{"id":21443,"date":"2006-11-30T12:59:06","date_gmt":"2006-11-30T12:59:06","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/11\/30\/bento-xvi-relanca-debate-sobre-a-missao-do-papa\/"},"modified":"2006-11-30T12:59:06","modified_gmt":"2006-11-30T12:59:06","slug":"bento-xvi-relanca-debate-sobre-a-missao-do-papa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/bento-xvi-relanca-debate-sobre-a-missao-do-papa\/","title":{"rendered":"Bento XVI relan\u00e7a debate sobre a Miss\u00e3o do Papa"},"content":{"rendered":"<p>No dia que reservou para os gestos mais significativos da sua visita \u00e0 Turquia, Bento XVI relan\u00e7ou junto do Patriarca de Constantinopla o debate sobre a Miss\u00e3o universal do Papa. O tema foi aflorado, ao de leve, na declara\u00e7\u00e3o comum que assinaram, mas foi claramente abordado no discurso papal na igreja patriarcal de S\u00e3o Jorge, esta manh\u00e3. \u201cO tema do servi\u00e7o universal de Pedro e dos seus sucessores deu, lamentavelmente, origem \u00e0s nossas diferen\u00e7as de opini\u00e3o, que esperamos superar, gra\u00e7as tamb\u00e9m ao di\u00e1logo teol\u00f3gico, retomado recentemente\u201d, disse o Papa no final da celebra\u00e7\u00e3o da Festa de Santo Andr\u00e9, irm\u00e3o de S\u00e3o Pedro. Bento XVI, te\u00f3logo de refer\u00eancia, sabe muito bem quais s\u00e3o as diferen\u00e7as que separam as duas Igrejas e n\u00e3o foge ao tema. Por isso, frisou que o Papa, sucessor de Pedro como Bispo de Roma, tem uma \u201cresponsabilidade universal\u201d e abriu as portas, na linha do que tinha feito Jo\u00e3o Paulo II, para o debate sobre novas formas de exerc\u00edcio para o \u201cminist\u00e9rio petrino\u201d. Esta quest\u00e3o tinha sido avan\u00e7ada pelo Papa polaco na enc\u00edclica \u201cUt unum sint\u201d para ser reflectida em termos ecum\u00e9nicos: \u201ceu me reconhe\u00e7o chamado, como Bispo de Roma, a exercer este minist\u00e9rio (&#8230;). O Esp\u00edrito Santo nos d\u00ea a sua luz, e ilumine todos os pastores e os te\u00f3logos das nossas Igrejas, para que possamos procurar, evidentemente juntos, as formas mediante as quais este minist\u00e9rio possa realizar um servi\u00e7o de amor, reconhecido por uns e por outros\u201d (n.\u00ba 88). Pouco depois do in\u00edcio do pontificado, Bento XVI referia que \u201co minist\u00e9rio de Pedro consiste num servi\u00e7o peculiar que o Bispo de Roma \u00e9 chamado a prestar a todo o povo crist\u00e3o. \u00c9 uma miss\u00e3o indispens\u00e1vel que n\u00e3o se apoia em prerrogativas humanas, mas sobre Cristo\u201d. A quest\u00e3o do primado do Papa \u00e9 um dos principais temas do di\u00e1logo entre as v\u00e1rias Igrejas Crist\u00e3s. Nenhuma contesta o primado de honra que o Bispo de Roma tem na Igreja universal, mas isto n\u00e3o resolve, at\u00e9 ao momento, a quest\u00e3o relativa \u00e0 jurisdi\u00e7\u00e3o desse primado. Para os cat\u00f3licos, o primado do Papa n\u00e3o \u00e9 apenas de honra, mas de pleno poder de governo sobre toda a Igreja. Bento XVI tem feito quest\u00e3o de afirmar que a sua miss\u00e3o enquanto Papa n\u00e3o \u00e9 um obst\u00e1culo \u00e0 plena e vis\u00edvel unidade entre os Crist\u00e3os, mas sim um \u201capoio para o caminho rumo \u00e0 unidade\u201d. Em 2005, na solenidade lit\u00fargica de S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo, ap\u00f3stolos fundadores da Igreja de Roma, uma delega\u00e7\u00e3o ortodoxa visitou, como \u00e9 habitual, o Papa. A ocasi\u00e3o foi aproveitada por Bento XVI para reafirmar a import\u00e2ncia do seu minist\u00e9rio enquanto garante da \u201cunidade\u201d, assinalando que \u201ccomo Bispo de Roma, o Papa desenvolve um servi\u00e7o \u00fanico e indispens\u00e1vel \u00e0 Igreja universal: \u00e9 o vis\u00edvel e perp\u00e9tuo princ\u00edpio e fundamento da unidade dos Bispos e de todos os fi\u00e9is\u201d, sendo a refer\u00eancia central para a unidade doutrinal e pastoral. O Papa disse ent\u00e3o \u00e0 delega\u00e7\u00e3o ortodoxa que \u201co primado da Igreja que est\u00e1 em Roma e o do seu Bispo \u00e9 um primado de servi\u00e7o \u00e0 comunh\u00e3o cat\u00f3lica\u201d, assegurando que a unidade que procura desde o in\u00edcio do seu pontificado, entre todos os crist\u00e3os, n\u00e3o \u00e9 \u201cnem absor\u00e7\u00e3o, nem fus\u00e3o\u201d.  Bento XVI n\u00e3o passou ao lado, como se v\u00ea, de uma das grandes quest\u00f5es no ecumenismo, pelo contr\u00e1rio, o sucessor de Jo\u00e3o Paulo II avan\u00e7a: \u00e9 o Papa quem deve estar na frente do caminho ecum\u00e9nico.  <b>Para quando a unidade?<\/b> O dia de hoje fica na hist\u00f3ria das rela\u00e7\u00f5es cat\u00f3lico-ortodoxas, mas a pr\u00f3pria declara\u00e7\u00e3o comum demonstra que, neste momento, a unidade est\u00e1 longe.  Deixando de lado, quase por completo, quaisquer argumentos doutrinais, a declara\u00e7\u00e3o aposta em argumntos pastorais e pr\u00e1ticos sobre a miss\u00e3o da Igreja. Os apelos feitos por Bento XVI e Bartolomeu I v\u00e3o mais no sentido de se criar uma \u201cplataforma comum\u201d de di\u00e1logo e de ac\u00e7\u00e3o, com testemunho conjunto na UE, no M\u00e9dio Oriente, na luta contra o terrorismo, na defesa do Ambiente ou dos mais pobres e desprotegidos. Os avan\u00e7os teol\u00f3gicos, esses, cabem aos especialistas da Comiss\u00e3o Mista Internacional, que procura desde Setembro &#8211; ap\u00f3s anos de interrup\u00e7\u00e3o dos trabalhos &#8211; aprofundar as quest\u00f5es levantadas pelo debate em volta do tema \u201cConciliariedade e Autoridade na Igreja\u201d a n\u00edvel local, regional e universal. Apesar de todos reconhecerem a import\u00e2ncia deste di\u00e1logo, a sua verdadeira dimens\u00e3o requer um olhar sobre a hist\u00f3ria: a separa\u00e7\u00e3o das duas comunidades crist\u00e3s foi consumada em 1054 e s\u00f3 conheceu melhorias nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas.  Bartolomeu I n\u00e3o \u00e9 o \u201cPapa da Igreja Ortodoxa\u201d, n\u00e3o tem poder sobre outras Igrejas nem tem uma grande comunidade a que presidir, em Istambul, mas seria um erro reduzir a import\u00e2ncia do Patriarca de Constantinopla a uma dimens\u00e3o num\u00e9rica \u2013 da mesma forma que seria errado avaliar a import\u00e2ncia do Papa pela dimens\u00e3o do Estado da Cidade do Vaticano, por exemplo. O \u201cprimus inter pares\u201d e l\u00edder espiritual dos cerca de 200 milh\u00f5es de ortodoxos do mundo inteiro sofre a contesta\u00e7\u00e3o interna do Patriarcado de Moscovo \u2013 que se distanciou desta visita do Papa -, mas conta com grande influ\u00eancia nos restantes Patriarcados hist\u00f3ricos (Alexandria, Antioquia, Jerusal\u00e9m) e nas Igrejas de tradi\u00e7\u00e3o grega, do M\u00e9dio Oriente e do Leste da Europa, numa comunh\u00e3o de 16 Igrejas Ortodoxas. Bartolomeu I foi sempre um parceiro de di\u00e1logo privilegiado de Jo\u00e3o Paulo II, bem ao contr\u00e1rio do Patriarca Ortodoxo de Moscovo, Alexis II. Jo\u00e3o Paulo II apresentou ao Patriarcado de Constantinopla, durante o seu pontificado, um pedido p\u00fablico de desculpas pelo ataque dos cruzados em 1204 e devolveu as rel\u00edquias de S\u00e3o Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo e de S\u00e3o Greg\u00f3rio de Nazianzo, Doutores da Igreja, em 2004. Bento XVI segue, agora, no mesmo caminho de amizade e di\u00e1logo fraterno, como foi hoje assumido, mas a \u201cplena unidade\u201d ainda poder\u00e1 demorar d\u00e9cadas, se n\u00e3o mesmo s\u00e9culos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia que reservou para os gestos mais significativos da sua visita \u00e0 Turquia, Bento XVI relan\u00e7ou junto do Patriarca de Constantinopla o debate sobre a Miss\u00e3o universal do Papa. 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