{"id":22036,"date":"2007-01-05T10:50:27","date_gmt":"2007-01-05T10:50:27","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/01\/05\/a-danca-divina-da-poesia\/"},"modified":"2007-01-05T10:50:27","modified_gmt":"2007-01-05T10:50:27","slug":"a-danca-divina-da-poesia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-danca-divina-da-poesia\/","title":{"rendered":"A dan\u00e7a divina da poesia"},"content":{"rendered":"<p>Teixeira de Pascoaes e a Teologia na perspectiva de Tolentino de Mendon\u00e7a <!--more--> A aproxima\u00e7\u00e3o de Teixeira de Pascoaes ao te\u00f3logo de Hipona, a Jer\u00f3nimo ou a S\u00e3o Paulo s\u00f3 deve ter surpreendido quem n\u00e3o tivesse notado como Pascoaes transforma qualquer tema, e o coment\u00e1rio \u00e9 de Fernando Pessoa, num \u00abdegrau para a religiosidade\u00bb. Pascoaes apontara, com a sua obra po\u00e9tica, um tremeluzente norte \u00e0 poesia portuguesa, que fora, no s\u00e9culo anterior, substancialmente cl\u00e1ssica e com ele entrou, \u00abcom passo decidido, na pura linha rom\u00e2ntica do irracional\u00bb . E o irracional \u00e9 a paisagem onde o sagrado reflorescer\u00e1 como categoria necess\u00e1ria.   O conhecimento m\u00edtico-po\u00e9tico e o conhecimento religioso que a Modernidade colocou sob suspeita, considerando-os sombras da raz\u00e3o, regressam como uma arte inexplorada. Entre sentimento e mist\u00e9rio, entre n\u00edtido e indeterminado alumiam-se afinidades (\u00abDeus \u00e9, em n\u00f3s, como uma lembran\u00e7a\u00bb , h\u00e1-de escrever Pascoaes. \u00abA atitude divina \u00e9 anti-racional\u00bb ). Busca-se numa experi\u00eancia origin\u00e1ria aquilo que as estrat\u00e9gias do pensar deixam em sil\u00eancio e que vem guardado na linguagem densa dos s\u00edmbolos. Ganha verdade a declara\u00e7\u00e3o de Jung: \u00abO s\u00e9culo das luzes nada apagou\u00bb.   Mas n\u00e3o \u00e9 exactamente de cristianismo que se trata. J\u00e1 na recep\u00e7\u00e3o \u00e0s biografias que Pascoaes escreveu, criticava-se o facto de ele \u00abtratar os santos com um simples processo po\u00e9tico\u00bb . Num artigo dos anos 50, Manuel Antunes classificava tanto Pessoa e R\u00e9gio como Pascoaes de poetas do sagrado, profundamente religiosos, mas avisando que \u00abnenhum deles conhece o cristianismo (&#8230;) existencializado, sensibilizado. Apenas mostraram \u00abatrav\u00e9s de tenteios, do caminhar nas sombras, do dualismo inquieto, do ansioso interrogar do mist\u00e9rio sentido ou pressentido (&#8230;), grande, secreta e inextingu\u00edvel nostalgia de Deus\u00bb . De facto, ao pisar o invulgar territ\u00f3rio que tinha em S. Jo\u00e3o de Gat\u00e3o seu centro magn\u00e9tico, estamos longe da elabora\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica ou mesmo de uma ret\u00f3rica da experi\u00eancia religiosa. A Pascoaes a santidade interessou enquanto fantasmagoria. Cada uma das biografias aborda, n\u00e3o a hist\u00f3ria propriamente dita, nem sequer os meandros labir\u00ednticos da legenda, mas a representa\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria de uma pr\u00e1tica da alma. Pois \u00e9 isso que ele repete: \u00abs\u00f3 me interessam as almas\u00bb.   Peguemos em S\u00e3o Paulo, cuja primeira edi\u00e7\u00e3o data de Abril de 1934, o ano em que Pessoa publica a \u2018Mensagem\u2019. ( E pode perceber-se, para l\u00e1 da espec\u00edfica diversidade, como essas duas obras s\u00e3o cont\u00edguas. Pessoa encenou com os her\u00f3is p\u00e1trios uma hist\u00f3ria fantasm\u00e1tica, por um percurso que, a ser alguma coisa, \u00e9 decisivamente \u00abespiritualista e m\u00edstico\u00bb , enquanto Pascoaes foi arrancar \u00e0 rec\u00f4ndita Judeia igual motivo, sem deixar de dizer, contudo, que \u00aba Ib\u00e9ria \u00e9 outra Judeia, outro deserto febril\u00bb ). Teixeira de Pascoaes descreve a\u00ed, certamente, factos da vida de Paulo, sonda a cronologia do personagem, abre uma ou outra janela para o enquadramento social e pol\u00edtico do tempo. Mas da\u00ed a pensar essa obra como uma estrita biografia! \u00c9 verdade que leu com voraz aten\u00e7\u00e3o o \u2018corpus\u2019 liter\u00e1rio paulino e socorreu-se das importantes not\u00edcias que Lucas fornece nos Actos dos Ap\u00f3stolos. Mas sobre Lucas, Pascoaes declara, que \u00abele viu o ap\u00f3stolo e desinteressou-se do homem; desinteressou-se do que era, para n\u00f3s, mais interessante\u00bb.   E o mais interessante n\u00e3o era a genialidade do Paulo te\u00f3logo, que cruza o profundo mundo da apocal\u00edptica judaica com endere\u00e7os da gnose helen\u00edstica na sua apresenta\u00e7\u00e3o da novidade crist\u00e3. O mais interessante n\u00e3o era a reinven\u00e7\u00e3o do g\u00e9nero epistolar do Paulo autor, o tom da sua escrita que conjuga uma vivacidade de prega\u00e7\u00e3o religiosa popular com essa solid\u00e3o que, tantas vezes, \u00e9 a caligrafia mais aut\u00eantica do pensamento; nem era o desenho verbal do Paulo esteta, a t\u00edpica acumula\u00e7\u00e3o de sin\u00f3nimos, o jogo intrincado dos paralelismos, no fundo, aquelas figuras que tornam inesquec\u00edvel o movimento das suas frases (\u00abquando eu era crian\u00e7a\/ pensava como crian\u00e7a\/ depois que me tornei homem\/ desapareceu o que era pr\u00f3prio da crian\u00e7a\u00bb, 1 Cor 13,11).   O mais interessante para Pascoaes era o \u00abespectro\u00bb, o \u00abfantasma\u00bb, o \u00abfloco de neve e labareda\u00bb, o \u00abvulto mal delineado na penumbra\u00bb, o \u00abanimal apaixonado\u00bb, o \u00abanjo\u00bb, o \u00abfaminto de Deus\u00bb. Era verificar, ao modo de Jer\u00f3nimo que n\u00e3o tirava os olhos da caveira, como \u00abo esqueleto emagrecido\u00bb de um Homem \u00ab\u00e9 transtornado, de s\u00fabito, por \u00edntimas energias imprevistas\u00bb. Era explorar num indiv\u00edduo, suficientemente batido por ventos contradit\u00f3rios, tombado do cavalo do seu pr\u00f3prio destino, cego pela revela\u00e7\u00e3o da Gra\u00e7a depois da cegueira de um crime, as grandes e \u00fanicas fronteiras simb\u00f3licas do Ser Humano.   N\u00e3o digo que Paulo de Tarso tenha constitu\u00eddo um simples pretexto, ainda que sublime, para este ensaio fulgurante sobre a condi\u00e7\u00e3o humana. Digo que Pascoaes perseguiu no ap\u00f3stolo dos gentios aquilo que nele poderia ser universal: retirou-o desse lugar de exclus\u00e3o onde o mundo moderno fixou o fen\u00f3meno religioso, chamou a S\u00e3o Paulo, n\u00e3o ap\u00f3stolo, mas poeta (\u00abo maior poeta\u00bb), mediu-o com Homero e com os sacros poetas da H\u00e9lade, colocou-o como \u00abtr\u00e1gico int\u00e9rprete da Vida\u00bb , \u00e0 maneira de Lucr\u00e9cio ou Virg\u00edlio, Dante ou Shakespeare, quis ler tudo, mesmo os seus achaques, como um dispositivo criador que se manifestou tamb\u00e9m em Dostoievski e, doutra maneira, em Byron. Mas sem que este impulso anal\u00f3gico vise entronizar Paulo numa academia liter\u00e1ria. Pascoaes n\u00e3o aborda literariamente nem a sua figura, nem os seus escritos, que avizinhou, primeiro, ao \u00ablivro dos que n\u00e3o sabem ler\u00bb e, depois, a essa obra escatol\u00f3gica, a obra universal por excel\u00eancia, que \u00e9 \u00abo livro da Vida\u00bb.   Recolhe uma certa unanimidade a observa\u00e7\u00e3o que mais do que vidas de santos, mais do que a biografia de S\u00e3o Paulo, Pascoaes foi escrevendo a biografia de si mesmo. \u00abAo fim e ao cabo, o principal personagem \u00e9 o pr\u00f3prio poeta a debater-se com o conflito real da sua vida\u00bb , aponta Eug\u00e9nio de Andrade. E, em recens\u00e3o cr\u00edtica da \u00e9poca, j\u00e1 se dizia: \u00abo que francamente mais devemos lamentar \u00e9 que o poeta, profundamente impressionado com a figura de Paulo, escolhesse para teatro da sua trag\u00e9dia \u00edntima o cen\u00e1rio variado e imenso que o Ap\u00f3stolo percorreu e, num lirismo absorvente, se incarnasse fantasticamente em S.Paulo\u00bb . Mesmo nos desenhos que Pascoaes dedicou ao ap\u00f3stolo, podem espiar-se, afinal, os tra\u00e7os do seu pr\u00f3prio rosto (aquele rosto magro, de pedra), como se de uma impress\u00e3o pessoal se tratasse, e n\u00e3o de representa\u00e7\u00e3o verdadeira.   S\u00f3 que isso, olhado por um tempo como escolho, deve ser visto como a grandeza maior desta obra: a sua obstinada condi\u00e7\u00e3o de speculum, como se da literatura e da m\u00edstica se pudessem escrever as mesmas observa\u00e7\u00f5es, fazer um semelhante relat\u00f3rio da \u00fanica \u00abdoen\u00e7a divina\u00bb que \u00e9 a literatura e a santidade. Pois quando Teixeira de Pascoaes chama a Paulo por poeta, est\u00e1 a definir a Poesia, e quando anota a sua vida como a \u00abhora em que o mundo foi dado aos poetas\u00bb , tal corresponde a um discurso intransigentemente pr\u00f3prio \u00e0cerca da subst\u00e2ncia da po\u00e9tica.   A experi\u00eancia m\u00edstica \u00e9 uma experi\u00eancia da paix\u00e3o. Ainda que se trate de uma paix\u00e3o da alma ela expressa-se pelos tormentos das paix\u00f5es humanas. O indiz\u00edvel aspira desesperadamente pelo dizer. N\u00e3o h\u00e1 experi\u00eancia m\u00edstica que n\u00e3o relate o desconforto da escassez que, de repente, assola o mundo; a impossibilidade da palavra (seriam precisos, como na estrada de Damasco, rel\u00e2mpagos); a incerteza abrasiva das imagens. \u00c9 que o processo da vida espiritual s\u00f3 vem resgatado pela uni\u00e3o transformante, mas \u00e9 necess\u00e1rio primeiro provar este caminho purgat\u00f3rio que a teologia negativa designa pelas met\u00e1foras da noite, da nuvem, da nuvem do n\u00e3o-saber, da aus\u00eancia, do sil\u00eancio. S\u00f3 depois, como indica S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, \u00aball\u00ed nos transformaremos en trasformaci\u00f3n\u00bb.   Descreve assim Pascoaes o seu (o nosso) tempo: \u00abNesta orgia industrial moderna, par\u00f3dia em ferro e vapor, da orgia pag\u00e3, o homem est\u00e1 morto ou isolado do seu esp\u00edrito. Existe, mas n\u00e3o vive. Existe a duzentos quil\u00f3metros \u00e0 hora, mas com a vida parada, dentro dele. Vida inerte numa exist\u00eancia delirante. Seduzido pelo ru\u00eddo e movimento, as duas faces desta civiliza\u00e7\u00e3o americana ou neo-neroniana, integrou-se num sistema mec\u00e2nico industrial, e \u00e9 simplesmente uma engrenagem\u00bb . Se Pascoaes descreve o itiner\u00e1rio m\u00edstico de Paulo \u00e9 tamb\u00e9m para perguntar: \u00abO mundo foi da Poesia, nos primeiros s\u00e9culos da nossa era. Repetir-se-\u00e1 o milagre? Voltar\u00e1 o deus dos poetas?\u00bb . \u00c9 que ao falar de Deus, Pascoaes nunca deixa de falar dessa \u00aboutra coisa enamorada do vento\u00bb.   <i>Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a, Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Teixeira de Pascoaes e a Teologia na perspectiva de Tolentino de Mendon\u00e7a<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[154,168,276],"class_list":["post-22036","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-nacional","tag-crianca","tag-diocese-da-guarda","tag-pastoral-da-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22036","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22036"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22036\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22036"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22036"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22036"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}