{"id":22023,"date":"2007-01-04T15:38:41","date_gmt":"2007-01-04T15:38:41","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/01\/04\/a-batalha-das-palavras\/"},"modified":"2007-01-04T15:38:41","modified_gmt":"2007-01-04T15:38:41","slug":"a-batalha-das-palavras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-batalha-das-palavras\/","title":{"rendered":"A batalha das palavras"},"content":{"rendered":"<p>As &#8220;batalhas&#8221; do aborto parece que come\u00e7am por quest\u00f5es sem\u00e2nticas, pelas palavras. Afinal, no referendo que se aproxima, est\u00e1 em discuss\u00e3o a despenaliza\u00e7\u00e3o e descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto, ou, antes, a sua legaliza\u00e7\u00e3o e liberaliza\u00e7\u00e3o? Os partid\u00e1rios do sim preferem falar em descriminaliza\u00e7\u00e3o, ou mesmo em simples despenaliza\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o em legaliza\u00e7\u00e3o ou liberaliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 prov\u00e1vel que a pergunta a submeter a referendo venha a ser formulada desse modo. Mas n\u00e3o estar\u00e1, antes, em causa a legaliza\u00e7\u00e3o e liberaliza\u00e7\u00e3o do aborto?  Compreende-se a prefer\u00eancia dos partid\u00e1rios do sim pelas express\u00f5es descriminaliza\u00e7\u00e3o e despenaliza\u00e7\u00e3o. T\u00eam uma conota\u00e7\u00e3o mais moderada e menos radical, e poder\u00e3o ir de encontro ao sentir de muitas pessoas que afirmam que &#8220;s\u00e3o contra o aborto, mas n\u00e3o querem que as mulheres sejam penalizadas&#8221;. Estas pessoas poder\u00e3o defender a despenaliza\u00e7\u00e3o, mas, porque &#8220;s\u00e3o contra o aborto&#8221;, n\u00e3o aceitar\u00e3o que o Estado passe a colaborar activamente na sua pr\u00e1tica. Ora, no referendo n\u00e3o est\u00e1 em jogo apenas (e sobretudo) a despenaliza\u00e7\u00e3o ou descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto (esta poderia verificar-se sem que o aborto passasse a ser l\u00edcito, a ter cobertura legal e a ser realizado com a colabora\u00e7\u00e3o activa do Estado), est\u00e1 em jogo a sua legaliza\u00e7\u00e3o e liberaliza\u00e7\u00e3o. Se vencer o sim, o aborto realizado at\u00e9 \u00e0s dez semanas de gravidez por vontade da mulher passar\u00e1 a ser l\u00edcito, passar\u00e1 a ter cobertura legal e passar\u00e1 a ser praticado com a colabora\u00e7\u00e3o activa do Estado (o Ministro da Sa\u00fade at\u00e9 tem lamentado o facto de, actualmente, se realizarem nos hospitais p\u00fablicos abortos em n\u00famero que considera reduzido). Da\u00ed que se deva falar em legaliza\u00e7\u00e3o.  E, no que se refere a tal per\u00edodo da gravidez, essa licitude n\u00e3o depende da verifica\u00e7\u00e3o de qualquer pressuposto para al\u00e9m da simples vontade da mulher. Deixar\u00e1 de vigorar um regime de &#8220;indica\u00e7\u00f5es&#8221;, como se verifica no regime legal vigente, em que a licitude do aborto n\u00e3o depende da simples vontade da mulher, mas da verifica\u00e7\u00e3o de alguma de v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es tidas por particularmente gravosas. N\u00e3o estaremos perante um alargamento a outro tipo de &#8220;indica\u00e7\u00f5es&#8221; (raz\u00f5es s\u00f3cio-econ\u00f3micas, por exemplo, como se verifica na legisla\u00e7\u00e3o italiana ou outras). Estaremos perante um regime de aborto livre ou aborto a pedido. Da\u00ed que se deva falar em liberaliza\u00e7\u00e3o. H\u00e1 alguns anos, foi descriminalizado (e despenalizado) o consumo de droga. Mas isso n\u00e3o tornou o consumo de droga uma conduta l\u00edcita. O consumo de droga passou a ser considerado uma contra-ordena\u00e7\u00e3o, uma infrac\u00e7\u00e3o menos grave do que um crime, sancionada com coima (e n\u00e3o com pena). O consumo de droga n\u00e3o passou a ser livre, a venda de droga n\u00e3o passou a ser livre, nem o Governo passou a fornecer droga a quem o queira. Isto porque o consumo de droga n\u00e3o foi legalizado ou liberalizado. Mas tal suceder\u00e1 com o aborto at\u00e9 \u00e0s dez semanas, se vencer o sim. O Estado passar\u00e1 a garantir a sua pr\u00e1tica livre, e at\u00e9 em institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas ou com o recurso a financiamento p\u00fablico. Parece que os partid\u00e1rios do sim preferem, at\u00e9, falar em despenaliza\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o em descriminaliza\u00e7\u00e3o. E que a pergunta a submeter a referendo incluir\u00e1 a primeira dessas express\u00f5es. Compreende-se que assim seja, pelas raz\u00f5es atr\u00e1s invocadas. A express\u00e3o \u00e9 ainda mais suave, inegavelmente. Mas n\u00e3o \u00e9 correcta (\u00e9, para este efeito, ainda menos correcta do que descriminaliza\u00e7\u00e3o). Embora, normalmente, descriminaliza\u00e7\u00e3o e despenaliza\u00e7\u00e3o coincidam, porque ao crime corresponde, em princ\u00edpio, uma pena, poderia verificar-se uma despenaliza\u00e7\u00e3o sem descriminaliza\u00e7\u00e3o. O C\u00f3digo Penal prev\u00ea, nalgumas situa\u00e7\u00f5es, a dispensa de pena quando se verifica a pr\u00e1tica de um crime. Na proposta de altera\u00e7\u00e3o do regime penal do aborto em tempos sugerida pelo Prof. Freitas do Amaral, o aborto continuaria a ser crime (uma conduta objectivamente censur\u00e1vel como tal definida pela Lei), mas estaria, em regra, exclu\u00edda a culpa da mulher, por se verificar uma situa\u00e7\u00e3o de &#8220;estado de necessidade desculpante&#8221;, o que afastaria a aplica\u00e7\u00e3o de qualquer pena. Mas n\u00e3o \u00e9 nada disto que se verifica na proposta a submeter a referendo. De acordo com essa proposta, o aborto realizado, por vontade da mulher gr\u00e1vida, nas primeiras dez semanas de gravidez e em estabelecimento legalmente autorizado, ser\u00e1 descriminalizado. Importa, tamb\u00e9m, ter presente que n\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rias a descriminaliza\u00e7\u00e3o e despenaliza\u00e7\u00e3o do aborto para evitar a pris\u00e3o, e at\u00e9 o julgamento, das mulheres que abortam. Quanto \u00e0 pris\u00e3o, esta \u00e9, no nosso sistema penal, um \u00faltimo recurso (n\u00e3o o primeiro, nem o principal). N\u00e3o h\u00e1 not\u00edcia de mulheres condenadas por aborto em pena de pris\u00e3o. Em rela\u00e7\u00e3o a muitos outros crimes (inj\u00farias, difama\u00e7\u00e3o, condu\u00e7\u00e3o ilegal) est\u00e1 prevista a pena de pris\u00e3o, mas esta n\u00e3o se aplica na pr\u00e1tica, sobretudo quando se trata de uma primeira condena\u00e7\u00e3o. E mesmo o julgamento dessas mulheres pode ser evitado, atrav\u00e9s do recurso \u00e0 suspens\u00e3o provis\u00f3ria do processo. No fundo, o essencial da quest\u00e3o a discutir no referendo n\u00e3o reside na realiza\u00e7\u00e3o de julgamentos das mulheres que abortam (estes podem ser evitados no actual quadro legal). E n\u00e3o reside sequer na criminaliza\u00e7\u00e3o ou descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto. Reside, antes, na sua legaliza\u00e7\u00e3o e liberaliza\u00e7\u00e3o. Reside em saber se o Estado deve facilitar e colaborar activamente na pr\u00e1tica do aborto ou se, pelo contr\u00e1rio, deve colaborar activamente na cria\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es que favore\u00e7am a maternidade e a paternidade, alternativas ao aborto que todos reconhecer\u00e3o como mais saud\u00e1veis e mais portadoras de felicidade para a mulher, o homem e a crian\u00e7a.  <i>Pedro Vaz Patto, membro da Comiss\u00e3o Nacional da Justi\u00e7a e Paz<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As &#8220;batalhas&#8221; do aborto parece que come\u00e7am por quest\u00f5es sem\u00e2nticas, pelas palavras. Afinal, no referendo que se aproxima, est\u00e1 em discuss\u00e3o a despenaliza\u00e7\u00e3o e descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto, ou, antes, a sua legaliza\u00e7\u00e3o e liberaliza\u00e7\u00e3o? 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