{"id":2175,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/semana-nacional-das-migracoes-homilia-de-d-januario\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"semana-nacional-das-migracoes-homilia-de-d-januario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/semana-nacional-das-migracoes-homilia-de-d-januario\/","title":{"rendered":"Semana Nacional das Migra\u00e7\u00f5es &#8211; Hom\u00edlia de D. Janu\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p>1. O forasteiro, que se intrometeu no meio dos disc\u00edpulos, s\u00f3 mais tarde apresentou o seu cart\u00e3o de identidade \u201cao aben\u00e7oar, partir e servir p\u00e3o\u201d (Lc. 24, 13-16;28-35). J\u00e1 antes, diante do grupo dos ap\u00f3stolos e na ceia comemorativa da liberdade de um povo, transformara uma liturgia de saudade num culto de mudan\u00e7a em todos os instantes e lugares: \u201cTodas as vezes que comerdes deste p\u00e3o&#8230; lembrareis a morte do Senhor\u201d (1\u00aa COR. 11, 23-26). \u00c9 a mesma presen\u00e7a do Invis\u00edvel que diz a Mois\u00e9s, no regresso dos escravos do Egipto: \u201cVou fazer chover p\u00e3o do alto do C\u00e9u\u201d (Ex. 16, 12-15).   2. Este n\u00e3o \u00e9 o p\u00e3o de um povo \u201cem salto\u201d, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o p\u00e3o buscado pelos emigrantes de h\u00e1 sessenta, cinquenta ou vinte anos, os quais hoje, apesar de em bem menor n\u00famero, mas com n\u00e3o menos ang\u00fastia, continuam a bater \u00e0 porta de tantos pa\u00edses. Mas este \u00e9 e foi sempre o p\u00e3o sonhado nas noites e dias excessivos de trabalho, de tantos ex\u00edlios.  O p\u00e3o, que por causa do qual, cerca de cinco milh\u00f5es de portugueses de c\u00e1 sa\u00edram; o que lhes dava a nossa terra era suficiente, em muitos casos, para enganar a fome, mas bem escasso para quem nasceu para se respeitar a si pr\u00f3prio e aos seus! O p\u00e3o das nossas casas, sinal de acolhimento junto de quem, encontrando sempre lugar \u00e0 mesa, se tornava companheiro e irm\u00e3o. Este \u00e9 o p\u00e3o escolhido e transformado em Corpo de Jesus, filho de Maria, o qual hoje nos congrega no Santu\u00e1rio de F\u00e1tima, nesta Semana Nacional das Migra\u00e7\u00f5es, sob o lema \u201cTodos os povos s\u00e3o uma s\u00f3 fam\u00edlia\u201d. Conforme o apelo do Papa Jo\u00e3o Paulo na Mensagem para o \u201cDia Mundial dos Migrantes e Refugiados\u201d: \u201cQue Nossa Senhora nos ajude a testemunhar, com a nossa vida, Jesus Cristo, o Qual, atrav\u00e9s de n\u00f3s, deseja continuar a sua obra de liberta\u00e7\u00e3o de todas as formas de discrimina\u00e7\u00e3o, de rejei\u00e7\u00e3o e de marginalidade\u201d.   3. Que os portugueses residentes no estrangeiro sintam a ternura do seu pa\u00eds, e a f\u00e9 da Igreja, no partir do p\u00e3o, no distribui-lo aos mais desamparados, na sua miss\u00e3o de intelig\u00eancia fraterna e de liberdade inconformista, nunca desligando os combates pela sobreviv\u00eancia humana do sacramento da Eucaristia, onde depositamos o trigo e o vinho do nosso labor. Sa\u00fado os Senhores Bispos de Leiria-F\u00e1tima, de Bragan\u00e7a e de S. Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe.  Para o Senhor Bispo da diocese de Cr\u00e9teil, Monseigneur Daniel Labille, que preside a esta peregrina\u00e7\u00e3o, a express\u00e3o grata e fraterna pela alegria da sua presen\u00e7a. Para os portugueses(as) da sua diocese, para todos os sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos das v\u00e1rias comunidades migrantes, os nossos mais cordiais cumprimentos em nome da fraternidade que nos une.  4. \u00c0 semelhan\u00e7a dos disc\u00edpulos de Ema\u00fas, do povo de Israel no deserto e das comunidades eucar\u00edsticas da Igreja nascente, h\u00e1 hoje sectores e meios, entre n\u00f3s, em extremo desconforto. Como estar\u00e3o as fam\u00edlias das pessoas falecidas nos inc\u00eandios destes dias?  Como estar\u00e1 quem perdeu os haveres da sua pen\u00faria? E as terras e localidades do pa\u00eds, batidas pela trag\u00e9dia, da qual jamais esquecer\u00e3o o medo e a desconfian\u00e7a? Como se sentir\u00e3o os her\u00f3icos bombeiros, e demais pessoas que com eles colaboraram, diante da impot\u00eancia das circunst\u00e2ncias e da falta do necess\u00e1rio para proteger vidas e a natureza? Como estar\u00e3o os estrangeiros, a viverem em Portugal, os quais, ap\u00f3s terem pago os impostos, descontado para a seguran\u00e7a social e com trabalho assegurado (e que o n\u00e3o tivessem&#8230;), ouvem da frieza de uma lei: \u201cV\u00e3o-se embora\u201d&#8230;?!? E como reagir\u00e3o estas mesmas pessoas, quando, volvido algum tempo, tomam conhecimento de que, a outros imigrantes, tudo lhes \u00e9 facilitado para permanecerem, quando para eles, e para os demais, o futuro come\u00e7a a perder o sentido? Como ser\u00e1 a vida de tantos imigrantes em Portugal, roubados, desprotegidos, marginalizados, os quais, no auge da fraqueza, chegam a pedir para serem presos, porque, ao menos a\u00ed, t\u00eam uma tarimba para dormir e alimento para sobreviver? Com certeza que, ao contr\u00e1rio destes casos, temos exemplos corajosos de pessoas e comunidades, do ponto de vista humano e crist\u00e3o. Temo-lo referido muitas vezes. Mas clamamos em nome do esfor\u00e7o evangelizador: os aflitos e os doentes n\u00e3o se curam com estat\u00edsticas da boa consci\u00eancia! Somos capazes de, por car\u00eancia de eventuais recursos econ\u00f3micos, recusar emprego a quem incumbiria zelar tamb\u00e9m pelo desenvolvimento do pa\u00eds. Mas o dinheiro, que n\u00e3o foi dispendido em fun\u00e7\u00f5es de vigil\u00e2ncia e preven\u00e7\u00e3o, resulta sempre em despesas muito mais onerosas! Tinha raz\u00e3o Nossa Senhora, aqui em F\u00e1tima: \u201cMudai de vida. Mudai a forma de pensar e o modo de proceder\u201d. A justi\u00e7a e a solidariedade para com homens e mulheres, vindos de terras estranhas, s\u00e3o as mesmas que devemos tributar, nesta hora, a popula\u00e7\u00f5es dizimadas pelo fogo, \u00e0s quais o Papa se uniu em ora\u00e7\u00e3o, no passado domingo, em Castelgandolfo.  Deixo aqui um apelo para que todos colaboremos generosamente com a actual campanha da Caritas Nacional e da R\u00e1dio Renascen\u00e7a.   5. Deixemos entrar Jesus Cristo em n\u00e3o poucos dom\u00ednios em crise de confian\u00e7a diante de pessoas e de institui\u00e7\u00f5es. Que a mesa da P\u00e1tria tenha sempre lugar para quem mais precisa. N\u00e3o se trata de facilitismo. Nem de infundamentada utopia. Trata-se de saber responder aos vazios da justi\u00e7a. Que n\u00e3o haja discrimina\u00e7\u00e3o entre grupos geogr\u00e1ficos de imigrantes. Que Portugal se torne presente junto dos seus cidad\u00e3os a residirem no estrangeiro. Que uma pastoral muito mais ampla acolha e promova todos os aspectos da vida migrante. \u201cO p\u00e3o que o diabo amassou\u201d, ganho em circunst\u00e2ncias t\u00e3o \u00fanicas, \u00e9 o p\u00e3o convertido no Corpo de Jesus, filho de Maria. Celebrar a Eucaristia \u00e9 celebrar a Esperan\u00e7a, nesta intranquilidade diante do que h\u00e1 a transformar no cora\u00e7\u00e3o de cada um de n\u00f3s e do Portugal de hoje. S\u00f3 a justi\u00e7a e o amor nos guardar\u00e3o!  F\u00e1tima, 12 de Agosto de 2003 Janu\u00e1rio Torgal Mendes Ferreira <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. O forasteiro, que se intrometeu no meio dos disc\u00edpulos, s\u00f3 mais tarde apresentou o seu cart\u00e3o de identidade \u201cao aben\u00e7oar, partir e servir p\u00e3o\u201d (Lc. 24, 13-16;28-35). 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