{"id":21527,"date":"2006-12-05T16:40:15","date_gmt":"2006-12-05T16:40:15","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/12\/05\/a-eucaristia-dom-de-deus-para-a-vida-do-mundo\/"},"modified":"2006-12-05T16:40:15","modified_gmt":"2006-12-05T16:40:15","slug":"a-eucaristia-dom-de-deus-para-a-vida-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-eucaristia-dom-de-deus-para-a-vida-do-mundo\/","title":{"rendered":"<i>A Eucaristia, dom de Deus para a vida do mundo<\/i>"},"content":{"rendered":"<p>Documento Teol\u00f3gico de Base para o Congresso Eucar\u00edstico Internacional de Quebeque. Canad\u00e1 \u2013 2008 <!--more--> <b>Introdu\u00e7\u00e3o<\/b> \u201cFazer a mem\u00f3ria de Deus hoje\u201d O Congresso Eucar\u00edstico Internacional de Junho de 2008 em Quebeque oferecer\u00e1 \u00e0 Igreja local e \u00e0 Igreja universal um tempo forte de ora\u00e7\u00e3o e de reflex\u00e3o para celebrar o dom da Sagrada Eucaristia. Sendo o 49\u00ba na s\u00e9rie de congressos que marcaram a vida da Igreja no espa\u00e7o de um s\u00e9culo, o Congresso de Quebeque coincidir\u00e1 com o 400\u00ba anivers\u00e1rio da funda\u00e7\u00e3o da primeira cidade francesa na Am\u00e9rica do Norte, chamada a tornar-se no s\u00e9culo XVII um posto mission\u00e1rio importante para o conjunto do continente. O Congresso Eucar\u00edstico ser\u00e1 uma Statio Orbis, express\u00e3o que significa uma celebra\u00e7\u00e3o da Igreja Universal atrav\u00e9s do convite da Igreja local de Quebeque, para fazer mem\u00f3ria do dom de Deus que \u00e9 a eucaristia oferecida a toda a humanidade. A cidade de Quebeque, com a sua divisa \u201cO Dom de Deus, farei render\u201d, est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria de um povo cujo lema proclama: \u201cRecordo-me\u201d. Esta divisa recorda a palavra que Jesus deixou aos seus ap\u00f3stolos na \u00faltima Ceia: \u201cFazei isto em mem\u00f3ria de mim\u201d A Eucaristia recorda a P\u00e1scoa do Senhor, \u00e9 o seu \u201cmemorial\u201d no sentido b\u00edblico do termo que significa n\u00e3o somente recorda\u00e7\u00e3o mas presen\u00e7a do acontecimento salv\u00edfico. O Congresso Eucar\u00edstico ser\u00e1 uma ocasi\u00e3o privilegiada para prestar homenagem a este dom de Deus no centro da vida crist\u00e3 e para recordar as ra\u00edzes crist\u00e3s de muitos pa\u00edses que esperam uma nova evangeliza\u00e7\u00e3o. A Eucaristia alimentou o an\u00fancio do Evangelho e o encontro das civiliza\u00e7\u00f5es europeia e aut\u00f3ctone neste continente. Ela permanece ainda hoje como fermento de cultura e uma garantia de esperan\u00e7a para o futuro do mundo em vias de globaliza\u00e7\u00e3o.  \u201cA aspira\u00e7\u00e3o do mundo por liberdade e amor\u201d O tema central do Congresso aprovado pelo papa Bento XVI \u00e9: A Eucaristia, dom de Deus para a vida do mundo. \u00c9 particularmente importante fazer mem\u00f3ria hoje do dom de Deus, porque o mundo actual conhece, no meio de progressos t\u00e9cnicos not\u00e1veis, nomeadamente no dom\u00ednio das comunica\u00e7\u00f5es, um vazio interior dram\u00e1tico, vivido como uma aus\u00eancia de Deus. Fascinado pelas suas pr\u00f3prias exibi\u00e7\u00f5es criativas, o homem contempor\u00e2neo tende com efeito a esquecer o seu Criador e a colocar-se como o \u00fanico senhor do seu pr\u00f3prio destino. Esta tenta\u00e7\u00e3o de substituir Deus n\u00e3o anula contudo a aspira\u00e7\u00e3o de infinito que o habita e os valores aut\u00eanticos que ele se esfor\u00e7a por cultivar, mesmo que tragam riscos de desvio. O apre\u00e7o pela liberdade, o cuidado pela igualdade, o ideal da solidariedade, a abertura \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o sem fronteiras, a capacidade t\u00e9cnica e a protec\u00e7\u00e3o do ambiente s\u00e3o valores ineg\u00e1veis que suscitam a admira\u00e7\u00e3o, honram o mundo actual e produzem frutos de justi\u00e7a e fraternidade.  \u201cO drama dum humanismo que esqueceu Deus\u201d Al\u00e9m disso, o esquecimento do Criador leva ao risco de fechar o homem em si mesmo, num egocentrismo que cria incapacidade de amar e de se comprometer de maneira est\u00e1vel, conduzindo a uma frustra\u00e7\u00e3o crescente da aspira\u00e7\u00e3o universal ao amor e \u00e0 liberdade. Por que o homem, criado \u00e0 imagem de Deus e para a comunh\u00e3o com Ele, \u201cn\u00e3o pode plenamente encontrar-se sen\u00e3o pelo dom desinteressado de si mesmo\u201d (1). O desabrochar da sua personalidade passa pelo dom de si mesmo que significa abertura ao outro, acolhimento e respeito da vida.  Mas o homem de hoje rejeita sem cessar os limites postos ao seu dom\u00ednio na transmiss\u00e3o e no fim da vida. A intromiss\u00e3o descontrolada sobre este poder de vida e de morte, embora tecnicamente poss\u00edvel, amea\u00e7a perigosamente o pr\u00f3prio homem. Porque, usando a forte express\u00e3o do papa Jo\u00e3o Paulo II, uma \u201ccultura de morte\u201d imp\u00f5e-se em muitas sociedades secularizadas. A morte de Deus na cultura conduz quase inevitavelmente \u00e0 morte do homem, o que pode ser constatado n\u00e3o somente nas correntes de pensamento nihilista, mas sobretudo nas rela\u00e7\u00f5es conflituais e nos fen\u00f3menos de ruptura que se multiplicam a todos os n\u00edveis da experi\u00eancia humana, perturbando o casamento e a fam\u00edlia, multiplicando os conflitos \u00e9tnicos e sociais e aumentando o afastamento entre ricos e a imensa maioria dos pobres. Apesar da consci\u00eancia mais afinada sobre a dignidade do homem e dos seus direitos, assiste-se \u00e0 multiplica\u00e7\u00e3o da viola\u00e7\u00e3o destes direitos um pouco por todo o planeta; acumulam-se as armas de destrui\u00e7\u00e3o maci\u00e7a, contradizendo os discursos de paz; uma concentra\u00e7\u00e3o crescente de bens materiais em poucas m\u00e3os, hipoteca o fen\u00f3meno da globaliza\u00e7\u00e3o, enquanto as necessidades fundamentais das massas empobrecidas s\u00e3o vergonhosamente ignoradas. A paz do mundo est\u00e1 amea\u00e7ada pela injusti\u00e7a e a mis\u00e9ria, e o terrorismo torna-se cada vez mais a arma dos desesperados.  No plano religioso, o homem de hoje n\u00e3o quer mais submeter-se como outrora a uma autoridade que lhe dite o seu procedimento. V\u00ea-se confrontado pela circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o com uma multid\u00e3o de cren\u00e7as e com uma dificuldade crescente de transmitir \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es a heran\u00e7a recebida da sua pr\u00f3pria tradi\u00e7\u00e3o religiosa. A f\u00e9 crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 excep\u00e7\u00e3o, muito mais ainda quando a sua transmiss\u00e3o assenta sobre uma revela\u00e7\u00e3o que escapa ao controle da raz\u00e3o. Cioso do bem excelente que \u00e9 a sua pr\u00f3pria liberdade, o homem elabora a sua pr\u00f3pria espiritualidade desligada da religi\u00e3o, cedendo assim por vezes \u00e0 inclina\u00e7\u00e3o excessivamente individualista das culturas democr\u00e1ticas contempor\u00e2neas. A sagrada eucaristia cont\u00e9m o essencial da resposta crist\u00e3 ao drama de um humanismo que perdeu a sua refer\u00eancia constitutiva a Deus criador e salvador. Ela \u00e9 a mem\u00f3ria de Deus em acto de salva\u00e7\u00e3o. Memorial da morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo ela traz ao mundo o Evangelho da paz definitiva, que permanece contudo um objecto de esperan\u00e7a na vida presente. Celebrando a sagrada eucaristia, em nome de toda a humanidade resgatada por Jesus Cristo, a Igreja acolhe o dom de Deus que ele prometeu: \u201cO Esp\u00edrito Santo que o Pai enviar\u00e1 em meu nome vos ensinar\u00e1 todas as coisas e vos recordar\u00e1 tudo o que vos disse\u201d (Jo 14,26). \u00c9 o pr\u00f3prio Deus que em definitivo, recorda a alian\u00e7a com a humanidade e que se d\u00e1 em alimento de vida eterna. \u201cEle recorda-se do seu amor\u201d, canta a Virgem Maria no seu Magnificat (Lc 1,54).  <b>I PARTE A  Sagrada  Eucaristia, o Dom de Deus<\/b> <i>I \u2013 A Eucaristia, Dom de Deus por excel\u00eancia<\/i> A.\t\u2013 No centro e no cume da hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o \u201cA Igreja recebeu a Eucaristia de Cristo seu Senhor n\u00e3o como um dom, por precioso que ele seja, entre muito outros, mas como o dom por excel\u00eancia, porque ele \u00e9 o dom de si mesmo, da sua pessoa na sua santa humanidade, e da sua obra de salva\u00e7\u00e3o\u201d. (2) O servo de Deus Jo\u00e3o Paulo II concluiu e coroou o seu longo pontificado durante o Ano da Eucaristia que ele instituiu na sequ\u00eancia da sua enc\u00edclica Ecclesia de Eucharistia. Ele queria reavivar no cora\u00e7\u00e3o da Igreja a admira\u00e7\u00e3o pelo dom por excel\u00eancia, da sagrada eucaristia e suscitar uma renova\u00e7\u00e3o da adora\u00e7\u00e3o deste sacramento que cont\u00e9m a pr\u00f3pria Pessoa do Senhor Jesus na sua humanidade. O S\u00ednodo dos Bispos em Outubro de 2005 sobre a Eucaristia na vida e miss\u00e3o da Igreja prolongou e aprofundou a reflex\u00e3o sobre as implica\u00e7\u00f5es pastorais do mist\u00e9rio eucar\u00edstico.  Este dom por excel\u00eancia foi longamente preparado por Deus na hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o. A sagrada eucaristia recapitula e coroa com efeito, uma multid\u00e3o de dons de Deus feitos \u00e0 humanidade depois da cria\u00e7\u00e3o do mundo. Ela leva \u00e0 sua realiza\u00e7\u00e3o o des\u00edgnio de Deus de estabelecer uma alian\u00e7a definitiva com a humanidade; apesar de ser uma hist\u00f3ria tr\u00e1gica de pecado e de rejei\u00e7\u00e3o que permanece desde as origens, Deus instaura concretamente, por este sacramento, a nova alian\u00e7a selada no sangue de Cristo. Esta alian\u00e7a sela definitivamente uma longa hist\u00f3ria da alian\u00e7a entre Deus e o povo nascido de Abra\u00e3o, nosso pai na f\u00e9. Como a celebra\u00e7\u00e3o da P\u00e1scoa judaica no tempo da Promessa, a sagrada eucaristia acompanha a peregrina\u00e7\u00e3o do povo de Deus na hist\u00f3ria da nova alian\u00e7a.  Ela \u00e9 um memorial vivo do dom que Jesus Cristo fez do seu corpo e do seu sangue para resgatar a humanidade do pecado e da morte e comunicar-lhe a vida eterna.  Na sua liturgia e na sua ora\u00e7\u00e3o milen\u00e1rias, o povo judeu aprendeu a celebrar a grandeza do seu Deus Santo, criador e libertador. A P\u00e1scoa esteve sempre no centro da liturgia que recorda de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o o acontecimento do \u00caxodo: \u201cEsse dia vos servir\u00e1 de memorial\u201d (Ex 12.14) Celebrada por gera\u00e7\u00f5es de crentes, ela relaciona-se com o acontecimento fundador da primeira alian\u00e7a: a sa\u00edda do Egipto do povo hebreu e a passagem do Mar Vermelho gra\u00e7as \u00e0 interven\u00e7\u00e3o do Senhor Deus: \u201cIsrael viu a m\u00e3o poderosa com que o Senhor actuou contra o Egipto. O povo temeu o Senhor, e acreditou nele e em Mois\u00e9s seu servo\u201d (Ex 14,31). Este acontecimento fundacional iria ser selado no Sinai pelo dom sagrado da Lei e o compromisso do povo:\u201dEis o sangue da alian\u00e7a que o Senhor concluiu convosco, mediante todas estas palavras\u201d (Ex 24,8). E o povo respondeu:  \u201c Tudo o que o Senhor disse, n\u00f3s o poremos em pr\u00e1tica\u201d Esta primeira \u201cpassagem\u201d duma parte da humanidade da escravid\u00e3o para a liberdade anunciava e preparava a interven\u00e7\u00e3o decisiva do Deus vivo e Pai em favor da humanidade, o envio da sua \u00faltima Palavra, pessoal e definitiva, na incarna\u00e7\u00e3o do Verbo. Ent\u00e3o, num momento particular da hist\u00f3ria humana \u201ca gra\u00e7a de Deus manifestou-se para salva\u00e7\u00e3o de todos os homens\u201d. (Tt 2,11) A mem\u00f3ria reconhecida da Igreja proclama-o: \u201cDe tal modo amastes o mundo, Pai santo, que chegada a plenitude dos tempos,  nos enviastes como Salvador o vosso Filho Unig\u00e9nito\u201d (3) A vinda do Verbo \u00e0 nossa carne, marca o cume do dom que Deus faz de si mesmo: \u201cMuitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos profetas. Nestes dias, que s\u00e3o os \u00faltimos, Deus falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e por meio de quem fez o mundo\u201d(Heb 1,1-2). A ep\u00edstola aos Hebreus mostra que a incarna\u00e7\u00e3o do Filho de Deus e a oferenda sacrificial da sua vida fundam e estabelecem o culto da nova alian\u00e7a no seu sangue. Este culto instaurado por Jesus Cristo leva a seu cumprimento os esbo\u00e7os do culto da primeira alian\u00e7a, oferecendo um s\u00f3 sacrif\u00edcio, v\u00e1lido uma vez por todas, mas diferente dos sacrif\u00edcios de animais da antiga Lei, porque \u00e9 o Sacrif\u00edcio do Cordeiro sem mancha, \u201cque se oferece ao Pai no Esp\u00edrito eterno\u201d, \u201cpara que prestemos culto ao Deus vivo\u201d(Heb 9,14) Este culto eterno, Cristo torna-o presente no nosso tempo e no nosso espa\u00e7o pela sagrada eucaristia, cume do dom de Deus, Verbo feito carne e Esp\u00edrito vivificante na fonte do culto da nova alian\u00e7a.   B.\tA institui\u00e7\u00e3o da Sagrada Eucaristia \u201cO nosso Salvador instituiu na \u00faltima Ceia, na noite em que foi entregue, o sacrif\u00edcio eucar\u00edstico do seu Corpo e do seu Sangue para perpetuar pelo decorrer dos s\u00e9culos, at\u00e9 Ele voltar, o Sacrif\u00edcio da cruz, confiando \u00e0 Igreja, sua esposa amada, o memorial da sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o: sacramento de piedade, sinal de unidade, v\u00ednculo de caridade, banquete pascal em que se recebe Cristo, a alma se enche de gra\u00e7a e nos \u00e9 concedido o penhor da gl\u00f3ria futura.\u201d (4) O que o Salvador instituiu na noite em que foi entregue, \u00e9 o dom de si mesmo, levado pelo seu amor extremo: \u201cAntes da festa da P\u00e1scoa, Jesus, sabendo bem que tinha chegado a sua hora da passagem deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles at\u00e9 ao extremo\u201d(Jo 13,1). A institui\u00e7\u00e3o da sagrada eucaristia, \u00e9 o dom do Amor em Pessoa, \u00e9 Deus que se d\u00e1 a si mesmo no sacramento da P\u00e1scoa de Cristo. Jesus institui este sacramento por um rito que perpetua o dom da sua vida em sacrif\u00edcio de expia\u00e7\u00e3o pelos pecados e traduz este seu sentido por um gesto de servi\u00e7o, o lava-p\u00e9s.  A refei\u00e7\u00e3o memorial da P\u00e1scoa judaica permitia ao povo de Israel recordar a sua alian\u00e7a com Deus e de reviver pelo rito a interven\u00e7\u00e3o real e eficaz de Deus na sua hist\u00f3ria. Na tarde de quinta-feira santa, Jesus sabe que leva ao seu cumprimento o memorial da refei\u00e7\u00e3o pascal judaica: toma o p\u00e3o, pronuncia a b\u00ean\u00e7\u00e3o e diz. \u201cTomai e comei todos: \u2018Este \u00e9 o meu corpo entregue por v\u00f3s\u2019\u201d; depois toma o c\u00e1lice com vinho e diz: \u201cTomai e bebei todos: \u2018Este \u00e9 o meu sangue derramado por v\u00f3s\u2019\u201d. Fazei isto em mem\u00f3ria de mim. Por estes gestos e palavras, Jesus institui um novo rito, o seu rito pascal, pelo qual ele se substitui ao cordeiro tradicional dando-se e sacrificando-se por amor. O seu acto de amor realiza a nova alian\u00e7a no seu sangue, libertando a humanidade do pecado e da morte. \u00c9 sempre impelido por este mesmo amor que Cristo ressuscitado, no poder do seu Esp\u00edrito, actualiza o dom da sua eucaristia cada vez que a Igreja celebra o rito que dele recebeu na \u00faltima Ceia, na v\u00e9spera da Paix\u00e3o. Celebrando este rito sacramental, a Igreja est\u00e1 intimamente associada \u00e0 oferenda de Jesus Cristo e portanto ao exerc\u00edcio da sua fun\u00e7\u00e3o sacerdotal para o culto de Deus e salva\u00e7\u00e3o da Humanidade. \u201cEm t\u00e3o grande obra    que permite que Deus seja perfeitamente glorificado e que os homens se santifiquem, Cristo associa sempre a si a Igreja, sua esposa muito amada, a qual invoca o seu Senhor e por meio dele rende culto ao Eterno Pai.\u201d (5) A institui\u00e7\u00e3o da eucaristia cont\u00e9m em si um profundo mist\u00e9rio que transcende a nossa capacidade de compreens\u00e3o e as nossas categorias. \u00c9 o mist\u00e9rio da f\u00e9, por excel\u00eancia. A Igreja alimenta-se dela sem cessar, porque dela vem a sua raz\u00e3o de vida e a sua raz\u00e3o de ser. Na \u00faltima Ceia, Jesus entrega-lhe como presente a sua presen\u00e7a sacramental, que \u00e9 uma presen\u00e7a \u201creal e substancial \u201d(6), embora escondida sob os humildes sinais do p\u00e3o e do vinho. Deu-lhe acolhimento perp\u00e9tuo, brotando sem cessar do seu Cora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstico, a sua declara\u00e7\u00e3o de amor e o dom do seu corpo e sangue como um acontecimento sempre novo que estava a ponto de se produzir. \u00c9 este o sentido profundo do \u201cmemorial\u201d que, como j\u00e1 acontecia na tradi\u00e7\u00e3o judaica, tem o sentido de acontecimento objectivo e n\u00e3o somente o de um acto subjectivo da mem\u00f3ria do passado. A celebra\u00e7\u00e3o do memorial mergulha os participantes no mist\u00e9rio da P\u00e1scoa do Senhor.   <i>II \u2013 A Eucaristia, memorial do mist\u00e9rio pascal<\/i> A.\tO memorial da P\u00e1scoa de Cristo, um dom trinit\u00e1rio Qual \u00e9 portanto o conte\u00fado deste memorial que a Igreja desde as origens celebra como o dom por excel\u00eancia do Senhor ? Jesus estabeleceu a forma essencial na \u00faltima Ceia pronunciando as palavras da institui\u00e7\u00e3o sobre o p\u00e3o e o vinho para os mudar no seu corpo e no seu sangue. Mas este acto de dom pessoal de Cristo encerra um conte\u00fado inesgot\u00e1vel do qual nunca se acabar\u00e1 de aprofundar porque cont\u00e9m toda a sua P\u00e1scoa, isto \u00e9, a sua oferenda de amor ao Pai at\u00e9 \u00e0 morte na cruz e ressurrei\u00e7\u00e3o de entre os mortos pelo poder do Esp\u00edrito Santo. Quando a Igreja celebra a Eucaristia, acolhe o dom de Cristo que se entrega nas m\u00e3os dos pecadores por obedi\u00eancia \u00e0 vontade do Pai. S. Paulo proclama solenemente no hino aos Filipenses: \u201cTornando-se semelhante aos homens e sendo, ao manifestar-se identificado como homem, rebaixou-se a si mesmo, tornando-se obediente at\u00e9 \u00e0 morte e morte de cruz. Por isso mesmo \u00e9 que Deus o elevou acima de tudo e lhe concedeu o nome que est\u00e1 acima de todo o nome, para que, ao nome de Jesus, se dobrem todos os joelhos, os dos seres que est\u00e3o no c\u00e9u, na terra, e debaixo da terra; e toda a l\u00edngua proclame: \u2018Jesus Cristo \u00e9 o Senhor !\u2019 para gl\u00f3ria de Deus Pai \u201d (Fl 2,8-11).  A Igreja acolhe assim o dom que o Pai faz ao mundo do seu Filho \u00fanico, incarnado e crucificado: \u201cTanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unig\u00e9nito, a fim de que todo o que nele cr\u00ea n\u00e3o se perca, mas tenha a vida eterna\u201d (Jo 3,16). \u201cVede como a magn\u00edfica generosidade de Deus rivaliza com os homens, &#8211; exclama Or\u00edgenes: Abra\u00e3o ofereceu a Deus um filho mortal que n\u00e3o devia morrer. Deus entregou \u00e0 morte pelos homens um Filho imortal.\u201d (7) O sacrif\u00edcio de Isaac na antiga alian\u00e7a anunciava e preparava o sacrif\u00edcio por excel\u00eancia da nova alian\u00e7a, a do verdadeiro Cordeiro. O acto de amor do Filho que se entrega corresponde perfeitamente ao acto de amor do Pai que o entrega, e esta perfeita correspond\u00eancia do amor do Pai e do Filho a nosso respeito \u00e9 confirmada pelo Esp\u00edrito Santo que ressuscita Cristo de entre os mortos. O Esp\u00edrito confirma com a sua autoridade divina esta prega\u00e7\u00e3o e seus gestos, justificando ao mesmo tempo o assentimento total requerido pela f\u00e9 crist\u00e3. Eis o centro da Boa Nova que a Igreja anuncia a todas as na\u00e7\u00f5es desde as origens e que ela celebra em cada eucaristia: \u201cO Evangelho de Deus, com respeito a seu Filho, nascido da linhagem de David segundo a carne, estabelece o Filho de Deus com poder segundo o Esp\u00edrito de santidade, pela sua ressurrei\u00e7\u00e3o de entre os mortos, Jesus Cristo nosso Senhor\u201d. (Rm 1,4) O dom por excel\u00eancia da eucaristia torna presente Cristo ressuscitado com toda a sua vida e o seu mist\u00e9rio pascal. \u00c9 um dom trinit\u00e1rio que opera a reconcilia\u00e7\u00e3o do mundo com Deus pelo oferecimento do amor do Filho at\u00e9 \u00e0 morte e pela sua ressurrei\u00e7\u00e3o que confirma a vit\u00f3ria do amor trinit\u00e1rio sobre o pecado e a morte.  O Esp\u00edrito Santo confirma a perfeita comunh\u00e3o do Pai com o Filho no centro do mist\u00e9rio pascal pelo seu pr\u00f3prio dom que, glorificando o Filho, glorifica assim tamb\u00e9m o Pai que o envia. \u00c9 por isto que a comunh\u00e3o dos fi\u00e9is no corpo e sangue de Cristo \u00e9 tamb\u00e9m uma comunh\u00e3o no Esp\u00edrito Santo. Santo Efr\u00e9m escreve: \u201cChamou o p\u00e3o seu corpo vivo, encheu-o de Si pr\u00f3prio e do seu Esp\u00edrito [\u2026] E aquele que o come com f\u00e9, come Fogo e Esp\u00edrito. [\u2026] Tomai, comei-o todos; e, com ele, comei o Esp\u00edrito Santo. De facto, \u00e9 verdadeiramente o meu corpo, e quem o come viver\u00e1 eternamente\u201d(8)  B. O sacrif\u00edcio pascal  \u201cPorque \u00e9 o memorial da P\u00e1scoa de Cristo, a Eucaristia \u00e9 tamb\u00e9m um sacrif\u00edcio,\u201d lembra-no-lo com insist\u00eancia o Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica (9). \u201cPor eles, sacrifico-me a mim mesmo\u201d, confia Jesus aos seus disc\u00edpulos na sua \u00faltima ora\u00e7\u00e3o (Jo 17,18). Uma vez chegada a sua hora, Jesus n\u00e3o se esquiva \u00e0 vontade do Pai; ele ama o Pai e entrega-se livremente nas m\u00e3os dos homens por amor de seu Pai e por amor dos pecadores. A eucaristia \u00e9 o memorial deste sacrif\u00edcio, isto \u00e9, deste acto de amor redentor que restabelece a comunh\u00e3o da humanidade com Deus suprimindo o obst\u00e1culo levantado pelo pecado do mundo.  A desobedi\u00eancia incessante do homem rompeu a rela\u00e7\u00e3o de alian\u00e7a com Deus ao longo da hist\u00f3ria. A obedi\u00eancia de amor de Cristo resgata todas as desobedi\u00eancias culp\u00e1veis dos filhos e filhas de Ad\u00e3o. \u201cSacrif\u00edcio que o Pai aceitou, retribuindo esta doa\u00e7\u00e3o total de seu Filho, que \u201cse fez obediente at\u00e9 \u00e0 morte\u201d (Fl 2,8), com a sua doa\u00e7\u00e3o paterna, ou seja, com o dom da nova vida imortal na ressurrei\u00e7\u00e3o\u201d. (10) Esta troca restabeleceu a comunica\u00e7\u00e3o e a comunh\u00e3o entre o c\u00e9u e a terra, entre Deus, que \u00e9 Amor, e a humanidade, que \u00e9 chamada a comunicar o seu amor pela f\u00e9. O sacrif\u00edcio de Cristo \u00e9 portanto um sacrif\u00edcio pascal, um dom total de si mesmo, que faz \u201cpassar\u201d toda a humanidade da escravid\u00e3o do pecado para a liberdade dos filhos de Deus. \u201cEm verdade, em verdade vos digo, quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna e Eu hei-de ressuscit\u00e1-lo no \u00faltimo dia \u201c (Jo 6,54) Este verdadeiro sacrif\u00edcio acarreta para o Filho de Deus uma carga incomensur\u00e1vel de sofrimentos, incluindo a sua descida ao abismo da morte. Os Evangelhos referem alguns aspectos da Paix\u00e3o de Jesus que revelam o abismo do seu sofrimento e do seu amor.  A sede do Senhor na cruz, as suas feridas, o abandono, o grande grito e o seu cora\u00e7\u00e3o trespassado deixam adivinhar de certa maneira todos os sofrimentos corporais, morais e espirituais. \u201cNa sua morte de cruz, escreve o papa Bento XVI, cumpre-se aquele virar-se de Deus contra si pr\u00f3prio, com o qual Ele se entrega para levantar o ser humano e salv\u00e1-lo \u2013 o amor na sua forma mais radical\u201d (11) Contemplando este amor sofredor e agonizante na cruz, aprendemos a medir o amor sem medida do seu cora\u00e7\u00e3o e adivinhamos a imensidade do dom do sant\u00edssimo sacramento da eucaristia. \u00c0 luz desta doutrina v\u00ea-se ainda melhor a raz\u00e3o pela qual a vida sacramental da Igreja e de cada crist\u00e3o atinge o seu cume e plenitude na eucaristia. Neste sacramento, com efeito, o mist\u00e9rio de Cristo oferecendo-se a si mesmo em sacrif\u00edcio ao Pai no altar da cruz,  renova-se continuamente pela sua vontade. E o Pai responde a esta sua oferenda   pela vida nova do Ressuscitado. Esta vida nova manifestada na glorifica\u00e7\u00e3o corporal de Cristo crucificado, tornou-se sinal eficaz do dom novo feito \u00e0 humanidade. \u201c A ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo \u00e9 muito mais; trata-se duma realidade diferente. Ela \u00e9 \u2013 se podemos por uma vez utilizar a linguagem da teoria da evolu\u00e7\u00e3o \u2013 a maior muta\u00e7\u00e3o, o salto absolutamente mais decisivo numa dimens\u00e3o totalmente nova que jamais tinha acontecido ao longo da hist\u00f3ria da vida e os seus progressos: um salto duma ordem completamente nova, que nos diz respeito a n\u00f3s e a toda a hist\u00f3ria\u201d (12) A eucaristia como memorial da morte e ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor faz muito mais que recordar um acontecimento passado; representa sacramentalmente um acontecimento sempre actual, pois a oferenda de amor de Jesus na cruz foi aceite pelo Pai e glorificada pelo Esp\u00edrito Santo. Esta oferenda transcende por consequ\u00eancia o tempo e o espa\u00e7o e por vontade expl\u00edcita do Senhor, permanece sempre dispon\u00edvel para a f\u00e9 da Igreja. Fazei isto em mem\u00f3ria de mim. Quando a Igreja celebra o banquete eucar\u00edstico, ela n\u00e3o faz \u201ccomo se\u201d fosse a primeira vez. Ela acolhe o acontecimento definitivo, escatol\u00f3gico, \u201c o acontecimento de amor \u00fanico\u201d que est\u00e1 sempre em vias de se produzir para n\u00f3s. Este banquete de Amor tem a sua subst\u00e2ncia inesgot\u00e1vel no sacrif\u00edcio de amor do Filho de Deus feito homem que foi exaltado e intercede para sempre a nosso favor.   <b>II Parte A Eucaristia, Nova Alian\u00e7a<\/b> <i>III \u2013 A Eucaristia edifica a Igreja, sacramento da salva\u00e7\u00e3o<\/i> O dom por excel\u00eancia da eucaristia \u00e9 um mist\u00e9rio de alian\u00e7a, um mist\u00e9rio nupcial entre Deus e a humanidade. O Deus vivo com ele faz renascer sem cessar a sua Igreja como povo reunido, como Corpo e Esposa de Cristo, como comunidade viva que \u00e9 ao mesmo tempo uma s\u00f3 Pessoa m\u00edstica com ele. \u201cCongratulemo-nos, pois, e d\u00eamos gra\u00e7as, exclama S. Agostinho, pelo facto de nos termos tornado n\u00e3o apenas crist\u00e3os, mas o pr\u00f3prio Cristo\u201d (13) A Igreja \u00e9 com efeito o povo da nova alian\u00e7a insepar\u00e1vel da eucaristia, como o corpo \u00e9 insepar\u00e1vel da cabe\u00e7a, como a esposa vive do dom do seu esposo. Como herdeira e associada ao mist\u00e9rio eucar\u00edstico, a Igreja, animada pelo Esp\u00edrito e modelada pela f\u00e9 de Maria, participa no dom de Deus no mundo. Ela mesma \u00e9 como um sacramento, isto \u00e9, \u201co sinal e o instrumento da \u00edntima uni\u00e3o com Deus e de unidade de todo o g\u00e9nero humano.\u201d(14) Com efeito, \u00e9 o sacramento universal da comunh\u00e3o trinit\u00e1ria dada ao mundo.  A.\tO dom da Igreja \u2013 comunh\u00e3o  a)\tMaria, primeira Igreja e mulher eucar\u00edstica O dom de Deus ao mundo \u00e9 realizado devido a uma mulher, bendita entre todas as mulheres, que acreditou e que se entregou sem condi\u00e7\u00f5es \u00e0 Palavra misteriosa do seu Senhor: Maria de Nazar\u00e9 \u00e9 a mulher por excel\u00eancia que respondeu \u201csim\u201d ao Deus da alian\u00e7a, realizando assim na Anuncia\u00e7\u00e3o o cumprimento da Filha de Si\u00e3o, a Igreja nascente. O seu \u201csim\u201d acompanhou a incarna\u00e7\u00e3o do Verbo de Deus desde o primeiro momento da sua concep\u00e7\u00e3o at\u00e9 \u00e0 morte e ressurrei\u00e7\u00e3o. Nenhuma outra criatura possui uma mem\u00f3ria t\u00e3o concreta do Verbo que se fez carne at\u00e9 \u00e0 sua carne eucar\u00edstica. Nenhum outro ser humano sabe t\u00e3o perfeitamente o que significa miseric\u00f3rdia, perd\u00e3o, compaix\u00e3o e sofrimento do Amor redentor.  Nada se diz da presen\u00e7a de Maria na Ceia, quando o rito da nova alian\u00e7a foi institu\u00eddo, mas estava de p\u00e9 junto \u00e0 cruz, onde foi consumado o santo sacrif\u00edcio do Cordeiro que tira o pecado do mundo.  Ela \u00e9 a mulher eucar\u00edstica por excel\u00eancia (15), a nova Eva toda disponibilidade para deixar livre curso \u00e0 fecundidade do novo Ad\u00e3o. Mater Dei et Mater Ecclesiae. Nela e por ela, a Igreja comunga desde j\u00e1 perfeitamente na cruz, na oferenda sacrificial do Filho de Deus. Prometida como ela para a gl\u00f3ria de ser esposa do Cordeiro, a Igreja contempla Maria ao p\u00e9 da cruz como um \u00edcone doloroso e glorioso do seu pr\u00f3prio mist\u00e9rio de comunh\u00e3o. Com a Virgem imaculada que se torna ent\u00e3o na m\u00e3e fecunda de toda a humanidade reconciliada, a Igreja aprende a comungar o amor redentor e nupcial do Cordeiro imolado, por pura gra\u00e7a do Deus-Amor.  b)\tPovo de Deus e sacramento de salva\u00e7\u00e3o \u00c9 no quadro da refei\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica que a Igreja acolhe e realiza de maneira privilegiada o seu profundo mist\u00e9rio de comunh\u00e3o. O dom de Jesus que ela comemora por fidelidade \u00e0 sua Palavra, funda e alimenta a rela\u00e7\u00e3o de alian\u00e7a que ela vive com ele, em nome de toda a humanidade. O banquete pascal de Jesus introdu-la no Seu amor trinit\u00e1rio, que reenvia para a fonte primeira que \u00e9 o Pai e para o dom \u00faltimo que \u00e9 o Esp\u00edrito Santo.  \u00c9 o Pai, com feito, que convoca a humanidade para o banquete de n\u00fapcias de seu Filho (Mt 22,1-14), banquete pascal, onde ele mesmo serve o Cordeiro imolado desde a cria\u00e7\u00e3o do mundo e o c\u00e1lice do Reino que comunica a embriaguez do Esp\u00edrito de que fala S. Pedro no dia do Pentecostes. Dando assim \u00e0 Igreja o seu Filho e o seu Esp\u00edrito, o Pai associa a Igreja ao seu mist\u00e9rio de amor e fecundidade. Ele a exalta e enobrece, acolhendo-a \u00e0 sua pr\u00f3pria mesa celeste onde o Amor \u00e9 o \u00fanico manjar e a fonte eterna de Vida. A Igreja, mist\u00e9rio de comunh\u00e3o trinit\u00e1ria destinada a todos os homens, \u00e9 sacramento de salva\u00e7\u00e3o enquanto povo de Deus congregado na unidade. Este povo \u00e9 convocado por Deus e ordenado pelo seu Esp\u00edrito, de acordo com as diversas fun\u00e7\u00f5es hier\u00e1rquicas e segundo os m\u00faltiplos minist\u00e9rios carism\u00e1ticos para servi\u00e7o da nova alian\u00e7a. Ele exprime a sua plena vitalidade eclesial e assegura a sua unidade pela comunh\u00e3o sacramental dos seus membros no corpo e sangue de Cristo. \u201cAlimentando-nos do Corpo e Sangue do vosso Filho, cheios do seu Esp\u00edrito Santo, sejamos em Cristo um s\u00f3 corpo e um s\u00f3 esp\u00edrito\u201d (16) Em cada missa, a ora\u00e7\u00e3o da epiclese retoma a ora\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Jesus pela unidade dos seus disc\u00edpulos: \u201c Eu dei-lhes a gl\u00f3ria que Tu me deste, de modo que sejam um, como N\u00f3s somos Um\u201d (Jo 17,22). O Esp\u00edrito Santo que desce sobre as oferendas e sobre a assembleia \u00e9 esta gl\u00f3ria da comunh\u00e3o trinit\u00e1ria que actua em cada eucaristia. \u00c9 por isso que a Igreja, povo de Deus e sacramento de salva\u00e7\u00e3o, deve ser convocada e reunida por ele, para se abrir \u00e0 compreens\u00e3o das Escrituras, e deixar-se reconciliar sem cessar e comungar a Vida Eterna desde este mundo, pela virtude do sacramento da P\u00e1scoa.  c)\tA Esposa do Cordeiro e o Corpo de Cristo  Para se dar ao mundo neste mist\u00e9rio da alian\u00e7a, Deus conta com a Igreja, sua humilde \u2018esposa\u2019. Mesmo pobre e fr\u00e1gil por causa dos pecados de seus filhos, a Igreja compromete-se pela penit\u00eancia e pela sagrada eucaristia, na renova\u00e7\u00e3o constante da gra\u00e7a do seu baptismo. Ela deve cada vez mais esfor\u00e7ar-se por se purificar e reformar tanto quanto ela tenha consci\u00eancia de abrigar em si o mist\u00e9rio da comunh\u00e3o do Deus tr\u00eas vezes santo e de ser chamada a corresponder duma maneira n\u00e3o somente exemplar mas tamb\u00e9m \u2018nupcial\u2019. Porque \u201ctoda a vida crist\u00e3 \u00e9 marcada pelo amor esponsal de Cristo e da Igreja. J\u00e1 o Baptismo, entrada para o gr\u00e9mio do povo de Deus, \u00e9 um mist\u00e9rio nupcial: \u00e9, por assim dizer, o banho de n\u00fapcias (Ef 5,26-27) que precede o banquete  nupcial, a Eucaristia\u201d (17) No ponto culminante da ora\u00e7\u00e3o da an\u00e1fora, a Igreja coloca esta exclama\u00e7\u00e3o na boca do seu ministro: \u201cMist\u00e9rio da f\u00e9 !\u201d Este grito de j\u00fabilo reconhece o acontecimento que est\u00e1 em vias de  produzir-se, (NT*)a saber, a convers\u00e3o do p\u00e3o e do vinho no corpo e no sangue de Cristo, pelo poder do Esp\u00edrito Santo. Reconhece tamb\u00e9m o mist\u00e9rio da nova alian\u00e7a, o encontro nupcial de Cristo-esposo que se d\u00e1 e a Igreja-esposa que o acolhe e se une \u00e0 sua oferenda.  Pelo poder da sua Palavra e da epiclese sobre as esp\u00e9cies eucar\u00edsticas, Cristo vivo, de quem anunciamos a morte at\u00e9 que venha, une-se \u00e0 comunidade eclesial como seu corpo e sua esposa. Ele transforma a oferenda da comunidade reunida no seu pr\u00f3prio corpo e d\u00e1-lhe em comunh\u00e3o o seu corpo eucar\u00edstico como prenda nupcial. \u201c\u00c9 grande este mist\u00e9rio\u201d, exclama o ap\u00f3stolo Paulo, pensando na uni\u00e3o de Cristo e da Igreja, como modelo e o mist\u00e9rio do casamento sacramental (Ef 5,32) S. Ambr\u00f3sio v\u00ea na eucaristia \u201ca prenda nupcial\u201d de Cristo \u00e0 sua Esposa e na comunh\u00e3o o beijo de Amor. E Cabasilas pode justamente observar: \u201c \u2018Este mist\u00e9rio \u00e9 grande\u2019, diz o bem-aventurado Paulo para exaltar esta uni\u00e3o. Porque \u00e9 ent\u00e3o o matrim\u00f3nio t\u00e3o exaltado quando o Esposo pur\u00edssimo desposa a Igreja como virgem. \u00c9 aqui que Cristo \u201calimenta\u201d o coro daqueles que o rodeiam, e \u00e9 por este \u00fanico sacramento que \u201cn\u00f3s somos carne da sua carne e ossos dos seus ossos\u201d (18) A eucaristia lan\u00e7a-nos na oferenda de Jesus. N\u00e3o receberemos somente o Logos incarnado de maneira est\u00e1tica, mas somos envolvidos na din\u00e2mica da sua oferenda.  A imagem do casamento entre Deus e Israel torna-se realidade de uma maneira extraordinariamente inconceb\u00edvel: aquilo que era estar diante de Deus torna-se agora, atrav\u00e9s da participa\u00e7\u00e3o na oferenda de Jesus, a participa\u00e7\u00e3o no seu corpo e sangue; torna-se uni\u00e3o. A m\u00edstica do sacramento, que se baseia no abaixamento de Deus em direc\u00e7\u00e3o a n\u00f3s, tem um alcance muito superior e mais profundo do que qualquer outra eleva\u00e7\u00e3o m\u00edstica humana o poderia conduzir\u201d (19) B.\tA resposta eucar\u00edstica da Igreja a)\tCrer e amar como Maria, em Jesus O dom de Deus no banquete do amor, leva o compromisso da Igreja partilhar esse dom com a humanidade inteira, que \u00e9 chamada a tornar-se Corpo e esposa de Cristo. A primeira homenagem da Igreja a este mist\u00e9rio \u00e9 o de uma f\u00e9 plena, admirativa e adoradora. Porque, ao mist\u00e9rio do dom eucar\u00edstico por excel\u00eancia do mesmo Deus, deve corresponder o mist\u00e9rio de f\u00e9 por excel\u00eancia como ades\u00e3o total e plena de gratid\u00e3o da Igreja, unida \u00e0 f\u00e9 imaculada de Maria. A miss\u00e3o do Esp\u00edrito Santo \u00e9 justamente assegurar esta correspond\u00eancia nupcial entre a actualiza\u00e7\u00e3o perp\u00e9tua do mist\u00e9rio eucar\u00edstico e o acolhimento da Igreja que alimenta assim a esperan\u00e7a do mundo pelo seu testemunho.  A primeira forma de partilha que brota imediatamente do cora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstico de Jesus \u00e9 o novo mandamento do amor: \u201dAssim como vos amei, assim vos deveis amar uns aos outros\u201d (Jo 13,34) Este mandamento \u00e9 novo porque a sua medida n\u00e3o \u00e9 amar o pr\u00f3ximo como a si mesmo, mas como Jesus amou. \u00c9 novo, porque ele p\u00f5e a exig\u00eancia essencial de entrar na comunidade escatol\u00f3gica dos disc\u00edpulos que est\u00e3o unidos a Ele pela f\u00e9; tamb\u00e9m o \u00e9, na medida em que requer humildade e uma vontade de servi\u00e7o que conduz a tomar o \u00faltimo lugar e a morrer pelos outros.  \u201cA plenitude do amor com que nos devemos estimar mutuamente, irm\u00e3os muito amados, o Senhor o definiu quando disse: \u201c N\u00e3o h\u00e1 maior amor do que dar a vida pelos seus amigos\u201d. \u2013 Daqui se segue o que o pr\u00f3prio evangelista S. Jo\u00e3o diz na sua carta:  \u201c Da mesma maneira que Cristo deu a vida por n\u00f3s, da mesma maneira devemos dar a nossa vida pelos irm\u00e3os\u201d. Sim, devemos amar-nos mutuamente como ele nos amou, Ele que deu a vida por n\u00f3s\u201d(20)  \u201cA uni\u00e3o com Cristo \u00e9 ao mesmo tempo uni\u00e3o com todos aqueles aos quais ele se d\u00e1. N\u00e3o posso ter Cristo para mim somente; n\u00e3o posso pertencer-lhe sen\u00e3o em uni\u00e3o com todos os que se tornaram ou tornar\u00e3o seus. A comunh\u00e3o leva-me para fora de mim mesmo em direc\u00e7\u00e3o a Ele e ao mesmo tempo, para a unidade com todos os crist\u00e3os. Torn\u00e1mo-nos um s\u00f3 corpo, fundidos numa \u00fanica exist\u00eancia. O amor de Deus e o amor do pr\u00f3ximo est\u00e3o agora verdadeiramente unidos: o Deus incarnado atrai-nos todos a si. A partir desta realidade compreendemos agora como o agap\u00e9 de Deus se tornou um nome de eucaristia: em conclus\u00e3o, o agap\u00e9 de Deus vem a n\u00f3s corporalmente para continuar a sua obra em n\u00f3s, atrav\u00e9s de n\u00f3s. \u00c9 somente a partir deste fundamento cristol\u00f3gico e sacramental, que se poder\u00e1 compreender correctamente o ensinamento de Jesus sobre o amor \u201c (21) b)\tDeixar-se reconciliar na unidade A celebra\u00e7\u00e3o da eucaristia desperta a responsabilidade dos disc\u00edpulos de Cristo face \u00e0 sua pr\u00f3pria e permanente necessidade de se reconciliar e de ser art\u00edfices de reconcilia\u00e7\u00e3o. Exprimem-no pelo recurso ao sacramento da reconcilia\u00e7\u00e3o que purifica o seu cora\u00e7\u00e3o pela comunh\u00e3o eucar\u00edstica e na decis\u00e3o que tomam de se acolherem nas suas diferen\u00e7as culturais e op\u00e7\u00f5es de vida. Exprimem-se tamb\u00e9m na sua procura de perd\u00e3o na ora\u00e7\u00e3o de intercess\u00e3o por todos na ora\u00e7\u00e3o do Senhor, na troca do abra\u00e7o da paz, na partilha de um s\u00f3 p\u00e3o e dum s\u00f3 c\u00e1lice, no cuidado de levar a comunh\u00e3o aos doentes ou no tornar-se solid\u00e1rios dos pobres e dos marginais. Quantos sinais deste amor fraterno se procuram viver na assembleia eucar\u00edstica e se constroem sem cessar no Corpo de Cristo: \u201cSe vos amardes uns aos outros, todos reconhecer\u00e3o que sois meus disc\u00edpulos\u201d (Jo 13,35) \u201cUma s\u00f3 e \u00fanica Igreja foi institu\u00edda por Cristo, Senhor. E portanto, as v\u00e1rias comunh\u00f5es crist\u00e3s apresentam-se aos homens como as verdadeiras herdeiras de Jesus Cristo. \u00c9 por\u00e9m certo que esta divis\u00e3o n\u00e3o corresponde \u00e0 vontade de Cristo. \u00c9 para o mundo um motivo de esc\u00e2ndalo e torna-se obst\u00e1culo \u00e0 mais santa das causas: a prega\u00e7\u00e3o do Evangelho a toda a criatura\u201d. (22) O facto de por todo o mundo as Igrejas crist\u00e3s estarem separadas para cumprir o memorial do Senhor mostra as diverg\u00eancias hist\u00f3ricas e doutrinais, imposs\u00edveis de calar ou ignorar. Unidos por um s\u00f3 e mesmo baptismo, os disc\u00edpulos de Cristo n\u00e3o podem esquecer as consequ\u00eancias das suas divis\u00f5es sobre o testemunho individual ou colectivo que d\u00e3o ao mundo. Tomar consci\u00eancia de que n\u00e3o podem reunir-se todos em plena comunh\u00e3o \u00e0 volta da mesma mesa, sentir-se atingidos pelo enfraquecimento do testemunho mission\u00e1rio que da\u00ed brota, abre os cora\u00e7\u00f5es \u00e0 busca de uma reconcilia\u00e7\u00e3o entre todos os membros do Corpo de Cristo para que \u201csejam um\u201d (Jo 17,11). Cada eucaristia \u00e9 celebrada na expectativa e esperan\u00e7a da reuni\u00e3o no \u00fanico povo de Deus \u00e0 volta da \u00fanica mesa do Senhor.  c)\tReunir-se ao domingo, Dia do Senhor A Igreja \u00e9 a comunidade dos disc\u00edpulos que professam a sua perten\u00e7a ao Senhor pela pr\u00e1tica do amor fraterno para todos e do amor m\u00fatuo como sinal distintivo. N\u00e3o se pode amar com o mesmo amor como ele ama sem receber este amor constantemente d\u2019Ele. O seu mandamento novo n\u00e3o \u00e9 um simples ideal moral oferecido \u00e0 nossa liberdade. \u00c9 uma alian\u00e7a, um amor partilhado entre o Senhor e os seus disc\u00edpulos, que cresceu e se expandiu pelo mundo com a condi\u00e7\u00e3o de ser constantemente alimentado na fonte da eucaristia dominical.  O Senhor manifestou-se a primeira vez na tarde de P\u00e1scoa no Cen\u00e1culo, depois voltou oito dias depois para o encontro com Tom\u00e9, o incr\u00e9dulo. Estas apari\u00e7\u00f5es confirmaram a f\u00e9 dos disc\u00edpulos e preparou-os para a nova forma de presen\u00e7a do Senhor nos sacramentos e de uma maneira muito especial na eucaristia dominical. \u201cCelebramos o domingo por causa da vener\u00e1vel ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor Jesus Cristo, n\u00e3o somente na P\u00e1scoa, mas em cada ciclo semanal\u201d; \u00e9 assim que se exprime no come\u00e7o do s\u00e9c.V, o papa Inoc\u00eancio I, testemunhando uma pr\u00e1tica j\u00e1 bem arreigada que se desenvolveu desde os primeiros anos que se seguiram \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor. S. Bas\u00edlio fala do \u201csanto domingo, honrado pela ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor, prim\u00edcias de todos os outros dias\u201d. S. Agostinho chama ao domingo \u201co sacramento da P\u00e1scoa\u201d(23) O domingo \u00e9 o dia em que, mais do que em nenhum outro, o crist\u00e3o \u00e9 chamado a lembrar-se da salva\u00e7\u00e3o que lhe foi oferecida no baptismo e que fez dele um homem novo em Cristo. \u201cSepultados com ele pelo baptismo estais ressuscitados por ele, porque acreditastes na for\u00e7a de Deus que o ressuscitou dos mortos\u201d (Cl 2, 12; Cf Rm 6, 4-6). A presen\u00e7a do crist\u00e3o na reuni\u00e3o da Igreja para a eucaristia dominical n\u00e3o obedece primeiramente a um preceito. \u00c9 o testemunho de identidade do baptizado e portanto da sua perten\u00e7a ao Senhor. Esta perten\u00e7a traduz-se na escuta da palavra de Deus, na participa\u00e7\u00e3o na oferenda e na comunh\u00e3o no amor do Senhor.  Importa hoje re-evangelizar o domingo, porque em muitos lugares o seu sentido foi obscurecido pela press\u00e3o de uma cultura individualista e materialista.  Como redescobrir o sentido da reuni\u00e3o dos disc\u00edpulos \u00e0 volta do Senhor ressuscitado ? Recordando as origens crist\u00e3s n\u00e3o faltam testemunhos eloquentes. No princ\u00edpio do s\u00e9c. IV, na \u00c1frica do Norte, alguns crist\u00e3os preferiram deixar-se morrer a deixar-se viver sem domingo, isto \u00e9 sem o Senhor que eles encontravam celebrando a sagrada eucaristia.Estes m\u00e1rtires da Abit\u00ednia interpelam-nos nestes in\u00edcios do terceiro mil\u00e9nio e intercedem por n\u00f3s afim de descobrirmos a riqueza do encontro vital com o Senhor ressuscitado que se d\u00e1 na eucaristia.  O mundo espera este testemunho da Igreja reunida, sacramento de salva\u00e7\u00e3o, do qual se alimenta secretamente  <b>III Parte Pela Vida do Mundo<\/b> A Igreja, como part\u00edcipe do Senhor ressuscitado, vive do dom de Deus e une-se a Jesus Cristo, soberano sacerdote, na comunica\u00e7\u00e3o deste dom \u00e0 humanidade. O mundo beneficia da caridade dos crist\u00e3os e tamb\u00e9m do culto da Igreja que glorifica a Deus intercedendo pelo mundo. Dialoga com Deus no culto ou com o mundo na miss\u00e3o; a Igreja n\u00e3o vive para si mesma, mas para aquele que \u201cveio para que tenham vida e a tenham em abund\u00e2ncia\u201d (Jo 10,10) A sua vida \u00e9 um testemunho da Vida do Senhor dada em partilha na sagrada eucaristia.  <i>IV \u2013 A Eucaristia, Vida de Cristo nas nossas vidas<\/i> A)\tO culto espiritual dos baptizados \u201c Pelo baptismo, os homens s\u00e3o enxertados no mist\u00e9rio pascal de Cristo: mortos com ele, sepultados com ele, ressuscitados com ele: recebem o Esp\u00edrito de adop\u00e7\u00e3o dos filhos\u201d no qual clamamos Abba &#8211; Pai\u201d (Rm 8,15) e eles tornam-se assim verdadeiros adoradores que buscam o Pai\u201d (24). \u201cO baptismo \u00e9 imers\u00e3o total na \u00e1gua asfixiante da morte, de onde se emerge na alegria de respirar de novo, de respirar o Esp\u00edrito. Porque a \u00e1gua, que era causa de morte se tornou vivificante, incorpora agora, segundo o seu simbolismo natural, o poder de ressurrei\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito (25). O baptismo na f\u00e9 da Igreja introduz o fiel na experi\u00eancia do mist\u00e9rio pascal de Jesus Cristo, que \u00e9 morte para o pecado e vida para Deus. A imers\u00e3o simboliza a morte e a emers\u00e3o simboliza a vida nova do crist\u00e3o que se compromete a seguir Jesus Cristo na obedi\u00eancia ao Pai pelo poder do Esp\u00edrito Santo. \u00c9 por isso que Paulo exorta os baptizados a viverem uma vida nova. \u201cExorto-vos irm\u00e3os, pela miseric\u00f3rdia de Deus, a que ofere\u00e7ais os vossos corpos como sacrif\u00edcio vivo, santo e agrad\u00e1vel a Deus. Seja este o vosso verdadeiro culto, o espiritual\u201d (Rm 12,1). Este culto espiritual consiste, na vis\u00e3o paulina, no oferecimento total de si mesmo em uni\u00e3o com toda a Igreja.  Significa uma vida totalmente renovada: \u201cQuer comais, quer bebais, quer fa\u00e7ais qualquer outra coisa, fazei tudo para gl\u00f3ria de Deus\u201d (1Cor 10,31). \u201cN\u00e3o vos acomodeis a este mundo. Pelo contr\u00e1rio deixai-vos transformar, adquirindo uma nova mentalidade, para poderdes discernir qual \u00e9 a vontade de Deus\u201d (Rm 12,2). Este culto novo manifesta-se por outro lado na humildade e no servi\u00e7o, \u201ce de acordo com a medida da f\u00e9 que Deus distribuiu a cada um\u201d(Rm 12,3).  Porque, continua o ap\u00f3stolo, \u201c\u00e9 que, como num s\u00f3 corpo, temos muitos membros, mas os membros n\u00e3o t\u00eam todos a mesma fun\u00e7\u00e3o, assim acontece connosco: os muitos que somos formamos um s\u00f3 corpo em Cristo, mas individualmente, somos membros que pertencem uns aos outros.\u201d (Rm 12,4) O culto espiritual consiste em exercer o seu pr\u00f3prio carisma em esp\u00edrito de solidariedade e de servi\u00e7o humilde, com um amor sincero, na alegria e quanto poss\u00edvel na paz com todos. E o ap\u00f3stolo conclui lembrando a luta constante que deve conduzir o crist\u00e3o contra as for\u00e7as do mal.: \u201cN\u00e3o te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem\u201d (Rm 12,21). \u201cO sacrif\u00edcio mais agrad\u00e1vel a Deus, escreve S. Cipriano, \u00e9 a nossa paz e a conc\u00f3rdia fraterna, e um povo cuja uni\u00e3o seja o reflexo da unidade que existe entre o Pai, o Filho e o Esp\u00edrito Santo\u201d (26)  A Vida de Cristo, que alimenta a nossa oferenda pela eucaristia, torna-nos semelhantes a ele e dispon\u00edveis para os outros, na unidade de um s\u00f3 Corpo e dum s\u00f3 Esp\u00edrito. Ele transforma a comunidade num templo vivo de Deus para o culto da nova alian\u00e7a: \u201c\u00c9 o vosso pr\u00f3prio mist\u00e9rio que colocais para v\u00f3s na mesa do Senhor; \u00e9 o vosso mist\u00e9rio que recebeis. \u00c9 a afirma\u00e7\u00e3o daquilo que sois (o Corpo de Cristo) ao qual respondeis : \u201c\u00c1men\u201d, e a vossa resposta \u00e9 como que a vossa assinatura\u201d \u201cEis o sacrif\u00edcio dos crist\u00e3os: serem todos  um s\u00f3 Corpo em Jesus Cristo. \u00c9 o mist\u00e9rio que a Igreja celebra no sacramento do altar, onde aprende a oferecer-se a si mesma na obla\u00e7\u00e3o que faz a Deus\u201d (27) B)\tA verdadeira adora\u00e7\u00e3o A celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica torna presente Cristo no acto de adora\u00e7\u00e3o por excel\u00eancia que \u00e9 a sua morte sobre a cruz. Pelo seu acto de amor absoluto at\u00e9 \u00e0 morte, Cristo volta para o Pai com a humanidade reconciliada e obt\u00e9m para todos o Esp\u00edrito de amor e de paz que anima a adora\u00e7\u00e3o da Igreja em esp\u00edrito e verdade. Por ele, com ele e nele, \u00e9 toda a Igreja que \u00e9 adoradora, em nome da humanidade resgatada. O acto de adora\u00e7\u00e3o por excel\u00eancia de Cristo e da Igreja realiza-se na oferenda do santo sacrif\u00edcio in Persona Christi, Caput et Corpus, como diz S. Agostinho, incluindo a participa\u00e7\u00e3o activa dos fi\u00e9is neste mist\u00e9rio de louvor, de ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as e de comunh\u00e3o.   Esta participa\u00e7\u00e3o, primordialmente interior, exprime-se nas palavras e nos gestos: na resposta \u00e0s palavras do presidente, na escuta da Palavra, no canto, na ora\u00e7\u00e3o universal, nas aclama\u00e7\u00f5es eucar\u00edsticas e muito particularmente no \u00e1men; na comunh\u00e3o do p\u00e3o da vida, e tamb\u00e9m no c\u00e1lice da salva\u00e7\u00e3o. Em tudo isto se exprime o sacerd\u00f3cio real dos baptizados, consagra\u00e7\u00e3o da sua dignidade primeira e inalien\u00e1vel de seres humanos.   O acto de adora\u00e7\u00e3o de Cristo e da Igreja na celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica n\u00e3o cessa todavia com a ac\u00e7\u00e3o lit\u00fargica, prolonga-se na presen\u00e7a sacramental permanente, impulsionando \u00e0 participa\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is pela adora\u00e7\u00e3o do Sant\u00edssimo Sacramento. A adora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica fora da missa prolonga o memorial, convidando os fi\u00e9is a permanecer junto do Senhor presente no sant\u00edssimo sacramento: \u201cO Mestre est\u00e1 ali e chama-te\u201d. (Jo 11,28) Pela adora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica os fi\u00e9is reconhecem a presen\u00e7a real do Senhor e unem-se ao seu acto de oferecimento ao Pai. A sua adora\u00e7\u00e3o participa da sua, de certa maneira, pois \u00e9 por ele, com ele e nele que toda a ora\u00e7\u00e3o e adora\u00e7\u00e3o sobem para o Pai e lhe s\u00e3o agrad\u00e1veis por ele. Cristo que anuncia \u00e0 Samaritana que o Pai procura adoradores em esp\u00edrito e verdade (Jo 4,23-26) n\u00e3o \u00e9 ele mesmo o primeiro adorador e o que vai \u00e0 frente de todos os adoradores e adoradoras ? (Hb 12, 2,24)  \u201cEsperando o Cristo Senhor eles gozam da sua \u00edntima familiaridade e, diante dele expandem o seu cora\u00e7\u00e3o, para si mesmos e para todos os seus, rezam pela paz e a salva\u00e7\u00e3o do mundo. Oferendo a sua vida inteira ao Pai com Cristo no Esp\u00edrito Santo, colocam nesta admir\u00e1vel permuta um acrescentamento \u00e0 sua f\u00e9, esperan\u00e7a e caridade\u201d. (28) \u201c\u00c9 bom conversar com ele e debru\u00e7ados sobre o seu peito, como o disc\u00edpulo amado, (Jo 13,25) ser tocados pelo amor infinito do seu cora\u00e7\u00e3o. Se, no nosso tempo, o cristianismo deve distinguir-se sobretudo pela arte da ora\u00e7\u00e3o, como n\u00e3o sentir a necessidade renovada de permanecer longamente em conversa\u00e7\u00e3o espiritual, em admira\u00e7\u00e3o silenciosa, em atitude de amor diante de Cristo presente no sant\u00edssimo sacramento\u201d (29)  Esta \u201carte da ora\u00e7\u00e3o\u201d que Jo\u00e3o Paulo II associa \u00e0 adora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica conhece uma retoma de fervor nos nossos dias um pouco por toda a Igreja, aumentando dum mesmo impulso o seu testemunho de amor de Deus e a sua intercess\u00e3o pelas necessidades do mundo. A pr\u00e1tica da adora\u00e7\u00e3o refor\u00e7a com efeito nos fi\u00e9is o sentido do sagrado na celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica que infelizmente est\u00e1 baixando em certos meios. Porque reconhecer a presen\u00e7a divina nas santas esp\u00e9cies, fora da missa, contribui para cultivar a participa\u00e7\u00e3o activa e interior dos fi\u00e9is na celebra\u00e7\u00e3o e os ajuda a ver mais do que um rito social.   Os frutos da adora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica tocam assim o culto espiritual de toda a vida que consiste no cumprimento quotidiano da vontade de Deus. Contemplar Cristo no estado de oferenda e de imola\u00e7\u00e3o no sant\u00edssimo sacramento leva a dar-se sem limites, activa e passivamente, a dar-se at\u00e9 ser dado como p\u00e3o eucar\u00edstico que passa de m\u00e3o em m\u00e3o na santa comunh\u00e3o. Aquele que \u00e9 visitado e adorado no tabern\u00e1culo, n\u00e3o ensinar\u00e1 a ser perseverante no amor, ao ritmo do quotidiano, acolhendo as circunst\u00e2ncias, os acontecimentos e os minutos que passam com o seu conte\u00fado, sem nada excluir excepto o pecado, procurando produzir o maior fruto poss\u00edvel ? A adora\u00e7\u00e3o verdadeira, \u00e9 o dom de si mesmo no amor, \u00e9 \u201co \u00eaxtase do amor\u201d no momento presente, para a gl\u00f3ria de Deus e servi\u00e7o do pr\u00f3ximo. \u00c9 assim que se prolonga no cora\u00e7\u00e3o da comunidade e dos fi\u00e9is a adora\u00e7\u00e3o de Cristo e da Igreja actualizada sacramentalmente na celebra\u00e7\u00e3o da eucaristia.  C)\tOs ministros da nova alian\u00e7a No centro do culto da nova alian\u00e7a, a participa\u00e7\u00e3o activa dos membros do povo de Deus \u00e9 solicitada, quer sejam fi\u00e9is laicos, quer ministros ordenados. A apresenta\u00e7\u00e3o das oferendas e a ac\u00e7\u00e3o do ministro simbolizam de certa maneira o conjunto desta participa\u00e7\u00e3o. \u201cO p\u00e3o e o vinho tornam-se em certo sentido no s\u00edmbolo de tudo o que a assembleia eucar\u00edstica traz dela mesma como oferenda a Deus, e oferece em esp\u00edrito\u201d (30) Pela media\u00e7\u00e3o do ministro que age em seu Nome e mesmo na sua Pessoa (in Persona Christi) pronunciando as palavras da consagra\u00e7\u00e3o, Cristo assume a oferenda da assembleia na sua e transforma-a no seu corpo e sangue.  \u201cCom efeito, os ap\u00f3stolos, nas suas mem\u00f3rias a que chamamos evangelhos, transmitiram-nos a ordem de Jesus: tomou o p\u00e3o, deu gra\u00e7as e disse: Fazei isto em mem\u00f3ria de mim. Isto \u00e9 o meu corpo. Do mesmo modo Ele tomou o c\u00e1lice, deu gra\u00e7as e disse: Este \u00e9 o meu sangue. E foi somente a eles que o distribuiu. Desde ent\u00e3o, n\u00e3o deixamos jamais de renovar essa mem\u00f3ria entre n\u00f3s\u201d (31) A assembleia que faz mem\u00f3ria torna-se sinal da Igreja. Constitu\u00edda por membros t\u00e3o diversos est\u00e3o portanto ligados entre si e os outros membros das outras comunidades na Igreja universal. Esta Igreja de Cristo, confiada a Pedro e aos sucessores, acolhe o sinal de que \u00e9 presidida por Ele no ministro que age em nome de Cristo no meio da assembleia. O minist\u00e9rio dos bispos e dos sacerdotes manifesta ent\u00e3o que esta assembleia recebeu sempre o memorial do Senhor como um dom, um dom que ela mesma produz  mas que recebe do Pai, de quem toda a paternidade recebe o nome no c\u00e9u e na terra (Ef 3, 14-15).  Uma tal responsabilidade chama os ministros do Senhor, particularmente na Igreja latina, a viver o compromisso do celibato que configura o sacerdote com Jesus Cristo, Cabe\u00e7a e Esposo da Igreja. \u201cA Igreja, como esposa de Jesus Cristo, quer ser amada pelo sacerdote de maneira total e exclusiva com a qual Jesus Cristo, Cabe\u00e7a e Esposo a amou. O celibato sacerdotal ent\u00e3o \u00e9 dom de si em e com Cristo \u00e0 sua Igreja, e exprime o servi\u00e7o prestado pelo sacerdote \u00e0 Igreja em e com o Senhor\u201d (32). O celibato permanece, por conseguinte, apesar das incompreens\u00f5es da cultura ambiente, um dom inestim\u00e1vel de Deus, como um \u201cest\u00edmulo da caridade pastoral\u201d (PO,16), como uma participa\u00e7\u00e3o particular na paternidade de Deus e na fecundidade da Igreja. Profundamente radicado na eucaristia, o alegre testemunho dum sacerdote feliz no seu minist\u00e9rio \u00e9 a primeira fonte de novas voca\u00e7\u00f5es.  <i>V \u2013 A Eucaristia e A Miss\u00e3o<\/i> Depois de reconhecer o Senhor ao partir do p\u00e3o, os disc\u00edpulos de Ema\u00fas \u201cLevantaram-se no mesmo instante\u201d (Lc 24,33) para ir comunicar o que tinham visto e ouvido. Quando se fez uma verdadeira experi\u00eancia do Ressuscitado, n\u00e3o se pode guardar para si a Boa Nova e a alegria experimentada. O encontro com Cristo, aprofunda em perman\u00eancia a intimidade eucar\u00edstica, e suscita na Igreja e em todo o crist\u00e3o a urg\u00eancia do testemunho e da evangeliza\u00e7\u00e3o. (33) A.\tA Evangeliza\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o do mundo \u201cAs alegrias e esperan\u00e7as, tristezas e ang\u00fastias dos homens dos nossos tempos, dos pobres sobretudo de todos aqueles que sofrem, s\u00e3o as alegrias e as esperan\u00e7as, as tristezas e as ang\u00fastias dos disc\u00edpulos de Cristo\u201d (34) Quando a Igreja celebra o memorial da morte e da ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, n\u00e3o cessa de pedir a Deus: \u201cLembra-te Senhor\u201d, de todos aqueles para quem Cristo veio trazer a Vida. Esta ora\u00e7\u00e3o constante exprime a identidade da igreja e sua miss\u00e3o, porque ela reconhece-se solid\u00e1ria e respons\u00e1vel pela salva\u00e7\u00e3o de toda a humanidade. Vivendo da eucaristia, participa na intercess\u00e3o universal de Cristo e traz a toda a humanidade a esperan\u00e7a da vida eterna.  A Igreja cumpre a miss\u00e3o pela evangeliza\u00e7\u00e3o que transmite a f\u00e9 em Cristo e pela busca da justi\u00e7a e da paz que operam a transforma\u00e7\u00e3o do mundo. Ora a eucaristia \u00e9 a fonte e o cume da evangeliza\u00e7\u00e3o e da transforma\u00e7\u00e3o do mundo. Tem o poder de despertar a esperan\u00e7a da vida eterna naqueles que est\u00e3o tentados pelo desespero.  Abre \u00e0 partilha aqueles que s\u00e3o tentados a fechar as m\u00e3os. Faz avan\u00e7ar a reconcilia\u00e7\u00e3o em vez da divis\u00e3o. Situa a vida e a dignidade humanas no centro do compromisso da f\u00e9. Numa sociedade muito frequentemente dominada pela \u201ccultura da morte\u201d, exarcebada pela busca do conforto individual, do poder e do dinheiro, a eucaristia lembra o direito dos pobres e o dever da justi\u00e7a e da solidariedade. Desperta a comunidade para o dom imenso da nova alian\u00e7a que chama a humanidade inteira a tornar-se maior que ela mesma. \u201cQue quer dizer evangelizar ? Evangelizar \u00e9 levar a Boa Nova a todos os lugares da humanidade e por impacto, transformar a partir de dentro, tornar nova a pr\u00f3pria humanidade.: \u201c fa\u00e7o novas todas as coisas\u201d (Ap 21,5) N\u00e3o haver\u00e1 nova humanidade se n\u00e3o houver, primeiramente, seres novos, da novidade do baptismo e da vida, segundo o Evangelho; a evangeliza\u00e7\u00e3o visa esta mudan\u00e7a interior. A Igreja evangeliza quando, pelo poder da Boa Nova que proclama, procura converter ao mesmo tempo a consci\u00eancia pessoal e colectiva dos homens, a actividade na qual est\u00e3o envolvidos, a vida e o meio concreto em que est\u00e3o inseridos.\u201d (35) A partir do centro eucar\u00edstico da sua vida, a Igreja de Cristo contribuiu muitas vezes para a constru\u00e7\u00e3o de comunidades humanas, refor\u00e7ando o la\u00e7o de unidade entre as pessoas e os grupos. Foi assim que as comunidades crist\u00e3s, mesmo pequenas e pobres, cresceram no meio dos povos onde lan\u00e7aram ra\u00edzes. Em v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es, como foi o caso em terras da Am\u00e9rica, para as na\u00e7\u00f5es amer\u00edndias e europeias, a Igreja de Cristo inscreveu a f\u00e9 no espa\u00e7o das novas culturas. Neste espa\u00e7o, o cristianismo n\u00e3o cessou, atrav\u00e9s dos crentes, de buscar solu\u00e7\u00f5es novas aos problemas in\u00e9ditos que apareciam \u00e0s comunidades humanas que se implantavam. Acompanhou frequentemente o nascimento, a evolu\u00e7\u00e3o e a sobreviv\u00eancia dos povos, como o fez no \u201cNovo Mundo\u201d, enquanto o memorial do Senhor punctuava o desenvolvimento religioso e social. Em raz\u00e3o do seu alto valor social e espiritual, ajudou a construir um verdadeiro estar-em-comum; a partilha da Palavra e do P\u00e3o da vida prolongou a partilha de outras realidades humanas. O dom de Deus inscreveu-se na vida do mundo.  Em terras de Am\u00e9rica, como por toda a parte, a Igreja come\u00e7ou por um projecto mission\u00e1rio. A f\u00e9 e as institui\u00e7\u00f5es eclesiais, deram origem a uma Igreja particular que busca inspirar-se na primeira comunidade de Jerusal\u00e9m; contribu\u00edram para modelar os tra\u00e7os do povo que nascia. Esta Igreja, como a sociedade em que se inseria, foi marcada por um impulso primeiro: Ursulinas e Hospitaleiras, Recoletos e Jesu\u00edtas, leigos associados e padres seculares, atravessaram o oceano para anunciar o Evangelho de Deus em terra nova. Esta Igreja iria deixar, na aventura m\u00edstica destes homens e mulheres, aventura levada aos limites da resist\u00eancia f\u00edsica da coragem e da f\u00e9, a sua profunda identifica\u00e7\u00e3o com o pa\u00eds que crescia. Este grande impulso mission\u00e1rio, bebido na fonte eucar\u00edstica, que tanto marcou a hist\u00f3ria deste pa\u00eds, \u00e9 chamado a prosseguir e a aprofundar-se perante os novos desafios da seculariza\u00e7\u00e3o.  B.\tConstruir a paz, a justi\u00e7a e a caridade A Igreja \u00e9 testemunha no meio dos homens do dom realizado \u201cpara que o mundo tenha vida\u201d A eucaristia \u00e9 ent\u00e3o um constante desafio posto \u00e0 qualidade de vida e do amor dos disc\u00edpulos de Cristo. Que fiz do meu irm\u00e3o ? Que fizestes de mim ? \u201cTive fome, tive sede, era estrangeiro, estava nu, doente e na pris\u00e3o\u201d. (Mt 25, 31-46) O que celebram \u00e9 compat\u00edvel com as suas rela\u00e7\u00f5es sociais, familiares, inter-raciais e inter-\u00e9tnicas ou com  a vida pol\u00edtica e econ\u00f3mica na qual participam ?  O memorial que consideram o acontecimento central da hist\u00f3ria da humanidade acaba por mostrar a sua inconsequ\u00eancia de cada vez que toleram qualquer forma de mis\u00e9ria, injusti\u00e7a, viol\u00eancia, explora\u00e7\u00e3o, racismo e priva\u00e7\u00e3o de liberdade. A eucaristia convoca os crist\u00e3os para participarem na restaura\u00e7\u00e3o cont\u00ednua da condi\u00e7\u00e3o humana e da situa\u00e7\u00e3o do mundo, contanto que sejam seriamente convidados \u00e0 convers\u00e3o para viver o apelo do Evangelho: \u201cDeixa a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com o teu irm\u00e3o; depois volta para apresenta a tua oferta\u201d (Mt 5,23.24). A situa\u00e7\u00e3o actual do mundo interpela de um modo particular a consci\u00eancia dos crist\u00e3os a prop\u00f3sito do lancinante problema do respeito pela vida humana desde o momento da sua concep\u00e7\u00e3o at\u00e9 ao seu termo, ao mesmo tempo que a fome e a mis\u00e9ria das massas. Uma globaliza\u00e7\u00e3o da solidariedade em nome da dignidade inalien\u00e1vel da pessoa humana, convida-os a impressionar-se sobretudo quando seres sem defesa s\u00e3o atingidos por cat\u00e1strofes naturais, geradas pelas cegas m\u00e1quinas de guerra e de explora\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e os confinados aos campos de refugiados. Todos estes e estas, a quem a mis\u00e9ria, por assim dizer, destituiu da condi\u00e7\u00e3o de seres humanos, s\u00e3o o pr\u00f3ximo por quem Cristo morreu. O seu Cora\u00e7\u00e3o \u201ceucar\u00edstico\u201d assumiu na cruz, antecipadamente, todas as mis\u00e9rias do mundo, e o seu Esp\u00edrito impele-nos a tomar partido como Ele, pacifica e eficazmente, a favor dos pobres e das v\u00edtimas inocentes.  No seguimento de Jo\u00e3o Paulo II, o papa Bento XVI n\u00e3o cessa de chamar \u00e0 responsabilidade todos os homens, e em particular aos dirigentes e chefes de Estado:  \u201cBaseando-se nos dados estat\u00edsticos dispon\u00edveis, pode-se afirmar que menos de metade das somas imensas que s\u00e3o destinadas globalmente aos armamentos seriam mais que suficientes para salvar da indig\u00eancia, de uma maneira est\u00e1vel, o ex\u00e9rcito inumer\u00e1vel dos pobres. A consci\u00eancia humana \u00e9 interpelada por esta situa\u00e7\u00e3o.  \u201c\u00c0s popula\u00e7\u00f5es que vivem no limiar da pobreza, por causa da situa\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia originadas pelas rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, comerciais e culturais internacionais, mais do que de circunst\u00e2ncias incontrol\u00e1veis, o nosso compromisso comum pela verdade pode e deve dar uma nova esperan\u00e7a\u201d (36) \u201cSabemos, contudo, que o mal n\u00e3o tem a \u00faltima palavra; &#8211; reafirmou-o com for\u00e7a na sua mensagem de P\u00e1scoa, &#8211; porque o vencedor \u00e9 Cristo crucificado e ressuscitado, e o seu triunfo manifesta-se com a for\u00e7a do amor misericordioso. A ressurrei\u00e7\u00e3o d\u00e1-nos esta certeza: apesar de toda a obscuridade que existe no mundo, o mal n\u00e3o tem a \u00faltima palavra. Sustentados por esta certeza, podemos comprometer-nos com mais coragem e entusiasmo para que nas\u00e7a um mundo mais justo\u201d (38)  <b>VI \u2013 Testemunhas da Eucaristia no Cora\u00e7\u00e3o do Mundo<\/b> A.\t\u2013 O apelo universal \u00e0 santidade \u201cDeus criou o ser humano \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a\u201d(Gn 1, 26ss): chamando-o \u00e0 exist\u00eancia por amor, chama-o ao mesmo tempo ao amor\u201d (39). As voca\u00e7\u00f5es ao amor s\u00e3o portanto t\u00e3o diversas quantas as pessoas. A gra\u00e7a baptismal conforma-os ao amor de Jesus Cristo que o mist\u00e9rio eucar\u00edstico alimenta e aperfei\u00e7oa at\u00e9 ao testemunho da santidade. Seja qual for o estado de vida, celibat\u00e1rio, casado ou consagrado, no qual o homem ou mulher estejam comprometidos, todos s\u00e3o chamados \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o do amor que Cristo tornou poss\u00edvel pela gra\u00e7a da reden\u00e7\u00e3o.  Na unidade da vida crist\u00e3, as diferentes voca\u00e7\u00f5es s\u00e3o como os raios da \u00fanica luz de Cristo \u201cque resplandece sobre o rosto da Igreja\u201d. Os leigos, em virtude do car\u00e1cter secular da sua voca\u00e7\u00e3o, reflectem o mist\u00e9rio do Verbo incarnado, sobretudo como sendo Alfa e o \u00d3mega do mundo, fundamento e medida do valor de todas as realidades criadas. Os ministros sagrados por seu lado, s\u00e3o as imagens vivas de Cristo, chefe e pastor, que guia o seu povo no tempo \u201cdo j\u00e1 e do ainda n\u00e3o\u201d, esperando a sua vinda gloriosa. A vida consagrada tem o dever de mostrar o Filho de Deus feito homem como o termo escatol\u00f3gico para o qual tudo converge, o esplendor frente ao qual toda a outra luz empalidece, e a beleza infinita que somente ela pode preencher o cora\u00e7\u00e3o do homem.   B) A fam\u00edlia, Igreja dom\u00e9stica, para uma civiliza\u00e7\u00e3o do amor \u201cA Eucaristia \u00e9 fonte mesma do matrim\u00f3nio crist\u00e3o. De facto o sacrif\u00edcio eucar\u00edstico, representa a alian\u00e7a de amor entre Cristo e a Igreja, enquanto selada com o sangue da sua cruz. Neste sacrif\u00edcio da Nova e Eterna Alian\u00e7a \u00e9 que os esposos crist\u00e3os encontram a raiz donde brota, e que interiormente plasma e continuamente vivifica a sua alian\u00e7a conjugal. Como representa\u00e7\u00e3o do sacrif\u00edcio de amor de Cristo pela Igreja, a eucaristia \u00e9 fonte de caridade. E no dom eucar\u00edstico da caridade a fam\u00edlia crist\u00e3 encontra o fundamento e a alma da sua \u2018comunh\u00e3o\u2019 e da sua \u2018miss\u00e3o\u2019. O P\u00e3o eucar\u00edstico faz dos diversos membros da comunidade familiar um \u00fanico corpo, revelando a participa\u00e7\u00e3o na unidade mais ampla da Igreja. A participa\u00e7\u00e3o no Corpo \u2018dado\u2019 e no Sangue \u2018derramado\u2019 de Cristo, torna-se fonte inesgot\u00e1vel do dinamismo mission\u00e1rio e apost\u00f3lico da fam\u00edlia crist\u00e3.\u201d (40) A miss\u00e3o espec\u00edfica da fam\u00edlia \u00e9 incarnar o amor e de o p\u00f4r ao servi\u00e7o da sociedade. Amor conjugal, amor paternal e maternal, amor fraterno, amor de uma comunidade de pessoas e de gera\u00e7\u00f5es, amor vivido sob o signo da fidelidade e fecundidade do casal para uma civiliza\u00e7\u00e3o do amor e da vida. Para que este testemunho toque concretamente a vida da sociedade, a Igreja chama a fam\u00edlia a frequentar assiduamente a missa dominical. Porque ser\u00e1 na refer\u00eancia a esta poderosa fonte de amor que a fam\u00edlia proteger\u00e1 a sua estabilidade. E mais ainda, fortalecendo assim a sua consci\u00eancia de ser Igreja dom\u00e9stica ela participar\u00e1 mais activamente no testemunho de f\u00e9 e amor que a Igreja incarna no seio da sociedade.  Este testemunho de Igreja dom\u00e9stica \u00e9 marcado nos dias de hoje pelo sinal da cruz, por exemplo, quando um dos c\u00f4njuges \u00e9 infiel ao seu compromisso ou quando um ou v\u00e1rios filhos abandonam a f\u00e9 e os valores crist\u00e3os que os pais se esfor\u00e7aram por transmitir, ou ainda quando as fam\u00edlias divididas se recomp\u00f5em depois de um div\u00f3rcio ou de um re-casamento. Atrav\u00e9s destas experi\u00eancias dolorosas, Cristo n\u00e3o chamar\u00e1 o c\u00f4njuge abandonado, os filhos feridos e os pais mortificados a participar duma maneira especial na sua pr\u00f3pria experi\u00eancia de morte e ressurrei\u00e7\u00e3o ? As situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis e complexas das fam\u00edlias de hoje convidam os pastores a muita \u201ccaridade pastoral\u201d afim de acolher todas as fam\u00edlias e encorajar todos aqueles e aquelas que vivem em situa\u00e7\u00f5es irregulares a participar na eucaristia e na vida da comunidade, mesmo que n\u00e3o possam receber a sagrada comunh\u00e3o. C)\tA vida consagrada, penhor de esperan\u00e7a perante o Esposo  \u201cPela sua pr\u00f3pria natureza, a eucaristia est\u00e1 no centro da vida consagrada, pessoal e comunit\u00e1ria. \u00c9 o seu vi\u00e1tico quotidiano e fonte de espiritualidade das pessoas e Institutos. Nela, todo o consagrado \u00e9 chamado a viver o mist\u00e9rio pascal de Cristo, unindo-se a ele numa entrega de vida ao Pai pelo Esp\u00edrito. A adora\u00e7\u00e3o ass\u00eddua e prolongada de Cristo presente na Eucaristia conduz de certa maneira a reviver a experi\u00eancia de Pedro na Transfigura\u00e7\u00e3o: \u201cQue bom \u00e9 estarmos aqui !\u201d. E na celebra\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio do Corpo e do sangue do Senhor, fortalecem-se e progridem a unidade e a caridade daqueles que consagraram a Deus a sua exist\u00eancia\u201d (41) \u201cQue seria do mundo se n\u00e3o houvesse consagrados ? \u201c Para al\u00e9m das considera\u00e7\u00f5es superficiais sobre a sua utilidade, a vida consagrada \u00e9 importante precisamente por que \u00e9  sobre-abundante a gratuidade do amor , sendo-o tanto mais num mundo que se arrisca a ser abafado pelo turbilh\u00e3o do ef\u00e9mero. \u201cSem este sinal concreto, a caridade do conjunto da Igreja correria o risco de arrefecer; o paradoxo salv\u00edfico do Evangelho emudeceria, o \u201csal\u201d da f\u00e9 diluir-se-ia num mundo em vias de seculariza\u00e7\u00e3o\u201d. A vida da Igreja e da pr\u00f3pria sociedade precisam de pessoas capazes de se consagrar totalmente a Deus e aos outros por amor de Deus \u201c (42) \u201cAinda que eu fale a l\u00edngua dos homens e dos anjos, se n\u00e3o tiver amor, nada sou (\u2026) A caridade n\u00e3o acaba nunca (\u2026) Agora permanecem a F\u00e9, a esperan\u00e7a e a caridade; estas tr\u00eas coisas, mas a maior de entre elas \u00e9 a caridade (1Cor 13, 1.8.13.). Teresa do Menino Jesus, no cora\u00e7\u00e3o do Carmelo, descobriu a sua voca\u00e7\u00e3o lendo a palavra do ap\u00f3stolo sobre a excel\u00eancia da caridade. \u201cA minha voca\u00e7\u00e3o \u00e9 o amor\u201d, escrevia ela; \u201cNo cora\u00e7\u00e3o da Igreja, minha M\u00e3e, eu serei o amor, e assim eu serei tudo\u201d Possu\u00edda pelo amor misericordioso de Deus Pai aproveitou cada instante da vida para  unir-se intimamente a Jesus, o seu Tudo, e por dar testemunho dele pela contempla\u00e7\u00e3o e servi\u00e7o. Rezando pelos criminosos, caminhando pelos mission\u00e1rios, sustentando os sacerdotes pela penit\u00eancia, formando as suas novi\u00e7as na perfei\u00e7\u00e3o do amor, Teresa \u00e9 reconhecida como um \u00edcone moderno da vida consagrada: mestra do caminho da inf\u00e2ncia espiritual, padroeira universal das miss\u00f5es, doutora da Igreja. \u201cN\u00e3o me arrependo de me ter entregue ao Amor\u201d diz ela no fim da vida. O S\u00ednodo sobre a Eucaristia, em Outubro de 2005 falava assim \u00e0s pessoas consagradas:  \u201cO vosso testemunho eucar\u00edstico no seguimento de Cristo \u00e9 um grito de amor na noite do mundo, um eco do Stabat Mater e do Magnificat . Que a mulher eucar\u00edstica por excel\u00eancia, coroada de estrelas e imensamente fecunda, a Virgem da Assump\u00e7\u00e3o e da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o, vos guarde no servi\u00e7o de Deus e dos pobres, na alegria da P\u00e1scoa, para a esperan\u00e7a do mundo\u201d (43)  <b>Conclus\u00e3o<\/b> <i>Deus tanto amou o mundo<\/i> Como conclus\u00e3o, alguns textos do Conc\u00edlio Vaticano II retomaram sinteticamente a perspectiva trinit\u00e1ria, nupcial e mission\u00e1ria que quisemos dar ao tema do Congresso Eucar\u00edstico Internacional de 2008. Deus amou tanto o mundo que lhe deu o seu Filho \u00fanico afim de que por Ele, com Ele e n\u2019Ele o mundo viva da vida trinit\u00e1ria. A sagrada Eucaristia \u00e9 Dom de Deus por excel\u00eancia, uma prenda nupcial, acolhida e celebrada na Igreja e que faz da Igreja o sacramento universal da nova alian\u00e7a. Este dom de amor compromete essencialmente a Igreja na miss\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, ao encontro da aspira\u00e7\u00e3o universal da humanidade para a liberdade e o amor.  \u201cO Verbo de Deus, pelo qual todas as coisas foram feitas, fazendo-se homem e vivendo na terra dos homens (Jo 1,3 e 14) entrou como homem perfeito na hist\u00f3ria do mundo, assumindo-a e recapitulando-a (Ef 1,10). Ele revela-nos que \u201cDeus \u00e9 Amor\u201d (I Jo 4,8) e  ensin<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Documento Teol\u00f3gico de Base para o Congresso Eucar\u00edstico Internacional de Quebeque. 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