{"id":220213,"date":"2021-10-27T11:04:59","date_gmt":"2021-10-27T10:04:59","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=220213"},"modified":"2021-10-27T11:04:59","modified_gmt":"2021-10-27T10:04:59","slug":"saber-aprender-a-nao-ter-medo-de-mudar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-nao-ter-medo-de-mudar\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A n\u00e3o ter medo de mudar"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>O futuro do planeta depende de n\u00f3s, mas n\u00e3o pelas raz\u00f5es que est\u00e1s a pensar. Depois de 4.5 mil milh\u00f5es de anos de hist\u00f3ria deste planeta, existe uma esp\u00e9cie \u2014 n\u00f3s \u2014 capaz de alterar tanto o seu ambiente como faria um enorme meteorito ou um mega-vulcano. Com os nossos estilos de vida e as assimetrias econ\u00f3micas que cri\u00e1mos entre os pa\u00edses ricos e pobres, torn\u00e1mo-nos numa superpot\u00eancia geol\u00f3gica capaz de alterar o clima no espa\u00e7o de duas a tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es, dando in\u00edcio a uma nova era geol\u00f3gica: o antropoceno. Finalmente controlamos o clima planet\u00e1rio e a evolu\u00e7\u00e3o da vida na terra. E agora?<\/p>\n<figure id=\"attachment_220216\" aria-describedby=\"caption-attachment-220216\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/27259249549_38959b8b71_b.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-220216 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/27259249549_38959b8b71_b.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"542\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/27259249549_38959b8b71_b.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/27259249549_38959b8b71_b-400x212.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/27259249549_38959b8b71_b-768x407.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/27259249549_38959b8b71_b-980x519.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/27259249549_38959b8b71_b-480x254.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-220216\" class=\"wp-caption-text\">\u00a9 Flickr com CC BY-ND 2.0<\/figcaption><\/figure>\n<p>O investigador brit\u00e2nico Colin Water e uma grande equipa de outros investigadores escreveram um <a href=\"https:\/\/www.science.org\/doi\/10.1126\/science.aad2622\">artigo<\/a>; para a <em>Science<\/em> em 2016 onde a quantidade de bet\u00e3o produzida pelos seres humanos daria para cobrir o planeta inteiro com uma camada equivalente a 7 folhas de papel A4 de 80g. No recente livro do Professor Mark Maslin <em>\u201dHow to save our planet\u201d<\/em> (Penguin Random House, 2021), esse confirma que existem mais bonecos mini-Legos do que pessoas reais. E desde o ano de 1500 que, em m\u00e9dia, se extinguem 1.5 esp\u00e9cies por ano e a massa de CO2 que emitimos para a atmosfera desde a revolu\u00e7\u00e3o industrial \u00e9 igual ao peso de 20 Muralhas da China. Quando nos embrenhamos nos factos associados ao antropoceno, a vontade que d\u00e1 \u00e9 a de ir dar uma volta pela floresta para espairecer, como fez Henry David Thoreau em 1845 por dois anos da sua vida.<\/p>\n<p><em>\u201cWalden ou a vida nos bosques\u201d<\/em> \u00e9 o livro onde Thoreau conta a sua experi\u00eancia. Sabendo que o desafio clim\u00e1tico est\u00e1 muito relacionado com a economia, no cap\u00edtulo que escreve sobre esse tema diz que<\/p>\n<blockquote><p>\u00abA absoluta simplicidade e o despojamento da vida que o homem levava nos tempos primitivos tinham pelo menos a vantagem de deix\u00e1-lo ser h\u00f3spede da natureza. Quando se sentia retemperado pelo alimento ou pelo sono, tinha a estrada novamente diante de si. Morava neste mundo como se fosse numa tenda e estava sempre palmilhando vales, cruzando plan\u00edcies, galgando cumes de montanhas. Mas vejam s\u00f3! Os homens transformaram-se nos instrumentos dos seus instrumentos.\u00bb<\/p><\/blockquote>\n<p>O dom\u00ednio sobre o clima no antropoceno leva a que tenhamos posto de lado a pedagogia do desapego proveniente da experi\u00eancia de ser acolhido no mundo natural como \u201ch\u00f3spede\u201d para nos apropriarmos desse lugar e tornarmo-nos seus donos. Seria como se acolhessem algu\u00e9m em vossa casa que, entretanto, se apropria dela, faz o que quer e lhe apetece, destruindo-a, e destruindo-se a si mesmo. Da\u00ed que a subtileza da \u00faltima frase de Thoreau seja a de que os nossos estilos de vida, afastados da simplicidade e desapego que marcaram a experi\u00eancia de acolhimento que faz\u00edamos com a natureza, nos tenha instrumentalizado. Pois, quem n\u00e3o consegue passar um dia sem o conforto que a tecnologia lhe d\u00e1, sem o saber, est\u00e1 a ser instrumentalizado por essa.<\/p>\n<blockquote><p>\u00abOs nossos inventos costumam ser belos brinquedos que distraem a aten\u00e7\u00e3o das coisas s\u00e9rias. N\u00e3o passam de meios aperfei\u00e7oados para atingir um fim que n\u00e3o se aperfei\u00e7oou, um fim que j\u00e1 l\u00e1 estava e ao qual se chegava com facilidade (\u2026). Apressamo-nos a construir um tel\u00e9grafo magn\u00e9tico entre o Maine e o Texas, mas pode acontecer que o Maine e o Texas n\u00e3o tenham nada de importante a comunicar.\u00bb (\u201cWalden e a vida nos bosques\u201d)<\/p><\/blockquote>\n<p>A tecnologia que antes provinha de uma necessidade que se manifestava na experi\u00eancia de vida, hoje, cria necessidades e novos estilos de vida. Uma das coisas que tenho reparado \u00e9 na redu\u00e7\u00e3o dos ciclos de lan\u00e7amento de novos produtos tecnol\u00f3gicos que custam muito dinheiro. Todos os anos lan\u00e7a-se um novo iPhone e repete-se o discurso \u2014 <em>\u00abEste \u00e9 o melhor iPhone que alguma vez fizemos.\u00bb<\/em> Lembro-me de h\u00e1 anos come\u00e7ar a ficar entusiasmado com cada lan\u00e7amento do iPhone (de dois em dois anos) e fazia as maiores gin\u00e1sticas financeiras para poder ter o novo \u201cbelo brinquedo\u201d na m\u00e3o. Mas depois de reflectir sobre o Minimalismo Digital com o livro de Cal Newport, aprendi que a pausa para consolidar aquilo a que dou realmente valor na vida \u00e9 a base de qualquer escolha de consumo, sobretudo, o tecnol\u00f3gico. Por isso, na verdade, um novo iPhone n\u00e3o faz mais do que fazia o modelo anterior. E a conclus\u00e3o que chego \u00e9 a de que mais vale substituir a bateria, ou reparar o que tenho, do que ser instrumentalizado na vontade pela \u201cbela brincadeira\u201d de um reluzente novo equipamento. Mas a proximidade do COP26 leva-nos a pensar que existem for\u00e7as de resist\u00eancia \u00e0 mudan\u00e7a de estilos de vida que est\u00e3o ao n\u00edvel das na\u00e7\u00f5es. Diz Thoreau que \u2014<\/p>\n<blockquote><p>\u00abAs na\u00e7\u00f5es s\u00e3o possu\u00eddas pela louca ambi\u00e7\u00e3o de perpetuarem a sua mem\u00f3ria com a soma das esculturas que deixam. Que tal se esfor\u00e7os semelhantes fossem despendidos no sentido de aperfei\u00e7oar e polir a sua conduta? Uma obra de bom senso seria mais memor\u00e1vel que um monumento da altura da Lua. Prefiro contemplar as pedras no seu lugar de origem.\u00bb (\u201cWalden e a vida nos bosques\u201d)<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 for\u00e7a mais transformativa da influ\u00eancia que temos sobre o clima deste planeta do que os nossos comportamentos. Muitos podem pensar que os seus actos n\u00e3o t\u00eam express\u00e3o ao n\u00edvel global. \u2014 <em>&#8220;Posso s\u00f3 acelerar desta vez.\u201d \u2014 \u201cPosso consumir mais carne desta vez porque \u00e9 dia de festa.\u201d<\/em> \u2014 Mas se multiplicarmos estas \u201craridades\u201d por todas as pessoas do planeta, percebemos que o pouco que fazemos para mudar a nossa conduta \u00e9 suficiente para mudar o mundo.<\/p>\n<p>Considero que a <em>Laudato Si\u2019<\/em> do Papa Francisco e a sua palavra no COP26 s\u00e3o um obra de bom senso. Ele, como cada um de n\u00f3s, encontra o sentido da simplicidade e despojamento numa vida que d\u00e1 mais do que procura possuir. E o convite\/provoca\u00e7\u00e3o de Thoreau a contemplar as pedras no lugar de origem contrasta o mar de gente que vemos pelas ruas a contemplar o seu ecr\u00e3. Quando deixamos de contemplar as pedras no seu lugar de origem perdemos, gradualmente, o contacto com as nossas ra\u00edzes naturais. No antropoceno, finalmente conseguimos ser senhores da natureza, mas o resultado da reac\u00e7\u00e3o do planeta aos nossos excessos pode ser o nosso fim, e em primeira inst\u00e2ncia, dos mais vulner\u00e1veis. Hoje \u00e9 o tempo de saber aprender a n\u00e3o ter medo de mudar, sair das quatro paredes e ir ao encontro das nossas ra\u00edzes naturais para percebermos como o amor verdadeiro respeita sempre o lugar que nos acolhe e sustenta.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n<p>;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-220213","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/220213","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=220213"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/220213\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=220213"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=220213"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=220213"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}