{"id":21593,"date":"2006-12-11T11:57:44","date_gmt":"2006-12-11T11:57:44","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/12\/11\/adao-onde-estas\/"},"modified":"2006-12-11T11:57:44","modified_gmt":"2006-12-11T11:57:44","slug":"adao-onde-estas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/adao-onde-estas\/","title":{"rendered":"Ad\u00e3o, onde est\u00e1s?"},"content":{"rendered":"<p>Homilia de D. Jo\u00e3o Miranda Teixeira, Administrador Apost\u00f3lico da Diocese do Porto, na celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica da Solenidade de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o <!--more--> Ad\u00e3o, onde est\u00e1s? A mulher que puseste a meu lado deu-me daquela \u00e1rvore e eu comi. Ave, \u00f3 cheia de gra\u00e7a, o Senhor \u00e9 contigo\u2026 Eu sou a SERVA do Senhor. Fa\u00e7a-se em mim segundo a tua palavra!  Celebramos a Solenidade de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o, Padroeira principal de Portugal. Duas imagens sublimes nos ajudam a compreender melhor o \u201cmist\u00e9rio de Maria Imaculada\u201d. A primeira imagem est\u00e1 contida no relato que nos faz o livro do G\u00e9nesis. O primeiro homem comeu do fruto proibido. E fugiu das vistas de Deus. Como se fora poss\u00edvel. Mas Iaweh foi \u00e0 procura ele: Ad\u00e3o, onde est\u00e1s? Tive medo, porque estava nu e fugi.  Segue-se o an\u00fancio um tanto misterioso &#8211; e a que se chamou proto-evangelho &#8211; dirigido \u00e0 mulher. Ela desculpou-se com a tenta\u00e7\u00e3o da serpente: A serpente enganou-me e eu comi. Ent\u00e3o Deus disse \u00e0 serpente: Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua linhagem e a linhagem dela. Ela te esmagar\u00e1 a cabe\u00e7a. Aqui come\u00e7ou, em linguagem simb\u00f3lica, o drama da humanidade: O homem a desculpar-se com a mulher, a mulher a lan\u00e7ar as culpas para a serpente e os dois a fugirem com medo de Deus. O drama humano continua nos nossos dias. Ad\u00e3o foge de Deus. O homem n\u00e3o confia em Deus. Tentado pelas palavras da serpente, alimenta a suspeita de Deus, v\u00ea n\u2019Ele um concorrente. O homem moderno vai muitas vezes na onda de que ter Deus a nosso lado \u00e9 uma depend\u00eancia e quer libertar-se a todo o custo dessa depend\u00eancia. Quer ir buscar ele mesmo \u00e0 \u00e1rvore da ci\u00eancia o poder de fazer o mundo pelas suas pr\u00f3prias m\u00e3os, sem nenhuma liga\u00e7\u00e3o ao Criador. N\u00e3o quer contar com o amor, mas unicamente com a ci\u00eancia, dado que ela lhe confere o poder (cf. Bento XVI, 8 de Dezembro de 2005). Nas palavras de Bento XVI, esta hist\u00f3ria do princ\u00edpio do mundo \u00e9 a hist\u00f3ria de todos os tempos e significa que todos trazemos dentro de n\u00f3s pr\u00f3prios uma gota de veneno daquele modo de pensar. A esta gota de veneno chamamos pecado original. O pecado original foi um veneno que entrou na estirpe humana. A segunda imagem est\u00e1 contida no evangelho de S. Lucas. A mulher, Eva, foi conivente na culpa original. Por isso, Deus quis que fosse outra Mulher, Maria, o princ\u00edpio da realiza\u00e7\u00e3o da promessa de um Redentor, dando \u00e0 luz o Novo Ad\u00e3o. Da\u00ed que o an\u00fancio obscuro do proto-evangelho seja mais bem explicado na narrativa de S. Lucas sobre a visita do Anjo Gabriel: Ave, \u00f3 cheia de gra\u00e7a, o Senhor \u00e9 contigo, bendita \u00e9s tu entre as mulheres\u2026 Deus foi buscar uma outra estirpe, sem o veneno original, para que dela surgisse uma ra\u00e7a nova. Maria \u00e9 o primeiro elo dessa cadeia que tem o seu centro em Cristo nascido de uma mulher. Porei inimizade entre ti (serpente) e a mulher (Maria), entre a tua descend\u00eancia e a descend\u00eancia dela. A descend\u00eancia de Maria \u00e9 Cristo. Ela \u00e9 a IMACULADA. A sauda\u00e7\u00e3o do Anjo faz-nos ver que Maria traz em si o grande patrim\u00f3nio de Israel, ela \u00e9 o \u201csanto resto de Israel\u201d, ao qual se referiram frequentemente os profetas. O Senhor habita nela e nela encontra o lugar do seu repouso. Ela \u00e9 a casa viva de Deus\u2026 Ela \u00e9 o rebento que, na obscura noite invernal da hist\u00f3ria, brota do tronco abatido de David\u2026 Ela \u00e9 o bot\u00e3o do qual deriva a \u00e1rvore da reden\u00e7\u00e3o e dos redimidos. Deus n\u00e3o fracassou, como poderia parecer j\u00e1 no in\u00edcio da hist\u00f3ria de Ad\u00e3o e Eva\u2026 Na humilde casa de Nazar\u00e9 vive o Israel santo, o resto puro. Deus salvou e salva o seu povo (Bento XVI, 8\/12\/05, p\u00e1g. 2). S. Paulo escreveu: Pela falta de um s\u00f3 homem resultou a condena\u00e7\u00e3o de todos os homens. Mas tamb\u00e9m pela obra de justi\u00e7a de um s\u00f3 homem resultou para todos os homens a salva\u00e7\u00e3o. O Salvador \u00e9 Jesus Cristo. Maria \u00e9 a M\u00e3e do Salvador. Mas Ele quis nascer de uma mulher virgem e santa desde a sua concep\u00e7\u00e3o.  Tamb\u00e9m Ad\u00e3o e Eva tinham sido elevados ao estado sobrenatural, mas perderam-no, por terem bebido o veneno da culpa. Imaculada Concei\u00e7\u00e3o significa que a Bem aventurada Virgem Maria foi preservada e isenta (praeservatam imunem) de toda a mancha do pecado original, desde o primeiro instante da sua concep\u00e7\u00e3o, por uma gra\u00e7a singular e um privil\u00e9gio de Deus, em virtude dos m\u00e9ritos de Cristo Jesus, Salvador do g\u00e9nero humano (cf. Nicolas, Th\u00e9otokos, pg.121). De Maria, humilde serva do Senhor, nasceu Jesus: O Verbo fez-se carne e habitou entre n\u00f3s. O privil\u00e9gio de Maria aconteceu, porque ela estava chamada a ser a m\u00e3e do Redentor. Estamos em pleno tempo de Advento. Maria tem aqui um lugar privilegiado. N\u00e3o s\u00f3 nos d\u00e1 Jesus como colabora activamente na obra da reden\u00e7\u00e3o da humanidade. Sendo M\u00e3e de Cristo cabe\u00e7a, ela \u00e9 M\u00e3e do Cristo total, de que n\u00f3s somos parte: a Igreja que Deus quer santa e imaculada como est\u00e1 nos planos divinos. A Concei\u00e7\u00e3o Imaculada de Maria \u00e9 um apelo a realizarmos em n\u00f3s o que escreveu S. Paulo: Deus Pai escolheu-nos antes da cria\u00e7\u00e3o do mundo, para sermos santos e irrepreens\u00edveis diante d\u2019Ele na caridade (Ef\u00e9sios 1,3-4). Fomos escolhidos para sermos santos. \u00c9 por Cristo que chegaremos l\u00e1. Mas n\u00e3o chegaremos sem Maria: Ela \u00e9 a M\u00e3e que conduz ao Filho. A palavra \u201csanto\u201d causa calafrios a muita gente. Parece uma bizarria dos s\u00e9culos passados. Porque n\u00f3s entronizamos os Santos e damos-lhe, mesmo na arte, uma atitude parada de quem atingiu o cume e n\u00e3o se mexe mais. E os santos n\u00e3o foram nada disso. Entrar no mist\u00e9rio de Cristo \u00e9 pormo-nos ao servi\u00e7o do Reino de Deus e da sua justi\u00e7a. \u00c9 entender esta tarefa como uma voca\u00e7\u00e3o e uma miss\u00e3o que toca no mais fundo da alma. O mundo est\u00e1 cansado de palavras e de conversa. Est\u00e1 cansado de gestos ruidosos daqueles que querem sempre o primeiro lugar. Maria, ao ser chamada pelo Anjo de Deus, declarou-se SERVA. A Igreja dos nossos dias, para ser cred\u00edvel, tem de imitar esse voto do evangelho que o conc\u00edlio retomou com vigor: Bem aventurados os pobres, os simples, os que choram, os aflitos\u2026 Claro que assumir uma atitude dessas \u00e9 ir contra a corrente. Mas n\u00e3o foi isso que Cristo fez? N\u00e3o ser\u00e1 isso que devemos anunciar? Se n\u00e3o caminhamos nesta senda, seremos como o c\u00edmbalo que tine. As nossas comunidades paroquiais, os movimentos e obras da Igreja e cada um de n\u00f3s n\u00e3o podemos limitar-nos aos gestos lit\u00fargicos e passar alheios ao que acontece no mundo e, quem sabe, diante da nossa porta. E tamb\u00e9m n\u00e3o basta derramar l\u00e1grimas de crocodilo.  Os gestos lit\u00fargicos de canto \u00e0 Virgem, de abra\u00e7o da paz, de comunh\u00e3o sacramental implicam gestos concretos de vida, de convers\u00e3o, de partilha fraterna, de reconcilia\u00e7\u00e3o familiar. \u00c9 por a\u00ed que passa a voca\u00e7\u00e3o \u00e0 santidade e a miss\u00e3o eclesial de imitar a Imaculada Concei\u00e7\u00e3o e testemunhar Cristo vivo no homem vivo. A liturgia que celebramos hoje  torna presente nesta Assembleia a mesma for\u00e7a de gra\u00e7a do Esp\u00edrito Santo que preservou Maria do pecado original e a levou a ser fiel \u00e0 vontade de Deus at\u00e9 ao fim, at\u00e9 \u00e0 cruz, at\u00e9 ao Cen\u00e1culo e ao in\u00edcio da primeira comunidade de crist\u00e3os. Somos chamados \u00e0 santidade de vida. N\u00e3o podemos imitar Maria na pureza da sua Concei\u00e7\u00e3o. Mas podemos segui-la na fidelidade a Cristo, na sua condi\u00e7\u00e3o de disc\u00edpula, na sua peregrina\u00e7\u00e3o de f\u00e9. Precisamos hoje de santos comuns.  Precisamos tamb\u00e9m de voca\u00e7\u00f5es decididas masculinas e femininas, para o servi\u00e7o simples e pobre do reino dos deserdados, dos pecadores, dos que n\u00e3o t\u00eam poder nem dinheiro para uma vida digna. Ao lado desses \u00e9 que deve estar a igreja, sem fugir a anunciar as bem-aventuran\u00e7as aos endinheirados e poderosos deste mundo como fez Cristo, quando visitou Zaqueu, Mateus ou o Fariseu rico. A Igreja n\u00e3o busca poderes. Busca sim imitar o seu Redentor que, no Natal do Verbo de Deus, celebra a festa d\u2019Aquele que sendo rico se fez pobre por nossa causa. O servi\u00e7o da evangeliza\u00e7\u00e3o e o servi\u00e7o ao mundo moderno h\u00e1-de ser marcado por esta ins\u00edgnia: quando sou fraco \u00e9 que sou forte, quando me ponho ao lado dos mais pobres \u00e9 que sirvo e amo a Cristo Senhor. Maria \u00e9 o exemplo acabado da Serva que se p\u00f5e ao servi\u00e7o do seu Senhor: Fa\u00e7a-se em mim, segundo a tua Palavra!  S\u00e9 do Porto, 8 Dezembro 2006 <i>D. Jo\u00e3o Miranda Teixeira, Administrador Apost\u00f3lico da Diocese do Porto<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia de D. Jo\u00e3o Miranda Teixeira, Administrador Apost\u00f3lico da Diocese do Porto, na celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica da Solenidade de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[100,120,187,231,246,267,285],"class_list":["post-21593","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-advento","tag-bento-xvi","tag-diocese-do-porto","tag-imaculada-conceicao","tag-liturgia","tag-natal","tag-patrimonio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21593","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21593"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21593\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21593"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21593"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21593"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}