{"id":21859,"date":"2006-12-26T12:39:38","date_gmt":"2006-12-26T12:39:38","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/12\/26\/um-menino-nos-foi-dado\/"},"modified":"2006-12-26T12:39:38","modified_gmt":"2006-12-26T12:39:38","slug":"um-menino-nos-foi-dado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/um-menino-nos-foi-dado\/","title":{"rendered":"\u00abUm Menino nos foi dado\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Homilia do Papa na Noite de Natal <!--more--> Amados irm\u00e3os e irm\u00e3s!  Acabamos de ouvir no Evangelho a palavra que os Anjos, na Noite santa, disseram aos pastores e que agora a Igreja grita para n\u00f3s: \u00abNasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que \u00e9 o Messias Senhor. Isto vos servir\u00e1 de sinal: achareis um Menino envolto em panos e deitado numa manjedoura\u00bb (Lc 2,11ss). Nada de maravilhoso, nada de extraordin\u00e1rio, nada de magn\u00edfico \u00e9 dado como sinal aos pastores. Ver\u00e3o s\u00f3 um menino envolto em panos que, como todos os meninos, precisa dos cuidados maternos; um menino que nasceu num est\u00e1bulo e, por isso, n\u00e3o est\u00e1 deitado num ber\u00e7o, mas numa manjedoura. O sinal de Deus \u00e9 o menino carente de ajuda e pobre. Os pastores, somente com o cora\u00e7\u00e3o, poder\u00e3o ver que neste menino tornou-se realidade a promessa do profeta Isa\u00edas, que escutamos na primeira leitura: \u00abUm Menino nasceu para n\u00f3s, um filho nos foi concedido. Tem o poder sobre os ombros\u00bb (Is 9,5). A n\u00f3s tamb\u00e9m n\u00e3o e nos dado um sinal distinto. O anjo de Deus, mediante a mensagem do Evangelho, nos convida tamb\u00e9m a encaminhar-nos com o cora\u00e7\u00e3o para ver o menino que jaz na manjedoura.  O sinal de Deus \u00e9 a simplicidade. O sinal de Deus \u00e9 o menino. O sinal de Deus \u00e9 que Ele faz-se pequeno por n\u00f3s. Este \u00e9 o seu modo de reinar. Ele n\u00e3o vem com poder e grandiosidades externas. Ele vem como menino &#8211; inerme e necessitado da nossa ajuda. N\u00e3o nos quer dominar com a for\u00e7a. Tira-nos o medo da sua grandeza. Ele pede o nosso amor: por isto faz-se menino. Nada mais quer de n\u00f3s sen\u00e3o o nosso amor, mediante o qual aprendemos espontaneamente a entrar nos seus sentimentos, no seu pensamento e na sua vontade &#8211; aprendemos a viver com Ele e a praticar com Ele a humildade da ren\u00fancia que faz parte da ess\u00eancia do amor. Deus fez-se pequeno a fim de que n\u00f3s pud\u00e9ssemos compreend\u00ea-Lo, acolh\u00ea-Lo, am\u00e1-Lo. Os Padres da Igreja, na sua tradu\u00e7\u00e3o grega do Antigo Testamento, encontravam uma palavra do profeta Isa\u00edas que Paulo tamb\u00e9m cita para mostrar como os novos caminhos de Deus j\u00e1 fossem anunciados no Antigo Testamento. Assim se lia: \u00abDeus tornou breve a sua Palavra, Ele abreviou-a\u00bb (Is 10,23; Rom 9,28). Os Padres interpretavam num duplo sentido. O mesmo Filho \u00e9 a Palavra, o Logos; a Palavra eterna fez-se pequena &#8211; t\u00e3o pequena a ponto de caber numa manjedoura. Fez-se menino, para que a Palavra possa ser compreendida por n\u00f3s. Assim, Deus nos ensina a amar os pequeninos. Assim nos ensina a amar os fr\u00e1geis. Deste modo, nos ensina a respeitar as crian\u00e7as. O menino de Bel\u00e9m dirige o nosso olhar a todas as crian\u00e7as que sofrem e s\u00e3o abusadas no mundo, os nascidos como n\u00e3o nascidos. Dirige-o a crian\u00e7as que, como soldados, s\u00e3o introduzidas num mundo de viol\u00eancia; a crian\u00e7as que s\u00e3o obrigadas a mendigar; a crian\u00e7as que sofrem a mis\u00e9ria e a fome; a crian\u00e7as que n\u00e3o experimentam sequer amor. Nelas todas \u00e9 o menino de Bel\u00e9m que nos interpela; interpela-nos o Deus que se fez pequeno. Rezemos nesta noite, para que o esplendor do amor de Deus acaricie todos estas crian\u00e7as, e pe\u00e7amos-lhe que nos ajude a fazer o que podamos para que seja respeitada a dignidade das crian\u00e7as; para que desponte a luz do amor da qual mais precisa o homem, e n\u00e3o das coisas materiais necess\u00e1rias para viver.  Com isto chegamos ao segundo significado que os Padres encontraram na frase: \u00abEle abreviou-a\u00bb. A Palavra que Deus nos comunica nos livros da Sagrada Escritura, ao longo dos tempos, tornou-se extensa. Extensa e complicada n\u00e3o s\u00f3 para as pessoas simples e analfabetas, mas inclusive muito mais para os entendidos de Sagrada Escritura, para os doutos que, claramente, perdiam-se nas particularidades e nos respectivos problemas, sem quase conseguir mais encontrar uma vis\u00e3o de conjunto. Jesus \u00ababreviou\u00bb a Palavra &#8211; fez-nos rever a sua mais profunda simplicidade e unidade. Tudo aquilo que nos ensina a Lei e os profetas est\u00e1 resumido &#8211; Ele diz &#8211; na palavra: \u00abAmar\u00e1s ao Senhor, teu Deus, com todo o teu cora\u00e7\u00e3o, com toda a tua alma e com toda a tua mente [&#8230;] Amar\u00e1s a teu pr\u00f3ximo como a ti mesmo\u00bb (Mt 22,37-40). Est\u00e1 tudo a\u00ed &#8211; toda a f\u00e9 se resolve neste \u00fanico ato de amor que abra\u00e7a Deus e os homens. Logo a seguir, por\u00e9m, surgem as perguntas: como podemos amar Deus com toda a nossa mente, se nos custa encontr\u00e1-lo com a nossa capacidade metal? Como am\u00e1-Lo com todo o nosso cora\u00e7\u00e3o e a nossa alma, se este cora\u00e7\u00e3o consegue entrev\u00ea-Lo s\u00f3 de longe e contempla tantas coisas contradit\u00f3rias no mundo que velam o seu rosto diante de n\u00f3s? Neste ponto se encontram os dois modos com os quais Deus \u00ababreviou\u00bb a sua Palavra. Ele n\u00e3o est\u00e1 mais longe. N\u00e3o \u00e9 mais desconhecido. N\u00e3o \u00e9 inalcan\u00e7\u00e1vel para o nosso cora\u00e7\u00e3o. Fez-se menino por n\u00f3s e, com isto, dissolveu toda ambig\u00fcidade. Fez-se o nosso pr\u00f3ximo, restabelecendo tamb\u00e9m deste modo a imagem do homem que, com freq\u00fc\u00eancia, se nos revela t\u00e3o pouco am\u00e1vel. Deus, por n\u00f3s, fez-se dom. Doou-se a si pr\u00f3prio. Perde tempo conosco. Ele, o Eterno que supera o tempo, assumiu o tempo, atraiu a si pr\u00f3prio para o alto o nosso tempo. O Natal veio a ser a festa dos dons para imitar Deus que por n\u00f3s doou-se a si pr\u00f3prio. Deixemos que o nosso cora\u00e7\u00e3o, a nossa alma e a nossa mente fiquem tocados por este fato! Entre os in\u00fameros dons que compramos e recebemos n\u00e3o esque\u00e7amos o verdadeiro dom: de doarmos-nos mutuamente algo de n\u00f3s pr\u00f3prios! De doarmos-nos mutuamente o nosso tempo. De abrir o nosso tempo para Deus. Assim desvanece-se a agita\u00e7\u00e3o. Deste modo brota a alegria, assim se cria a festa. E lembremos nos banquetes festivos destes dias a palavra do Senhor: \u00abQuando deres um banquete, n\u00e3o convides os que, por sua vez, v\u00e3o retribuir-te, mas convida os que n\u00e3o s\u00e3o convidados por ningu\u00e9m e n\u00e3o poder\u00e3o convidar-te\u00bb (cf. Lc 14,12-14). Isto tamb\u00e9m significa precisamente: Quando deres um presente de Natal n\u00e3o o fa\u00e7as s\u00f3 aos que, por sua vez, te fazem presentes, mas f\u00e1-lo aos que n\u00e3o o recebem de ningu\u00e9m e que nada podem retribuir-te. Assim mesmo fez o Senhor: Ele nos convida ao seu banquete de bodas que n\u00e3o podemos retribuir, que s\u00f3 podemos receber com alegria. Imitemos-lo! Amemos a Deus e, por Ele, tamb\u00e9m ao homem, para depois redescobrir a Deus, a partir dos homens, de um novo modo!  Surge, enfim, ainda um terceiro significado da afirma\u00e7\u00e3o sobre a Palavra feita \u00abbreve\u00bb e \u00abpequena\u00bb. Aos pastores foi dito que teriam encontrado o menino numa manjedoura para animais, que eram os verdadeiros habitantes do est\u00e1bulo. Lendo Isa\u00edas (1,3) os Padres deduziram que junto \u00e0 manjedoura de Bel\u00e9m estavam um boi e um asno. Interpretaram assim o texto no sentido de que haveria um s\u00edmbolo dos judeus e dos pag\u00e3os &#8211; portanto, de toda a humanidade &#8211; que, uns e outros, necessitam, ao seu modo, de um salvador: daquele Deus que se fez menino. O homem, para viver, precisa de p\u00e3o, do fruto da terra e do seu trabalho. Mas n\u00e3o vive s\u00f3 de p\u00e3o. Precisa de alimento para a sua alma: precisa de um sentido que encha a sua vida. Por isto, segundo os Padres, a manjedoura dos animais veio a ser o s\u00edmbolo do altar, sobre o qual jaz o P\u00e3o que \u00e9 o mesmo Cristo: o verdadeiro alimento para os nossos cora\u00e7\u00f5es. Uma vez mais vemos como Ele se fez pequeno: na humilde apar\u00eancia da h\u00f3stia, de um pedacinho de p\u00e3o, Ele se nos doa si pr\u00f3prio.  De tudo isto nos diz o sinal que foi dado aos pastores e que nos vem dado: o menino nos foi dado; o menino no qual Deus se fez pequeno por n\u00f3s. Rezemos ao Senhor para que nos d\u00ea a gra\u00e7a de ver nesta noite o pres\u00e9pio com a simplicidade dos pastores, para receber assim a alegria com a qual eles voltam para casa (cf. Lc 2,20). Pe\u00e7amos que nos d\u00ea a humildade e a f\u00e9 com a qual S\u00e3o Jos\u00e9 contemplou o menino que Maria tinha concebido pelo Esp\u00edrito Santo. Pe\u00e7amos que nos ajude a v\u00ea-Lo com aquele amor com que Maria o contemplava. E, assim, pe\u00e7amos por que a luz que viram os pastores, tamb\u00e9m nos ilumine e que se cumpra em todo o mundo aquilo que os anjos cantaram naquela noite: \u00abGl\u00f3ria a Deus no mais alto dos c\u00e9us e paz na terra aos homens por Ele amados\u00bb. Amen.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia do Papa na Noite de Natal<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[295,154,267],"class_list":["post-21859","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-biblia","tag-crianca","tag-natal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21859","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21859"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21859\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21859"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21859"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21859"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}