{"id":217624,"date":"2021-09-26T09:31:00","date_gmt":"2021-09-26T08:31:00","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=217624"},"modified":"2021-09-25T20:45:40","modified_gmt":"2021-09-25T19:45:40","slug":"migracoes-integracao-e-uma-palavra-muito-interessante-e-bonita-mas-e-um-longo-caminho-andre-costa-jorge","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/migracoes-integracao-e-uma-palavra-muito-interessante-e-bonita-mas-e-um-longo-caminho-andre-costa-jorge\/","title":{"rendered":"Migra\u00e7\u00f5es: \u00abIntegra\u00e7\u00e3o \u00e9 uma palavra muito interessante e bonita, mas \u00e9 um longo caminho\u00bb &#8211; Andr\u00e9 Costa Jorge"},"content":{"rendered":"<p>Coordenador da Plataforma de Apoio aos Refugiados fala do papel \u201cdecisivo\u201d das institui\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas no acolhimento em Portugal, mas tamb\u00e9m das dificuldades<!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u00c2ngela Roque (Renascen\u00e7a), Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_217493\" aria-describedby=\"caption-attachment-217493\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/convidado-ecclesia.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-217493 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/convidado-ecclesia.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1168\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/convidado-ecclesia.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/convidado-ecclesia-400x243.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/convidado-ecclesia-1024x623.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/convidado-ecclesia-768x467.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/convidado-ecclesia-1536x934.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/convidado-ecclesia-1080x657.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/convidado-ecclesia-1280x779.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/convidado-ecclesia-980x596.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/convidado-ecclesia-480x292.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-217493\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR\/Joana Gon\u00e7alves<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u201cRumo a um \u2018N\u00f3s\u2019\u00a0cada vez maior&#8221; \u00e9 o t\u00edtulo da mensagem do Papa Francisco para o\u00a0107\u00ba Dia\u00a0Mundial do Migrante e do Refugiado,\u00a0que a Igreja assinala este domingo,\u00a026 de setembro. A crise migrat\u00f3ria tem estado na ordem do dia, mas para\u00a0a Igreja h\u00e1 muito tempo que\u00a0\u00e9 uma prioridade &#8211; basta dizer que o Dia do Migrante e do Refugiado j\u00e1 se assinala desde 1914. No contexto em que vivemos que import\u00e2ncia t\u00eam estas efem\u00e9rides?<\/em><\/p>\n<p>Creio\u00a0que nos tempos que vivemos \u00e9 muito pertinente assinalarmos este dia. O Papa Francisco &#8211; e particularmente este Papa, desde a primeira hora tem trazido para o seu pontificado este tema das migra\u00e7\u00f5es e dos refugiados.<\/p>\n<p>O\u00a0Papa abra\u00e7ou esta miss\u00e3o\u00a0&#8211;\u00a0que \u00e9 uma miss\u00e3o da Igreja,\u00a0como disse,\u00a0mas \u00e9\u00a0uma miss\u00e3o para a humanidade.\u00a0O Papa n\u00e3o fala apenas para a Igreja quando manifesta as suas preocupa\u00e7\u00f5es e as suas propostas, fala para o mundo, para cada um de n\u00f3s, mas particularmente para aqueles que t\u00eam responsbilidades pol\u00edticas nesta mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>A\u00a0gest\u00e3o das migra\u00e7\u00f5es e da prote\u00e7\u00e3o dos refugiados\u00a0diz\u00a0muito\u00a0respeito aos decisores pol\u00edticos.\u00a0Atualmente creio que \u00e9 um dos temas\u00a0globais\u00a0&#8211; a par de outros, como a ecologia\u00a0\u2013, que\u00a0nalguns casos, infelizmente pelas piores raz\u00f5es, n\u00e3o deixaram de estar na atualidade.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><em>Esta\u00a0insist\u00eancia\u00a0do Papa, quase diria de lideran\u00e7a\u00a0nestes temas,\u00a0\u00e9 importante para quem est\u00e1 no terreno?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 muito importante. Em primeiro lugar porque\u00a0nos\u00a0sentimos\u00a0extremamente confortados, as organiza\u00e7\u00f5es como o Servi\u00e7o Jesu\u00edta aos Refugiados, e tantas outras que tamb\u00e9m fazem parte da PAR, que \u00e9 uma rede de\u00a0institui\u00e7\u00f5es, algumas cat\u00f3licas, mas n\u00e3o todas.\u00a0N\u00f3s, que nos sentimos pr\u00f3ximos do Papa pela natureza das nossas organiza\u00e7\u00f5es, sentimo-nos altamente confortados sabendo que o Papa n\u00e3o s\u00f3 est\u00e1 do nosso lado, ou do lado daqueles que n\u00f3s defendemos, protegemos e acompanhamos, mas lidera a miss\u00e3o com a sua palavra.\u00a0Portanto,\u00a0nesse sentido sentimo-nos muito bem acompanhados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 uma s\u00e9rie de palavras-chave no pensamento do Papa Francisco nestas mat\u00e9rias, mas uma em particular \u00e9 a integra\u00e7\u00e3o,\u00a0ser um caminho\u00a0dois sentidos, de quem chega e de quem acolhe.\u00a0Olhando para o dia de hoje seria importante, por exemplo, nas comunidades cat\u00f3licas ouvir testemunhos concretos de migrantes?<\/em><\/p>\n<p>Sim. Deixe-me dar este testemunho: o Servi\u00e7o Jesu\u00edta aos Refugiados, sendo uma organiza\u00e7\u00e3o da Companhia de Jesus presente em mais de 80 pa\u00edses no mundo, em cen\u00e1rios muito diferentes,\u00a0e\u00a0alguns bastante cr\u00edticos &#8211; por exemplo,\u00a0todo este cen\u00e1rio que vimos no Afeganist\u00e3o, o JRS de alguma forma tem estado a\u00ed presente, mas tamb\u00e9m est\u00e1 no L\u00edbano, no M\u00e9dio Oriente, zonas complicadas. N\u00f3s, JRS,\u00a0sentimos essa presen\u00e7a e essa import\u00e2ncia que o Papa d\u00e1 de forma muito importante.<\/p>\n<p>Na Plataforma de Apoio aos Refugiados, por exemplo,\u00a0est\u00e3o presentes uma s\u00e9rie de organiza\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas que participam ativamente no acolhimento de refugiados\u00a0no \u00e2mbito dos programas de acolhimento que o Estado portugu\u00eas tem estado a implementar,\u00a0e s\u00e3o uma presen\u00e7a fundamental para que Portugal possa ter capacidade de acolhimento.\u00a0Portanto,\u00a0o trabalho das organiza\u00e7\u00f5es no terreno &#8211; sejam as par\u00f3quias, congrega\u00e7\u00f5es ou outro tipo de organiza\u00e7\u00f5es da Igreja \u2013 tem sido fundamental para que os n\u00fameros de que nos orgulhamos em Portugal de ter, por estar ao n\u00edvel dos pa\u00edses que mais acolhe na Europa e no mundo. Isso deve-se muito ao empenho no terreno e \u00e1 cria\u00e7\u00e3o de capacidade de acolhimento efetiva.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O facto desta entrevista estar a ser transmitida no dia das elei\u00e7\u00f5es aut\u00e1rquicas n\u00e3o nos permite\u00a0falar de um modo muito concreto da pol\u00edtica, da a\u00e7\u00e3o governativa, mas podemos falar\u00a0do\u00a0papel das institui\u00e7\u00f5es.\u00a0Portugal tem sido apontado como um bom exemplo no acolhimento de quem vem de fora. A Plataforma de Apoio aos Refugiados at\u00e9 j\u00e1 foi distinguida, em 2017, com o Pr\u00e9mio &#8216;Cidad\u00e3o Europeu&#8217;. Foi importante para o vosso trabalho?<\/em><\/p>\n<p>Foi\u00a0extremamente importante. N\u00f3s n\u00e3o trabalhamos para pr\u00e9mios, o nosso grande pr\u00e9mio \u00e9 o sorriso e o conforto que as pessoas que acolhemos sentem,\u00a0das\u00a0crian\u00e7as e fam\u00edlias\u00a0que temos acolhido\u00a0nestes anos.<\/p>\n<p>Desde 2015, o ano em que a PAR foi fundada, j\u00e1 acolhemos cerca de 800 pessoas. Foram 166 fam\u00edlias acolhidas pelas institui\u00e7\u00f5es da PAR e, como disse, boa parte das institui\u00e7\u00f5es no terreno que fazem esta rede ativa s\u00e3o institui\u00e7\u00f5es da Igreja cat\u00f3lica.<\/p>\n<p>Este\u00a0tipo de pr\u00e9mios e reconhecimentos internacionais e nacionais\u2026\u00a0n\u00f3s constantemente estamos em di\u00e1logo com os decisores pol\u00edticos e recebemos esse feedback v\u00e1rias vezes, e h\u00e1 um reconhecimento do trabalho feito que nos d\u00e1 muita satisfa\u00e7\u00e3o.\u00a0Mas, temos consci\u00eancia de que podemos e devemos fazer mais e melhor ao n\u00edvel da capacidade de acolhimento,\u00a0no \u00e2mbito daquilo que foi o esfor\u00e7o nacional.\u00a0Portugal colocou-se \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para o acolhimento de refugiados\u00a0e, independentemente do governo que esteja, creio que\u00a0esta\u00a0\u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o que honra a tradi\u00e7\u00e3o portuguesa de hospitalidade, portanto,\u00a0n\u00e3o deve estar dependente de quaisquer partidos pol\u00edticos que ocupem governo. \u00c9\u00a0uma quest\u00e3o\u00a0tamb\u00e9m c\u00edvica, e nesse sentido temos estado a trabalhar para aumentar a capacidade de acolhimento.<\/p>\n<p>Lan\u00e7\u00e1mos uma campanha em resposta ao recente drama humanit\u00e1rio no Afeganist\u00e3o. O Servi\u00e7o Jesu\u00edta aos Refugiados tem articulado com a C\u00e2mara Municipal de Lisboa e com Alto Comissariado para as Migra\u00e7\u00f5es, e estamos ativamente a acompanhar os refugiados afeg\u00e3os que entretanto chegaram nas estruturas de acolhimento que foram preparadas. Uma delas \u00e9 o Centro de Acolhimento Tempor\u00e1rio para os Refugiados, da responsabilidade da c\u00e2mara. Estamos desde 2016 com uma equipa\u00a0do JRS nesse espa\u00e7o, e outras infraestruturas que foram entretanto tamb\u00e9m criadas para esse efeito, e estamos em di\u00e1logo com os organismos pr\u00f3prios do Estado para podermos continuar a acolher. Ainda no domingo chegaram mais 79 pessoas, muitos jovens.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>H\u00e1 obviamente esse foco no Afeganist\u00e3o, mas imagino que haja outras prioridades,\u00a0at\u00e9\u00a0porque h\u00e1 um conjunto de crises que continuam?<\/em><\/p>\n<p>Continuam, infelizmente,\u00a0e por isso \u00e9 que esta campanha n\u00e3o se destina apenas \u00e0 quest\u00e3o dos refugiados afeg\u00e3os\u00a0que possam chegar.\u00a0Continuamos a necessitar de capacidade para acolher todos aqueles que v\u00eam ao abrigo dos programas de reinstala\u00e7\u00e3o e recoloca\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 est\u00e3o em curso desde 2015, pelo menos.\u00a0Recordo que Portugal tem acolhido pessoas ao abrigo destes programas de reinstala\u00e7\u00e3o, sobretudo fam\u00edlias que v\u00eam de pa\u00edses\u00a0de\u00a0fora da Uni\u00e3o Europeia,\u00a0pessoas que v\u00eam de pa\u00edses de tr\u00e2nsito como a Turquia e o Egito, onde Portugal tem representa\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica. Essas pessoas n\u00e3o s\u00e3o da Turquia nem do Egito, s\u00e3o refugiados que est\u00e3o nesses pa\u00edses. Tamb\u00e9m da Gr\u00e9cia. Ali\u00e1s, foi da\u00ed que veio o grosso de pessoas acolhidas. E tamb\u00e9m\u00a0t\u00eam sido acolhidas\u00a0ao abrigo de situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia, nomeadamente dos chamados barcos humanit\u00e1rios que recolhem\u00a0pessoas no Mediterr\u00e2neo, e que \u00e9 necess\u00e1rio depois garantir que possam ser acolhidas no territ\u00f3rio nacional, em articula\u00e7\u00e3o com o esfor\u00e7o de coopera\u00e7\u00e3o europeu. A\u00a0PAR e o JRS t\u00eam estado tamb\u00e9m dispon\u00edveis para o acolhimento dessas pessoas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Portanto, as institui\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas continuam a ter um papel decisivo neste acolhimento?<\/em><\/p>\n<p>Decisivo, mas nunca descansamos no facto de algumas delas terem experi\u00eancia no acolhimento.\u00a0Continuarmos a apelar, e aproveito esta ocasi\u00e3o tamb\u00e9m para sensibilizar todas as organiza\u00e7\u00f5es, as par\u00f3quias, as comunidades crist\u00e3s que possam juntar-se a esta causa. \u00c9 muito simples: podem contactar a PAR, atrav\u00e9s do site da Plataforma na internet, e constituir comunidades de hospitalidade ou de acolhimento.<\/p>\n<p>Estamos numa fase em que estamos a proceder a pequenas altera\u00e7\u00f5es ao modelo de acolhimento, em articula\u00e7\u00e3o com os organismos estatais que t\u00eam essa responsabilidade.\u00a0Quem acolhe estas pessoas \u00e9 o Estado, em primeiro lugar. N\u00f3s estimulamos e queremos criar condi\u00e7\u00f5es para que o Estado portugu\u00eas possa acolher, mas o acolhimento, como sabemos, deve ser feito desde logo no terreno, isto \u00e9, na pequena micro-rela\u00e7\u00e3o. A nossa experi\u00eancia diz-nos que faz muita diferen\u00e7a quando as pessoas chegam o acompanhamento local, que a comunidade que acolhe possa participar ativamente no processo de acolhimento.\u00a0\u00c9\u00a0determinante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tem falado da necessidade do trabalho em rede. \u00c9 um caminho que se tem feito? Tem-se evolu\u00eddo nesse sentido?<\/em><\/p>\n<p>No caso da PAR,\u00a0o papel do JRS desde a primeira hora foi de ser um secretariado t\u00e9cnico. Disponibilizamos uma equipa com recursos t\u00e9cnicos, preparada para v\u00e1rias dimens\u00f5es do trabalho: na \u00e1rea jur\u00eddica, na \u00e1rea social, na sa\u00fade mental. Neste momento, por exemplo, estamos a formar grupos de psic\u00f3logos que possam no terreno acompanhar as institui\u00e7\u00f5es e as comunidades que acolhem, porque h\u00e1 uma dimens\u00e3o t\u00e9cnica que deve ser privilegiada.<\/p>\n<p>Sabemos que temos 18 meses, um ano e meio, para garantir que as pessoas estabilizam e possam recome\u00e7ar do zero nas v\u00e1rias dimens\u00f5es, desde os aspetos documentais, at\u00e9 \u00e0 vida pr\u00e1tica, a vida quotidiana, as crian\u00e7as irem para a escola, as pessoas aprenderem portugu\u00eas, perceber que tipo de compet\u00eancias t\u00eam para a sua autonomiza\u00e7\u00e3o. Esse trabalho \u00e9 feito, n\u00e3o podemos esperar que seja o Estado a fazer isso. O Estado tem servi\u00e7os gen\u00e9ricos, na maior parte dos casos, como a Seguran\u00e7a Social.<\/p>\n<p>O\u00a0que percebemos \u00e9 que o acompanhamento, desde logo em proximidade, \u00e9 decisivo para as pessoas se enquadrarem no pa\u00eds que chegam.<\/p>\n<p>Estou a lembrar-me da conversa que tive com as fam\u00edlias que recebemos do Afeganist\u00e3o\u00a0e das\u00a0perguntas que\u00a0fizeram\u00a0sobre Portugal, a refer\u00eancia que\u00a0t\u00eam \u00e9 o Cristiano Ronaldo, pouco\u00a0mais\u2026 h\u00e1 que dizer-lhes como \u00e9 que \u00e9 o pa\u00eds, o clima, contrariar um pouco a ideia de que em Portugal n\u00e3o se passa frio. Passa-se bastante frio, e isso tem custos no consumo energ\u00e9tico para as fam\u00edlias. As pessoas n\u00e3o sabem isto, e depois, quando enfrentam o frio, t\u00eam consumos de energia muito mais elevados do que estavam habituados. S\u00e3o pequenas coisas que fazem a diferen\u00e7a e que ajudam muito quem est\u00e1 no terreno, as institui\u00e7\u00f5es, a gerirem os quotidianos com as fam\u00edlias e as suas expectativas.<\/p>\n<p>Sabemos que\u00a0as pessoas quando chegam t\u00eam uma ideia muito gen\u00e9rica da Europa, tendem muitas vezes, porque t\u00eam familiares noutros pa\u00edses, a comparar e perguntar como \u00e9 que \u00e9 em Portugal,\u00a0portanto, \u00e9 importante que o trabalho que \u00e9 feito pelas institui\u00e7\u00f5es, por quem est\u00e1 no terreno, possa de alguma forma ajudar as pessoas a moldarem as suas expectativas e seu projeto de vida,\u00a0que muitas vezes sofre altera\u00e7\u00f5es, porque as pessoas t\u00eam ideia de que a vida pode correr de determinada maneira, e \u00e0s vezes h\u00e1 dificuldades objectivas que fazem com que os projetos de vida tenham de sofrer adapta\u00e7\u00f5es.\u00a0O\u00a0trabalho das institui\u00e7\u00f5es no terreno,\u00a0do secretariado do JRS ao servi\u00e7o da Plataforma,\u00a0\u00e9 no sentido de ajudar as pessoas no processo de acolhimento, adequa\u00e7\u00e3o ao pa\u00eds em quest\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A integra\u00e7\u00e3o \u00e9 uma palavra muito interessante e bonita, mas \u00e9 um longo caminho.\u00a0Os dados indicam, por exemplo, que pa\u00edses como a Alemanha prev\u00eaem que as pessoas s\u00f3 ao final de oito anos \u00e9 que est\u00e3o integradas no pa\u00eds.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9 a\u00ed que h\u00e1 mais falhas, ou\u00a0que ainda\u00a0h\u00e1 mais caminho a fazer?<\/em><\/p>\n<p>A integra\u00e7\u00e3o come\u00e7a desde logo com a aprendizagem da l\u00edngua.\u00a0As pessoas perceberem que se \u00e9 neste pa\u00eds que v\u00e3o viver t\u00eam de ganhar compet\u00eancias lingu\u00edsticas. A nossa experi\u00eancia diz-nos que as crian\u00e7as e os mais jovens, at\u00e9 por causa do meio escolar, rapidamente conseguem a aprendizagem de l\u00edngua. Nos adultos \u00e0s vezes \u00e9 mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p>No caso das mulheres, sobretudo as oriundas do M\u00e9dio Oriente, n\u00e3o h\u00e1 tradi\u00e7\u00e3o da mulher no mercado de trabalho, e explicarmos \u00e0s pessoas que numa fam\u00edlia &#8211; e s\u00e3o agregados muitas vezes grandes, comparativamente \u00e0 m\u00e9dia nacional &#8211; com quatro filhos, provavelmente os dois membros adultos v\u00e3o ter que trabalhar, isso requer adapta\u00e7\u00e3o, as pessoas v\u00e3o ter que pensar nisso. Naturalmente t\u00eam algumas resist\u00eancias, e \u00e9 preciso fazer um caminho com as pessoas para que isso possa acontecer.<\/p>\n<p>Se for poss\u00edvel manter as coisas &#8211; e se essa for vontade do casal &#8211; minimamente sustent\u00e1veis, com um dos membros apenas a trabalhar, sobretudo quando h\u00e1 crian\u00e7as muito pequenas, se calhar acaba por se justificar e ser suficiente. Mas, na maior parte dos casos n\u00e3o \u00e9 assim. O custo da renda, de habita\u00e7\u00e3o, depois dos 18 meses \u00e9 muito elevado.<\/p>\n<p>A n\u00edvel nacional a habita\u00e7\u00e3o \u00e9 um problema transversal para toda a sociedade portuguesa. Para estas pessoas que t\u00eam de come\u00e7ar do zero, t\u00eam de passar v\u00e1rias provas de supera\u00e7\u00e3o e de resili\u00eancia, a habita\u00e7\u00e3o \u00e9 um grande desafio. Ali\u00e1s, \u00e9 a\u00ed que encontramos algumas dificuldades no final do programa. Entendemos que em popula\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel que vem dos programas de reinstala\u00e7\u00e3o, e j\u00e1 fiz ver isto aos nossos decisores pol\u00edticos: se Portugal acolhe pessoas com n\u00edvel de vulnerabilidade mais grave &#8211; e ainda bem que acolhe, porque estas pessoas precisam -, ent\u00e3o, temos de adequar programas de integra\u00e7\u00e3o porventura um pouco mais longos, sobretudo na primeira etapa.<\/p>\n<p>Uma das tarefas que estamos a ter internamente \u00e9 no sentido de procedermos a altera\u00e7\u00f5es no programa de acolhimento, porque vamos percebendo que \u00e9 necess\u00e1rio adequar melhor os programas no sentido da autonomiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando acolhemos os refugiados temos sempre em vista duas coisas: primeiro, quem s\u00e3o estas pessoas, o que \u00e9 que elas podem fazer, como \u00e9 que podem subsistir como fam\u00edlia, como agregado familiar, como pessoas. Procuramos respeitar ao m\u00e1ximo as suas caracter\u00edsticas, mas tamb\u00e9m apontar para os novos desafios, porque estar num pa\u00eds novo implica mudan\u00e7as.\u00a0Mudan\u00e7as de h\u00e1bitos de trabalho, desafios de vida, e as comunidades de acolhimento n\u00e3o est\u00e3o passivas, nem podem estar.<\/p>\n<p>Ao acolhermos algu\u00e9m n\u00e3o estamos simplesmente a providenciar m\u00ednimos e esperar que as pessoas consigam, por si s\u00f3, enfrentar a vida nova num pa\u00eds que n\u00e3o conhecem, com costumes e h\u00e1bitos diferentes. Portanto, o papel das institui\u00e7\u00f5es de acolhimento n\u00e3o \u00e9 passivo, \u00e9 ativo, mas \u00e9 um papel tamb\u00e9m assente na dimens\u00e3o da empatia, isto \u00e9, procuramos compreender as pessoas perceber que sonhos t\u00eam, que projeto de vida trazem consigo, e trabalharmos com isso, no sentido de procedermos \u00e0s adequa\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para que as pessoas se possam autonomizar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A n\u00edvel europeu vamos vendo que os pa\u00edses n\u00e3o falam todos a uma s\u00f3 voz nesta mat\u00e9ria dos migrantes e dos refugiados. H\u00e1 um ano a Comiss\u00e3o Europeia prop\u00f4s um novo Pacto para as Migra\u00e7\u00f5es e Asilo, que previa procedimentos mais r\u00e1pidos, mais eficazes. Que balan\u00e7o \u00e9 que faz?<\/em><\/p>\n<p>Eu entendo que\u00a0a Uni\u00e3o Europeia tem estado sempre um pouco a reboque dos acontecimentos, tem sido mais reativa do que ativa.<\/p>\n<p>O Pacto Europeu para as Migra\u00e7\u00f5es e Asilo tem muitas limita\u00e7\u00f5es, na nossa perspetiva. H\u00e1, de alguma forma, dificuldade na Europa de criar um consenso e de olhar para as migra\u00e7\u00f5es como algo positivo, como um desafio positivo para a Europa.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c0 Europa ainda n\u00e3o chegou a ideia de que isto n\u00e3o \u00e9 opcional, vai acontecer, e que, j\u00e1 que vai acontecer, que se tente tirar o melhor proveito disso?<\/em><\/p>\n<p>A viagem do Papa \u00e0 Hungria foi muito breve\u2026 \u00c9 importante perceber que do grupo de pa\u00edses europeus que t\u00eam, de alguma forma, resistido &#8211; at\u00e9 de forma incompreens\u00edvel, porque historicamente foram pa\u00edses que foram muito ajudados do ponto de vista da integra\u00e7\u00e3o. Mas, dito isto: a visita do Papa a dois destes pa\u00edses que formam o Grupo de Visegrado\u00a0(Hungria, Pol\u00f3nia, Rep\u00fablica Checa e Eslov\u00e1quia) &#8211; que se op\u00f5e a que a Europa seja aberta ao acolhimento de migrantes e de refugiados \u2013 vai no sentido, justamente, deste lema que hoje celebramos no (107\u00ba) Dia Mundial do Migrante e do Refugiado: \u2018Rumo a um \u201cN\u00f3s\u201d cada vez maior\u2019.<\/p>\n<p>O Papa tem a preocupa\u00e7\u00e3o de, em primeiro lugar, renovar um esp\u00edrito muitas vezes de resist\u00eancia, \u00e0s vezes mal fundado numa ideia de cristandade resistente ao invasor, ao \u2018outro\u2019. E o Papa vem dizer que esse \u2018outro\u2019 s\u00f3 existe na nossa imagina\u00e7\u00e3o.\u00a0O objetivo da humanidade, e o papel da Igreja, \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de um \u2018N\u00f3s\u2019 cada vez maior. Independentemente do outro ter outra f\u00e9, ou um outro quadro cultural, o papel dos crist\u00e3os \u00e9 participar no acolhimento e na hospitalidade e no encontro entre pessoas.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, deixe-me dizer que na pr\u00f3xima semana iremos estar a trabalhar ativamente com v\u00e1rios l\u00edderes religiosos e pessoas de outras religi\u00f5es, numa semana dedicada ao di\u00e1logo inter-religioso. A aposta tem de ser no di\u00e1logo, em conhecermo-nos melhor, mas tamb\u00e9m nas medidas concretas da Uni\u00e3o Europeia tem de haver uma pol\u00edtica que proteja os migrantes, que crie condi\u00e7\u00f5es para migra\u00e7\u00f5es legais e seguras, que proteja aqueles que n\u00e3o podendo migrar, e n\u00e3o o conseguindo fazer de forma segura e legal, recorram a vias ilegais, tantas vezes perigosas, que causam milhares de v\u00edtimas.<\/p>\n<p>A primeira visita do Papa Francisco no seu pontificado foi a Lampedusa. Olhando para todos aqueles caix\u00f5es, centenas de mortos que aparecem no Mediterr\u00e2neo \u2013 e porventura neste dia em que falamos isto pode estar a acontecer -, esta visita marcou e marca o seu pontificado. Isto \u00e9: o papel da Igreja \u00e9 marcar um sentido, uma dire\u00e7\u00e3o. O papel dos pol\u00edticos \u00e9, ouvindo isso, de alguma forma sentindo-se cativados por essa mensagem, possam construir o tal \u201cN\u00f3s\u201d cada vez maior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E como \u00e9 que se constr\u00f3i esse \u201cN\u00f3s cada vez maior\u201d?<\/em><\/p>\n<p>Eliminando barreiras que impe\u00e7am que os mais vulner\u00e1veis possam aceder \u00e0 seguran\u00e7a, por exemplo, criando condi\u00e7\u00f5es para migra\u00e7\u00f5es legais e seguras. Estou a lembrar-me das situa\u00e7\u00f5es que vivemos ao longo deste tempo de pandemia em Portugal, em que verific\u00e1mos situa\u00e7\u00f5es de requerentes de asilo em condi\u00e7\u00f5es insalubres, em que havia focos de Covid, ou outras situa\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 explora\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, que s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es que genericamente vemos em toda a Europa.<\/p>\n<p>As pessoas que est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel, que s\u00e3o muitas vezes exploradas no pa\u00eds de origem e empurradas para fora, n\u00e3o t\u00eam hip\u00f3teses de viver nos pa\u00edses onde nasceram e cresceram, e saem em busca de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida. Ou ent\u00e3o s\u00e3o perseguidas e s\u00e3o v\u00edtimas de todo o tipo de abuso ou de guerras, e t\u00eam que sair.<\/p>\n<p>Nos pa\u00edses de tr\u00e2nsito, boa parte dos migrantes e refugiados \u00e9 v\u00edtima de abusos graves dos seus direitos fundamentais. Encontramos muitas vezes nas fronteiras \u2013 como a fronteira da Europa que \u00e9 grande, a Leste e a Sul -, zonas muitas vezes de viol\u00eancia, como ainda hoje temos nas fronteiras da Gr\u00e9cia com a B\u00f3snia, por exemplo. A pr\u00f3pria Uni\u00e3o Europeia, de alguma forma, \u201cesterilizou\u201d as suas fronteiras, pagou a alguns pa\u00edses no passado &#8211; \u00e0 L\u00edbia, por exemplo &#8211; para que se contivesse os migrantes nessas zonas, em condi\u00e7\u00f5es extremamente violentas.<\/p>\n<p>O acordo entre a Uni\u00e3o e a Turquia, na nossa opini\u00e3o, tem muitas zonas escur\u00edssimas,\u00a0j\u00e1 n\u00e3o digo cinzentas, em que n\u00e3o h\u00e1 garantia de que os standards que temos para os nossos concidad\u00e3os sejam minimamente aplicados nesses pa\u00edses. Portanto, n\u00f3s\u00a0n\u00e3o podemos estar satisfeitos com uma pol\u00edtica migrat\u00f3ria apenas\u00a0assente na ideia de conten\u00e7\u00e3o,\u00a0pagar a governos dos quais temos as maiores d\u00favidas quanto \u00e0s suas virtudes democr\u00e1ticas e prote\u00e7\u00e3o dos direitos, procurando garantir que as pessoas n\u00e3o saem de l\u00e1, e depois ficarmos sempre ref\u00e9ns de chantagens, como aconteceu recentemente com a Turquia: \u201cse n\u00e3o d\u00e3o mais dinheiro, n\u00f3s abrimos a fronteira\u201d, e coisas deste g\u00e9nero, que criam sempre algum alarme entre os pa\u00edses.<\/p>\n<p>Depois tamb\u00e9m a dimens\u00e3o da solidariedade intraeuropeia, isto \u00e9, pa\u00edses do sul da Europa, como Gr\u00e9cia, Malta, It\u00e1lia, t\u00eam sido pa\u00edses mais penalizados, por causa da sua posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica. Tem havido uma dificuldade de lideran\u00e7a na Europa capaz de poder compensar estes pa\u00edses pelo impacto que t\u00eam no acolhimento de migrantes, e entendemos que \u00e9 poss\u00edvel fazer melhor nessa mat\u00e9ria, e haver uma redistribui\u00e7\u00e3o, uma verdadeira solidariedade intraeuropeia, capaz de providenciar \u00e0s pessoas que procuram prote\u00e7\u00e3o e trabalho na Europa, que o possam fazer de forma segura e condigna.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Coordenador da Plataforma de Apoio aos Refugiados fala do papel \u201cdecisivo\u201d das institui\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas no acolhimento em Portugal, mas tamb\u00e9m das 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