{"id":21850,"date":"2006-12-22T16:13:04","date_gmt":"2006-12-22T16:13:04","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/12\/22\/um-conto-o-nosso-anjinho\/"},"modified":"2006-12-22T16:13:04","modified_gmt":"2006-12-22T16:13:04","slug":"um-conto-o-nosso-anjinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/um-conto-o-nosso-anjinho\/","title":{"rendered":"Um conto: <i>O nosso anjinho<\/i>"},"content":{"rendered":"<p>Era preciso que um filho tivesse alguma coragem ou fosse muito descarado, para fazer \u00e0 m\u00e3e esta pergunta: algum filho morreu? <!--more--> <b>Conto de Natal<\/b>  1. Era preciso que um filho tivesse alguma coragem ou fosse muito descarado, para fazer \u00e0 m\u00e3e esta pergunta. Nascido nesse meio, j\u00e1 era padre e passava muito dos trinta quando me atrevi a perguntar \u00e0 minha: \u00d3 M\u00e3e, vossemec\u00ea s\u00f3 teve mesmo nove filhos, ou houve mais algum que morreu? Est\u00e1vamos os dois sentados no banco de pedra debaixo da pequena japoneira, junto ao tanque do quintal. E ainda hoje suspendo a respira\u00e7\u00e3o ao evocar aquele sil\u00eancio breve da minha m\u00e3e, que me pareceu eterno.  De repente, o nosso espa\u00e7o natural tornou-se t\u00e3o sagrado como se eu ali tivesse dito as palavras da consagra\u00e7\u00e3o! Depois, o rosto j\u00e1 octogen\u00e1rio da minha M\u00e3e iluminou-se, num sorriso. E voltando os olhos para um al\u00e9m indefinido, respondeu-me num tom semelhante ao dos anjos em Bel\u00e9m:  \u2013 Temos l\u00e1 um anjinho&#8230;   2. Ent\u00e3o, pausadamente, degustando bem cada palavra, contou-me que fora a segunda. Aconteceu na v\u00e9spera de Natal, em 1919. Andava ela no s\u00e9timo m\u00eas, m\u00eas perfeito segundo a B\u00edblia, mas arriscado segundo a medicina. Caiu pelas escadas de pedra que davam da cozinha para o quintal, quando descia ao celeiro a buscar batatas para o jantar. Boa mulher e m\u00e3e, n\u00e3o disse nada para n\u00e3o estragar a consoada ao marido. E de manh\u00e3, escusou-se com o seu estado e com a pequenina Maria da Gl\u00f3ria, nascida em 27 de Junho do ano anterior, para n\u00e3o ir \u00e0 Missa. Quando o ti Z\u00e9 Morgado voltou, j\u00e1 era pai duas vezes. Mas a breve alegria foi abafada pelo sobressalto do crist\u00e3o: logo foi \u00e0 procura de padrinhos e correu com a beb\u00e9 nos bra\u00e7os para ela ser baptizada na igreja.  \u2013 Puseram-lhe o nome de Maria, fez-me saber a M\u00e3e. O mesmo de outra Maria, a Virgem-M\u00e3e que, muitos s\u00e9culos antes, tinha dado \u00e0 luz o Deus-Menino, supostamente nessa noite. \u2013 N\u00e3o chegou a mamar e nem sequer chorava; s\u00f3 chiava, de t\u00e3o fraquinha &#8211; recordou, ainda, a minha M\u00e3e.   3. A Maria partiu deste mundo \u00abcom trinta e cinco horas de vida\u00bb, como diz o certificado de \u00f3bito no dia seguinte. Um erro; pois, ao nascer, ela j\u00e1 tinha sete meses vividos no seio materno. Celebrou assim, em menos de quarenta e oito horas, o seu Natal e a sua P\u00e1scoa. Ou um redobrado Natal, pois dies natalis, dia do nascimento chama a Igreja ao da morte de um crist\u00e3o. Veio apenas dizer \u201col\u00e1\u201d da parte do Deus da Vida, e inscrever o seu nome na \u00c1rvore Geneal\u00f3gica da nossa Fam\u00edlia, onde continua viva. E veio dizer \u00e0 minha M\u00e3e que n\u00e3o lamentasse o trabalho de a trazer sete meses no ventre para t\u00ea-la apenas dia e meio nos bra\u00e7os, pois a sua vida n\u00e3o se perdia com o tempo: continuava na eternidade, que doutro modo n\u00e3o poderia ter.  \u00c9 l\u00e1 que ela espera os outros nove irm\u00e3os. Um dia estaremos de novo todos juntos, com os pais, \u00e0 mesma lareira, como est\u00e3o muitas fam\u00edlias neste Natal. Cada um de n\u00f3s ter\u00e1 muitas hist\u00f3rias da sua vida para contar. Mas as dela v\u00e3o ser as mais bonitas e originais, porque t\u00eam todas a ver com Deus, com os santos e com os anjos do C\u00e9u.   Ela j\u00e1 me conhece muito bem. Mas s\u00f3 ent\u00e3o \u00e9 que eu, o \u00faltimo dos dez, a vou conhecer. E vou-lhe contar como era o nosso Natal sem ela:  \u2013 Sabes, mana, a partir do dia em que fiz aquela pergunta \u00e0 nossa M\u00e3e, apercebi-me de que, na noite de Natal, ela sentava sempre mais algu\u00e9m \u00e0 mesa do cora\u00e7\u00e3o.  No seu rosto pairava uma estrela, que lhe acendia os olhos de luz diferente. E pelos seus cabelos desciam revoadas de anjos trazendo \u201co nosso anjinho\u201d ao colo e polvilhando de neve os pratos dos mexidos, das rabanadas e da aletria. Por isso eram t\u00e3o doces e sabiam t\u00e3o bem!  Desculpa, Maria. A gente n\u00e3o falava de ti, porque nem sab\u00edamos que tu existias! Mas aquela noite, para n\u00f3s, era um c\u00e9u aberto\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era preciso que um filho tivesse alguma coragem ou fosse muito descarado, para fazer \u00e0 m\u00e3e esta pergunta: algum filho morreu?<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[206,267,275],"class_list":["post-21850","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-nacional","tag-familia","tag-natal","tag-pascoa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21850","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21850"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21850\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21850"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21850"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21850"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}