{"id":22024,"date":"2007-01-04T15:43:52","date_gmt":"2007-01-04T15:43:52","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/01\/04\/seria-um-triste-direito-das-mulheres\/"},"modified":"2007-01-04T15:43:52","modified_gmt":"2007-01-04T15:43:52","slug":"seria-um-triste-direito-das-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/seria-um-triste-direito-das-mulheres\/","title":{"rendered":"Seria um triste <i>direito<\/i> das mulheres"},"content":{"rendered":"<p>Sou mulher e, segundo alguns, parece que devia estar contente porque querem oferecer-me o aborto livre e gratuito; dizem que \u00e9 para me dar mais um direito. Mas n\u00e3o estou contente, estou triste: entristece-me profundamente que ponham sequer esta hip\u00f3tese. N\u00e3o quero o direito de poder matar um filho em momento algum da sua vida. Mais, sei que mesmo que a lei um dia o declare, preto no branco, esse direito continuar\u00e1 sempre a ser uma mentira. Ningu\u00e9m tem o direito de destruir uma vida, e ningu\u00e9m pode dar esse direito. Fomos dos primeiros a abolir a pena de morte. Que pena me faz ver este meu Portugal a regredir a esses tempos, em que se considerava que um ser humano tinha poder de vida ou de morte sobre outro! Dizem tamb\u00e9m que eu devia estar contente porque assim me querem proteger. E eu pergunto: proteger de qu\u00ea? Proteger de ser m\u00e3e?! Ser\u00e1 a maternidade uma doen\u00e7a assim t\u00e3o terr\u00edvel? Sou mulher e vejo-me t\u00e3o citada, t\u00e3o implicada, t\u00e3o no centro desta discuss\u00e3o, que decidi informar-me melhor. Talvez eu n\u00e3o estivesse a ver bem as coisas\u2026 Afinal, parece que querem proteger-me da cadeia. Que eu queira abortar parece que \u00e9 considerado dado adquirido. Que eu o fa\u00e7a ilegalmente, tamb\u00e9m. Portanto, tudo se resume \u00e0s consequ\u00eancias do acto, n\u00e3o \u00e0s causas nem sequer ao acto em si mesmo. Infelizmente, eu sei que h\u00e1 quem o fa\u00e7a, e acredito que, na enorme maioria dos casos, n\u00e3o \u00e9 simplesmente para mostrar &#8220;que se manda na pr\u00f3pria barriga&#8221;. Dizem os estudos s\u00e9rios, dos pa\u00edses onde o aborto j\u00e1 \u00e9 livre, que n\u00e3o s\u00e3o as mulheres pobres quem mais aborta, parece que s\u00e3o as jovens com pouco mais de 20 anos, que investiram a vida inteira nos estudos e na carreira, e que neste mundo de competi\u00e7\u00e3o desenfreada, onde se tornou t\u00e3o dif\u00edcil ser m\u00e3e, v\u00eaem os seus planos desmoronar- se e pensam que por ter aquele filho v\u00e3o desperdi\u00e7ar os seus esfor\u00e7os e estragar a vida. Sejam quais forem as raz\u00f5es, s\u00e3o sempre mulheres que enfrentam um drama de medo e solid\u00e3o. Eu tamb\u00e9m n\u00e3o as quero na cadeia, conclu\u00ed. Mas depois fui informar-me melhor. Afinal h\u00e1 mais de 30 anos que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma mulher na cadeia por ter abortado. E nos \u00faltimos 8 anos s\u00f3 4 ou 5 foram julgadas (aquelas pobres 4 ou 5 que os que dizem que querem defender as mulheres puseram na televis\u00e3o, desvendando o que podia e devia ter ficado an\u00f3nimo). Coitadas, queriam tanto esconder aquela gravidez (e certamente ainda mais aquele triste acto)\u2026 mas os seus defensores n\u00e3o deixaram. Ainda por cima, todas tinham abortado depois das 10 semanas. Esta lei do referendo nada mudaria para elas. Tamb\u00e9m soube que deputados de v\u00e1rios partidos e associa\u00e7\u00f5es de defesa da Vida propuseram mudar as regras &#8211; n\u00e3o a lei &#8211; mas as regras do processo, para que as mulheres fossem \u00e0 partida desculpadas e nem sequer fossem a Tribunal. Claro que isto n\u00e3o implicava oferecer a todas as mulheres, ricas ou pobres, com ou sem problemas, abortos gratuitos nos hospitais, tamb\u00e9m n\u00e3o impedia o julgamento dos m\u00e9dicos e parteiras que enriquecem \u00e0 custa da vida dos filhos e da destrui\u00e7\u00e3o interior das m\u00e3es, n\u00e3o protegeria quem for\u00e7a a mulher a dar este passo, e muito menos implicaria a abertura de cl\u00ednicas privadas. Apeteceu-me muito perguntar: mas afinal querem proteger quem? A mulher n\u00e3o \u00e9 de certeza. Ao procurar saber mais, descobri que mais de metade das mulheres que abortam nos pa\u00edses onde \u00e9 legal, dizem que o fizeram obrigadas. Se ao menos fosse proibido podiam ter dito que n\u00e3o ao marido, ao namorado, ao pai, ao patr\u00e3o, mas assim, sem nada a proteg\u00ea-las, entraram no hospital e sa\u00edram de l\u00e1 diferentes. Para sempre. Tenho uma grande amiga que abortou quando era nova, tinha 20 anos e sentia-se incapaz de ser m\u00e3e. Pensou que assim ia esquecer rapidamente aquela gravidez t\u00e3o fora de horas. &#8220;Correu tudo bem&#8221;, o beb\u00e9 foi desfeito por m\u00e3os muito profissionais, n\u00e3o teve problemas de sa\u00fade, mas as feridas de que ningu\u00e9m lhe falou nunca mais sararam. Aos 40 anos era alco\u00f3lica, estava sozinha, nunca mais teve outro filho&#8230; Ela \u00e9 que precisava de ter sido protegida. Fico feliz por saber que agora j\u00e1 h\u00e1 muitas associa\u00e7\u00f5es que ajudam mulheres nestas circunst\u00e2ncias. Que protegem realmente, ajudando a enfrentar a realidade dum filho que j\u00e1 existe e que mesmo n\u00e3o programado se pode aprender a amar. Fico triste, terrivelmente triste, quando dizem que me querem dar o direito ao aborto livre e gratuito, e mais ainda quando se atrevem a dizer que \u00e9 para me proteger.  <i>Margarida Campos, Vidas com Vida<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sou mulher e, segundo alguns, parece que devia estar contente porque querem oferecer-me o aborto livre e gratuito; dizem que \u00e9 para me dar mais um direito. Mas n\u00e3o estou contente, estou triste: entristece-me profundamente que ponham sequer esta hip\u00f3tese. N\u00e3o quero o direito de poder matar um filho em momento algum da sua vida. 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