{"id":2131,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/itinerarios-crentes-na-cidade\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"itinerarios-crentes-na-cidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/itinerarios-crentes-na-cidade\/","title":{"rendered":"Itiner\u00e1rios crentes na cidade"},"content":{"rendered":"<p>\u201cDeus n\u00e3o habita em morada feita pela m\u00e3o dos homens\u201d (Act 7, 48)  1. O momento em que vivemos \u00e9, provavelmente, aquele em que mais se complexificou a nossa rela\u00e7\u00e3o com o territ\u00f3rio. De modos diversos, em diferentes disciplinas, fala-se do fim do tempo da territorialidade local compacta, tempo em que era poss\u00edvel encontrar imediatamente para cada pessoa, objecto ou acontecimento uma rede est\u00e1vel de significa\u00e7\u00e3o referida a um lugar. Se perduram as rela\u00e7\u00f5es de proximidade, as pequenas alian\u00e7as do quotidiano que criam solidariedades locais, tamb\u00e9m \u00e9 certo que nunca como hoje se fez a experi\u00eancia de multiplica\u00e7\u00e3o das perten\u00e7as (quem de n\u00f3s faz hoje a experi\u00eancia de pertencer a um lugar?). Dir-se-ia que o fen\u00f3meno da urbaniza\u00e7\u00e3o moderna colocou os indiv\u00edduos no contexto de um a experi\u00eancia de desloca\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia. As culturas urbanas s\u00e3o, hoje, terreno de complexidade. A\u00ed se investe na gest\u00e3o daquilo que provavelmente ser\u00e1 a qualidade mais proeminente das culturas urbanas &#8211; o pluralismo. Hoje, a cidade n\u00e3o transporta apenas a coexist\u00eancia de tempos diferentes (as zonas hist\u00f3ricas, os monumentos, as zonas de expans\u00e3o industrial, as formas arquitect\u00f3nicas mais recentes), ela exibe tamb\u00e9m uma configura\u00e7\u00e3o multicultural que \u00e9 consequ\u00eancia das rela\u00e7\u00f5es que se estabelecem entre os \u201cnativos\u201d e os \u201cmigrantes\u201d, entre os antigos e os novos moradores. As culturas urbanas s\u00e3o ainda marcadas pela emerg\u00eancia do espa\u00e7o p\u00fablico, qualidade que parece ter sofrido o impacto da expans\u00e3o dos meios que levam os bens culturais e o lazer ao espa\u00e7o dom\u00e9stico, facto que ter\u00e1 reduzido a necessidade de frequentar os lugares p\u00fablicos da cidade. A essa realidade de clausura no espa\u00e7o dom\u00e9stico parece corresponder tamb\u00e9m a necessidade de fugir \u00e0 cidade representada negativamente como o lugar da viol\u00eancia e da polui\u00e7\u00e3o (tenham-se em conta as pr\u00e1ticas de fim-de-semana, a procura de uma segunda-casa ou o imagin\u00e1rio nost\u00e1lgico em torno das civilidades rurais).  2. As religi\u00f5es devem ser vistas, entre outros \u00e2ngulos, como modos de habitar o mundo. A cultura b\u00edblica pode ser lida sob o ponto de vista da sua influ\u00eancia na ecologia humana, sobretudo na medida em que ela parece ter dado uma proemin\u00eancia ao tempo em detrimento do espa\u00e7o &#8211; Michel de Certeau falava a este prop\u00f3sito do \u201csem lugar da f\u00e9\u201d. Isto n\u00e3o evitou, no entanto, que as Igrejas, na sua hist\u00f3ria, n\u00e3o tivessem que lidar com essa espessura humana que \u00e9 o territ\u00f3rio. Sabemos como a paisagem religiosa se transformou profundamente quando come\u00e7ou esse enorme movimento de popula\u00e7\u00f5es do \u201ccampo\u201d para \u201ccidade\u201d, particularmente nos s\u00e9culo XIX e XX. A Igreja cat\u00f3lica reagiu a essas transforma\u00e7\u00f5es em v\u00e1rias frentes: multiplicou as par\u00f3quias dentro da cidade, com o intuito de enquadrar numa rede de proximidade os crentes; deu um novo impulso a outras formas de inscri\u00e7\u00e3o institucional no espa\u00e7o, como a constru\u00e7\u00e3o de col\u00e9gios, universidades, hospitais, etc., e suas capelanias; mas tamb\u00e9m favoreceu formas de enquadramento n\u00e3o limitadas \u00e0s bases territoriais, autorizando a constitui\u00e7\u00e3o de redes de associativismo confessional (associa\u00e7\u00f5es profissionais, de lazer, de interven\u00e7\u00e3o social) e de movimentos, como a Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica, que se adaptavam bem ao princ\u00edpio de mobilidade das sociedades modernas. Na segunda metade do s\u00e9culo XX tornaram-se cada vez mais evidentes os efeitos de eros\u00e3o dos modos de vida da metr\u00f3pole urbana nas formas de socialidade religiosa marcadas pelos ritmos da comunidade camponesa. Gabriel Le Bras, soci\u00f3logo do catolicismo, escrevia em 1958: \u201cem cada 100 rurais que se estabelecem em Paris, h\u00e1 perto de 90 que, mal saiem da esta\u00e7\u00e3o de Montparnasse, deixam de ser praticantes\u201d. N\u00e3o admira pois que em algum discurso popular e eclesi\u00e1stico tenham abundado as refer\u00eancias \u00e0 cidade como \u201cinimiga da f\u00e9\u201d. Os estudos que nos anos 80 foram realizados sobre estes fen\u00f3menos glosaram frequentemente o tema do desmoronamento da \u201cciviliza\u00e7\u00e3o paroquial\u201d, que em tra\u00e7os largos seria o \u201cfim\u201d dessa identifica\u00e7\u00e3o entre a par\u00f3quia como circunscri\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica e a comunidade como forma social. Recorde-se que nessa \u201cciviliza\u00e7\u00e3o paroquial\u201d, a igreja era o dispositivo central do territ\u00f3rio, muitas vezes um centro geogr\u00e1fico, mas sobretudo um centro simb\u00f3lico, um emblema central da representa\u00e7\u00e3o da identidade da popula\u00e7\u00e3o enquanto comunidade moral; a rela\u00e7\u00e3o entre o p\u00e1roco e os crentes estabelecia-se no quadro de uma proximidade espacial, proximidade que permitia o acesso f\u00e1cil aos ritos, \u00e0 prega\u00e7\u00e3o e \u00e0 instru\u00e7\u00e3o religiosa e, assim, a manuten\u00e7\u00e3o de uma linhagem crente continuamente celebrada.  3. As primeiras reflex\u00f5es cr\u00edticas sobre os modos de vida urbanos na metr\u00f3pole moderna viram na mobilidade uma das chaves essenciais para a sua compreens\u00e3o. G. Simmel pensou essa mobilidade a partir da figura do estrangeiro. N\u00e3o esse viajante que hoje chega para partir amanh\u00e3, mas sim esse errante que chega hoje e que ficar\u00e1 amanh\u00e3 sem prescindir da liberdade de ir e vir. Essa mobilidade deve poder relacionar-se com essa arte de combinar cren\u00e7as, essa mesti\u00e7agem dos deuses, mobilidade do imagin\u00e1rio que n\u00e3o dispensa as refer\u00eancias \u00e0 mem\u00f3ria religiosa em que os indiv\u00edduos foram socializados, mas as adapta \u00e0quilo que os soci\u00f3logos chamam \u201cestilos de vida\u201d. Nos EUA, por exemplo, de acordo com os estudos conhecidos, \u00e9 frequente que evang\u00e9licos e n\u00e3o evang\u00e9licos se desloquem por Igrejas diferentes at\u00e9 que se encontre uma \u201ccongrega\u00e7\u00e3o\u201d que se adeque aos seus gostos, \u00e0s suas quest\u00f5es n\u00e3o resolvidas, ao seu modo de busca espiritual. Esses estudos mostram que aquilo que eles procuram n\u00e3o s\u00e3o apenas, nem em primeiro lugar, propostas acerca de uma vida futura, ou ofertas de uma moralidade constru\u00edda, mas antes programas que se dirijam \u00e0s suas necessidades pessoais e os orientem num estilo de vida que fortale\u00e7a o seu pr\u00f3prio Eu. Este contexto permitiu o florescimento de um \u201cmercado da espiritualidade\u201d (livrarias, grupos de auto-ajuda, centros de retiro, medicina alternativa, semin\u00e1rios de espiritualidade, oficinas de espiritualidade nos neg\u00f3cios e nas corpora\u00e7\u00f5es, e agora o ciber-espa\u00e7o), que conduziu \u00e0 reestrutura\u00e7\u00e3o dos estilos e pr\u00e1ticas espirituais a partir da oferta dispon\u00edvel. As par\u00f3quias foram envolvidas nessa imensa l\u00f3gica de mercado, na medida em que s\u00e3o procuradas de acordo com seu estilo de acolhimento, o \u201car\u201d das suas celebra\u00e7\u00f5es, a compet\u00eancia da sua oferta de forma\u00e7\u00e3o, o discurso dos seus padres, etc. &#8211; numa palavra, a \u201cqualidade\u201d. Na cidade, h\u00e1 par\u00f3quias que s\u00e3o reconhecidas pela sua extraordin\u00e1ria capacidade de oferta de bens religiosos ou pela compet\u00eancia com que o fazem, rasto de uma terciariza\u00e7\u00e3o generalizada dos modos de vida. Nesse contexto, lan\u00e7a-se m\u00e3o da din\u00e2mica dos pequenos grupos para criar uma \u201cIgreja de op\u00e7\u00f5es\u201d, oferecendo um menu de respostas v\u00e1rias \u00e0s inquieta\u00e7\u00f5es religiosas ou \u00e0s demandas de manuten\u00e7\u00e3o da identidade religiosa, abrindo \u00e0s pessoas a possibilidade de encontrar um nicho onde possam comunicar e partilhar com os outros. O refor\u00e7o e a multiplica\u00e7\u00e3o de diferentes regimes comunit\u00e1rios dentro de uma comunidade de refer\u00eancia (comunidade de comunidades) aproxima-se paradoxalmente de um dos sentidos do moderno individualismo religioso, uma vez que esse movimento traduz a vontade do sujeito crente se auto-implicar na economia de salva\u00e7\u00e3o que a institui\u00e7\u00e3o pretende servir, e mostra tamb\u00e9m que esse individualismo n\u00e3o se verte numa completa privatiza\u00e7\u00e3o do religioso. O nomadismo religioso contempor\u00e2neo corresponde \u00e0 vontade de celebrar a subjectividade e o acontecimento; mas, porque a err\u00e2ncia s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel dentro de um quadro m\u00ednimo de refer\u00eancias, subsiste a nostalgia da comunidade (imaginada ou praticada).  4. As comunidades crist\u00e3s na cidade vivem, hoje, o desafio de traduzir nesse pluralismo dos modos de vida essa mem\u00f3ria que as funda: ser assembleia convocada e reunida eucaristicamente num lugar &#8211; isso mesmo que \u201cigreja\u201d significa na sua acep\u00e7\u00e3o primitiva. Penso que a resposta a esse desafio n\u00e3o dever\u00e1 perder de vista que a cidade, marcada por transac\u00e7\u00f5es complexas, \u00e9 tamb\u00e9m espa\u00e7o de circula\u00e7\u00e3o de sentido &#8211; antes de mais, o sentido do que \u00e9 viver na cidade, a urbanidade. Est\u00e3o as Igrejas preparadas para serem, elas pr\u00f3prias, interlocutoras nessa descoberta do que possa ser o sentido de viver na cidade? Isto n\u00e3o implica uma ren\u00fancia \u00e0s convi\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias com receio das etiquetas do fundamentalismo, implica sim, a meu ver, uma forma de inscri\u00e7\u00e3o na cena p\u00fablica que aceite a disponibilidade do di\u00e1logo com outros sistemas de convic\u00e7\u00f5es &#8211; n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o p\u00fablico sem a constru\u00e7\u00e3o de compromissos. Mas implica tamb\u00e9m a abertura de \u201cespa\u00e7os p\u00fablicos\u201d dentro das Igrejas, ou seja, espa\u00e7os onde aceitem ser interpeladas pelas d\u00favidas e hesita\u00e7\u00f5es dos outros, e onde elas possam dizer das suas raz\u00f5es. Neste contexto, as Igrejas poder\u00e3o contribuir para a tradu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de algo que faz parte das suas compet\u00eancias e do seu patrim\u00f3nio espiritual &#8211; \u201cfazer comunh\u00e3o\u201d. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cDeus n\u00e3o habita em morada feita pela m\u00e3o dos homens\u201d (Act 7, 48) 1. 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