{"id":21931,"date":"2006-12-29T17:15:53","date_gmt":"2006-12-29T17:15:53","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/12\/29\/mensagem-para-o-dia-mundial-da-paz-3\/"},"modified":"2006-12-29T17:15:53","modified_gmt":"2006-12-29T17:15:53","slug":"mensagem-para-o-dia-mundial-da-paz-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/mensagem-para-o-dia-mundial-da-paz-3\/","title":{"rendered":"Mensagem para o Dia Mundial da Paz"},"content":{"rendered":"<p>A pessoa humana, cora\u00e7\u00e3o da paz Mensagem de Bento XVI para a celebra\u00e7\u00e3o do Dia Mundial da Paz 2007  1. No in\u00edcio do ano novo, desejo fazer chegar aos Governantes e aos Respons\u00e1veis das Na\u00e7\u00f5es, bem como a todos os homens e mulheres de boa vontade os meus votos de paz. Envio-os, de modo particular, a quantos se encontram na tribula\u00e7\u00e3o e no sofrimento, a quem vive amea\u00e7ado pela viol\u00eancia e pela constri\u00e7\u00e3o das armas ou, espezinhado na sua dignidade, aguarda o pr\u00f3prio resgate humano e social. Envio-os \u00e0s crian\u00e7as que, com a sua inoc\u00eancia, enriquecem a humanidade de bondade e de esperan\u00e7a e, com o seu sofrimento, a todos nos animam a sermos obreiros de justi\u00e7a e de paz. Pensando precisamente nas crian\u00e7as, especialmente naquelas cujo futuro est\u00e1 comprometido pela explora\u00e7\u00e3o e pela maldade de adultos sem escr\u00fapulos, quis que, por ocasi\u00e3o do Dia Mundial da Paz, a aten\u00e7\u00e3o se concentrasse sobre o tema: Pessoa humana, cora\u00e7\u00e3o da paz. De facto, estou convencido de que respeitando a pessoa promove-se a paz e, construindo a paz, assentam-se as premissas para um aut\u00eantico humanismo integral. \u00c9 assim que se prepara um futuro sereno para as novas gera\u00e7\u00f5es.  <b>A pessoa humana e a paz: dom e miss\u00e3o<\/b> 2. A Sagrada Escritura afirma: \u00ab Deus criou o homem \u00e0 Sua imagem, criou-o \u00e0 imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher \u00bb (Gn 1,27). Por ter sido criado \u00e0 imagem de Deus, o indiv\u00edduo humano possui a dignidade de pessoa; n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 alguma coisa, mas algu\u00e9m, capaz de se conhecer, de se possuir e de livremente se dar e de entrar em comunh\u00e3o com outras pessoas. Ao mesmo tempo, ele \u00e9 chamado, pela gra\u00e7a, a uma alian\u00e7a com o seu Criador, a dar-Lhe uma resposta de f\u00e9 e amor que mais ningu\u00e9m pode dar em seu lugar.(1) Nesta admir\u00e1vel perspectiva, compreende-se a miss\u00e3o confiada ao ser humano de amadurecer pessoalmente na capacidade de amar e de fazer progredir o mundo, renovando-o na justi\u00e7a e na paz. Numa s\u00edntese eficaz Santo Agostinho ensina: \u00ab Deus, que nos criou sem n\u00f3s, n\u00e3o quis salvar-nos sem n\u00f3s \u00bb.(2) \u00c9, pois, um dever de todos os seres humanos cultivar a consci\u00eancia do duplo aspecto de dom e de miss\u00e3o.  3. Do mesmo modo a paz \u00e9 simultaneamente um dom e uma miss\u00e3o. Se \u00e9 verdade que a paz entre os indiv\u00edduos e os povos \u2014 a capacidade de viverem uns ao lado dos outros tecendo rela\u00e7\u00f5es de justi\u00e7a e de solidariedade \u2014 representa um compromisso que n\u00e3o conhece pausa, \u00e9 tamb\u00e9m verdade, antes \u00e9-o mais ainda, que a paz \u00e9 dom de Deus. A paz \u00e9, com efeito, uma caracter\u00edstica da ac\u00e7\u00e3o divina, que se manifesta tanto na cria\u00e7\u00e3o de um universo ordenado e harmonioso como tamb\u00e9m na reden\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria humana necessitada de ser recuperada da desordem do pecado. Cria\u00e7\u00e3o e reden\u00e7\u00e3o oferecem, portanto, a chave de leitura que introduz na compreens\u00e3o do sentido da nossa exist\u00eancia sobre a terra. O meu venerado predecessor Jo\u00e3o Paulo II, dirigindo-se \u00e0 Assembl\u00e9ia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas no dia 5 de Outubro de 1995, teve a ocasi\u00e3o de dizer que n\u00f3s \u00ab n\u00e3o vivemos num mundo irracional ou sem sentido, mas [&#8230;] existe uma l\u00f3gica moral que ilumina a exist\u00eancia humana e torna poss\u00edvel o di\u00e1logo entre os homens e os povos \u00bb.(3) A \u201cgram\u00e1tica\u201d transcendente, ou seja, o conjunto de regras da ac\u00e7\u00e3o individual e do rec\u00edproco relacionamento entre as pessoas de acordo com a justi\u00e7a e a solidariedade, est\u00e1 inscrita nas consci\u00eancias, nas quais se reflecte o s\u00e1bio projecto de Deus. Como recentemente quis reafirmar, \u00ab n\u00f3s cremos que na origem est\u00e1 o Verbo eterno, a Raz\u00e3o e n\u00e3o a Irracionalidade \u00bb.(4) A paz \u00e9, portanto, tamb\u00e9m uma tarefa que compromete cada indiv\u00edduo a uma resposta pessoal coerente com o plano divino. O crit\u00e9rio que deve inspirar esta resposta n\u00e3o pode ser sen\u00e3o o respeito pela \u201cgram\u00e1tica\u201d escrita no cora\u00e7\u00e3o do homem pelo seu divino Criador.   Nesta perspectiva, as normas do direito natural n\u00e3o h\u00e3o-de ser consideradas como directrizes que se imp\u00f5em a partir de fora, como se coarctassem a liberdade do homem. Pelo contr\u00e1rio, devem ser acolhidas como uma chamada a realizar fielmente o projecto universal divino inscrito na natureza do ser humano. Guiados por tais normas, os povos \u2014 no \u00e2mbito das respectivas culturas \u2014 podem aproximar-se assim do maior mist\u00e9rio, que \u00e9 o mist\u00e9rio de Deus. Por isso, o reconhecimento e o respeito pela lei natural constituem tamb\u00e9m hoje a grande base para o di\u00e1logo entre os crentes das diversas religi\u00f5es e entre estes e os n\u00e3o crentes. \u00c9 este um grande ponto de encontro e, portanto, um pressuposto fundamental para uma aut\u00eantica paz.  <b>O direito \u00e0 vida e \u00e0 liberdade religiosa<\/b> 4. O dever de respeitar a dignidade de cada ser humano, em cuja natureza se reflecte a imagem do Criador, tem como consequ\u00eancia que n\u00e3o se possa dispor da pessoa arbitrariamente. Quem det\u00e9m maior poder pol\u00edtico, tecnol\u00f3gico, econ\u00f3mico, n\u00e3o pode aproveitar disso para violar os direitos dos outros menos favorecidos. De facto, \u00e9 sobre o respeito dos direitos de todos que se baseia a paz. Ciente disso, a Igreja faz-se paladina dos direitos fundamentais de cada pessoa. De modo particular, ela reivindica o respeito da vida e da liberdade religiosa de cada um. O respeito do direito \u00e0 vida em todas as suas fases estabelece um ponto firme de import\u00e2ncia decisiva: a vida \u00e9 um dom de que o sujeito n\u00e3o tem completa disponibilidade. Igualmente, a afirma\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 liberdade religiosa p\u00f5e o ser humano em rela\u00e7\u00e3o com um Princ\u00edpio transcendente que o furta ao arb\u00edtrio do homem. O direito \u00e0 vida e \u00e0 livre express\u00e3o da pr\u00f3pria f\u00e9 em Deus n\u00e3o est\u00e1 nas m\u00e3os do homem. A paz necessita que se estabele\u00e7a uma clara fronteira entre o que \u00e9 dispon\u00edvel e o que n\u00e3o o \u00e9: assim se evitar\u00e3o intromiss\u00f5es inaceit\u00e1veis naquele patrim\u00f3nio de valores que \u00e9 pr\u00f3prio do homem enquanto tal.  5. Quanto ao direito \u00e0 vida, cabe denunciar o destro\u00e7o de que \u00e9 objecto na nossa sociedade: junto \u00e0s v\u00edtimas dos conflitos armados, do terrorismo e das mais diversas formas de viol\u00eancia, temos as mortes silenciosas provocadas pela fome, pelo aborto, pelas pesquisas sobre os embri\u00f5es e pela eutan\u00e1sia. Como n\u00e3o ver nisto tudo um atentado \u00e0 paz? O aborto e as pesquisas sobre os embri\u00f5es constituem a nega\u00e7\u00e3o directa da atitude de acolhimento do outro que \u00e9 indispens\u00e1vel para se estabelecerem rela\u00e7\u00f5es de paz est\u00e1veis. Mais: no que diz respeito \u00e0 livre manifesta\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria f\u00e9, outro sintoma preocupante de aus\u00eancia de paz no mundo \u00e9 representado pelas dificuldades que frequentemente tanto os crist\u00e3os como os adeptos de outras religi\u00f5es encontram para professar p\u00fablica e livremente as pr\u00f3prias convic\u00e7\u00f5es religiosas. No caso particular dos crist\u00e3os, devo ressaltar com tristeza que por vezes n\u00e3o se limitam a criar-lhes impedimentos; em alguns Estados s\u00e3o mesmo perseguidos, tendo-se registado ainda recentemente epis\u00f3dios de atroz viol\u00eancia. Existem regimes que imp\u00f5em a todos uma \u00fanica religi\u00e3o, enquanto regimes indiferentes alimentam, n\u00e3o uma persegui\u00e7\u00e3o violenta, mas um sistem\u00e1tico desprezo cultural quanto \u00e0s cren\u00e7as religiosas. Em todo o caso, n\u00e3o se respeita um direito humano fundamental, com graves repercuss\u00f5es sobre a conviv\u00eancia pac\u00edfica, o que n\u00e3o deixa de promover uma mentalidade e uma cultura negativas para a paz.  <b>A igualdade de natureza de todas as pessoas<\/b> 6. Na raiz de n\u00e3o poucas tens\u00f5es que amea\u00e7am a paz, est\u00e3o certamente as in\u00fameras injustas desigualdades ainda tragicamente presentes no mundo. De entre elas s\u00e3o, por um lado, particularmente insidiosas as desigualdades no acesso a bens essenciais, como a comida, a \u00e1gua, a casa, a sa\u00fade; e, por outro lado, as cont\u00ednuas desigualdades entre homem e mulher no exerc\u00edcio dos direitos humanos fundamentais.  Constitui um elemento de prim\u00e1ria import\u00e2ncia para a constru\u00e7\u00e3o da paz o reconhecimento da igualdade essencial entre as pessoas humanas, que brota da sua transcendente dignidade comum. A igualdade a este n\u00edvel \u00e9, pois, um bem de todos inscrito naquela \u201cgram\u00e1tica\u201d natural que se deduz do projecto divino da cria\u00e7\u00e3o; um bem que n\u00e3o pode ser descurado ou desprezado sem provocar pesadas repercuss\u00f5es que p\u00f5em em risco a paz. As grav\u00edssimas car\u00eancias de que sofrem muitas popula\u00e7\u00f5es, especialmente no Continente africano, est\u00e3o na origem de violentas reivindica\u00e7\u00f5es e constituem assim um tremendo golpe infligido \u00e0 paz.  7. A mesma insuficiente considera\u00e7\u00e3o pela condi\u00e7\u00e3o feminina introduz factores de instabilidade no ordenamento social. Penso na explora\u00e7\u00e3o de mulheres tratadas como objectos e nas numerosas formas de falta de respeito pela sua dignidade; penso tamb\u00e9m \u2014 num contexto distinto \u2014 nas vis\u00f5es antropol\u00f3gicas persistentes em algumas culturas, que reservam \u00e0 mulher uma posi\u00e7\u00e3o ainda fortemente sujeita ao arb\u00edtrio do homem, com consequ\u00eancias lesivas da sua dignidade de pessoa e para o exerc\u00edcio das pr\u00f3prias liberdades fundamentais. N\u00e3o devemos iludir-nos de que a paz esteja assegurada enquanto n\u00e3o forem superadas tamb\u00e9m estas formas de discrimina\u00e7\u00e3o, que lesionam a dignidade pessoal, inscrita pelo Criador em cada ser humano.(5)  <b>A \u00abecologia da paz\u00bb<\/b> 8. Na Carta Enc\u00edclica Centesimus annus escreve Jo\u00e3o Paulo II: \u00ab N\u00e3o s\u00f3 a terra foi dada por Deus ao homem, que a deve usar respeitando a inten\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria de bem, segundo a qual lhe foi entregue; mas o homem \u00e9 doado a si mesmo por Deus, devendo por isso respeitar a estrutura natural e moral, de que foi dotado \u00bb.(6) \u00c9 respondendo a esta incumb\u00eancia, que lhe foi confiada pelo Criador, que o homem, juntamente com seus semelhantes, pode dar vida a um mundo de paz. Assim, ao lado da ecologia da natureza existe uma ecologia que podemos designar \u201chumana\u201d, a qual, por sua vez, requer uma \u201cecologia social\u201d. E isto requer que a humanidade, se tem a peito a paz, tome consci\u00eancia cada vez mais das liga\u00e7\u00f5es existentes entre a ecologia natural, ou seja, o respeito pela natureza, e a ecologia humana. A experi\u00eancia demonstra que toda a atitude de desprezo pelo ambiente provoca danos \u00e0 conviv\u00eancia humana, e vice-versa. Surge assim com mais evid\u00eancia um nexo incind\u00edvel entre a paz com a cria\u00e7\u00e3o e a paz entre os homens. Uma e outra pressup\u00f5em a paz com Deus. A poesia-ora\u00e7\u00e3o de S. Francisco, conhecida tamb\u00e9m como \u00ab Can\u00e7\u00e3o do Irm\u00e3o Sol \u00bb, constitui um admir\u00e1vel exemplo \u2014 sempre actual \u2014 desta variegada ecologia da paz.   9. Qu\u00e3o seja estreito este nexo entre uma e outra ecologia ajuda-nos a compreender o problema, cada dia mais grave, do abastecimento energ\u00e9tico. Nestes anos, novas Na\u00e7\u00f5es entraram decididamente no sector da produ\u00e7\u00e3o industrial, aumentando as necessidades energ\u00e9ticas. Isto est\u00e1 a provocar uma corrida sem precedentes aos recursos dispon\u00edveis. Entretanto, persistem ainda em algumas regi\u00f5es do planeta situa\u00e7\u00f5es de grande atraso, onde o desenvolvimento est\u00e1 praticamente bloqueado devido tamb\u00e9m ao aumento dos pre\u00e7os da energia. Que acontecer\u00e1 \u00e0quelas popula\u00e7\u00f5es? Que tipo de desenvolvimento ou de n\u00e3o-desenvolvimento lhes ser\u00e1 imposto pela escassez de reabastecimento energ\u00e9tico? Que injusti\u00e7as e antagonismos provocar\u00e1 a corrida \u00e0s fontes de energia? E como reagir\u00e3o os exclu\u00eddos desta corrida? Estas perguntas p\u00f5em em evid\u00eancia quanto o respeito pela natureza esteja intimamente ligado \u00e0 necessidade de tecer entre os homens e entre as Na\u00e7\u00f5es rela\u00e7\u00f5es respeitadoras da dignidade da pessoa e capazes de satisfazer as suas aut\u00eanticas necessidades. A destrui\u00e7\u00e3o do ambiente, um uso impr\u00f3prio ou ego\u00edsta do mesmo e a apropria\u00e7\u00e3o violenta dos recursos da terra geram lacera\u00e7\u00f5es, conflitos e guerras, precisamente porque s\u00e3o fruto de um conceito desumano de desenvolvimento. Com efeito, um desenvolvimento que se limitasse ao aspecto t\u00e9cnico-econ\u00f3mico, descurando a dimens\u00e3o moral-religiosa, n\u00e3o seria um desenvolvimento humano integral e terminaria, ao ser unilateral, por incentivar as capacidades destruidoras do homem.   <b>Vis\u00f5es redutoras do homem<\/b> 10. \u00c9 urgente, portanto, mesmo no quadro das actuais dificuldades e tens\u00f5es internacionais, empenhar-se em dar vida a uma ecologia humana que favore\u00e7a o crescimento da \u201c\u00e1rvore da paz\u201d. Para tentar semelhante empresa \u00e9 necess\u00e1rio deixar-se guiar por uma vis\u00e3o da pessoa n\u00e3o viciada por preconceitos ideol\u00f3gicos e culturais ou por interesses pol\u00edticos e econ\u00f3micos, que incitem ao \u00f3dio e \u00e0 viol\u00eancia. \u00c9 compreens\u00edvel que as vis\u00f5es do homem variem nas distintas culturas. Mas o que n\u00e3o se pode admitir \u00e9 que sejam cultivadas concep\u00e7\u00f5es antropol\u00f3gicas que contenham nelas mesmas o germe da contraposi\u00e7\u00e3o e da viol\u00eancia. S\u00e3o igualmente inaceit\u00e1veis concep\u00e7\u00f5es de Deus que estimulem o descaso para com os pr\u00f3prios semelhantes e o recurso \u00e0 viol\u00eancia contra eles. Trata-se de um dado em que se deve insistir com clareza: uma guerra em nome de Deus jamais \u00e9 aceit\u00e1vel. Quando uma certa concep\u00e7\u00e3o de Deus est\u00e1 na origem de factos criminosos, \u00e9 sinal de que tal concep\u00e7\u00e3o j\u00e1 se transformou em ideologia.  11. Hoje, por\u00e9m, a paz n\u00e3o \u00e9 posta em discuss\u00e3o s\u00f3 pelo conflito entre as vis\u00f5es redutoras do homem, ou seja entre as ideologias. \u00c9-o tamb\u00e9m pela indiferen\u00e7a face \u00e0quilo que constitui a verdadeira natureza do homem. Muitos contempor\u00e2neos negam, com efeito, a exist\u00eancia de uma espec\u00edfica natureza humana, tornando assim poss\u00edvel as interpreta\u00e7\u00f5es mais extravagantes dos constitutivos essenciais do ser humano. Tamb\u00e9m aqui faz falta a clareza: uma vis\u00e3o \u201cd\u00e9bil\u201d da pessoa, que deixe espa\u00e7o a qualquer concep\u00e7\u00e3o exc\u00eantrica, s\u00f3 aparentemente favorece a paz. Na verdade, impede o di\u00e1logo aut\u00eantico e abre o caminho \u00e0 interven\u00e7\u00e3o de imposi\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias, terminando assim por deixar a pr\u00f3pria pessoa indefesa e, consequentemente, presa f\u00e1cil da opress\u00e3o e da viol\u00eancia.  <b>Direitos humanos e Organiza\u00e7\u00f5es internacionais<\/b> 12. Uma paz verdadeira e est\u00e1vel pressup\u00f5e o respeito dos direitos do homem. Mas se estes direitos se baseiam numa concep\u00e7\u00e3o d\u00e9bil da pessoa, como n\u00e3o h\u00e3o-de ficar tamb\u00e9m eles enfraquecidos? Daqui se v\u00ea claramente a profunda insufici\u00eancia de uma concep\u00e7\u00e3o relativista da pessoa, quando se trata de justificar e defender os seus direitos. A aporia neste caso \u00e9 patente: os direitos s\u00e3o propostos como absolutos, mas o fundamento aduzido para eles \u00e9 apenas relativo. Causar\u00e1 surpresa se, diante das exig\u00eancias \u201cinc\u00f3modas\u201d postas por um direito ou outro, aparecer algu\u00e9m a contest\u00e1-lo ou decidir ignor\u00e1-lo? Somente radicados em inst\u00e2ncias objectivas da natureza dada ao homem pelo Criador, \u00e9 que os direitos a ele atribu\u00eddos podem ser afirmados sem medo de contesta\u00e7\u00e3o. De resto, \u00e9 evidente que os direitos do homem, por sua vez, implicam deveres. Bem o afirmava a prop\u00f3sito mahatma Gandi: \u00ab O Gange dos direitos desce do Himalaia dos deveres \u00bb Somente deixando claro este pressuposto de base \u00e9 que os direitos humanos, hoje sujeitos a cont\u00ednuos ataques, podem ser adequadamente defendidos. Sem esta clareza, acaba-se por utilizar a mesma express\u00e3o, precisamente \u2018direitos humanos&#8217;, mas subentendendo sujeitos bem distintos entre si: para uns, a pessoa humana dotada de dignidade permanente e de direitos sempre v\u00e1lidos, em toda a parte e para todos; para outros, uma pessoa de dignidade mut\u00e1vel e de direitos sempre negoci\u00e1veis nos conte\u00fados, no tempo e no espa\u00e7o.  13. \u00c0 tutela dos direitos humanos fazem constante refer\u00eancia os Organismos internacionais e, de modo particular, a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas que, com a Declara\u00e7\u00e3o Universal de 1948, se prop\u00f4s, como miss\u00e3o fundamental, promover os direitos do homem. Tal Declara\u00e7\u00e3o \u00e9 vista como uma esp\u00e9cie de compromisso moral assumido por toda a humanidade. Isto encerra uma verdade profunda, sobretudo se os direitos humanos descritos na Declara\u00e7\u00e3o s\u00e3o considerados como detentores de fundamento n\u00e3o simplesmente na decis\u00e3o da assembleia que os aprovou, mas na mesma natureza do homem e na sua inalien\u00e1vel dignidade de pessoa criada por Deus. \u00c9, portanto, importante que os Organismos internacionais n\u00e3o percam de vista o fundamento natural dos direitos do homem. Isto preserv\u00e1-los-\u00e1 do risco, infelizmente sempre latente, de resvalar para uma interpreta\u00e7\u00e3o meramente positivista. Se isso acontecesse, os Organismos internacionais terminariam carecendo da autoridade necess\u00e1ria para desempenhar o papel de defensores dos direitos fundamentais da pessoa e dos povos, motivo principal da sua mesma exist\u00eancia e actividade.  <b>Direito internacional humanit\u00e1rio e direito interno dos Estados<\/b> 14. A partir da consci\u00eancia de que existem direitos humanos inalien\u00e1veis ligados com a natureza comum dos homens, foi elaborado um direito internacional humanit\u00e1rio, a cuja observ\u00e2ncia os Estados se comprometem mesmo em caso de guerra. Isto infelizmente n\u00e3o encontrou coerente actua\u00e7\u00e3o, prescindindo do passado, em algumas situa\u00e7\u00f5es de guerra acontecidas recentemente. Foi o que se deu, por exemplo, no conflito que h\u00e1 alguns meses, teve por cen\u00e1rio o sul do L\u00edbano, quando a obriga\u00e7\u00e3o de proteger e ajudar as v\u00edtimas inocentes e de n\u00e3o envolver a popula\u00e7\u00e3o civil foi em grande parte desatendida. O doloroso epis\u00f3dio do L\u00edbano e a nova configura\u00e7\u00e3o dos conflitos, sobretudo desde que a amea\u00e7a terrorista p\u00f4s em pr\u00e1tica in\u00e9ditas modalidades de viol\u00eancia, requerem que a comunidade internacional reafirme o direito internacional humanit\u00e1rio e o aplique a todas as situa\u00e7\u00f5es actuais de conflito armado, incluindo as n\u00e3o previstas pelo direito internacional em vigor. Al\u00e9m disso, a praga do terrorismo postula uma reflex\u00e3o aprofundada sobre os limites \u00e9ticos que s\u00e3o inerentes ao uso dos instrumentos actuais de tutela da seguran\u00e7a nacional. Com frequ\u00eancia sempre maior, com efeito, os conflitos n\u00e3o s\u00e3o declarados, sobretudo quando os provocam grupos terroristas decididos a alcan\u00e7ar por qualquer meio os seus fins. Face aos desconcertantes cen\u00e1rios destes \u00faltimos anos, os Estados n\u00e3o podem deixar de sentir a necessidade de dotar-se de regras mais claras, capazes de contrastar eficazmente o extravio dram\u00e1tico que estamos assistindo. A guerra representa sempre um insucesso para a comunidade internacional e uma grave perda de humanidade. Mas quando, apesar de tudo, ela acontece, conv\u00e9m pelo menos salvaguardar os princ\u00edpios essenciais de humanidade e os valores b\u00e1sicos de toda a conviv\u00eancia civil, estabelecendo normas de comportamento que limitem ao m\u00e1ximo os seus danos e procurem aliviar os sofrimentos dos civis e de todas as v\u00edtimas dos conflitos.(7)  15. Outro elemento causador de grande inquieta\u00e7\u00e3o \u00e9 a vontade, manifestada recentemente por alguns Estados, de possu\u00edrem armas nucleares. Isto fez com que se acentuassem ainda mais o generalizado clima de incerteza e de medo por uma poss\u00edvel cat\u00e1strofe at\u00f3mica. O que faz retornar \u00e0 lembran\u00e7a o passado, aquelas \u00e2nsias desgastantes do per\u00edodo da assim chamada \u201cguerra fria\u201d. Desde ent\u00e3o esperava-se que o perigo at\u00f3mico estivesse definitivamente afastado e que o suspiro de al\u00edvio dado pela humanidade pudesse finalmente durar. Como se revela actual, a este respeito, a admoesta\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico Vaticano II: \u00ab Toda a ac\u00e7\u00e3o b\u00e9lica que tende indiscriminadamente \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de cidades inteiras ou vastas regi\u00f5es e seus habitantes \u00e9 um crime contra Deus e o pr\u00f3prio homem, que se deve condenar com firmeza e sem hesita\u00e7\u00e3o \u00bb.(8) Infelizmente sombras amea\u00e7adoras continuam adensando-se no horizonte da humanidade. O caminho para garantir um futuro de paz para todos \u00e9 constitu\u00eddo n\u00e3o somente por acordos internacionais que visem a n\u00e3o prolifera\u00e7\u00e3o das armas nucleares, mas tamb\u00e9m pelo esfor\u00e7o de procurar com determina\u00e7\u00e3o a sua diminui\u00e7\u00e3o e definitiva aboli\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se poupem esfor\u00e7os para se chegar, pela negocia\u00e7\u00e3o, a alcan\u00e7ar, tais finalidades! Est\u00e1 em jogo o destino de toda a fam\u00edlia humana!   <b>A Igreja em defesa da transcend\u00eancia da pessoa humana<\/b> 16. Desejo, enfim, dirigir um premente apelo ao Povo de Deus, a fim de que cada crist\u00e3o sinta-se comprometido a ser incans\u00e1vel promotor de paz e ac\u00e9rrimo defensor da dignidade da pessoa humana e dos seus direitos inalien\u00e1veis. Agradecido ao Senhor por t\u00ea-lo chamado a pertencer \u00e0 sua Igreja \u2014 que, no mundo, \u00e9 \u00ab sinal e salvaguarda da transcend\u00eancia da pessoa humana \u00bb,(9) o crist\u00e3o n\u00e3o se cansar\u00e1 de Lhe implorar o bem fundamental da paz, que tanta import\u00e2ncia tem na vida de cada um. Al\u00e9m disso, ele sentir\u00e1 o orgulho de servir com generosa dedica\u00e7\u00e3o a causa da paz, indo ao encontro dos irm\u00e3os, especialmente daqueles que, al\u00e9m de sofrer pobreza e priva\u00e7\u00f5es, est\u00e3o tamb\u00e9m privados deste precioso bem. Jesus revelou-nos que \u00ab Deus \u00e9 amor \u00bb (1 Jo 4,8) e que a voca\u00e7\u00e3o maior de cada pessoa \u00e9 o amor. Em Cristo, podemos encontrar as supremas raz\u00f5es para nos tornarmos paladinos seguros da dignidade humana e corajosos construtores de paz.   17. Portanto, jamais deixe de faltar a colabora\u00e7\u00e3o de cada crente para a promo\u00e7\u00e3o de um verdadeiro humanismo integral, conforme os ensinamentos das Cartas Enc\u00edclicas Populorum progressio e Sollicitudo rei socialis, das quais nos preparamos para celebrar precisamente este ano o 40o e o 20o anivers\u00e1rio. \u00c0 Rainha da Paz, M\u00e3e de Jesus Cristo \u201cnossa paz\u201d (Ef 2,14), confio a minha instante s\u00faplica por toda a humanidade no in\u00edcio do ano de 2007, que vislumbramos \u2014 mesmo entre perigos e problemas \u2014 com o cora\u00e7\u00e3o cheio de esperan\u00e7a. Seja Maria a mostrar-nos no seu Filho o Caminho da paz, e ilumine os nossos olhos, para que saibamos reconhecer o seu Rosto no rosto de cada pessoa humana, cora\u00e7\u00e3o da paz!  Vaticano, 8 de Dezembro de 2006.  <i>BENEDICTUS PP. XVI<\/i>  &#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211; (1) Cf. Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, 357. (2) Serm\u00e3o 169, 11,13: PL 38,923. (3) N. 3. (4) Homilia no Islinger Feld de Regensburg (12 de Setembro de 2006). (5) Cf. Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9, Carta aos Bispos da Igreja Cat\u00f3lica sobre a colabora\u00e7\u00e3o do homem e da mulher na Igreja e no mundo (31 de Maio de 2004), nn. 15-16. (6) N. 38. (7) A este respeito, o Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica estabeleceu crit\u00e9rios muitos severos e precisos: cf. nn. 2307-2317. (8) Const. past. Gaudium et spes, 80. (9) Conc. Ecum. Vat. II, Ib., 76.  \u00a9 Copyright 2006 &#8211; Libreria Editrice Vaticana<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pessoa humana, cora\u00e7\u00e3o da paz Mensagem de Bento XVI para a celebra\u00e7\u00e3o do Dia Mundial da Paz 2007 1. No in\u00edcio do ano novo, desejo fazer chegar aos Governantes e aos Respons\u00e1veis das Na\u00e7\u00f5es, bem como a todos os homens e mulheres de boa vontade os meus votos de paz. Envio-os, de modo particular, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[93,120,295,154,165,168,189,206,237,261,266,285,314],"class_list":["post-21931","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-aborto","tag-bento-xvi","tag-biblia","tag-crianca","tag-dia-mundial-da-paz","tag-diocese-da-guarda","tag-direitos-humanos","tag-familia","tag-joao-paulo-ii","tag-missoes","tag-nacoes-unidas","tag-patrimonio","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21931","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21931"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21931\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21931"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21931"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21931"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}