{"id":219666,"date":"2021-10-21T09:44:33","date_gmt":"2021-10-21T08:44:33","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=219666"},"modified":"2021-10-21T09:44:33","modified_gmt":"2021-10-21T08:44:33","slug":"saber-aprender-a-nao-desperdicar-informacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-nao-desperdicar-informacao\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A n\u00e3o desperdi\u00e7ar informa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Numa aula ao referir a utilidade dos sistemas de armazenamento de energia pensava no quanto servem para reaproveitar alguma dessa que esteja prestes a ser desperdi\u00e7ada. Na sequ\u00eancia disso dizia-lhes que seria poss\u00edvel que o maior problema da energia no futuro fosse diminuir a quantidade que se desperdi\u00e7a. Mas se ampliarmos o significado da energia que faz o mundo mover-se para n\u00edveis de interpreta\u00e7\u00e3o mais profundos, dever\u00edamos considerar, tamb\u00e9m, o conceito de informa\u00e7\u00e3o. E quando pensamos no desperd\u00edcio de informa\u00e7\u00e3o, a coisa complica-se.<\/p>\n<figure id=\"attachment_219667\" aria-describedby=\"caption-attachment-219667\" style=\"width: 1296px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/adi-goldstein-EUsVwEOsblE-unsplash.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-219667 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/adi-goldstein-EUsVwEOsblE-unsplash.jpg\" alt=\"\" width=\"1296\" height=\"865\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/adi-goldstein-EUsVwEOsblE-unsplash.jpg 1296w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/adi-goldstein-EUsVwEOsblE-unsplash-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/adi-goldstein-EUsVwEOsblE-unsplash-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/adi-goldstein-EUsVwEOsblE-unsplash-768x513.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/adi-goldstein-EUsVwEOsblE-unsplash-1080x721.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/adi-goldstein-EUsVwEOsblE-unsplash-1280x854.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/adi-goldstein-EUsVwEOsblE-unsplash-980x654.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/adi-goldstein-EUsVwEOsblE-unsplash-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1296px) 100vw, 1296px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-219667\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Adi Goldstein em Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>A liga\u00e7\u00e3o entre energia e informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se resume \u00e0 energia que gastamos para alimentar os servidores onde guardamos a informa\u00e7\u00e3o das nossas fotos, emails, blogues. Nem t\u00e3o pouco \u00e0 energia que gastamos para manter os dispositivos electr\u00f3nicos ligados \u00e0 net, e atrav\u00e9s dos quais criamos, consumimos ou partilhamos informa\u00e7\u00e3o. Na verdade, o que se entende bem por <em>informa\u00e7\u00e3o<\/em>?<\/p>\n<p>Em 1948, Claude Shannon publicou um trabalho seminal sobre a teoria matem\u00e1tica da comunica\u00e7\u00e3o. Nessa teoria, Shannon encontrou uma forma de quantificar a informa\u00e7\u00e3o baseada numa an\u00e1lise a d\u00edgitos bin\u00e1rios (1\u2019s e 0\u2019s), que em ingl\u00eas se escreve <em><strong>b<\/strong>inary dig<strong>it<\/strong>s<\/em>, e da\u00ed prov\u00e9m a palavra \u201cbit\u201d. Para ele n\u00e3o importava o conte\u00fado da mensagem comunicada. O que procurava perceber era o m\u00ednimo de informa\u00e7\u00e3o que precisamos para descodificar uma mensagem afectada pelo ru\u00eddo. O resultado a que chegou possu\u00eda uma f\u00f3rmula matem\u00e1tica que o f\u00edsico austr\u00edaco Ludwig Boltzmann havia desenvolvido para quantificar a entropia de um sistema, sendo essa proporcional ao n\u00famero de combina\u00e7\u00f5es poss\u00edveis para o arranjo de \u201cN\u201d mol\u00e9culas de uma subst\u00e2ncia qualquer. Enquanto a entropia de Shannon \u00e9 proporcional a bits de informa\u00e7\u00e3o, a entropia de Boltzmann \u00e9 proporcional \u00e0 energia por unidade de temperatura. O que pode ligar as duas abordagens a uma \u00fanica realidade? Depende do que entendemos por entropia.<\/p>\n<p>Quando andava na Universidade a tirar o curso tinha um professor que, de vez em quando, dizia \u2014 <em>\u00abbaixa a\u00ed a entropia, v\u00e1 l\u00e1!\u00bb<\/em> \u2014 ou seja, a confus\u00e3o na sala por causa das nossas conversas tinha atingido um n\u00edvel que ele j\u00e1 n\u00e3o considerava razo\u00e1vel. Quando imaginamos as mol\u00e9culas de um g\u00e1s a passear dentro de uma caixa, n\u00e3o imaginamos que tudo est\u00e1 numa grande confus\u00e3o? Isto \u00e9, que n\u00e3o existe um movimento ordenado, mas desordenado? Por isso, a confus\u00e3o \u00e9 a palavra que usamos para nos dar uma no\u00e7\u00e3o aproximada do significado de entropia, mas \u00e9 uma vis\u00e3o ainda limitada.<\/p>\n<p>Quando Claude Shannon quantificou pela primeira vez na hist\u00f3ria a informa\u00e7\u00e3o com uma f\u00f3rmula matem\u00e1tica, o significado que tinha em mente de informa\u00e7\u00e3o era de ser uma medida da mudan\u00e7a gerada no conhecimento do observador. Por exemplo, se todas as faces de um dado tiverem o valor de 1, lan\u00e7ar o dado n\u00e3o produz qualquer altera\u00e7\u00e3o no conhecimento do observador porque j\u00e1 sabe que sair\u00e1 1. Pelo contr\u00e1rio, se o dado for normal, qualquer lan\u00e7amento altera o conhecimento do observador porque antes de lan\u00e7ar, qualquer pessoa n\u00e3o faz a m\u00ednima ideia do n\u00famero que vai sair.<\/p>\n<p>Em 1971, Myron Tribus e Edward McIrvine mostraram num artigo para a <em>Scientific American<\/em> como a energia e a informa\u00e7\u00e3o (medida pela entropia) est\u00e3o ligadas a um n\u00edvel mais profundo do que pensamos. Se convert\u00eassemos a quantidade de energia que recebemos do Sol em informa\u00e7\u00e3o, o valor \u00e9 astron\u00f3mico. E a quantidade de produzimos de informa\u00e7\u00e3o todos os dias continua a ser \u00ednfima comparativamente ao n\u00famero de bits por segundo que recebemos do Sol. Por isso, podemos continuar a converter a informa\u00e7\u00e3o recebida do Sol em conte\u00fado que expresse a informa\u00e7\u00e3o associada \u00e0 actividade humana que a fonte n\u00e3o se esgota. Mas quando medimos a informa\u00e7\u00e3o com a entropia de Shannon, estamos a medir o quanto esperamos aprender sobre uma determinada quest\u00e3o, quando tudo o que sabemos sobre essa corresponde a um conjunto feito de uma diversidade de respostas. Penso em tudo isto por causa do caminho incerto de reflex\u00e3o sobre a Igreja Sinodal.<\/p>\n<p>O impulso interior do Papa Francisco \u00e9 o de voltar \u00e0 experi\u00eancia dos primeiros tempos da Igreja onde a viv\u00eancia comunit\u00e1ria era pr\u00f3xima e profunda. Ao longo do tempo, com a mistura entre espiritualidade e pol\u00edtica, a dimens\u00e3o vertical de uma comunidade espiritual adquiriu contornos onde nem todos podiam participar ao mesmo n\u00edvel. N\u00e3o havia paridade no modo de nos organizarmos como Igreja, havendo sinais de submiss\u00e3o t\u00edpicos da \u00e9poca medieval que teve o seu lugar na hist\u00f3ria, mas acabou. Por\u00e9m, o facto dos fluxos de informa\u00e7\u00e3o terem aumentado exponencialmente nos \u00faltimos tempos desenvolveu mais o nosso conhecimento para explicar a realidade \u00e0 nossa volta. Neste caso, a dimens\u00e3o vertical que diferenciava o grau de influ\u00eancia das pessoas mediante o t\u00edtulo que lhes atribu\u00edamos, esbate-se e nivela-se. E tudo o que resta \u00e9 a vida verdadeira entre n\u00f3s feita de melodia e ru\u00eddo.<\/p>\n<p>No ar respira-se um sentimento incerto que poder\u00edamos medir pela entropia da informa\u00e7\u00e3o que circula entre n\u00f3s. H\u00e1 quem pense que reflectir sobre a sinodalidade da vida na Igreja seja um desperd\u00edcio de tempo porque n\u00e3o receber\u00e1 qualquer informa\u00e7\u00e3o nova que seja transformativa no sentido positivo. Isto \u00e9, sente o risco da cacofonia ao querermos escutar todos e eu compreendo. J\u00e1 vivi diversas experi\u00eancias em que se procurou escutar todos e chegar a uma ideia diversificada e consensual, fazendo-nos sentir estarmos diante da abertura de um novo cap\u00edtulo na nossa hist\u00f3ria. E, depois, o que aconteceu? Nada.<\/p>\n<p>Somos excelentes a dar ideias, bons a dar conselhos, razo\u00e1veis a planear as mudan\u00e7as e muitos lentos ou ineficientes a concretiz\u00e1-las. Sobretudo, quando a concretiza\u00e7\u00e3o dessas ideias implica mudar as nossas estruturas mentais e organizativas. Teilhard de Chardin referia-se ao aspecto mental da mat\u00e9ria como uma esp\u00e9cie de energia espiritual. A autora Julia Cameron associa essa energia espiritual \u00e0 criatividade. E penso que estamos todos de acordo que a criatividade produz informa\u00e7\u00e3o com uma utilidade indefinida, mas ineg\u00e1vel no facto de ser uma realiza\u00e7\u00e3o de algo que mudou no nosso interior.<\/p>\n<p>A energia que gastamos a p\u00f4r em pr\u00e1tica o resultado das nossas reflex\u00f5es, ao converter-se em informa\u00e7\u00e3o, \u00e9 como se fosse uma componente mental da mat\u00e9ria a induzir transforma\u00e7\u00f5es \u00e0 nossa volta. Se o nosso conhecimento ou reflex\u00e3o n\u00e3o levar \u00e0 ac\u00e7\u00e3o, \u00e9 como se toda a experi\u00eancia de convers\u00e3o da nossa energia, e tempo, em informa\u00e7\u00e3o, que pretendia ser transformativa, se desperdi\u00e7asse. Por isso, depois de escutarmos todos \u00e9 necess\u00e1rio fazermos caminho juntos passando da palavra \u00e0 ac\u00e7\u00e3o. S\u00f3 assim saberemos aprender a n\u00e3o desperdi\u00e7ar o momento certo, o <em>kairos<\/em> da Vontade de Deus para a Igreja no futuro pr\u00f3ximo.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n<p>;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-219666","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/219666","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=219666"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/219666\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=219666"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=219666"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=219666"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}