{"id":21367,"date":"2006-11-27T13:33:34","date_gmt":"2006-11-27T13:33:34","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/11\/27\/turquia-cristaos-debaixo-de-fogo\/"},"modified":"2006-11-27T13:33:34","modified_gmt":"2006-11-27T13:33:34","slug":"turquia-cristaos-debaixo-de-fogo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/turquia-cristaos-debaixo-de-fogo\/","title":{"rendered":"Turquia: crist\u00e3os debaixo de fogo"},"content":{"rendered":"<p>No in\u00edcio do s\u00e9culo XX mais de 30 % dos turcos professavam a religi\u00e3o crist\u00e3. Hoje, num pa\u00eds onde ap\u00f3s a prega\u00e7\u00e3o do Ap\u00f3stolo S\u00e3o Paulo nasceram as primeiras comunidades crist\u00e3s, os fi\u00e9is das v\u00e1rias Igrejas crist\u00e3s (cat\u00f3licas, ortodoxas, protestantes) ser\u00e3o pouco mais de 200 mil (entre 63 milh\u00f5es de habitantes) e n\u00e3o chegam a representar sequer 1% da popula\u00e7\u00e3o. Nos \u00faltimos 16 meses, 97 cidad\u00e3os turcos compareceram em tribunal para responder a alegadas viola\u00e7\u00f5es do controverso art. 301\u00ba do C\u00f3digo Penal turco que restringe a liberdade de express\u00e3o. A Uni\u00e3o Europeia (UE) voltou a pedir recentemente ao Governo turco que revisse ou retirasse este artigo, que pro\u00edbe &#8220;insultos \u00e0 na\u00e7\u00e3o turca&#8221;, do C\u00f3digo Penal. Ap\u00f3s o pedido de ades\u00e3o da Turquia \u00e0 UE, a Comiss\u00e3o Europeia colocou ao Governo de Ankara v\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias, entre as quais o reconhecimento da liberdade de religi\u00e3o e a necessidade de altera\u00e7\u00f5es legislativas que n\u00e3o sejam discriminat\u00f3rias para as minorias religiosas n\u00e3o mu\u00e7ulmanas. O clima de intoler\u00e2ncia para com os crist\u00e3os agravou-se desde 2005, especialmente ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o das caricaturas de Maom\u00e9 nos meios de comunica\u00e7\u00e3o ocidentais. Acusados de praticarem proselitismo (convers\u00f5es for\u00e7adas) entre os mu\u00e7ulmanos, os sacerdotes cat\u00f3licos s\u00e3o alvo de difama\u00e7\u00e3o p\u00fablica e temem pela sua seguran\u00e7a. S\u00e3o cada vez mais frequentes os casos de viol\u00eancia contra o clero na Turquia. \u00c9 neste contexto de inseguran\u00e7a \u2013 que se agravou com a pol\u00e9mica em torno do discurso do Papa na Universidade de Regensburg \u2013 que ir\u00e1 decorrer a hist\u00f3rica viagem apost\u00f3lica de Bento XVI \u00e0 Turquia. O convite partiu do Patriarca Grego Ortodoxo, Bartolomeu I, e foi depois confirmado pelo Presidente da Rep\u00fablica turco, Ahmet Sezer. O Patriarca Ortodoxo manifestou a sua esperan\u00e7a de que esta viagem venha acalmar as tens\u00f5es com o mundo isl\u00e2mico: &#8220;\u00c9 uma oportunidade para cultivar o di\u00e1logo e para acabar com mal-entendidos&#8221;. Atenta ao isolamento e \u00e0s dificuldades dos crist\u00e3os turcos, a Funda\u00e7\u00e3o Ajuda \u00e0 Igreja que Sofre publicou o relat\u00f3rio &#8220;Turquia, entre a Europa e o Oriente \u2013 Cristianismo silenciado&#8221;, promovendo igualmente uma campanha de Natal para apoiar os crist\u00e3os mais necessitados na Turquia e nos pa\u00edses do M\u00e9dio Oriente.  <b>Clero em perigo<\/b> No dia 5 de Fevereiro de 2006, na cidade de Trebisonda, um jovem mu\u00e7ulmano de 16 anos, influenciado por fundamentalistas religiosos, matou a tiro o padre italiano Andrea Santoro, \u00e0 sa\u00edda da Missa dominical na Igreja de Santa Maria. O sacerdote italiano trabalhava h\u00e1 dez anos no pa\u00eds, numa regi\u00e3o marcada pelo tr\u00e1fico de mulheres para a prostitui\u00e7\u00e3o. Nas palavras do pr\u00f3prio, a sua miss\u00e3o na comunidade de Trebisonda era somente a de \u201cser uma testemunha do amor incondicional de Cristo\u201d.  D. Luigi Padovese, Vig\u00e1rio Apost\u00f3lico da Anat\u00f3lia, explicou que o P. Santoro, dias antes de ser assassinado, tinha contactado com o Presidente da C\u00e2mara para que o munic\u00edpio cuidasse do cemit\u00e9rio cat\u00f3lico que fora profanado. No mesmo m\u00eas, um grupo de mu\u00e7ulmanos agredia em Esmirna o sacerdote esloveno, P. Martin Kmetec, gritando: \u201cDaremos cabo de todos v\u00f3s! Al\u00e1 \u00e9 grande\u201d.   m Junho, o P. Pierre Brunissen, de 75 anos, foi apunhalado na cidade de Samsun, alegadamente por um esquizofr\u00e9nico e um jovem atacou um frade capuchinho numa igreja em Mersin, no sul da Turquia. Este ataque deu-se dentro da igreja, quando o sacerdote ensaiava com um grupo de jovens uma pe\u00e7a de teatro sobre a Paix\u00e3o. O atacante proferiu insultos contra o P. Hanri Leylek e amea\u00e7ou-o depois com uma faca de talhante.  Ap\u00f3s a morte do P. Santoro, D. Padovese declarava aos jornalistas no Vaticano: \u201cO motivo verdadeiro do homic\u00eddio do P. Santoro \u00e9 a exalta\u00e7\u00e3o religiosa, motivada pelo clima anti-crist\u00e3o\u201d que se respira na regi\u00e3o, \u201cem fam\u00edlia, na escola, nas leituras\u201d. O prelado considera que \u201cos jornais tentam agravar a situa\u00e7\u00e3o para mostrar os crist\u00e3os como inimigos do povo turco\u201d.  Ap\u00f3s a morte do P. Santoro \u2013 cujo processo de beatifica\u00e7\u00e3o foi entretanto iniciado pelo Vaticano \u2013 outros seis sacerdotes cat\u00f3licos foram atacados na Turquia. Num pa\u00eds onde no s\u00e9culo I o ap\u00f3stolo S\u00e3o Paulo pregou e o cristianismo chegou a ser religi\u00e3o oficial, a Funda\u00e7\u00e3o Ajuda \u00e0 Igreja que Sofre constatou como os crist\u00e3os na Turquia n\u00e3o t\u00eam hoje acesso aos meios de comunica\u00e7\u00e3o, sentindo-se cada vez mais isolados. As v\u00e1rias comunidades crist\u00e3s (ortodoxas, cat\u00f3lica-caldeia, cat\u00f3lica-arm\u00e9nia e s\u00edriocat\u00f3lica) sentem-se impotentes perante as campanhas de difama\u00e7\u00e3o de que s\u00e3o alvo e indefesas face ao aumento dos ataques fundamentalistas a sacerdotes e fi\u00e9is. \u201cN\u00f3s somos uma realidade sem voz!\u201d, lamentou numa entrevista o Vig\u00e1rio Apost\u00f3lico de Anat\u00f3lia.  <b>Liberdade Religiosa e UE<\/b> Para a entrada da Turquia na Uni\u00e3o Europeia a Comiss\u00e3o Europeia colocou condi\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 defesa da liberdade religiosa por parte do Governo de Ancara: o reconhecimento da plena \u201cliberdade de religi\u00e3o\u201d e \u201ca adop\u00e7\u00e3o de uma lei\u201d que remova os obst\u00e1culos que afectam \u201cas minorias religiosas n\u00e3o mu\u00e7ulmanas e as suas institui\u00e7\u00f5es, em conformidade com os elevados par\u00e2metros europeus\u201d; \u201csuspender a confisca\u00e7\u00e3o e a venda dos bens\u201d das entidades religiosas n\u00e3o isl\u00e2micas; reconhecer e garantir \u201ca efectiva liberdade de pensamento, consci\u00eancia e religi\u00e3o, quer para o indiv\u00edduo quer para a comunidade, em conformidade com a Conven\u00e7\u00e3o Europeia para os Direitos do Homem\u201d. Como assinala o Relat\u00f3rio 2006: Liberdade Religiosa no Mundo, publicado pela Funda\u00e7\u00e3o Ajuda \u00e0 Igreja que Sofre, as confiss\u00f5es religiosas minorit\u00e1rias n\u00e3o foram ainda reconhecidas juridicamente pelo Estado e n\u00e3o existe ainda uma lei sobre o direito de propriedade das comunidades religiosas, que permita a estas confiss\u00f5es manter as actuais propriedades e recuperar as que foram confiscadas ao longo dos \u00faltimos 70 anos.  Para al\u00e9m da aus\u00eancia de legisla\u00e7\u00e3o que defenda as minorias religiosas \u2013 e apesar da Constitui\u00e7\u00e3o turca garantir tanto a liberdade religiosa e de consci\u00eancia como a liberdade de express\u00e3o \u2013 a convers\u00e3o de um mu\u00e7ulmano ao cristianismo \u00e9 vista socialmente como uma trai\u00e7\u00e3o.  Em Mar\u00e7o de 2005, o Ministro para os Assuntos Religiosos, Mehmet Aydin, declarava no Parlamento: \u201cOs mission\u00e1rios amea\u00e7am a unidade da na\u00e7\u00e3o\u201d, acrescentando que \u201co objectivo destas actividades \u00e9 p\u00f4r em perigo a unidade cultural, religiosa, nacional e hist\u00f3rica do povo turco\u201d, mesmo se, nos \u00faltimos cinco anos, tenham ocorrido apenas 368 convers\u00f5es ao cristianismo.  \u201cAntigamente, ouv\u00edamos algumas hist\u00f3rias sobre padres assassinados, mas isso acontecia sempre em pa\u00edses distantes. Nunca suspeit\u00e1mos que tal pudesse acontecer aqui, em solo turco. E, no entanto, a Turquia foi terra de grandes m\u00e1rtires\u201d &#8211;  Carta de uma crist\u00e3 turca, enviada em Abril de 2005 \u00e0 ag\u00eancia de not\u00edcias cat\u00f3lica AsiaNews.  As reformas legislativas introduzidas durante o regime nacionalista de Kemal Ataturk entre 1924 e 1957 conduziram \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o da Turquia num Estado laico moderno: extin\u00e7\u00e3o dos tribunais isl\u00e2micos, express\u00f5es religiosas retiradas da Constitui\u00e7\u00e3o, s\u00edmbolos e trajes religiosos banidos em p\u00fablico, atribui\u00e7\u00e3o do direito de voto \u00e0s mulheres. Um Estado \u201cmoderno\u201d no seio de uma sociedade tradicionalista. Contudo, estas reformas n\u00e3o s\u00e3o, ainda hoje, aceites entusiasticamente por toda a popula\u00e7\u00e3o e provocaram o surgimento de um Isl\u00e3o \u201calternativo\u201d, ensinado nas madrassas privadas (escolas isl\u00e2micas habitualmente ligadas \u00e0s mesquitas), que se op\u00f5e ao Isl\u00e3o \u201coficial\u201d, ensinado nas escolas p\u00fablicas. Entre os mu\u00e7ulmanos existem grupos que criticam o Estado por n\u00e3o se ocupar dos assuntos religiosos, enquanto outros defendem que um Estado \u201csecular\u201d n\u00e3o consegue seguir o \u201cgenu\u00edno Isl\u00e3o\u201d.  A partir dos anos 80, os tradicionalistas come\u00e7aram a ocupar cargos na fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica, especialmente nas \u00e1reas da defesa e da educa\u00e7\u00e3o. O seu peso pol\u00edtico \u00e9 cada vez maior e o seu objectivo \u00e9 implementar um regime pol\u00edtico fiel ao Cor\u00e3o: \u201cA nossa Constitui\u00e7\u00e3o \u00e9 o Cor\u00e3o\u201d, \u00e9 o seu lema.  Na vis\u00e3o dos grupos tradicionalistas Cristianismo e Ocidente s\u00e3o a mesma realidade e teme-se que a influ\u00eancia da cultura e do estilo de vida crist\u00e3o levem o povo turco a adoptar os costumes ocidentais. Para alguns sectores do nacionalismo isl\u00e2mico, a entrada da Turquia na Uni\u00e3o Europeia constitui uma \u201ctrai\u00e7\u00e3o ao Isl\u00e3o\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No in\u00edcio do s\u00e9culo XX mais de 30 % dos turcos professavam a religi\u00e3o crist\u00e3. 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