{"id":21856,"date":"2006-12-25T00:18:24","date_gmt":"2006-12-25T00:18:24","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/12\/25\/mensagem-de-natal\/"},"modified":"2006-12-25T00:18:24","modified_gmt":"2006-12-25T00:18:24","slug":"mensagem-de-natal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/mensagem-de-natal\/","title":{"rendered":"Mensagem de Natal"},"content":{"rendered":"<p>MENSAGEM DE NATAL 2006  DE SUA EMIN\u00caNCIA REVEREND\u00cdSSIMA D. JOS\u00c9 DA CRUZ POLICARPO CARDEAL-PATRIARCA DE LISBOA  \u201cN\u00e3o havia lugar para eles\u201d  Senhores telespectadores e r\u00e1dio-ouvintes,   \t1. Na Liturgia desta noite l\u00ea-se a narra\u00e7\u00e3o do Nascimento de Jesus feita por S\u00e3o Lucas. Num determinado momento ele conta: Maria \u201cteve o seu Filho primog\u00e9nito. Envolveu-O em panos e deitou-O numa manjedoura, porque n\u00e3o havia lugar para eles na hospedaria\u201d (Lc. 2,7). N\u00e3o havia lugar para eles. O facto \u00e9 explicado pela circunst\u00e2ncia da grande aflu\u00eancia de pessoas a Bel\u00e9m por causa do recenseamento ordenado pelo Imperador Romano.  H\u00e1 sempre uma circunst\u00e2ncia para justificar a exclus\u00e3o. Mas fica clara a insensibilidade de uma cidade \u00e0 urg\u00eancia de acolher uma mulher gr\u00e1vida, prestes a dar \u00e0 luz. N\u00e3o \u00e9 por acaso que o Evangelista reteve este pormenor: n\u00e3o havia lugar para eles. Jesus, desde o Seu nascimento, partilha a sorte dos exclu\u00eddos, dos que n\u00e3o t\u00eam lugar. Mais tarde, quando as autoridades civis e religiosas O condenam \u00e0 morte, negando-Lhe um lugar no seio do Seu Povo, Jesus experimenta na carne que a exclus\u00e3o pode ser a express\u00e3o m\u00e1xima da injusti\u00e7a. E percebemos porque \u00e9 que, na Sua Palavra e nos Seus gestos, Ele se p\u00f5e, espontaneamente, do lado dos exclu\u00eddos, lutando por um lugar para eles, quanto mais n\u00e3o seja no cora\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m que os ame e reconhe\u00e7a a sua dignidade. No Seu caso, o lugar que Lhe fora negado em Bel\u00e9m, h\u00e1-de conquist\u00e1-lo oferecendo a Sua morte e vencendo-a na ressurrei\u00e7\u00e3o. O Seu lugar \u00e9 hoje um lugar central no cora\u00e7\u00e3o daqueles que acreditam n\u2019Ele, incontorn\u00e1vel para toda a humanidade.  \t2. Resolvi sublinhar este aspecto do Nascimento de Jesus nesta sauda\u00e7\u00e3o que vos estou a dirigir, em noite de Natal, quando h\u00e1 dias fui surpreendido pelo t\u00edtulo de primeira p\u00e1gina de um grande jornal di\u00e1rio: \u201cHot\u00e9is portugueses come\u00e7am a assumir op\u00e7\u00e3o de n\u00e3o aceitar crian\u00e7as\u201d. \tMais uma vez, noutra circunst\u00e2ncia concreta, n\u00e3o h\u00e1 lugar para as crian\u00e7as. Como em Bel\u00e9m, h\u00e1 certamente circunst\u00e2ncias econ\u00f3mico-sociais que justificam esta exclus\u00e3o: a comodidade dos outros utentes, a rentabilidade econ\u00f3mica do sector, etc. A exclus\u00e3o das crian\u00e7as continua a ser problema real na nossa sociedade. O n\u00famero de crian\u00e7as sem lugar na fam\u00edlia \u00e9 preocupante.  Estou a falar-vos da Casa do Gaiato do Tojal, institui\u00e7\u00e3o que a Igreja de Lisboa assumiu, recentemente, \u00e0 sua responsabilidade e que vem juntar-se a outras obras da Diocese, como a \u201cCasa M\u00e3e\u201d do Gradil e o \u201cInstituto da S\u00e3ozinha\u201d, na Abrigada, destinadas a serem a fam\u00edlia das crian\u00e7as sem fam\u00edlia. Outras institui\u00e7\u00f5es, como a \u201cAjuda de Ber\u00e7o\u201d, tamb\u00e9m elas apoiadas pela Igreja, procuram proporcionar um colo aos beb\u00e9s a quem ele foi recusado. E os filhos dos pais separados comprometidos num segundo casamento? Divididos e, por vezes, disputados entre os pais, essas crian\u00e7as sentem que n\u00e3o t\u00eam lugar no cora\u00e7\u00e3o dos pais e nas novas fam\u00edlias que eles constitu\u00edram. \tOs portugueses v\u00e3o ser consultados, em referendo, sobre a legaliza\u00e7\u00e3o do aborto, a pedido da mulher gr\u00e1vida. Sejam quais forem os motivos que justificam, aos olhos da mulher, essa atitude dram\u00e1tica, \u00e9 sempre negar um lugar a um ser humano que foi gerado, a quem a m\u00e3e, os pais e a sociedade negam um lugar para poder crescer. Em todos estes casos de crian\u00e7as exclu\u00eddas, pode dizer-se: n\u00e3o h\u00e1 lugar para eles.  \t3. E as pessoas idosas? Esse \u00e9 o seu drama. Muitos sentem que perderam o lugar, que est\u00e3o a mais. Os lares que os acolhem, e tamb\u00e9m a\u00ed falo com vasto conhecimento da realidade, procuram dar-lhe um lugar, mas n\u00e3o evitam a solid\u00e3o, n\u00e3o compensam o esquecimento, por melhores que sejam as condi\u00e7\u00f5es materiais e institucionais de que os rodeiam. Tamb\u00e9m a\u00ed h\u00e1 justifica\u00e7\u00e3o: o aumento da dura\u00e7\u00e3o da vida; a mulher no trabalho; a exiguidade da habita\u00e7\u00e3o; as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas. Mas a realidade \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 lugar para eles.  \t4. Outros grupos mereciam uma refer\u00eancia nesta noite. Penso nas pessoas portadores de defici\u00eancia e nos ex-reclusos. Marcados pelo estigma da defici\u00eancia ou do seu passado, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil encontrarem um lugar na sociedade, no trabalho, na fam\u00edlia. A aten\u00e7\u00e3o aos ex-reclusos \u00e9 urgente, pois se n\u00e3o se sentirem \u00fateis e integrados, podem regredir na delinqu\u00eancia. Sa\u00fado o \u201cCompanheiro\u201d, associa\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica de apoio \u00e0 reintegra\u00e7\u00e3o dos ex-reclusos e que tantas dificuldades tem encontrado nos \u00faltimos tempos.  5. Nos \u00faltimos meses t\u00eam sido abundantes as not\u00edcias de empresas que fecham, porque n\u00e3o t\u00eam viabilidade ou se deslocam, deixando milhares de pessoas sem trabalho. Numa sociedade em que o trabalho por conta de outrem \u00e9, para a maioria da popula\u00e7\u00e3o, a forma da subsist\u00eancia e, por conseguinte, a garantia das condi\u00e7\u00f5es que garantam viver a vida em harmonia, o desemprego imposto torna-se uma grave forma de exclus\u00e3o. De repente essas pessoas sentem, dramaticamente, que n\u00e3o h\u00e1 lugar para elas. A\u00ed as raz\u00f5es justificativas s\u00e3o l\u00f3gicas e implac\u00e1veis: as consequ\u00eancias da globaliza\u00e7\u00e3o, as exig\u00eancias do sistema econ\u00f3mico vigente, quase sempre em crise, o direito das multinacionais se deslocarem para garantirem maior rentabilidade. O fen\u00f3meno atinge propor\u00e7\u00f5es tais na nossa sociedade, que exige politicas de fundo e n\u00e3o apenas solu\u00e7\u00f5es casuais. \u00c9 preciso aprofundar as exig\u00eancias \u00e9ticas de todo o processo econ\u00f3mico e dos seus principais agentes, adaptando-as \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o da sociedade e ao bem-estar dos cidad\u00e3os. No que \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o e desloca\u00e7\u00e3o das empresas diz respeito, torna-se urgente a adapta\u00e7\u00e3o e a criatividade no \u00e2mbito do direito internacional. Enquanto os sistemas econ\u00f3micos gerarem pobreza e causarem exclus\u00e3o, eles n\u00e3o servem o bem-comum da sociedade. \tOs sindicatos, leg\u00edtimas associa\u00e7\u00f5es de trabalhadores, t\u00eam que os defender e promover na busca de solu\u00e7\u00f5es criativas e inovadoras. N\u00e3o podem ficar prisioneiros de ideologias, embora lhes seja leg\u00edtimo terem princ\u00edpios inspiradores do modelo de sociedade e das solu\u00e7\u00f5es que defendem. Devem ser estruturas de di\u00e1logo e n\u00e3o apenas de conflito; devem avaliar a efic\u00e1cia das ac\u00e7\u00f5es que desencadeiam, e ser factores de esperan\u00e7a e n\u00e3o de revolta. Numa sociedade justa os primeiros defensores dos direitos dos trabalhadores deveriam ser as empresas e os empregadores, o que n\u00e3o dispensa o papel das associa\u00e7\u00f5es de trabalhadores, porque n\u00e3o h\u00e1 empresas sadias sem a participa\u00e7\u00e3o criativa de todos os seus agentes.  \t6. Jesus nasceu em Bel\u00e9m, come\u00e7ando por fazer a experi\u00eancia de n\u00e3o haver lugar para Ele na cidade. A quantos O seguem e nos quais Ele infunde o Seu Esp\u00edrito, convida-os a lutar contra todas as formas de exclus\u00e3o, na certeza de que s\u00f3 o amor, a generosidade e a paix\u00e3o pela pessoa humana a podem evitar. Mas o Senhor convida-nos, tamb\u00e9m, a encontrar um lugar para aqueles a quem o negaram, ainda que seja s\u00f3 na nossa ternura e no nosso cora\u00e7\u00e3o. A Igreja, se for fiel a Jesus Cristo, estar\u00e1 sempre na primeira linha da luta contra todas as formas de exclus\u00e3o. \tDesejo a todos um Bom Natal. E que cada um de n\u00f3s saiba concretizar este desejo t\u00e3o pr\u00f3prio do ambiente natal\u00edcio: dar a algu\u00e9m que tenha sido exclu\u00eddo, um lugar no seu cora\u00e7\u00e3o.  \u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MENSAGEM DE NATAL 2006 DE SUA EMIN\u00caNCIA REVEREND\u00cdSSIMA D. 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