{"id":21855,"date":"2006-12-22T17:38:25","date_gmt":"2006-12-22T17:38:25","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/12\/22\/natal-alentejano-2\/"},"modified":"2006-12-22T17:38:25","modified_gmt":"2006-12-22T17:38:25","slug":"natal-alentejano-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/natal-alentejano-2\/","title":{"rendered":"Natal alentejano"},"content":{"rendered":"<p>O Alentejo, a mais descristianizada das regi\u00f5es portuguesas, n\u00e3o deixa de ter formas not\u00e1veis de religiosidade nesta quadra. Na \u00e9poca de Natal, o canto ao Deus menino nas \u201cpalhas deitado\u201d anima terras alentejanas, havendo ainda casos de \u201cpres\u00e9pios vivos\u201d e a representa\u00e7\u00e3o de autos de Natal.  A coloca\u00e7\u00e3o de um madeiro de grandes propor\u00e7\u00f5es na principal pra\u00e7a das localidades \u00e9 uma pr\u00e1tica que insiste em permanecer. Fronteira e Barrancos s\u00e3o dois dos locais onde tal se verifica, mas um pouco por todo o Alentejo o madeiro \u2018teima\u2019 em aparecer. Em certas localidades do distrito de \u00c9vora a matan\u00e7a do porco \u00e9 feita, antes do Natal, para se assegurar o abastecimento da missadura (Consoada). \u00c0 mesa cabe sempre a carne do porco, confeccionada de variadas formas. Instrumentos musicais t\u00edpicos desta zona, nomeadamente a zabumba, (instrumento de percuss\u00e3o feito com um c\u00e2ntaro de barro, cuja boca \u00e9 tapada com uma pele de borrego), aparecem timidamente em algumas Missas do Galo. Em Moura, h\u00e1 poucos anos, a zabumba ainda tocou na Igreja de S.Jo\u00e3o Baptista. Tradi\u00e7\u00e3o que se tem perdido \u00e9 o beijar o Menino nas casas dos particulares. Actualmente o p\u00e1roco e o sacrist\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o levam a imagem aos montes e casas dos que por alguma raz\u00e3o n\u00e3o podem sair. Agora, quem quiser faz\u00ea-lo ter\u00e1 que se deslocar \u00e0 igreja.  <b>M\u00fasica<\/b> O tributo ao Deus menino &#8220;em palhas deitado\u201d \u00e9 conhecido de todo o pa\u00eds: Eu hei-de dar ao Menino\/Uma fitinha p&#8217;r\u00f3 chap\u00e9u\/E Ele tamb\u00e9m me h\u00e1-de dar\/Um lugarzinho no C\u00e9u&#8230; Olhei para a c\u00e9u\/Estava estrelado\/Vi o Deus Menino\/Em palhas deitado. Em palhas deitado\/Em palhas esquecido\/Filho de uma rosa\/Dum cravo nascido Estas palavras disse a Virgem\/Ai quando nasceu o Menino\/Ai vinde c\u00e1 meu anjo loiro\/Meu sacramento divino  Outro contributo incontorn\u00e1vel do Natal Alentejano para a viv\u00eancia da quadra em todo o Portugal \u00e9 o \u201cNatal de \u00c9vora\u201d:  O Menino est\u00e1 dormindo\/Nas palhinhas despidinho\/Os anjos lhe est\u00e3o cantando:\/Por amor, t\u00e3o pobrezinho. O Menino est\u00e1 dormindo\/Nos bra\u00e7os de S. Jos\u00e9\/Os anjos lhe est\u00e3o cantando:\/Gloria tibi, Domine. O Menino est\u00e1 dormindo\/Nos bra\u00e7os da Virgem pura\/Os anjos lhe est\u00e3o cantando:\/Gl\u00f3ria a Deus l\u00e1 nas alturas. O Menino est\u00e1 dormindo\/Um sono de amor profundo\/Os anjos lhe est\u00e3o cantando:\/Viva o Salvador do mundo  <b>O madeiro de Natal<\/b> O madeiro \u00e9 aceso na chamin\u00e9 de todas as casas, onde o Menino Jesus coloca os brinquedos no sapatinho. Nos largos das vilas, aldeias ou cidades, e nos adros das igrejas s\u00e3o queimadas quase \u00e1rvores inteiras na fogueira que aquece a noite de natal.  Diz quem vive este Natal que o lume da chamin\u00e9 \u00e9 para o menino se aquecer quando vier pela noite dentro recompensar as crian\u00e7as por se terem portado bem e terem ajudado a fazer o pres\u00e9pio. Vai-se buscar a lenha onde a houver sem necessidade de qualquer autoriza\u00e7\u00e3o: diz-se que \u00e9 para \u201caquecer o Menino Jesus\u201d e basta. A not\u00e1vel propens\u00e3o do povo alentejano para a m\u00fasica fixou estas tradi\u00e7\u00f5es em quadras:  O Menino vai \u00e0 lenha\/Espet\u00f4-le um pico no p\u00e9\/Chamou Nossa Senhora\/ Respond\u00ea-le S\u00e3 Jos\u00e9.  \u00d3 m\u00ea Menino Jesus\/Encostado \u00f3 mad\u00earo\/\u00ca vos d\u00f4 a minh&#8217;alma\/Fazei dela o travess\u00earo  <b>Pres\u00e9pios e Roncas<\/b> Os bonecos de Estremoz, em barro cozido e pol\u00edcromo, d\u00e3o vida a um dos pres\u00e9pios mais conhecidos do pa\u00eds, com v\u00e1rias figurinhas profano-religiosas. Ainda hoje prestigiados artes\u00e3os ceramistas e barristas continuam a conceb\u00ea-los num estilo muito pr\u00f3prio, numa diversidade de modelos, dimens\u00f5es e cores. Os pres\u00e9pios caseiros davam origem a visitas \u00e0s casa na vizinhan\u00e7a. Em Elvas era habitual entoarem-se c\u00e2nticos natal\u00edcios acompanhados pela \u201cRonca\u201d, um instrumento semelhante \u00e0 zabomba espanhola. Este instrumento pode ser feito de uma panela de barro, c\u00e2ntaro de lata ou de um pote.A ronca leva uma pele a tapar a boca do recipiente, no centro da qual h\u00e1 uma cana. A qualidade da pele \u00e9 muito importante por causa do som. Por isso se usam peles de cabra ou borrego, e ainda de bexiga de porco.   <b>A Missadura<\/b> Da prepara\u00e7\u00e3o da mesa para a v\u00e9spera de Natal fala-nos longamente o livro \u201cEtnologia do Natal Alentejano\u201d, (PESTANA, M. In\u00e1cio, Portalegre 1978).  Em algumas terras do distrito de \u00c9vora, tanto quanto \u00e9 poss\u00edvel, faz-se a matan\u00e7a do porco antes do Natal, para se assegurar o abastecimento da \u201cmissadura\u201d. Esta missadura (Consoada) ocorre em cada lar logo a seguir \u00e0 missa do galo e na sua ementa inclui-se toda a variedade de carne de porco.  A Consoada \u00e9 a seguir \u00e0 Missa de Natal porque at\u00e9 l\u00e1 o que se come propriamente ao jantar do dia 24 de Dezembro nas casas alentejanas \u00e9 a sopa de ca\u00e7\u00e3o, pescada frita, bacalhau, ou outro peixe, acompanhado com batatas, couve-flor ou grelos. Esta regra tem a ver com o antigo preceito da abstin\u00eancia, que embora j\u00e1 n\u00e3o exista na liturgia ainda \u00e9 respeitada por muitos.  \u201cQuem n\u00e3o jejua dos Santos ao Natal, ou \u00e9 besta ou animal\u201d, dizia um velho ditado popular.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Alentejo, a mais descristianizada das regi\u00f5es portuguesas, n\u00e3o deixa de ter formas not\u00e1veis de religiosidade nesta quadra. Na \u00e9poca de Natal, o canto ao Deus menino nas \u201cpalhas deitado\u201d anima terras alentejanas, havendo ainda casos de \u201cpres\u00e9pios vivos\u201d e a representa\u00e7\u00e3o de autos de Natal. 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