{"id":21863,"date":"2006-12-26T12:50:35","date_gmt":"2006-12-26T12:50:35","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/12\/26\/o-verbo-fez-se-carne-e-habitou-no-meio-de-nos\/"},"modified":"2006-12-26T12:50:35","modified_gmt":"2006-12-26T12:50:35","slug":"o-verbo-fez-se-carne-e-habitou-no-meio-de-nos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-verbo-fez-se-carne-e-habitou-no-meio-de-nos\/","title":{"rendered":"\u00abO Verbo fez-se carne e habitou no meio de n\u00f3s\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Homilia de Natal do Administrador Apost\u00f3lico do Porto <!--more--> \u00c9 grave e importante o acontecimento que celebramos hoje. T\u00e3o grave e t\u00e3o importante que muitos dos que se cruzaram nestes dias nas ruas de cidades e aldeias passaram-lhe ao lado. E talvez n\u00f3s pr\u00f3prios n\u00e3o tenhamos acordado para a gravidade do mist\u00e9rio que nos envolve. Precisamos de parar, meditar e rezar\u2026  H\u00e1 dois movimentos nos relatos b\u00edblicos do Natal: um mais ascendente, que se concretiza em S. Lucas. O evangelista det\u00e9m-se especialmente no relato hist\u00f3rico e em pormenores que mostram que Jesus, pobre, nascido no seio de uma fam\u00edlia humilde, moradora num canto esquecido do imp\u00e9rio romano, realiza as promessas do Antigo Testamento: este Jesus \u00e9 o Messias, Filho de Deus.   Outro movimento, descendente, concretiza-se em S. Jo\u00e3o e diz que o Verbo eterno de Deus, pelo qual foi feita a primeira cria\u00e7\u00e3o, encarnou no tempo na Pessoa de Jesus de Nazar\u00e9, para fazer uma nova cria\u00e7\u00e3o: a reden\u00e7\u00e3o do homem deca\u00eddo pelo pecado original. O Pref\u00e1cio do Evangelho de S. Jo\u00e3o, que acab\u00e1mos de ouvir, \u00e9 o resumo dessa teologia da Encarna\u00e7\u00e3o.  No princ\u00edpio era o Verbo. O Verbo era Deus. Tudo foi feito por meio dele. E o Verbo fez-se carne e morou entre n\u00f3s. A todos que O receberam deu o poder de se tornarem filhos de Deus.  O Verbo fez-se carne.  S. Jo\u00e3o teve tempo para reflectir a f\u00e9 das comunidades primitivas. E deixou-nos este testemunho magn\u00edfico de quem viu e conviveu com o Verbo da Vida. Acreditou n\u2019Ele com muitos outros e escreveu que o Filho unig\u00e9nito que estava no seio do Pai veio ao que era seu e deu a conhecer o Deus que jamais algu\u00e9m viu.  O Verbo \u00e9 a Palavra de Deus. O Logos, a raz\u00e3o primordial, a Palavra criadora, pode parecer um ser insens\u00edvel, distante, pura raz\u00e3o. Mas o Logos \u00e9 um AMANTE com toda a paix\u00e3o. Ele veio revelar-nos que Deus n\u00e3o \u00e9 um ser insens\u00edvel, mas o amor apaixonado pelo homem. Cristo \u00e9 o Amor encarnado do Pai. A figura de Cristo d\u00e1 carne e sangue aos conceitos. \u00c9 o pr\u00f3prio Deus que vem ao encontro da ovelha perdida, da humanidade sofredora e transviada. E assim se revela o que \u00e9 o ponto fundamental de toda a Revela\u00e7\u00e3o do Novo Testamento: Deus \u00e9 Amor (cf. Enc\u00edclica de Bento XVI, n.\u00ba 12).   E o Amor de Deus fez-se carne.   \u00c9 aqui que reside a diferen\u00e7a entre a f\u00e9 crist\u00e3 e as outras religi\u00f5es monote\u00edstas ou n\u00e3o. Acreditamos num s\u00f3 Deus, como os Hebreus e os Mu\u00e7ulmanos. Mas o Deus crist\u00e3o \u00e9 amor em tr\u00eas Pessoas, a SS. Trindade.   Hebreus e Mu\u00e7ulmanos, como outros crentes de outras religi\u00f5es, t\u00eam f\u00e9 num Deus transcendente. Mas est\u00e3o longe de acreditar que Ele tenha encarnado. Ali\u00e1s, temos de confessar que era muito dif\u00edcil para um judeu admitir a Encarna\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso ter-se vivido o itiner\u00e1rio espiritual de um S. Paulo, para se medir a enorme dificuldade que representa para um judeu ortodoxo o mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o\u2026 Se os companheiros de Jesus acabaram por acreditar que Ele era Deus e era o Filho de Deus, \u00e9 porque Ele lho tinha dito com for\u00e7a suficiente para convencer cabe\u00e7as duras e lho tinha provado, sobretudo depois da Ressurrei\u00e7\u00e3o (O Deus de Jesus, p\u00e1g. 18)  Os crist\u00e3os afirmam com S. Jo\u00e3o: O Verbo era Deus. E o Verbo fez-se carne e habitou entre n\u00f3s. Por amor do homem, o Filho veio ao que era seu, para que os seus O recebessem.   Esta lei da Encarna\u00e7\u00e3o deve inspirar toda a nossa pastoral.   \u00c9 uma atitude primordial do Pastor. E inspira o homem e a mulher de f\u00e9. Cristo, sendo rico, fez-se pobre. Sendo transcendente, desceu do seu trono de gl\u00f3ria e veio ao seio do povo. Ressoam aos nossos ouvidos as palavras do \u00caxodo: Ouvi os gritos do meu povo e desci para o libertar. Precisamos de descer dos nossos pal\u00e1cios de interiores, dos tronos da nossa import\u00e2ncia e ir ao encontro da ovelha perdida e regressar a cantar, para ir dizer aos vizinhos e amigos: \u201cEncontrei a ovelha tresmalhada!\u201d  N\u00e3o podemos remeter-nos ao templo e ao adro das igrejas. Passada a cristandade sociol\u00f3gica, torna-se necess\u00e1rio descer \u00e0 rua e ir ao encontro dos homens onde eles est\u00e3o, ir sobretudo \u00e0 procura dos que gritam justi\u00e7a ou sofrem, no segredo, as pobrezas deste tempo. Recordo as palavras de Bento XVI, quando ainda era apenas um te\u00f3logo de renome: Talvez tenhamos de nos despedir das ideias de uma Igreja de massas. Estamos possivelmente perante uma \u00e9poca diferente e nova da hist\u00f3ria. Nela o cristianismo voltar\u00e1 a estar sob o signo do gr\u00e3o de mostarda, em pequenos grupos, aparentemente sem import\u00e2ncia, mas que vivem intensamente contra o Mal e que trazem o Bem para o mundo, que deixam Deus entrar\u2026 Existem (hoje) formas fortes de presen\u00e7a da f\u00e9 que voltam a dar \u00e2nimo, dinamismo e alegria \u00e0s pessoas\u2026 (O Sal da Terra, 1996).  Meditemos e guardemos: \u00e9 preciso despedir-nos de uma \u201cIgreja de massas\u201d; o cristianismo voltar\u00e1 a estar sob o signo do gr\u00e3o de mostarda; h\u00e1 grupos e formas fortes de presen\u00e7a da f\u00e9; \u00e9 preciso descer \u00e0 rua e ir ao encontro do homem vivo.  De muitas maneiras falou Deus outrora aos nossos Pais pelos profetas; nestes \u00faltimos dias falou-nos pelo se Filho (Hebreus 1,1-2).  \u00c9 como se dissera : O que antigamente disse Deus pelos profetas a nossos Pais, nestes dias falou-nos pelo Filho, tudo de uma vez. Quem agora quisesse consultar a Deus, ouviria certamente esta resposta: Se j\u00e1 te falei todas as coisas na minha Palavra que \u00e9 o meu Filho e n\u00e3o tenho outra, que te posso eu responder agora? P\u00f5e os olhos s\u00f3 n\u2019Ele, porque n\u2019Ele disse tudo. Este \u00e9 o meu Filho muito amado: Escutai-O!   Olha-O bem e n\u00e3o achar\u00e1s nada a pedir-me nem desejar\u00e1s revela\u00e7\u00f5es ou vis\u00f5es. Se quiseres que Eu te responda alguma palavra de consolo, olha para meu Filho. Se quiseres saber coisas ocultas, p\u00f5e n\u2019Ele os olhos. Segundo o meu Ap\u00f3stolo, est\u00e3o n\u2019Ele todos os tesouros de sabedoria e ci\u00eancia.   (S. Jo\u00e3o da Cruz, Obras Completas, p\u00e1ginas 196 a 198)  \u201cJesus\u201d quer dizer: \u201cDeus salva\u201d. Foi o nome que o Anjo, vindo da parte de Deus, indicou a Maria para que o desse ao seu Menino.  No Natal come\u00e7a, de facto, a salva\u00e7\u00e3o dos homens. \u00c9 bom e \u00fatil olhar bem este Salvador que aparece no meio de n\u00f3s na figura de uma crian\u00e7a, vulner\u00e1vel, fr\u00e1gil, desarmada.  \u00c9 f\u00e1cil abafar a crian\u00e7a. Esta sociedade de consumo, de esbanjamento na festa dos presentes e de luminosas decora\u00e7\u00f5es de cidades, vilas e aldeias, sufoca a crian\u00e7a, com o que lhe d\u00e1 e com o que lhe tira. H\u00e1 coisas interessantes no Natal: poesia, certo verniz de generosidade, um ar de emo\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 tudo passageiro. Bem cantam os poetas que \u201cnatal \u00e9 quando um homem quer\u201d. A dificuldade est\u00e1 em saber que \u201cnatal\u201d querem os homens.  O Deus Menino \u00e9 sufocado, porque muitas das nossas atitudes o impedem de crescer dentro de n\u00f3s e assim Ele fica crian\u00e7a toda a vida.   O crist\u00e3o tem de crescer com Jesus, em idade, sabedoria e gra\u00e7a, diante de Deus e diante dos homens.   O crist\u00e3o tem de ouvir a Palavra de Jesus adulto, a palavra que Ele nos deixou como alimento, na Escritura e na Eucaristia, porque a\u00ed a palavra transforma o P\u00e3o e o Vinho em alimento espiritual.  Vem a\u00ed um per\u00edodo de escolha da vida das crian\u00e7as por nascer. A vida \u00e9 o dom mais precioso que temos e ningu\u00e9m pode dispor da vida pr\u00f3pria, muito menos da vida alheia. O Mandamento que vem de h\u00e1 muitos s\u00e9culos diz: \u201cN\u00e3o matar\u00e1s!\u201d  Vamos acolher o Menino Jesus em nossos cora\u00e7\u00f5es e n\u2019Ele amar todas as crian\u00e7as, mesmo aquelas que n\u00e3o conhecem pai nem m\u00e3e. Estamos a regressar ao tempo dos \u201cexpostos\u201d, dos meninos da Roda dos Mosteiros da Idade M\u00e9dia. E tanto mal se tem dito da Idade M\u00e9dia!  A Maternidade de Maria come\u00e7ou com a Anuncia\u00e7\u00e3o, efectivou-se no dia em que deu \u00e0 luz o seu Filho primog\u00e9nito e prolonga-se pelo tempo fora. As m\u00e3es de hoje precisam de aten\u00e7\u00e3o, carinho e apoio em todas as situa\u00e7\u00f5es. Mais do que no \u201cdia mundial\u201d, o dia da M\u00e3e \u00e9 quando ela d\u00e1 \u00e0 luz um filho, o acarinha e educa pela vida fora.  Todas as \u201cinterrup\u00e7\u00f5es\u201d naturais ou provocadas s\u00e3o actos \u201cprematuros\u201d, imaturos, antes do tempo\u2026, s\u00e3o o fim de um processo que devia desaguar na vida.  \u00c9 dia de Natal. D\u00eamos \u00e0s crian\u00e7as o direito de nascer. D\u00eamos aos esposos o direito e o dever de fazerem surgir a vida. D\u00eamos ao Menino do Pres\u00e9pio o direito de entrar, com sua licen\u00e7a, no cora\u00e7\u00e3o dos homens desta gera\u00e7\u00e3o. D\u00eamos \u00e0s crian\u00e7as, jovens ou adultos, a possibilidade de crescerem em idade, sabedoria e gra\u00e7a diante de Deus e diante dos homens. E n\u00f3s todos colaboremos no nascimento e crescimento de um mundo melhor, isto \u00e9, segundo cora\u00e7\u00e3o de Deus.  Hoje, o caminho de Bel\u00e9m est\u00e1 obstru\u00eddo por detritos de orgulho, vaidade, ego\u00edsmo, indiferen\u00e7a e viol\u00eancia. H\u00e1 que limpar o caminho que conduz a Bel\u00e9m.  \u00c9 Natal! Prepara o ber\u00e7o, ou seja, prepara o teu cora\u00e7\u00e3o, porque l\u00e1 quer nascer Jesus. (cf. \u00c2ngelo Comastri, Prepara o ber\u00e7o: \u00c9 Natal, p\u00e1g. 5-6)    Catedral do Porto, 25 de Dezembro de 2006 <i>D. Jo\u00e3o Miranda, Administrador Apost\u00f3lico da Diocese do Porto<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia de Natal do Administrador Apost\u00f3lico do Porto<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[120,154,163,187,206,267],"class_list":["post-21863","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-bento-xvi","tag-crianca","tag-dia-da-mae","tag-diocese-do-porto","tag-familia","tag-natal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21863","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21863"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21863\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21863"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21863"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21863"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}