{"id":21943,"date":"2007-01-02T10:20:51","date_gmt":"2007-01-02T10:20:51","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/01\/02\/a-familia-santuario-da-vida\/"},"modified":"2007-01-02T10:20:51","modified_gmt":"2007-01-02T10:20:51","slug":"a-familia-santuario-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-familia-santuario-da-vida\/","title":{"rendered":"A Fam\u00edlia, Santu\u00e1rio da Vida"},"content":{"rendered":"<p>D. Manuel Fel\u00edcio, Bispo da Guarda <!--more--> 1. Celebramos a Festa da Sagrada Fam\u00edlia. Na nossa medita\u00e7\u00e3o, diante do Pres\u00e9pio, contemplamos, em primeiro lugar, o Menino Jesus, pequenino e fr\u00e1gil como todas as crian\u00e7as; contemplamos uma M\u00e3e agradecida pelo dom do seu Filho e atenta a todos os pormenores para que nada lhe falte; contemplamos a responsabilidade de um Pai, vigilante e atento, que, sem descurar as suas responsabilidades sociais \u2013 fez uma longa viagem, de Nazar\u00e9 a Bel\u00e9m para cumprir o dever do recenseamento &#8211; cuidou zelosamente do Filho que Deus lhe confiou rec\u00e9m-nascido num curral de animais, porque n\u00e3o houve para ele lugar nas casas da cidade; vemos o amor de um casal inteiramente dedicado aos cuidados da crian\u00e7a que acaba de nascer.   2. A Palavra de Deus hoje escutada convida-nos a meditar sobre a realidade de todas as Fam\u00edlias, \u00e0 luz do modelo da sagrada Fam\u00edlia de Nazar\u00e9. Vamos ter em conta tamb\u00e9m que este \u00e9 o \u00faltimo dia do ano comemorativo dos 25 anos passados sobre a publica\u00e7\u00e3o da carta do Papa Jo\u00e3o Paulo II sobre a Fam\u00edlia \u2013 a &#8220;Familiaris consortio&#8221;.  Assim o livro de Siracide ou Bem-Sir\u00e1 e a carta aos Ccolossenses lembram-nos, cada um \u00e0 sua maneira, que a Fam\u00edlia \u00e9, em si mesma, comunidade de amor. E, por isso, \u00e9 a partir do amor que se h\u00e3o-de organizar e avaliar as rela\u00e7\u00f5es familiares.  \u00c9 o amor que regula, no espa\u00e7o familiar, as rela\u00e7\u00f5es entre marido e esposa, dos pais para com os filhos e dos filhos para com os pais. E na medida em que o verdadeiro amor for a fonte e a for\u00e7a reguladora das rela\u00e7\u00f5es no seio da Fam\u00edlia, os pais com naturalidade honram os filhos e os filhos honram os pais; marido e mulher honram-se tamb\u00e9m mutuamente, na fidelidade um ao outro. Por outras palavras, cada um saber\u00e1 criar todas as condi\u00e7\u00f5es para que a vida cres\u00e7a e se desenvolva em si mesmo e em todos os outros membros da fam\u00edlia. Promover a vida, proteg\u00ea-la e defend\u00ea-la de todos os perigos, criando-lhe, em contrapartida, todas as condi\u00e7\u00f5es de desenvolvimento, necessariamente ligado \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e \u00e0 transmiss\u00e3o dos valores, \u00e9 a miss\u00e3o fundamental da fam\u00edlia, que faz dela a institui\u00e7\u00e3o b\u00e1sica da sociedade.  A pr\u00f3pria correc\u00e7\u00e3o fraterna, indiciada hoje na carta aos Colossenses, tem a sua justifica\u00e7\u00e3o, dentro das Fam\u00edlias, na necessidade de promover os grandes valores necess\u00e1rios \u00e0 conviv\u00eancias e ao bem estar social, como s\u00e3o a bondade, a humildade, a mansid\u00e3o e a paci\u00eancia; mas principalmente a capacidade de perdoar, sabendo cada um suportar as fraquezas e as limita\u00e7\u00f5es dos outros, a exemplo de Jesus Cristo.  Agora, como sempre aconteceu, no seio de cada fam\u00edlia, nem todas as atitudes e comportamentos de cada um dos seus membros s\u00e3o compreens\u00edveis de imediato, mesmo quando brotam das inten\u00e7\u00f5es mais rectas. Tamb\u00e9m Jos\u00e9 e Maria n\u00e3o entenderam a atitude de Jesus que, levado ao Templo quando tinha 12 anos, numa aparente atitude de desobedi\u00eancia, decidiu ficar entre os doutores e n\u00e3o acompanhar os pais de regresso a casa. E fez isto no estrito cumprimento da miss\u00e3o que o pai lhe confiava. Maria e Jos\u00e9 n\u00e3o compreenderam \u00e0 primeira, tiveram um primeiro esbo\u00e7o de repreens\u00e3o, mas de imediato, acolheram o misterioso plano de salva\u00e7\u00e3o de deus Pai, meditaram nele e foram-no compreendendo aos poucos.   3. A Fam\u00edlia \u00e9, assim, o verdadeiro Santu\u00e1rio da vida humana. Diz a esse prop\u00f3sito, a carta enc\u00edclica do papa Jo\u00e3o Paulo II sobre a Fam\u00edlia \u2013 &#8220;Familiaris Consortio&#8221; o seguinte: \u201ca tarefa fundamental da Fam\u00edlia \u00e9 o servi\u00e7o \u00e0 Vida\u201d (n. 28 \u00a72\u00ba) Ora o servi\u00e7o \u00e0 vida come\u00e7a, quando marido e esposa, diante de Deus e da sua consci\u00eancia decidem gerar um novo ser humano, exercendo assim a sua paternidade consciente e respons\u00e1vel. O servi\u00e7o \u00e0 vida continua quando a crian\u00e7a pequenina e mesmo ainda no seio da sua m\u00e3e \u00e9 bem tratada, bem acolhida; quando lhe s\u00e3o criadas todas as condi\u00e7\u00f5es para o desej\u00e1vel desenvolvimento equilibrado, o qual \u00e9 sempre o cumprimento de um projecto que j\u00e1 est\u00e1 todo presente no seu in\u00edcio, no embri\u00e3o.  Basta dar tempo ao tempo e respeitar o seu crescimento para virmos a ter um ser humano adulto, amadurecido e a caminho sempre da sua plenitude.  Marido e esposa, pai e m\u00e3e, sabem, que desde o in\u00edcio de uma gesta\u00e7\u00e3o, est\u00e3o diante de algu\u00e9m que n\u00e3o lhes pertence, algu\u00e9m que n\u00e3o se identifica com a m\u00e3e que o traz em seu seio, mas vai progressivamente construindo a sua autonomia. De facto, e a ci\u00eancia comprova-o, uma das primeiras manifesta\u00e7\u00f5es da maternidade \u00e9 o reconhecimento pela m\u00e3e da alteridade do seu filho, isto \u00e9, o dar-se conta de que traz dentro de si outra pessoa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 qual, al\u00e9m dos deveres espec\u00edficos de m\u00e3e, tem os mesmos deveres que qualquer indiv\u00edduo tem perante a vida de outrem. N\u00e3o h\u00e1, portanto diferen\u00e7a qualitativa entre a vida que se desenvolve no seio da m\u00e3e e a vida que continua o seu desenvolvimento fora dele.  Pretender criar diferen\u00e7as entre os v\u00e1rios est\u00e1dios de desenvolvimento da pessoa humana, desde a concep\u00e7\u00e3o at\u00e9 \u00e0 sua morte natural, \u00e9 uma pura arbitrariedade, sem qualquer fundamento, mesmo e sobretudo de ordem cient\u00edfica. Portanto, \u00e0s 10 semanas ou \u00e0s 8 semanas, \u00e0s 7 semanas ou \u00e0s 15 semanas, antes como depois do nascimento, o ser humano \u00e9 absolutamente o mesmo, portanto, enquanto ser humano, sempre sujeito de direitos que a lei civil e o Estado, enquanto pessoa de bem, t\u00eam obriga\u00e7\u00e3o de tutelar.  Por sua vez, o Pai e a M\u00e3e, perante a nova vida que decidiram transmitir no acto mais sublime que marca para sempre as suas vidas de homem e de mulher, no exerc\u00edcio da sua maternidade e paternidade conscientes e respons\u00e1veis, s\u00e3o chamados a contemplar e a proteger a grande maravilha que foi confiada \u00e0 sua guarda. E esta \u00e9 a maravilha da vida que eles decidiram livremente acolher como parte das suas vidas e agora lhes pede generosidade e responsabilidade.  Desejo aqui prestar homenagem aos pais e \u00e0s m\u00e3es que exercem a sua paternidade e a sua maternidade, de forma consciente e respons\u00e1vel, tanto na decis\u00e3o inicial de gerarem mais um filho, como tamb\u00e9m na generosidade com que o acolhem, o acompanham, se sacrificam por ele, aceitando, \u00e0s vezes, comprometer o seu bem estar material e mesmo arriscando as suas vidas pessoais. Nesta homenagem vai o reconhecimento de que a vida \u00e9 sempre uma realidade sagrada que nos \u00e9 confiada para a sabermos guardar com sentido de responsabilidade e a levarmos \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o, no amor, pelo dom de n\u00f3s mesmos a Deus e aos irm\u00e3os.  Ao contemplarmos a maravilha da vida humana, seja qual for o grau do seu desenvolvimentos, ao prestarmos a nossa homenagem aos pais e \u00e0s m\u00e3es que generosamente exercem as suas responsabilidades perante a vida que lhes est\u00e1 confiada, como seu santu\u00e1rio, n\u00e3o podemos fechar os olhos \u00e0s muitas contradi\u00e7\u00f5es que continuam a verificar-se nas nossas sociedades ditas evolu\u00eddas. Assim, por estranho que pare\u00e7a, ao lado de m\u00e3es que exultam de alegria com a chegada dos seus filhos, persiste o drama de outras m\u00e3es que abandonam os filhos ou lhes tiram a vida antes do nascimento; ao lado de pais que assumem generosa e responsavelmente o seu papel na cria\u00e7\u00e3o de todas as condi\u00e7\u00f5es de boas vindas para a chegada de mais um filho, outros h\u00e1 que fogem \u00e0s responsabilidades, abandonando os filhos ou empurrando as m\u00e3es para a solu\u00e7\u00e3o f\u00e1cil do aborto; ao lado da fam\u00edlias que garantem a necess\u00e1ria estabilidade para o crescimento equilibrado dos seus filhos, sendo fi\u00e9is aos valores fundamentais da unidade e de indissolubilidade do casamento, h\u00e1 outras que se desfazem e deitam os filhos ao abandono, ficando estes \u00e0 merc\u00ea de boas vontades de fam\u00edlias de acolhimento que os adoptam ou lhes d\u00e3o outras formas de assist\u00eancia, ou ent\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es que procuram funcionar como fam\u00edlias de substitui\u00e7\u00e3o. \u00c9 necess\u00e1rio reconhecer que este \u00e9 talvez o maior drama do nosso tempo, que, longe de diminuir, tem tend\u00eancia para crescer, e s\u00f3 n\u00e3o atinge maiores propor\u00e7\u00f5es devido ao grande n\u00famero de homens e mulheres que, ligados ou n\u00e3o a institui\u00e7\u00f5es, fazem da sua vida um servi\u00e7o generoso aos filhos dos outros.  Permita-se-me que tamb\u00e9m aqui preste a minha rasgada homenagem a tantos homens e mulheres que dedicam toda a sua vida a tratar de crian\u00e7as abandonadas. E s\u00e3o muitos aqueles e aquelas que visitei, com quem dialoguei, ao longo das \u00faltimas semanas, sobre o maravilhoso servi\u00e7o \u00e0 vida e \u00e0 comunidade que est\u00e3o a realizar. Isto permite-me dirigir daqui um apelo a todas as m\u00e3es em dificuldade para levarem at\u00e9 ao fim o dever que lhes assiste de receberem bem o filho que decidiram gerar. E se porventura lhes faltarem as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias de ordem material ou outras, para cuidarem bem desses filhos que decidiram gerar n\u00e3o tenham medo de bater \u00e0 porta de pessoas e institui\u00e7\u00f5es que se disp\u00f5em a ajud\u00e1-las no exerc\u00edcio da sua responsabilidade de m\u00e3es ou at\u00e9 mesmo a substitui-las por algum tempo ou sempre.  N\u00e3o estamos perante um problema totalmente novo, pois sempre existiram crian\u00e7as abandonadas. Na Idade Media, havia a pr\u00e1tica das rodas para recolher expostos, geralmente junto de conventos ou outras institui\u00e7\u00f5es de benefic\u00eancia, para nelas as m\u00e3es desesperadas poderem deixar os seus filhos, sabendo que algu\u00e9m haveria de cuidar deles. Hoje existem outras formas de ajudar m\u00e3es em dificuldade e, se for necess\u00e1rio, de as substituir.  Antes de concluir desejo chamar a aten\u00e7\u00e3o para o folheto que j\u00e1 foi distribu\u00eddo ou est\u00e1 em distribui\u00e7\u00e3o subordinado ao t\u00edtulo &#8220;Raz\u00f5es para escolher a vida&#8221;. Nele a Confer\u00eancia Episcopal lembra os 5 motivos que h\u00e3o-de levar os cidad\u00e3os portugueses a formarem bem as suas consci\u00eancias e a optarem corajosamente pela defesa da vida dos inocentes n\u00e3o nascidos no pr\u00f3ximo referendo sobre o aborto marcado para o dia 11 de Fevereiro.  Para terminar, lembro que vivemos numa sociedade onde se preza a luta contra a exclus\u00e3o social. O nosso Governo lan\u00e7ou, em finais de Outubro, um Plano Nacional de Ac\u00e7\u00e3o para a Inclus\u00e3o (PNAI) que tem entre outros os seguintes objectivos: \u201cultrapassar as discrimina\u00e7\u00f5es, refor\u00e7ando a integra\u00e7\u00e3o das pessoas com defici\u00eancia e dos imigrantes\u201d. E, de facto, os tempos de Natal que estamos a viver s\u00e3o especialmente pr\u00f3prios para refor\u00e7ar a sensibilidade geral contra esta verdadeira praga que continua a afectar cada vez mais cidad\u00e3os, pois o n\u00famero de exclu\u00eddos tende a crescer, dizem-no as estat\u00edsticas e as projec\u00e7\u00f5es que se v\u00e3o fazendo.  N\u00e3o podemos esquecer que a primeira grande exclus\u00e3o social \u00e9 negar  a uma crian\u00e7a o direito de nascer.     <i>Manuel da Rocha Fel\u00edcio, Bispo da Guarda  31 de Dezembro de 2006 (homilia proferida na Catedral da Guarda)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. 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