{"id":218682,"date":"2021-10-10T09:30:56","date_gmt":"2021-10-10T08:30:56","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=218682"},"modified":"2021-10-08T17:52:37","modified_gmt":"2021-10-08T16:52:37","slug":"saude-mental-ainda-ha-hospitais-gerais-sem-servico-de-psiquiatria-lamenta-vitor-cotovio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saude-mental-ainda-ha-hospitais-gerais-sem-servico-de-psiquiatria-lamenta-vitor-cotovio\/","title":{"rendered":"Sa\u00fade Mental: \u00abAinda h\u00e1 hospitais gerais sem Servi\u00e7o de Psiquiatria\u00bb, lamenta V\u00edtor Cotovio"},"content":{"rendered":"<p><em>Desinvestimento p\u00fablico na \u00e1rea deixou sem prote\u00e7\u00e3o muitos doentes, diz o diretor cl\u00ednico da Casa de Sa\u00fade do Telhal. Para V\u00edtor Cotovio \u00e9 preciso que o Estado pague \u00e0s institui\u00e7\u00f5es o que \u00e9 justo pela resposta que asseguram. Acordo que existe tem quase 40 anos, e s\u00f3 agora vai ser revisto<\/em><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por \u00c2ngela Roque (Renascen\u00e7a), Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><a style=\"font-weight: bold;\" href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0566-copy.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-218683 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0566-copy.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1280\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0566-copy.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0566-copy-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0566-copy-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0566-copy-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0566-copy-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0566-copy-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0566-copy-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0566-copy-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0566-copy-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Foto: RR\/Sofia Moreira<em>Ao longo de mais de ano e meio de pandemia houve v\u00e1rios alertas para o agravamento ao n\u00edvel da sa\u00fade mental dos portugueses. Partilha desta perce\u00e7\u00e3o, como m\u00e9dico, e deste diagn\u00f3stico?<\/em><\/p>\n<p>Partilho, at\u00e9 porque h\u00e1 alguns estudos que apontam para isso. Um Estudo feito h\u00e1 praticamente um ano pelo Instituto Ricardo Jorge, Faculdade de Medicina de Lisboa e Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Sa\u00fade Mental, j\u00e1 apontava para dados que reenviavam para aquilo que seriam as ansiedades moderadas e graves e as depress\u00f5es em pessoas que tinham estado infetadas, ou tinham convivido com pessoas infetadas. E tamb\u00e9m para aquilo a que se chama perturba\u00e7\u00e3o de stress p\u00f3s traum\u00e1tico, em pessoas que viveram o desespero de elas pr\u00f3prias, ou de pessoas da fam\u00edlia, estarem numa Unidade de Cuidados Intensivos, e tudo o que da\u00ed decorre.<\/p>\n<p>Outro Estudo do princ\u00edpio deste ano, da Universidade de Oxford, dizia que um quinto das pessoas que tinham tido Covid, nos tr\u00eas meses a seguir teria uma perturba\u00e7\u00e3o mental, tamb\u00e9m nesta \u00e1rea, entre as depress\u00f5es, as ansiedades ou a perturba\u00e7\u00e3o de stress p\u00f3s traum\u00e1tico, e em alguns casos situa\u00e7\u00f5es ligadas at\u00e9 a psicoses.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma coisa que ainda est\u00e1 a ser estudada, que \u00e9 o neurotropismo do v\u00edrus (SARS-Cov-2). O v\u00edrus em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s c\u00e9lulas cerebrais tem um determinado tipo de contacto em algumas pessoas, e isso podia justificar alguma patologia, at\u00e9 alguns quadros de dem\u00eancia, que tamb\u00e9m se agravaram. Isto \u00e9 o que os Estudos dizem&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E isso em consequ\u00eancia direta do pr\u00f3prio v\u00edrus?<\/em><\/p>\n<p>Da pr\u00f3pria doen\u00e7a e das suas consequ\u00eancias, tamb\u00e9m elas sociais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Houve um clima de medo, tamb\u00e9m&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Era a\u00ed que eu queria chegar. No fundo o que \u00e9 que a pandemia trouxe? As pessoas dizem &#8216;estamos todos no mesmo barco&#8217;. N\u00e3o \u00e9 verdade. Estamos todos na mesma tempestade, mas o barco e os remos s\u00e3o diferentes. A tempestade para a humanidade foi igual, mas apanhou pessoas em barcos diferentes, por situa\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas, laborais e familiares diferentes. E os remos tamb\u00e9m, porque h\u00e1 pessoas que t\u00eam mais compet\u00eancias de resili\u00eancia, outras menos. Portanto, a ideia \u00e9: perante uma mesma tempestade, como \u00e9 que em cada situa\u00e7\u00e3o n\u00f3s identificamos metaforicamente o barco em que as pessoas est\u00e3o, e como \u00e9 que refor\u00e7amos os remos daquelas pessoas para lidar com a pandemia. Porque tamb\u00e9m se sabe &#8211; nesse Estudo encontrou-se isso &#8211; que as pessoas mais resilientes estavam mais protegidas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s consequ\u00eancias da pandemia. Este fator de dar muscula\u00e7\u00e3o aos remos, \u00e0s compet\u00eancias das pessoas, \u00e9 importante.<\/p>\n<p>Eu costumo dizer que a pandemia atacou aquilo que eu chamo a m\u00e3o existencial estruturante. Se olharmos para os cinco dedos s\u00e3o: a subsist\u00eancia, as pessoas ficarem aflitas se v\u00e3o ter emprego, ou n\u00e3o; o outro dedo \u00e9 a seguran\u00e7a, se est\u00e3o seguras ou n\u00e3o, se est\u00e3o desconfiadas do outro, se v\u00e3o ficar contaminadas &#8211; o outro \u00e9 a perten\u00e7a, que \u00e9 um sentimento fundamental, o ser humano precisa de pertencer a algo e foi desla\u00e7ado dos contactos com os outros; o sentimento de reconhecimento: precisamos do olhar do outro para sermos confirmados, precisamos da rela\u00e7\u00e3o &#8211; &#8216;no princ\u00edpio era o Verbo&#8217;, diz a B\u00edblia, mas e Simone Weil diz &#8216;no princ\u00edpio era a rela\u00e7\u00e3o&#8217;, que \u00e9 a mesma coisa, o Verbo ou a rela\u00e7\u00e3o neste sentido \u00e9 a mesma coisa, fic\u00e1mos amputados destes aspetos; e o \u00faltimo dedo \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o, o ter um prop\u00f3sito, dar um sentido \u00e0 vida, o que \u00e9 que a vida nos pede?<\/p>\n<p>De repente, parece que isto foi abalado, e em coisas que s\u00e3o aparentemente iguais, mas com diferen\u00e7as: o medo, a ansiedade e a ang\u00fastia, parece tudo igual, mas n\u00e3o \u00e9. O medo \u00e9 uma resposta emocional e fisiol\u00f3gica a uma amea\u00e7a que \u00e9 real &#8211; pandemia -, ou percecionada. A ansiedade \u00e9 a apreens\u00e3o perante a antecipa\u00e7\u00e3o de uma amea\u00e7a futura \u2013 \u2018como \u00e9 que vai ser a minha vida? Estou em sobressalto, na minha empresa h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es para continuar a trabalhar?\u2019. \u00c9 esta viv\u00eancia ansiosa. E a ang\u00fastia \u00e9 uma coisa mais profunda, mais existencial, parece que fica abalado o sentido de vida: \u2018ser\u00e1 que os meus pais v\u00e3o morrer? Qual \u00e9 o sentido e o prop\u00f3sito no meio deste sofrimento?\u2019. Portanto, a ang\u00fastia vem de dentro, \u00e9 nuclear, atinge a nossa forma de pensar e de agir, mas \u00e9 de dentro, mexe no sentido e no prop\u00f3sito. A pandemia ativou medos, ansiedades e ang\u00fastias.<\/p>\n<p>Quando me perguntou, e eu respondi pelos Estudos, mas tamb\u00e9m posso responder pela perce\u00e7\u00e3o pessoal, de consult\u00f3rio&#8230; realmente \u00edamos vendo estas situa\u00e7\u00f5es, \u00e0s vezes traduzidas nas patologias das nossas \u00e1reas. Por exemplo, uma pessoa como uma POC, uma Perturba\u00e7\u00e3o Obsessiva Compulsiva, ficou com os rituais mais acentuados&#8230;<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Por causa da desinfe\u00e7\u00e3o e da higiene?<\/em><\/p>\n<p>Nalgumas coisas foi um desespero que subiu, exponenciou, ficou ca\u00f3tico. As pessoas que tinham um temperamento mais desconfiado ficaram muito paranoides, &#8216;ser\u00e1 que ele est\u00e1 desinfetado?&#8217;. Isto vai ser um desafio para o futuro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falamos de problemas novos, alguns at\u00e9 neurol\u00f3gicos, que est\u00e3o ainda a ser estudados, consequ\u00eancias diretas da doen\u00e7a, mas tamb\u00e9m houve um agravamento de situa\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias, que j\u00e1 existiam? E v\u00e3o deixar marcas no futuro?<\/em><\/p>\n<p>Houve um agravamento de situa\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias. E at\u00e9 em termos psicossociol\u00f3gicos e culturais temos um desafio.<\/p>\n<p>A pandemia fez uma coisa, puxou pelo melhor e pelo pior do ser humano, trouxe as coisas da nobreza de car\u00e1ter, mas tamb\u00e9m da mesquinhez de car\u00e1ter. E \u00e0s vezes perguntam &#8216;mas isto vai mudar as pessoas?&#8217;. O ser humano repete muitas coisas, ciclicamente volta ao mesmo. E quando est\u00e1 amea\u00e7ado na sua sobreviv\u00eancia \u00e9 muito c\u00e9rebro prim\u00e1rio, o c\u00e9rebro mais b\u00e1sico, mais reptiliano, tenta acionar mecanismos de sobreviv\u00eancia. Quando passar, ser\u00e1 que vamos melhorar eticamente? Provavelmente vamos repetir as mesmas coisas. Melhor\u00e1mos tecnicamente, porque o ser humano caiu numa asneira, que tamb\u00e9m me fez pensar muito, e que \u00e9: o ser humano est\u00e1 muito sofisticado, t\u00e9cnica e cientificamente. Estamos sofisticad\u00edssimos, mas de t\u00e3o sofisticados que estamos, desaprendemos a lidar humildemente com o imprevis\u00edvel, com o incontrol\u00e1vel. Porque h\u00e1 centenas de anos o ser humano tinha de lidar com o incontrol\u00e1vel e o imprevis\u00edvel.<\/p>\n<p>Eu digo muitas vezes que a inseguran\u00e7a \u00e9 a m\u00e3e da ansiedade e a falta de controle \u00e9 o pai. N\u00f3s fomos remetidos por uma inseguran\u00e7a e por uma falta de controle que fez o ser humano nesse momento descer \u00e0 terra, dizer &#8216;est\u00e1s muito sofisticado, mas n\u00e3o h\u00e1 assim tantas certezas\u2019. At\u00e9 a pr\u00f3pria ci\u00eancia convive e evolui, e fic\u00e1mos zangados porque a ci\u00eancia \u00e0s vezes diz umas coisas&#8230; mas, a ci\u00eancia desenvolve-se assim, a certeza \u00e9 s\u00f3 para aquele momento, para o momento a seguir pode n\u00e3o ser.<\/p>\n<p>O ser humano foi abalado no porta-avi\u00f5es da sua exist\u00eancia, se quiser. Mas, as pessoas que se colocam de determinada maneira, v\u00e3o-se colocar \u00e0 mesma de determinada maneira. De facto, evolu\u00edmos tecnicamente, fizemos aparecer uma vacina num tempo que n\u00e3o existe, mas depois, \u00e9tica ou moralmente, daqui a 20 anos vamos olhar para tr\u00e1s&#8230; porque repare: a gripe espanhola matou tantos milh\u00f5es, e a seguir veio a II Guerra Mundial&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_218685\" aria-describedby=\"caption-attachment-218685\" style=\"width: 347px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0536.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-218685\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0536-347x260.jpg\" alt=\"\" width=\"347\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0536-347x260.jpg 347w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0536-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0536-768x576.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0536-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0536-510x382.jpg 510w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0536-1080x810.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0536-1280x960.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0536-980x735.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0536-480x360.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0536.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 347px) 100vw, 347px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-218685\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR\/Sofia Moreira<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Para os mais velhos houve outros per\u00edodos da hist\u00f3ria dif\u00edceis, com problemas que tiveram de ultrapassar. Para os mais novos isto foi uma situa\u00e7\u00e3o nova. As crian\u00e7as e os jovens foram muito afetados? Um relat\u00f3rio divulgado por estes dias pela UNICEF diz que um em cada sete jovens entre os 10 e os 19 anos vive com um dist\u00farbio mental diagnosticado. A pandemia trouxe muitos problemas que se v\u00e3o manter?<\/em><\/p>\n<p>O jovem tamb\u00e9m \u00e9 pl\u00e1stico, agora que trouxe, trouxe. O jovem que \u00e9 por natureza desconfinado, foi obrigado a confinar. Tamb\u00e9m vimos jovens em que o esp\u00edrito solid\u00e1rio e comunit\u00e1rio foi ativado, e isso \u00e9 muito interessante, porque a vida tem estas dial\u00e9ticas. Mas, tamb\u00e9m vimos as consequ\u00eancias de ficarem desprovidos daquilo que \u00e9 o contacto.<\/p>\n<p>\u00c9 muito interessante porque os jovens, que s\u00e3o desta era digital, vimos em entrevistas que estavam desertinhos para voltar \u00e0 escola, ao contacto f\u00edsico. A presen\u00e7a f\u00edsica, esta combina\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria entra o virtual e o real&#8230; eu como costumo dizer que a vida \u00e9 anal\u00f3gica e digital, n\u00e3o vale a pena ter fantasias, na minha perspetiva &#8211; se um dia for s\u00f3 digital, n\u00e3o quero estar c\u00e1 para ver! -, agora, sei que ela tem de ser digital, mas n\u00e3o pode deixar de ser anal\u00f3gica, n\u00e3o pode deixar de ter a presen\u00e7a f\u00edsica, de ter a comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o-verbal, porque \u00e9 estruturante para o jovem.<\/p>\n<p>Vamos pegar num conceito importante, que muitas vezes as redes sociais desvirtuam, que \u00e9 a capacidade emp\u00e1tica de ler e sentir o sofrimento do outro. Para eu sentir isso, tenho de ter uma comunica\u00e7\u00e3o sensorial total, n\u00e3o pode ser s\u00f3 comunica\u00e7\u00e3o virtual, por isso \u00e9 que o jovem n\u00e3o se importa de andar a matar a torto e a direito em jogos virtuais, porque n\u00e3o v\u00ea as consequ\u00eancias das mortes. A perce\u00e7\u00e3o de que aquilo provoca um sofrimento precisa daquilo que \u00e9 a presen\u00e7a real, precisa da comunica\u00e7\u00e3o, da linguagem n\u00e3o verbal. Como \u00e9 que eu leio os olhos do outro, como \u00e9 que leio as express\u00f5es? Como \u00e9 que percebo se ele est\u00e1 a sofrer, se est\u00e1 a ser c\u00ednico ou fingido? Se eu n\u00e3o tenho isto, eu n\u00e3o aprendo isso. At\u00e9 por uma raz\u00e3o neurobiol\u00f3gica, porque a nossa empatia decorre dos nossos neur\u00f3nios espelho, que espelham o sofrimento do outro. Por isso \u00e9 que quando eu vejo uma pessoa agastada a transportar um objeto \u00e0s costas, de repente olho para mim e parece que estou eu agastado, porque respondo, mas \u00e9 porque estou a ver em comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o verbal, e n\u00e3o s\u00f3 na verbal.<\/p>\n<p>O jovem ao ser amputado disso e ficar condicionado &#8211; n\u00e3o s\u00f3 naquilo que \u00e9 o desejo natural, porque est\u00e1 numa fase da sua vida em que corre riscos &#8211; teve de se lhe ensinar a ter cuidado com os riscos. &#8216;Cuidado com os riscos dos teus, como \u00e9 que proteges os teus?&#8217;. E a falta da rela\u00e7\u00e3o de uns com os outros&#8230; Obviamente, todas as rela\u00e7\u00f5es t\u00eam coisas boas e coisas m\u00e1s, mas \u00e9 para isso que elas existem, para a pessoa aprender a crescer e a amadurecer dentro de um espectro relacional. Se somos amputados disso, \u00e9 evidente que as ang\u00fastias t\u00eam proje\u00e7\u00e3o no futuro do jovem. \u2018Qual vai ser o meu futuro? Vou casar, ter filhos, ter um emprego?\u2019.<\/p>\n<p>Claro que h\u00e1 jovens mais angustiados do que outros, e isto apanha de forma diferente idades diferentes, crian\u00e7as apanha de uma maneira, adolescentes e jovens do ensino universit\u00e1rio de outra. Porque h\u00e1 todo um ritual que \u00e9 estruturante dos adolescentes nas escolas, onde se passa muito tempo, que deixou de existir. E o ser humano \u00e9 um ser simb\u00f3lico, \u00e9 o \u00fanico ser que precisa de hist\u00f3rias para se narrar a si pr\u00f3prio, dar significado \u00e0 vida, simbolismo. De repente n\u00e3o h\u00e1 simbolismo, h\u00e1 o risco de vazio, com tudo o que isso representa de consequ\u00eancias.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Muitos jovens precisariam de ajuda. Nas escolas n\u00e3o h\u00e1 essa ajuda\u2026<\/em><\/p>\n<p>As escolas num mundo ideal deviam ser outras, devia haver a oportunidade, que n\u00e3o h\u00e1, at\u00e9 porque as escolas est\u00e3o assoberbadas de coisas burocr\u00e1ticas a mais&#8230; Agora junte isso a uma pandemia, em que as pessoas tiveram que adaptar o ensino \u00e0 dist\u00e2ncia, mas \u00e0s vezes o ensino \u00e0 dist\u00e2ncia foi distanciar as pessoas do ensino, da capacidade de aprender. E fizeram um grande esfor\u00e7o, n\u00e3o \u00e9 isso que est\u00e1 em causa. Mas, de facto, nas escolas, agora no p\u00f3s-pandemia, devia haver uma aten\u00e7\u00e3o serena, n\u00e3o uma aten\u00e7\u00e3o desesperada, porque n\u00e3o temos de psiquiatrizar tudo na vida, mas tamb\u00e9m n\u00e3o devemos fazer o contr\u00e1rio. N\u00e3o devemos por para debaixo do tapete coisas a que devemos estar atentos para atuar preventivamente.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Mas h\u00e1 experi\u00eancia e capacidade dessa interven\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria em Portugal?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 muita. Quando se fala de servi\u00e7os de psiquiatria e de sa\u00fade mental, ainda temos um problema grande em Portugal que \u00e9 o problema da acessibilidade e da rapidez da resposta. N\u00f3s temos \u2018n\u2019 pessoas com perturba\u00e7\u00f5es &#8211; e n\u00e3o estou s\u00f3 a falar de jovens &#8211; que n\u00e3o tiveram a primeira consulta de forma atempada.<\/p>\n<p>Portugal tem um problema de acessibilidade. Claro que v\u00eam a\u00ed os 85 milh\u00f5es de euros do Plano de Recupera\u00e7\u00e3o e Resili\u00eancia (PRR) para a Psiquiatria e Sa\u00fade Mental. Vamos ver como \u00e9 que s\u00e3o arrumados, como \u00e9 que isto melhora os servi\u00e7os, se \u00e9 para criar mais lugares nos servi\u00e7os, mais cuidados continuados em sa\u00fade mental, mais equipas de sa\u00fade mental comunit\u00e1ria, para se ficar mais pr\u00f3ximo&#8230;<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Para evitar a chamada porta-girat\u00f3ria?<\/em><\/p>\n<p>Exatamente, para evitar a institucionaliza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. E, puxando a brasa \u00e0 minha sardinha, porque sou diretor cl\u00ednico de uma institui\u00e7\u00e3o de uma ordem religiosa, a Casa de Sa\u00fade do Telhal, n\u00f3s e as Irm\u00e3s Hospitaleiras do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus, \u00e9 preciso ter esta perce\u00e7\u00e3o: temos 4500 lugares de pessoas internadas para 3500 colaboradores, no continente e ilhas. \u00c9 uma dimens\u00e3o muito importante em Portugal.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Corresponde entre 60% a 70% da oferta?<\/em><\/p>\n<p>Para a\u00ed, sim. Com uma voca\u00e7\u00e3o sempre ligada aquilo que \u00e9 tentar fazer o melhor, muitas vezes com menos recursos. E quando digo menos recursos, muitas vezes n\u00e3o s\u00e3o o que n\u00f3s quer\u00edamos, porque precis\u00e1vamos de mais, mas o financiamento \u00e9 curto\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para se ter uma ideia, o que o Estado nos paga s\u00e3o 42 euros de di\u00e1ria, mas num hospital psiqui\u00e1trico do Estado, os doentes de superior complexidade s\u00e3o pagos a 75 euros. S\u00f3 que os doentes de superior complexidade, os chamados doentes dif\u00edceis, muitas vezes s\u00e3o encaminhados para n\u00f3s, porque n\u00e3o t\u00eam lugar nos servi\u00e7os dos hospitais gerais. N\u00e3o h\u00e1 problema que assim seja, desde que fique formalizado, com regras, que \u00e9 assim e \u00e9 financiado com conformidade.<\/p>\n<p>O acordo que nos rege \u2013 a n\u00f3s, Instituto S. Jo\u00e3o de Deus, e \u00e0s irm\u00e3s &#8211; \u00e9 de 1983, neste momento est\u00e1 em revis\u00e3o com um grupo de trabalho, de que eu fa\u00e7o parte, com a ACSS (Administra\u00e7\u00e3o Central do Sistema de Sa\u00fade), o diretor do Programa Nacional da Sa\u00fade Mental, o professor Miguel Xavier. O que se pagava em 1983 em Sa\u00fade Mental n\u00e3o \u00e9 nada do que se precisa agora em Sa\u00fade Mental.<\/p>\n<p>H\u00e1 que haver um reconhecimento formal, o Estado assumir a necessidade que tem destas institui\u00e7\u00f5es, definir qual \u00e9 a necessidade, e em fun\u00e7\u00e3o dessa necessidade pagar aquilo que \u00e9 natural e leg\u00edtimo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_218684\" aria-describedby=\"caption-attachment-218684\" style=\"width: 347px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0558.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-218684\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0558-347x260.jpg\" alt=\"\" width=\"347\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0558-347x260.jpg 347w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0558-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0558-768x576.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0558-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0558-510x382.jpg 510w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0558-1080x810.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0558-1280x960.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0558-980x735.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0558-480x360.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AE8A0558.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 347px) 100vw, 347px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-218684\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR\/Sofia Moreira<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Essa revis\u00e3o est\u00e1 a ser feita agora?<\/em><\/p>\n<p>Est\u00e1. Est\u00e3o a acontecer reuni\u00f5es de trabalho para a revis\u00e3o do acordo.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Para al\u00e9m depois do investimento que est\u00e1 previsto ao n\u00edvel do PRR?<\/em><\/p>\n<p>Est\u00e3o previstos 85 milh\u00f5es para a Sa\u00fade Mental como um todo no pa\u00eds.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Estamos a falar de internamentos e solu\u00e7\u00f5es de n\u00e3o internamento. Quais seriam as prioridades para que a Sa\u00fade Mental seja efetivamente mais pr\u00f3xima?<\/em><\/p>\n<p>V\u00e1rias coisas. Uma \u00e9: de facto, ainda h\u00e1 hospitais gerais que ainda n\u00e3o t\u00eam servi\u00e7os de psiquiatria. T\u00eam de ter. At\u00e9 para se desmontar o estigma, n\u00e3o \u00e9 preciso por os doentes isolados.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Isso tamb\u00e9m ajuda, porque h\u00e1 ainda uma grande carga negativa?<\/em><\/p>\n<p>Sim, com certeza. A parte do estigma ainda acompanha a sa\u00fade mental, menos do que h\u00e1 30 ou 40 anos atr\u00e1s, mas ainda acompanha. Desmontar o estigma significa criar servi\u00e7os integrados noutros, mas sabendo e assumindo que h\u00e1 determinadas patologias, ou determinadas pessoas com essas patologias, que pelo grau de gravidade e complexidade podem n\u00e3o estar em condi\u00e7\u00f5es para estar numa cama de um servi\u00e7o de psiquiatria de um hospital geral. Mas t\u00eam o mesmo direito que as outras pessoas.<\/p>\n<p>A psiquiatria tem muitos vi\u00e9s ideol\u00f3gicos, mas costumo dizer que a ideologia n\u00e3o se deve impor \u00e0 realidade. O que \u00e9 que existe de necessidade para atender? Se existem pessoas com defici\u00eancias e com altera\u00e7\u00f5es de comportamentais graves, e enquanto eram jovens tinham as CERCIS para responder, cresceram para adultos e deixaram de ter essas respostas, e os pais est\u00e3o a envelhecer e ficam aflitos. T\u00eam de ter resposta!<\/p>\n<p>E \u00e0s vezes h\u00e1 altera\u00e7\u00f5es comportamentais que podem ser graves. Pode-se dizer que a propor\u00e7\u00e3o dessas pessoas em rela\u00e7\u00e3o ao total \u00e9 menor. Claro que \u00e9 menor, mas impacta mais, em termos da qualidade assistencial e dos recursos. Portanto, \u00e9\u00a0 preciso que existam mais servi\u00e7os para que a acessibilidade melhore, a proximidade, a continuidade de cuidados. \u00c9 preciso que os planos regionais de dem\u00eancias sejam acionados, porque est\u00e3o previstos em legisla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As dem\u00eancias s\u00e3o uma situa\u00e7\u00e3o marcante em Portugal, em termos de necessidades de respostas, onde os Institutos est\u00e3o a entrar porque querem.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>At\u00e9 porque a popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 a envelhecer&#8230;<\/em><\/p>\n<p>A esperan\u00e7a da m\u00e9dia de vida aumenta, portanto, o n\u00famero de dem\u00eancias aumenta, e isso \u00e9 um peso em termos do apoio ao cuidador informal. \u00c9 uma sobrecarga enorme, porque quando h\u00e1 uma pessoa com esta doen\u00e7a, h\u00e1 um sistema que est\u00e1 doente, porque est\u00e1 sobrecarregado, est\u00e1 pesado. Temos de ter um olhar para o sistema e n\u00e3o descartar.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes a psiquiatria tem isto, \u00e0 custa de vi\u00e9s&#8230; mas, n\u00e3o pode haver doentes gourmet, ou seja, n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 os doentes com ansiedade e depress\u00e3o, as chamadas doen\u00e7as mentais comuns, s\u00e3o tamb\u00e9m as doen\u00e7as mentais graves, que \u00e9 para n\u00e3o haver dois tipos de estigma, o estigma em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 depress\u00e3o, porque se diz \u2018olha, \u00e9 fraco\u2019. N\u00e3o, a depress\u00e3o \u00e9 uma doen\u00e7a, \u00e9 para se tratar.<\/p>\n<p>H\u00e1 um indicador de sa\u00fade muito importante que se chama a carga global de doen\u00e7a, que \u00e9 a combina\u00e7\u00e3o entre a morte prematura e aquilo que \u00e9 a doen\u00e7a ou a incapacidade de resultar de uma doen\u00e7a. E \u00e9 preciso ter esta perce\u00e7\u00e3o: em 2030 a depress\u00e3o ser\u00e1 o maior respons\u00e1vel pela carga global de doen\u00e7a. Agora em Portugal a maior carga \u00e9 das doen\u00e7as vasculares, e logo a seguir as doen\u00e7as mentais. N\u00f3s n\u00e3o podemos andar a dizer isto \u00e0 boca cheia e depois n\u00e3o criar servi\u00e7os que respondam a estas realidades. E como eu dizia: n\u00e3o pode haver estigma de primeira e de segunda, tudo \u00e9 estigma.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Falou em 2030. Oito anos passam num instante\u2026<\/em><\/p>\n<p>Passam num instante, e dizendo que j\u00e1 no presente estamos a falar das doen\u00e7as mentais como a segunda carga global de doen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, os n\u00fameros impactam \u2026Temos de ter a no\u00e7\u00e3o que estamos a falar de 800 mil a um milh\u00e3o de suic\u00eddios no mundo. Estamos a falar 700 mil deprimidos em Portugal, de 165 milh\u00f5es de pessoas que todos anos adoecem com perturba\u00e7\u00f5es mentais na Europa. \u00c9 preciso ter a no\u00e7\u00e3o do que estamos a falar. S\u00f3 que como a Psiquiatria e a doen\u00e7a mental foi sempre o parente pobre&#8230; at\u00e9 porque, muitas vezes, nos inquieta, e para os decisores \u00e9 mais f\u00e1cil a press\u00e3o das doen\u00e7as oncol\u00f3gicas ou cardiovasculares, do que a das fam\u00edlias com pessoas com doen\u00e7a mental, que \u00e0s vezes j\u00e1 est\u00e3o t\u00e3o cansadas que se associam pouco, t\u00eam pouco poder reivindicativo. E devem ter, porque o sofrimento \u00e9 grande e o peso \u00e9 grande.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Ainda h\u00e1, de facto, muito estigma em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 doen\u00e7a mental?<\/em><\/p>\n<p>Ainda h\u00e1, porque historicamente at\u00e9 a palavra \u2018estigma\u2019 \u00e9 pesada, vem do grego, era uma marca que se punha nos escravos e nas pessoas que faziam mal. Mas, ainda h\u00e1 estigma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E isso afasta as pessoas do tratamento?<\/em><\/p>\n<p>\u00c0s vezes afasta. Uma raz\u00e3o para as pessoas n\u00e3o irem ao tratamento \u00e9 porque n\u00e3o t\u00eam os servi\u00e7os acess\u00edveis, outra \u00e9 porque, \u00e0s vezes, em determinados s\u00edtios, ou por vergonha, ou por culpa, podem adiar a ida aos servi\u00e7os. Isso empobrece o progn\u00f3stico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Estamos na reta final da conversa. H\u00e1 alguma que queira dizer a quem nos esteja a ouvir e sinta que precisa de ajuda?<\/em><\/p>\n<p>As pessoas t\u00eam de uma vez por todas perceber que n\u00e3o s\u00e3o culpadas por ter uma doen\u00e7a mental, nem t\u00eam de ter vergonha por ter uma doen\u00e7a mental, nem deixar que os outros lhes digam coisas parvas como: \u2018est\u00e1s deprimido? V\u00e1, deixa-te l\u00e1 disso, vai mas \u00e9 ao cinema\u2019. N\u00e3o, isso era o que a pessoa queria fazer, mas n\u00e3o \u00e9 capaz!<\/p>\n<p>Todos n\u00f3s somos respons\u00e1veis e isto que estamos a fazer tamb\u00e9m conta. \u00c9 literacia em sa\u00fade mental. Porque os \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o social n\u00e3o podem s\u00f3 aparecer quando de repente algu\u00e9m mata algu\u00e9m, como se o doente mental fosse mais perigoso do que outras pessoas. N\u00e3o \u00e9, estatisticamente, s\u00f3 que \u00e9 focado quando \u00e9 not\u00edcia. Algum cuidado nisso. A comunica\u00e7\u00e3o social tem esta import\u00e2ncia de ser pedag\u00f3gica e contribuir para a literacia em sa\u00fade mental.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E o Dia Mundial da Sa\u00fade Mental tamb\u00e9m serve de mote para isso mesmo\u2026<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. \u00c0s vezes desvalorizamos os dias, mas eles t\u00eam essa import\u00e2ncia, porque metem na agenda. \u00c9 uma forma de falar das coisas, e ainda bem que temos esta oportunidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desinvestimento p\u00fablico na \u00e1rea deixou sem prote\u00e7\u00e3o muitos doentes, diz o diretor cl\u00ednico da Casa de Sa\u00fade do Telhal. Para V\u00edtor Cotovio \u00e9 preciso que o Estado pague \u00e0s institui\u00e7\u00f5es o que \u00e9 justo pela resposta que asseguram. Acordo que existe tem quase 40 anos, e s\u00f3 agora vai ser revisto<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":218683,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[277],"class_list":["post-218682","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-pastoral-da-saude"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/218682","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=218682"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/218682\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/218683"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=218682"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=218682"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=218682"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}