os seus presentes de ouro, incenso e mirra, \u00e9 a resposta para a universal procura humana de bem e de felicidade. E sabemos que nada nem ningu\u00e9m o impedir\u00e1 de cumprir a sua miss\u00e3o, apesar das resist\u00eancias que lhe oferecem os muitos interesses instalados na nossa sociedade. Nele brilha o esplendor do pr\u00f3prio Deus que encanta os cora\u00e7\u00f5es rectos e lhes abre os caminhos da verdadeira humaniza\u00e7\u00e3o.  Como no rosto de Cristo, tamb\u00e9m na Jerusal\u00e9m antiga, a que se refere a Leitura de Isa\u00edas e hoje na nova Jerusal\u00e9m, que \u00e9 a Igreja, brilha a beleza e o esplendor do mesmo Deus.  \u00c9 certo que este brilho \u00e9 constantemente esbatido e \u00e0s vezes ofuscado pelas imperfei\u00e7\u00f5es e mesmo pecados dos seus membros, mas nunca ser\u00e1 totalmente escondido, porque \u00e9 miss\u00e3o da Igreja apresentar ao mundo e \u00e0s suas diferentes culturas o plano salvador de Deus. De facto, Deus veio e vem para todos sem excluir ningu\u00e9m, pois, com a revela\u00e7\u00e3o do Mist\u00e9rio de Cristo, diz Paulo na carta as Ef\u00e9sios, os gentios recebem a mesma heran\u00e7a que os judeus, pertencem ao mesmo Corpo e participam da mesma promessa.  Cristo procurado pelos magos e encontrado no Pres\u00e9pio de Bel\u00e9m \u00e9 o salvador universal e a Igreja o instrumento da sua salva\u00e7\u00e3o universal. Eis a raz\u00e3o porque a Igreja assumiu a responsabilidade de ser cat\u00f3lica, ou seja n\u00e3o s\u00f3 aberta \u00e0 universalidade do mundo mas tamb\u00e9m empenhada em prestar o seu servi\u00e7o a toda a comunidade humana. E, entre todos os servi\u00e7os, tem de ocupar lugar primeiro o servi\u00e7o \u00e0 vida.   3. De facto, porque a vida \u00e9 o maior bem que existe \u00e0 face da terra, merece e exige que se lhe dispensem os maiores cuidados, a maior aten\u00e7\u00e3o, a maior protec\u00e7\u00e3o. A atitude mais digna e mais construtora de humanidade que cada ser humano pode assumir \u00e9 ser servidor da vida em si pr\u00f3prio e nos seus semelhantes, que n\u00f3s, pela F\u00e9, chamamos irm\u00e3os.  Ora, porque a vida n\u00e3o \u00e9 um processo isolado, que possa ser vivida no individualismo, cada um de n\u00f3s \u00e9 tamb\u00e9m respons\u00e1vel pela vida dos outros, na medida em que nos compete a responsabilidade de os ajudar a construir a sua pr\u00f3pria vida. E, de facto, esta atitude pr\u00f3-activa de ajudar os outros a crescer e a construir a sua pr\u00f3pria vida em inter-ajuda fraterna \u00e9 aquela que mais dignifica e d\u00e1 sentido \u00e0 pr\u00f3pria exist\u00eancia. \u00c9 que s\u00f3 se vive vida de qualidade no acto de ajudar os outros a viver e a entusiasmarem-se cada vez mais pela vida. Esta \u00e9 uma lei geral que o Evangelho formula assim: &#8220;Quem procura ganhar a sua vida vai perd\u00ea-la; e quem a perde vai ganh\u00e1-la&#8221; (Lc 17,33).  Este servi\u00e7o \u00e0 vida, que tem de mobilizar cada vez mais todos os homens e mulheres, tem a sua express\u00e3o primeira na paternidade e na maternidade. De facto, o acto de procriar \u00e9 o primeiro grande acto de servi\u00e7o \u00e0 vida, que, depois, h\u00e1-de ser naturalmente acompanhado no acolhimento e na presta\u00e7\u00e3o dos cuidados exigidos pela mesma vida, no quadro de uma fam\u00edlia est\u00e1vel.  \u00c9 leg\u00edtimo que aqui prestemos a nossa homenagem \u00e0 multid\u00e3o das mulheres m\u00e3es que acolhem com alegria e generosidade os seus filhos; e \u00e0s vezes se sujeitam aos maiores sacrif\u00edcios para lhes salvarem a vida em maternidades de risco. Como tamb\u00e9m queremos prestar igual homenagem aos pais, que acompanhando as m\u00e3es e completando-as no dedicado servi\u00e7o \u00e0 vida, sofrem e lutam para criar todas as condi\u00e7\u00f5es de crescimento equilibrado na vida aos seus filhos.  De facto, o amor de pai e de m\u00e3e \u00e9 um valor fundamental e podemos cham\u00e1-lo mesmo fundador da dignidade humana.  Isso torna ainda mais dram\u00e1tica a fraqueza daqueles e daquelas que abandonam os seus filhos ou mesmo os impedem de nascer.  \u00c9 por isso que n\u00e3o podemos deixar de prestar aqui tamb\u00e9m a nossa homenagem a quantos dedicam as suas vidas a tratar da vida dos que s\u00e3o abandonados, sejam doentes, pobres, idosos, marginalizados ou simplesmente crian\u00e7as. Neles vemos a m\u00e3o amiga que se entende sobretudo \u00e0s m\u00e3es em dificuldade e em geral \u00e0s fam\u00edlias que precisam de quem as ajude a completar a nobre miss\u00e3o de acolher a cuidar bem, por uma educa\u00e7\u00e3o esmerada, aqueles filhos que foram confiados \u00e0 sua responsabilidade.  Sendo a vida este m\u00e1ximo esplendor do bem, a m\u00e1xima sublimidade de tudo o que habita \u00e0 superf\u00edcie da terra, temos o direito a esperar uma \u00fanica atitude na qual se empenhem todos os cidad\u00e3os, todas as institui\u00e7\u00f5es sociais, incluindo os partidos pol\u00edticos, e o pr\u00f3prio Estado, como tal e enquanto pessoa de bem.  Essa atitude transversal a toda a sociedade, a que todos temos direito, chama-se defesa da vida desde a concep\u00e7\u00e3o at\u00e9 \u00e0 morte e \u00e9 leg\u00edtimo esperar que nela se empenhem todas as pessoas e institui\u00e7\u00f5es com responsabilidade na condu\u00e7\u00e3o da vida p\u00fablica.  Por isso, quando se p\u00f5e o problema de saber se o aborto \u00e9 uma quest\u00e3o pol\u00edtica, no sentido de ser consequ\u00eancia de certas ideologias pol\u00edticas pr\u00f3prias de determinados partidos, parece-nos que n\u00e3o, ou pelo menos que n\u00e3o devia ser, porque a finalidade verdadeiramente nobre de toda a pol\u00edtica e respectiva op\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria \u00e9 o servi\u00e7o \u00e0 vida de todos os cidad\u00e3os sem excluir nenhum deles. E se, porventura houver que privilegiar alguns, esses que sejam os mais fracos, os sem voz, os que n\u00e3o t\u00eam possibilidade de se defender. E no n\u00famero desses est\u00e3o certamente os n\u00e3o nascidos. Por isso, entendemos, ainda que os factos da nossa vida p\u00fablica estejam a dizer o contr\u00e1rio, que \u00e9 preciso despolitizar este problema, no sentido de que n\u00e3o se pode ser a favor ou contra o aborto s\u00f3 porque se pertence a determinado partido pol\u00edtico. Com essa despolitiza\u00e7\u00e3o, a discuss\u00e3o p\u00fablica e o esclarecimento das consci\u00eancias ganhar\u00e3o, certamente, em objectividade.  E a raz\u00e3o \u00e9 a seguinte: a defesa da vida \u00e9 um valor supra-partid\u00e1rio, na medida em que deve inspirar todas e qualquer uma das pol\u00edticas partid\u00e1rias que, por natureza, t\u00eam de estar ao servi\u00e7o do homem e da sociedade.  Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 indigno da maturidade pol\u00edtica de um povo que algu\u00e9m seja a favor da legaliza\u00e7\u00e3o do aborto s\u00f3 porque essa \u00e9 a orienta\u00e7\u00e3o do seu partido ou do partido da sua prefer\u00eancia.  Julgamo-nos no direito e no dever de dirigir um apelo a todos os nossos representantes pol\u00edtico-partid\u00e1rios para que saibam honrar o mandato que lhes foi confiado para defenderem os interesses e os direitos de todos os cidad\u00e3os, o primeiro dos quais \u00e9 o direito \u00e0 vida desde o embri\u00e3o \u00e0 morte natural\u201d.*   Catedral da Guarda, Epifania do Senhor (7 de Janeiro de 2007) <i>Homilia de D. Manuel da Rocha Fel\u00edcio, Bispo da Guarda<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. Celebramos hoje a festa da Epifania do Senhor; a festa da sua manifesta\u00e7\u00e3o esplendorosa como Filho de Deus, Rei do Universo e Salvador. O Epis\u00f3dio de uns magos vindos do Oriente relatado, no novo Testamento, s\u00f3 pelo Evangelho de S. Mateus constitui o quadro que identifica o dia de Hoje. 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