{"id":21808,"date":"2006-12-21T11:22:54","date_gmt":"2006-12-21T11:22:54","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/12\/21\/o-natal-ha-mais-de-cem-anos-em-tras-os-montes\/"},"modified":"2006-12-21T11:22:54","modified_gmt":"2006-12-21T11:22:54","slug":"o-natal-ha-mais-de-cem-anos-em-tras-os-montes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-natal-ha-mais-de-cem-anos-em-tras-os-montes\/","title":{"rendered":"O Natal, h\u00e1 mais de cem anos, em Tr\u00e1s-os-Montes"},"content":{"rendered":"<p>Ecos ancestrais de uma viv\u00eancia natal\u00edcia <!--more--> Molhos de vides para a lareira, bacalhau, a\u00e7\u00facar, travessas de aletria, arroz, caf\u00e9 e trigo. Era o presente dos ricos, para as fam\u00edlias mais pobres, nos Natais long\u00ednquos de finais do s\u00e9c. XIX, em Vila Real e em toda a regi\u00e3o transmontana. O fumo mais abundante, sa\u00eddo das chamin\u00e9s das casas mais abastadas, era sinal t\u00edpico da quadra natal\u00edcia, significando que havia mais gente, em casa.  \u201cAs panelas fervem com a sopa e o bacalhau e os tachos de cobre com o arroz doce\u201d, assim definia El\u00edsio Neves o bul\u00edcio das cozinhas, naquela \u00e9poca, na sua \u201cficha\u201d, no \u201cNatal h\u00e1 cem anos\u201d, em Vila Real. Documento que retrata, fielmente, a viv\u00eancia ancestral natal\u00edcia.  \u201cNas mesas dos mais ricos e sobre toalhas de linho, havia vinho, aperitivos, frutas secas, comida importada, como carnes, doces, queijos, e frutos ex\u00f3ticos\u201d.  Mem\u00f3rias que o tempo foi esboroando, e que, hoje, apenas s\u00e3o rel\u00edquias de uma era que se recorda, com alguma nostalgia.  Conta El\u00edsio Neves que \u201cum dos primeiros sintomas da chegada do Natal, a Vila Real, era o aumento do n\u00famero de pessoas, a pedir, nas ruas\u201d e \u201cesbo\u00e7avam-se movimentos diversos, para assegurar melhores consoadas \u00e0 pobreza, nomeadamente \u00e0 pobreza envergonhada (hoje, em franca ascens\u00e3o), aos internados nos asilos, aos presos e outros exclu\u00eddos da sociedade da \u00e9poca\u201d.  Dos benem\u00e9ritos, distinguia-se Joaquim Vitorino Oliveira que dividia o seu tempo entre Portugal e o Brasil e que era propriet\u00e1rio do \u201cchalet\u201d da Rua Dr. Augusto Rua, onde est\u00e1 instalado, actualmente, o Arquivo Municipal. Distribu\u00eda, nesse tempo, duzentas esmolas. O Clero tamb\u00e9m n\u00e3o se mostrava indiferente \u00e0 sensibilidade da quadra e dois sacerdotes do Col\u00e9gio de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio, em 1900, deram doze castanhas a cada preso da cadeia de Vila Real.  Curioso \u00e9 que, j\u00e1 nesta \u00e9poca, a Lotaria do Natal provocava ansiedade, entre aqueles que \u201cjogavam\u201d. Para ajudar \u00e0 festa, as f\u00e9rias judiciais eram marcadas de 24 de Dezembro a 6 de Janeiro.  \u201cAs dificuldades dos Correios em assegurar um servi\u00e7o eficiente, para responder ao aumento de tr\u00e1fego postal pr\u00f3prio da \u00e9poca, eram evidentes, tantas as lembran\u00e7as\u201d.  A vida religiosa assumia uma vertente importante e evocativa da \u00e9poca.  \u201cAs festas de Natal come\u00e7avam com a novena em honra do Menino Jesus, a qual se realizava na Igreja de S. Domingos. Aqui, havia um bonito pres\u00e9pio, como era o do Convento de Santa Clara. A quadra tinha um momento particular: as freiras que viviam em regime de clausura mantinham contactos \u201cbrev\u00edssimos\u201d com a popula\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da sua participa\u00e7\u00e3o em c\u00e2nticos que acompanhavam com pandeiretas, ferrinhos e castanhetas. A Missa do Galo era celebrada na Igreja de S\u00e3o Domingos e na Capela Nova, na altura conhecida como Igreja dos Cl\u00e9rigos, com importante acompanhamento coral e instrumental. As festividades alusivas \u00e0 quadra prolongavam-se at\u00e9 ao dia 1 de Janeiro, na Igreja do Convento de Santa Clara, ricamente ornamentada, para a celebra\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio da Circuncis\u00e3o do Redentor, com Missa Solene e Serm\u00e3o, com acompanhamento musical do \u00f3rg\u00e3o e do Coro das Freiras.   <b>Adapta\u00e7\u00e3o comercial<\/b> At\u00e9 os pol\u00edticos, na altura, aproveitavam para enviar os seus \u201crecados\u201d, atrav\u00e9s das Janeiras. El\u00edsio Neves abordou, ao Nosso Jornal, alguns elementos constantes da \u201cFicha do Museu de Vila Real\u201d da Tert\u00falia \u201cHist\u00f3ria ao Caf\u00e9\u201d e fez algumas breves compara\u00e7\u00f5es com o Natal vila-realense actual. \u201cH\u00e1 realidades novas. Nesta cidade, com estas ilumina\u00e7\u00f5es e sons de Natal, \u00e9 tudo completamente novo, em rela\u00e7\u00e3o ao que se passava, h\u00e1 cem anos. O Pai Natal \u00e9 uma realidade muito recente. H\u00e1 cem anos, n\u00e3o havia Pai Natal. Mas h\u00e1, ainda, elementos que se mant\u00eam, infelizmente, como as pessoas a pedir nas ruas. Na mesa, as pessoas mais abastadas, \u00e0 semelhan\u00e7a daquelas fam\u00edlias ricas que havia, h\u00e1 cem anos, existem, na mesma. E ainda existem muitas consoadas com dificuldades. S\u00e3o algumas afinidades tristes. J\u00e1 n\u00e3o temos, entretanto, as situa\u00e7\u00f5es das cadeias, onde, hoje, se procura proporcionar uma situa\u00e7\u00e3o diferente. H\u00e1 cem anos, era um dos poucos momentos em que os presos viviam com um pouco mais de alegria e desafogo\u201d.  El\u00edsio Neves salientou outras \u201cnuances\u201d que fazem a diferen\u00e7a dos Natais de outras eras, em rela\u00e7\u00e3o aos de agora: \u201cUma coisa que se nota \u00e9 o movimento comercial, j\u00e1 muito dirigido a esta quadra. Digamos que \u00e9, cada vez mais, reduzida, circunscrita, digamos assim, a estes dias principais do m\u00eas de Dezembro. Em rela\u00e7\u00e3o h\u00e1 cem anos, h\u00e1 mais Natal. H\u00e1 mais alegria, as pessoas vivem melhor. H\u00e1 cem anos, havia muitas dificuldades\u201d.   <b>Menino Jesus<\/b> Vieram \u00e0 baila as figuras do Pai Natal e do Menino Jesus. \u201cAgora, h\u00e1 o Pai Natal que n\u00e3o existia, h\u00e1 cem anos. E h\u00e1 menos Menino Jesus. Isto acontece pelo envolvimento comercial, na quadra natal\u00edcia. O Pai Natal (ao que creio, foi uma figura inventada pela Coca-Cola) suplantou o Menino Jesus. Surge mais integrada numa iniciativa comercial multinacional\u201d.  A gastronomia \u00e9 o elemento que se mant\u00e9m mais pr\u00f3ximo de h\u00e1 cem anos. \u201cContinuamos a privilegiar o bacalhau, o polvo, e, mais recentemente, o peru, assim como o bolo-rei que n\u00e3o \u00e9 uma realidade t\u00e3o antiga, como os demais costumes, de h\u00e1 cem anos. E, depois, as prendas de Natal que acabaram por dar maior anima\u00e7\u00e3o comercial \u00e0s cidades, sem a qual n\u00e3o sobreviveria. Numa cidade como Vila Real, e sabendo-se dos problemas conjunturais na economia, esta quadra \u00e9 fundamental\u201d &#8211; acrescentou El\u00edsio Neves. No entanto, presentes sempre os houve. Se, antes, era o Menino Jesus que os trazia, hoje \u00e9 o Pai Natal quem os traz. Havia mais pres\u00e9pios, em Vila Real, h\u00e1 cem anos. \u201cNessa altura, dominavam as nossas igrejas e, em Vila Real, os pres\u00e9pios de S. Domingos e Santa Clara eram muito apelativos. Presentemente, n\u00e3o temos pres\u00e9pios suficientemente representativos, nas nossas igrejas. Lembro-me, h\u00e1 cinquenta anos, o Padre Henrique Maria dos Santos organizar pres\u00e9pios humanizados, integrando neles ciganos, numas cabanas que eram montadas no exterior da Igreja de S. Domingos e que eram muito bonitos\u201d.  Por fim, este investigador e etn\u00f3logo lembrou uma iniciativa da autarquia e que se enquadra nesta quadra e que, h\u00e1 cem anos, j\u00e1 existia. \u201cOs Reis, em particular, em Vila Real, por iniciativa da C\u00e2mara Municipal, j\u00e1 com mais de dez edi\u00e7\u00f5es. Os Cantares dos Reis s\u00e3o um evento importante, no pr\u00f3prio calend\u00e1rio da anima\u00e7\u00e3o da cidade\u201d.  <i> Jos\u00e9 Manuel Cardoso, Seman\u00e1rio \u201cA Voz de Tr\u00e1s-Os-Montes\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ecos ancestrais de uma viv\u00eancia natal\u00edcia<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[122,183,191,206,211,267,289],"class_list":["post-21808","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-nacional","tag-brasil","tag-diocese-de-vila-real","tag-economia","tag-familia","tag-ferias","tag-natal","tag-presepios"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21808","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21808"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21808\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21808"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21808"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21808"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}