{"id":21770,"date":"2006-12-19T13:06:23","date_gmt":"2006-12-19T13:06:23","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/12\/19\/ecologia-da-paz\/"},"modified":"2006-12-19T13:06:23","modified_gmt":"2006-12-19T13:06:23","slug":"ecologia-da-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/ecologia-da-paz\/","title":{"rendered":"Ecologia da paz"},"content":{"rendered":"<p>Na mensagem para a celebra\u00e7\u00e3o do Dia Mundial da Paz, as palavras do Papa Bento XVI convidam-nos a avaliar a medida do risco antropol\u00f3gico no tempo actual. Desenvolvemos um mundo consu-mista onde tudo se transforma em bem de consumo: consumimos a natureza, consumimos os outros, consumimos Deus e consumimos n\u00f3s mesmos numa cupidez e bulimia compulsiva; consumimo-nos a consumir, na busca de um alimento que sacie a nossa fome j\u00e1 saciada de haveres, mas faminta de luz, de sentido e de paz.  Toda a mensagem \u00e9 um manifesto da ecologia da paz. \u00c9 esta precisamente a express\u00e3o que serve de t\u00edtulo ao desenvolvimento dos par\u00e1grafos 8 e 9, onde o Santo Padre explicita e aprofunda o sentido de que a express\u00e3o \u00e9 portadora. Desde 1886, altura em que o bi\u00f3logo alem\u00e3o Ernst Haekel usa pela primeira vez a palavra ecologia, pretendendo significar a ci\u00eancia da economia, dos h\u00e1bitos, do modo de vida e das rela\u00e7\u00f5es vitais entre os organismos, o conceito de ecologia v\u00ea-se investido de novas sem\u00e2nticas, n\u00e3o estritamente ambientais. Entre muitas outras express\u00f5es encontramos, por exemplo, ecologia das ideias (Gregory Bateson), ecologia da inter-subjectividade (F\u00e9lix Guattari), ecologia econ\u00f3mica (Maurice Bellet), ecologia pol\u00edtica (Os Verdes), &#8220;ecologia humana&#8221; (Jo\u00e3o Paulo II) e &#8220;ecologia da paz&#8221; (Bento XVI). Estas diversas denomina\u00e7\u00f5es anal\u00f3gicas permitem perceber que a crise ecol\u00f3gica ambiental \u00e9 somente a ponta do iceberg de uma crise mais vasta. No pensamento do Santo Padre, a crise ecol\u00f3gica ambien-tal manifesta um mal mais profundo &#8211; a progressiva devasta\u00e7\u00e3o do humano, em forma de crise geral do ambiente natural, das sociedades e dos indiv\u00edduos &#8211; resultante de &#8220;um conceito desumano de desenvolvimento&#8221; (\u00a79).  Ao evidenciar &#8220;o nexo incind\u00edvel&#8221; entre a ecologia ambiental e a ecologia humana, Bento XVI chama a aten\u00e7\u00e3o para a necessidade de se aprender a pensar na transversal as interac\u00e7\u00f5es entre os ecossistemas naturais e os contextos sociais e individuais. Procurar um princ\u00edpio integrador que prefigure uma ecologia hol\u00edstica, respeitadora da natureza e potenciadora do &#8220;desenvolvimento humano integral&#8221;. Ecologia ambiental, mas sem fundamentalismo naturalista; ecologia humana, mas sem fundamentalismo humanista; antes, busca da &#8220;paz com a cria\u00e7\u00e3o e a paz entre os homens&#8221; (\u00a78) \u00e0 luz da promessa b\u00edblica: &#8220;farei da Paz a tua administradora, e da Justi\u00e7a a tua autoridade suprema. Na tua terra n\u00e3o se tornar\u00e1 a falar em viol\u00eancia, nem em devasta\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o das tuas fronteiras (Is 60,18). O Dia Mundial da Paz celebra-se \u00e0 luz do mist\u00e9rio mais admir\u00e1vel a que o humano alguma vez teve acesso. Os c\u00e9us, de temidos na mentalidade animista, passam a ser contemplados, na f\u00e9 expectante: &#8220;Oxal\u00e1 fendesses o c\u00e9u e descesses&#8221; (Is 63,19). E Deus desce, incarnando no seio da Virgem Maria e nascendo num lugar jamais pensado para um deus, num est\u00e1bulo, tendo por ber\u00e7o uma manjedoura. Eis o mist\u00e9rio da f\u00e9: as estrelas iluminam o caminho, os animais aquecem o Menino, os soberanos seguem a estrela e inclinam-se diante da Suprema Majestade.  Doravante, n\u00e3o h\u00e1 lugar no mundo, seja ele o mais sombrio, marginal ou insignificante, que n\u00e3o seja lugar e coisa sagrada. A paz acontece quando a sacralidade das criaturas \u00e9 reconhecida e respeitada. Sacralidade que diz dignidade e interdita a viola\u00e7\u00e3o. Sacralidade que diz limite, comportando simultaneamente um imperativo de restri\u00e7\u00e3o e um vocativo de excesso. N\u00e3o entres como dono se podes entrar como amigo. N\u00e3o venhas pela for\u00e7a; avan\u00e7a em do\u00e7ura. O limite diz: eu n\u00e3o sou uma humilha\u00e7\u00e3o para ti, sou a tua voca\u00e7\u00e3o. Neste sentido, o &#8220;n\u00e3o matar\u00e1s&#8221; (mandamento que n\u00e3o se refere simplesmente \u00e0 elimina\u00e7\u00e3o f\u00edsica de outrem, mas tamb\u00e9m \u00e0s senten\u00e7as de morte executadas no quotidiano por meio da viola\u00e7\u00e3o dos direitos e deveres dos seres humanos e da natureza), mais do que um relativo (provis\u00f3rio) pol\u00edtico-cultural \u00e9 um absoluto (definitivo) imperativo teologal que, numa formula\u00e7\u00e3o positiva, poder\u00e1 ser traduzido do seguinte modo: cuidar\u00e1s da vida, de toda a vida, a vida toda, em todas as circunst\u00e2ncias, mormente a vida fragilizada.  No mundo actual, em particular no contexto europeu onde o argumento teol\u00f3gico \u00e9 progressivamente desclassificado, a dignidade do ser humano, como valor absoluto, fica ao crit\u00e9rio exclusivo do argumento antropol\u00f3gico. Ora este, mesmo na sua formula\u00e7\u00e3o mais plena, n\u00e3o deixa de ser relativo, e portanto n\u00e3o comporta em si o fundamento absoluto da dignidade humana. O laicismo europeu \u00e9, assim, confrontado a uma aporia que n\u00e3o pode ignorar: ou afirma o valor absoluto da dignidade humana, e para tal tem de avan\u00e7ar um fundamento absoluto da mesma dignidade &#8211; o argumento antropol\u00f3gico n\u00e3o chega a este n\u00edvel de fundamenta\u00e7\u00e3o &#8211; ou, ent\u00e3o, todo e qualquer fundamento relativo faz da dignidade humana um valor relativo, \u00e0 merc\u00ea dos tempos e das vontades.   <i>Isabel Varanda Professora de Teologia UCP<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na mensagem para a celebra\u00e7\u00e3o do Dia Mundial da Paz, as palavras do Papa Bento XVI convidam-nos a avaliar a medida do risco antropol\u00f3gico no tempo actual. 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