{"id":21486,"date":"2006-12-04T12:09:34","date_gmt":"2006-12-04T12:09:34","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/12\/04\/advento-de-um-povo-peregrino\/"},"modified":"2006-12-04T12:09:34","modified_gmt":"2006-12-04T12:09:34","slug":"advento-de-um-povo-peregrino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/advento-de-um-povo-peregrino\/","title":{"rendered":"<i>Advento de um Povo Peregrino"},"content":{"rendered":"<p>Homilia do Cardeal-Patriarca de Lisboa no 1\u00ba Domingo do Advento. Ordena\u00e7\u00f5es de Di\u00e1conos  no Mosteiro dos Jer\u00f3nimos <!--more--> 1. Iniciamos, hoje, um novo Ano Lit\u00fargico, durante o qual celebramos, ao ritmo do tempo e da precariedade da nossa exist\u00eancia, a plenitude da nossa f\u00e9.  Cristo est\u00e1 no centro de cada tempo lit\u00fargico, quer celebremos o Seu nascimento, a Sua morte, a Ascens\u00e3o ao C\u00e9u ou o dom do Seu Esp\u00edrito, sempre na esperan\u00e7a da Sua plena manifesta\u00e7\u00e3o, na vida de cada um de n\u00f3s e na cria\u00e7\u00e3o inteira. Essa plena manifesta\u00e7\u00e3o de Cristo Vivo, acontece na caridade vivida, na salva\u00e7\u00e3o anunciada, na luta cont\u00ednua pela transforma\u00e7\u00e3o da cidade dos homens, semente da cidade definitiva, a \u201cNova Jerusal\u00e9m\u201d. \tO Advento, primeiro tempo lit\u00fargico, exprime aquelas atitudes e dinamismos que repassam todo o Ano Lit\u00fargico: a esperan\u00e7a de um Povo de peregrinos, que seguem o Senhor como disc\u00edpulos, aprofundando a sua identifica\u00e7\u00e3o com Ele, acreditando que \u00e9 poss\u00edvel construir, neste mundo, o Reino de Deus. \u00c9 o tempo que melhor exprime a identidade espiritual entre o Povo da primeira Alian\u00e7a e a Igreja, de tal modo que a expectativa messi\u00e2nica de Israel do Antigo Testamento, \u00e9 transpon\u00edvel para a Igreja, tamb\u00e9m ela dinamizada pela esperan\u00e7a da manifesta\u00e7\u00e3o definitiva do Messias, Jesus Cristo Nosso Salvador.  No Advento, ao assumir-se como Povo peregrino, a Igreja afirma-se como o Povo da Alian\u00e7a, da nova e definitiva Alian\u00e7a, ratificada no Sangue de Cristo. Ao assumir-se como um Povo a caminho, a Igreja toma consci\u00eancia de que \u00e9 um Povo de disc\u00edpulos, pois s\u00f3 n\u00e3o desiste da caminhada quem segue o Senhor, e com Ele aprende a viver segundo as exig\u00eancias do Reino de Deus.  \t2. O primeiro fruto desta peregrina\u00e7\u00e3o de quem vive seguindo o Senhor, \u00e9 aprender a caridade. O Ap\u00f3stolo Paulo \u00e9 claro na Carta aos Tessalonicenses: \u201cO Senhor vos conceda aumento e abund\u00e2ncia de caridade uns para com os outros e para com todos (\u2026). Que Ele d\u00ea assim firmeza aos vossos cora\u00e7\u00f5es, numa santidade irrepreens\u00edvel, diante de Deus, Nosso Pai, por ocasi\u00e3o da vinda de Jesus, Nosso Senhor\u201d (1Tess. 3,12-4,2). \tQuem vive com o Senhor, aprende a amar como Ele ama e assim cada express\u00e3o nossa de amor, por mais simples que seja, ganha a pureza e a qualidade do amor trinit\u00e1rio de Deus. A caridade \u00e9 a novidade do amor, dada aos disc\u00edpulos de Cristo, pelo Esp\u00edrito Santo. Para n\u00f3s, Igreja de Lisboa, este ano pastoral \u00e9 profundamente marcado pela exig\u00eancia da caridade. Foi o desafio lan\u00e7ado \u00e0 Igreja pela primeira Enc\u00edclica do Papa Bento XVI que veio explicitar uma das linhas de for\u00e7a deixadas pelo Congresso Internacional para a Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o. Todas as atitudes crist\u00e3s e toda a miss\u00e3o da Igreja devem ser express\u00e3o da caridade. \tMas a caridade \u00e9 ac\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas afirma\u00e7\u00e3o. Sup\u00f5e a generosidade do dom da nossa vida, a Deus e aos irm\u00e3os: a Deus, adorando-O e pondo em pr\u00e1tica os Seus mandamentos; aos irm\u00e3os, respeitando-os, escutando-os, servindo-os. N\u00e3o h\u00e1 caridade sem ora\u00e7\u00e3o, pois \u00e9 na intimidade com Deus que se aprende a amar como Ele ama. \tO sacramento do diaconado, que hoje administramos, exprime bem este dinamismo trinit\u00e1rio da caridade. A sua express\u00e3o \u00e9 o servi\u00e7o; o di\u00e1cono realiza e significa a diaconia de toda a Igreja. Mas \u00e9 um sacramento, na consci\u00eancia de que um tal amor \u00e9 um dom de Deus, que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel com a for\u00e7a de Cristo ressuscitado.   \t3. Neste Advento, estamos assim confrontados com a urg\u00eancia da caridade, que significa, antes de mais, o n\u00e3o desistirmos da santidade. Valor supremo do cristianismo, a caridade tem express\u00f5es trans-temporais, mas concretiza-se, tamb\u00e9m, nas caracter\u00edsticas de cada tempo. Entre as primeiras est\u00e1 a gl\u00f3ria de Deus, o \u201camar a Deus sobre todas as coisas\u201d. E o realismo crist\u00e3o das primeiras gera\u00e7\u00f5es ensinou-nos que s\u00f3 se ama a Deus se cumprirmos os Seus mandamentos. \u00c9 a objectividade da caridade, express\u00e3o da objectividade da verdade. Somos convidados a recordar os mandamentos de Deus e a avaliar, no \u00edntimo da nossa consci\u00eancia, a medida da nossa obedi\u00eancia e da nossa fidelidade. Os principais males da nossa sociedade corrigir-se-iam, se cumpr\u00edssemos os mandamentos. A crise da fam\u00edlia, o respeito pela vida, a sexualidade como dinamismo de amor, a honestidade nos neg\u00f3cios e na gest\u00e3o dos bens materiais, a luta contra a corrup\u00e7\u00e3o, a limpidez da verdade em todas as rela\u00e7\u00f5es humanas e sociais, encontram sa\u00edda positiva nos mandamentos de Deus. O amor a Deus n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um sentimento religioso; \u00e9 a coragem da liberdade e a op\u00e7\u00e3o corajosa pelo amor, pela vida, pela verdade, pela honestidade. Amar a Deus \u00e9 transformar o mundo, \u00e9 construir um mundo novo, a que Jesus chamou o Reino de Deus.  \t4. E esse \u00e9 o verdadeiro horizonte da esperan\u00e7a crist\u00e3, o sentido da nossa peregrina\u00e7\u00e3o no mundo e na hist\u00f3ria. N\u00f3s acreditamos que, em Jesus Cristo, come\u00e7ou o fermento de um mundo novo, a cidade definitiva que ainda se h\u00e1-de manifestar. Jeremias anuncia que, com a vinda do Messias, Jerusal\u00e9m, aqui s\u00edmbolo da humanidade, adquirir\u00e1 um ritmo novo. \u201cEste \u00e9 o nome que chamar\u00e3o \u00e0 Cidade: o Senhor \u00e9 a nossa Justi\u00e7a\u201d (Jer. 33,16). Este \u00e9 o nome que a cidade dos homens adquiriu em Jesus Cristo. Os crist\u00e3os, justificados em Cristo, s\u00e3o o \u201cfermento\u201d dessa nova cidade, onde se torna claro que s\u00f3 o Senhor \u00e9 a nossa justi\u00e7a. A plenitude deste processo ser\u00e1 a \u00faltima manifesta\u00e7\u00e3o de Cristo. Sup\u00f5e o sofrimento e a purifica\u00e7\u00e3o de tudo o que conhecemos, purifica\u00e7\u00e3o essa que j\u00e1 est\u00e1 presente no dinamismo da santidade crist\u00e3. \tA transforma\u00e7\u00e3o final de todas as coisas nos \u201cnovos c\u00e9us e nova terra\u201d, acarreta a precariedade de todas as formas de ser que conhecemos. A aceita\u00e7\u00e3o desta precariedade faz parte do realismo crist\u00e3o. O Conc\u00edlio Vaticano II, ao falar da miss\u00e3o da Igreja e dos crist\u00e3os na transforma\u00e7\u00e3o do mundo, declarou: \u201cDesconhecemos o tempo da plena realiza\u00e7\u00e3o da Terra e da humanidade, n\u00e3o conhecemos o modo da transforma\u00e7\u00e3o do cosmos. Mas \u00e9, certamente, passageira a forma deste mundo deformada pelo pecado; mas n\u00f3s aprendemos que Deus nos prepara uma nova morada e uma nova Terra onde reinar\u00e1 a justi\u00e7a, cuja plenitude cumular\u00e1 e ultrapassar\u00e1 todos os desejos de paz por que anseia o cora\u00e7\u00e3o do Homem\u201d (G.S. n.39). S\u00f3 ent\u00e3o a cidade dos homens merecer\u00e1 chamar-se \u201cO Senhor \u00e9 a nossa Justi\u00e7a\u201d, pois essa plenitude j\u00e1 est\u00e1 realizada em Jesus Cristo. \u00c9 por isso que os crist\u00e3os, seus disc\u00edpulos, que acolheram no cora\u00e7\u00e3o a semente dessa justi\u00e7a, s\u00e3o, desde j\u00e1, os protagonistas dessa transforma\u00e7\u00e3o do mundo. Porque as sementes da definitiva perfei\u00e7\u00e3o n\u00e3o anulam a precariedade do presente, este compromisso dos crist\u00e3os \u00e9 uma luta humilde, animada pela f\u00e9 e pela esperan\u00e7a. Eles sabem que s\u00e3o um Povo de peregrinos num mundo marcado pelo pecado, mas n\u00e3o irremediavelmente perdido. Essa peregrina\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre an\u00fancio da esperan\u00e7a. 3 de Dezembro de 2006 <i>\u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia do Cardeal-Patriarca de Lisboa no 1\u00ba Domingo do Advento. 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