{"id":212560,"date":"2021-07-14T10:35:39","date_gmt":"2021-07-14T09:35:39","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=212560"},"modified":"2021-07-14T10:35:39","modified_gmt":"2021-07-14T09:35:39","slug":"saber-aprender-a-sincronizar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-sincronizar\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A sincronizar"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Estava a vigiar um exame quando recebi a not\u00edcia de que o irm\u00e3o de um grande amigo teve um acidente enquanto estava de f\u00e9rias e faleceu. Com o cora\u00e7\u00e3o cheio de dor telefonei-lhe para dizer o quanto estava com ele neste momento de dor, mas no fundo pensava comigo pr\u00f3prio \u2014 <em>\u00abquantas vezes n\u00e3o gostar\u00edamos de voltar atr\u00e1s no tempo e escolher um outro caminho.\u00bb<\/em> Mas o tempo n\u00e3o volta atr\u00e1s. Por\u00e9m, o escritor brit\u00e2nico Eric Russel dizia que <em>\u00aba tua mente pode viajar no tempo\u00bb<\/em>. Logo, questionei-me o que poderia querer isso dizer.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/relogios-tempo.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-212563 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/relogios-tempo.jpg\" alt=\"\" width=\"401\" height=\"401\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/relogios-tempo.jpg 512w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/relogios-tempo-260x260.jpg 260w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/relogios-tempo-150x150.jpg 150w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/relogios-tempo-480x480.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 401px) 100vw, 401px\" \/><\/a>O fil\u00f3sofo Henri Bergson colocava em quest\u00e3o o tempo dilacerante dos f\u00edsicos que divide a vida das pessoas em horas, minutos, e segundo, fazendo-nos experimentar o tempo como uma pris\u00e3o. A sua vis\u00e3o do tempo relacionava-se mais com a no\u00e7\u00e3o de fluxo, processo, um tornar-se que n\u00e3o se resigna \u00e0 incapacidade de voltar atr\u00e1s. Por isso, Bergson n\u00e3o consegue separar a vis\u00e3o do tempo da experi\u00eancia que fazemos dele atrav\u00e9s de um entrela\u00e7ar de estados mentais que nos d\u00e3o a impress\u00e3o de dura\u00e7\u00e3o. Nesta vis\u00e3o, o tempo \u00e9 como uma mar\u00e9 de momentos que se revelam a ess\u00eancia da consci\u00eancia daquilo que vivemos, libertando-nos da pris\u00e3o dos rel\u00f3gios. Pois, o momento presente de uma pessoa pode n\u00e3o ser o momento presente de outra.<\/p>\n<p>O cardeal John Henry Newman escreveu<\/p>\n<blockquote><p>\u00abo tempo n\u00e3o \u00e9 uma propriedade comum<br \/>\nMas o que \u00e9 longo \u00e9 curto, e o r\u00e1pido \u00e9 lento<br \/>\nO pr\u00f3ximo \u00e9 distante, enquanto recebido e agarrado<br \/>\npor esta mente e por aquela,<br \/>\ne todos s\u00e3o padr\u00e3o da sua pr\u00f3pria cronologia.\u00bb<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o existe a perfeita simultaneidade quando cada um vive o seu momento presente. N\u00e3o podemos voltar atr\u00e1s pelo outro porque o seu momento presente \u00e9 diferente do nosso. E quando o momento presente para um de n\u00f3s \u00e9 o \u00faltimo momento da nossa vida, somos alvo da conting\u00eancia fatal que nos deixa impotentes, sem nada poder fazer, instalando-se o drama. A incerteza pode gerar uma vida como lev\u00e1-la ao seu termo.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de Bergson que abra\u00e7ava a incerteza e o fluxo do tempo cujo centro \u00e9 a consci\u00eancia humana, Einstein n\u00e3o via qualquer lugar para o esp\u00edrito numa ci\u00eancia que dependia de rel\u00f3gios e luz. Por isso, a perfeita simultaneidade seria um sonho imposs\u00edvel, mas se pensarmos nos desenvolvimentos tecnol\u00f3gicos a partir da emerg\u00eancia da internet, o mundo est\u00e1 mais interconectado do que nunca favorecendo a conson\u00e2ncia dos momentos presentes. A esta chamamos: a experi\u00eancia da <em>sincroniza\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p>Podemos n\u00e3o viver os mesmos momentos presentes, mas temos a possibilidade de sincronizar os nossos momentos presentes. Sabemos que o tempo n\u00e3o volta atr\u00e1s porque h\u00e1 sempre uma parte da energia que usamos em cada acto de amor que se liberta sem recupera\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. \u00c9 o que chamamos de entropia cuja etimologia da palavra \u2014 en + trope \u2014 significa <em>transforma\u00e7\u00e3o interior<\/em>. Quando o matem\u00e1tico e engenheiro electrot\u00e9cnico Claude Shannon associou a entropia \u00e0 transfer\u00eancia de informa\u00e7\u00e3o, subtilmente, revelou que a <em>comunica\u00e7\u00e3o e a mem\u00f3ria<\/em> s\u00e3o processos entr\u00f3picos, isto \u00e9, que nos transformam por dentro.<\/p>\n<p>Quando comunicamos, comunicamo-nos. \u00c9 a tentativa de sincronizar os nossos momentos presentes para que a transforma\u00e7\u00e3o interior daquilo que damos de n\u00f3s mesmos, uns aos outros, pela comunica\u00e7\u00e3o, permeie o mundo de reciprocidade. Quando telefonei ao meu amigo, comunicando-me a ele, fi-lo pelo impulso de querer sincronizar os nossos momentos presentes. Mas quando aquele que parte deste mundo deixa de comunicar-se, fisicamente, connosco, estaremos perante o colapso do seu tempo? \u00c9 a\u00ed que entra o segundo processo entr\u00f3pico da mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Her\u00e1clito de \u00c9feso era um fil\u00f3sofo grego a quem se atribui a frase \u2014 <em>\u00abN\u00e3o se pode entrar duas vezes no mesmo rio.\u00bb<\/em> \u2014 mas, de acordo com James Gleick no seu livro <em>\u201dTime Travel &#8211; A History\u201d<\/em> \u2014 <em>\u00abningu\u00e9m sabe exactamente o que Her\u00e1clito disse, porque viveu num tempo e lugar onde n\u00e3o havia escrita\u00bb<\/em>. Mas o essencial da ideia que ele pretendia transmitir \u00e9: <em>tudo est\u00e1 em mudan\u00e7a<\/em>. O mundo est\u00e1 num fluxo permanente. As mem\u00f3rias ajudam-nos a ter uma percep\u00e7\u00e3o mais clara dessas mudan\u00e7as, acabando por tornar-se elementos, tamb\u00e9m, transformativos.<\/p>\n<p>S\u00f3 quem se isola totalmente dos outros e do mundo n\u00e3o cria as mem\u00f3rias que ao longo dos tempos mudam a narrativa da nossa hist\u00f3ria. Aqueles a quem o tempo colapsa, improvisamente, deixam de ser intervenientes directos na cria\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias, mas podem, indirectamente, continuar a cri\u00e1-las. Pois, a mem\u00f3ria de uma experi\u00eancia passada pode ser a luz que ilumina o nosso momento presente, influenciando-o e criando uma nova mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Muitos v\u00eaem o tempo como um rio, ou algo que passa, ou o que est\u00e1 relacionado com os climas exteriores e interiores, mas s\u00e3o apenas met\u00e1foras que escolhemos pelo efeito que produzem no sentido que damos \u00e0 realidade que vivemos. A consci\u00eancia da import\u00e2ncia de saber aprender a sincronizar os nossos momentos presentes requer mais que vivamos o tempo que nos \u00e9 dado, do que corramos atr\u00e1s do tempo. Ser\u00e1 essa sincroniza\u00e7\u00e3o que fomenta a relacionalidade de momentos presentes e forma novas mem\u00f3rias para transformar o mundo a partir daquilo que \u00e9 profundo e interior.<\/p>\n<p>Houve um tempo em que as pessoas andavam fascinadas com as c\u00e1psulas do tempo. Isto \u00e9, aparelhos onde guardavam o que gostariam de relembrar passadas muitas d\u00e9cadas \u00e0s pessoas do futuro, mas isso n\u00e3o faz sentido quando evolu\u00edmos com uma metodologia que guarda a informa\u00e7\u00e3o sobre as nossas vidas e tempos, de modo a transmitir \u00e0s gera\u00e7\u00f5es futuras: <em>a cultura<\/em>.<\/p>\n<p>O irm\u00e3o do meu amigo n\u00e3o pode mais comunicar com a sua esposa, ou criar novas mem\u00f3rias presenciais com os seus filhos, mas deixou gravado nos seus cora\u00e7\u00f5es uma cultura \u00fanica associada ao seu pr\u00f3prio modo de ser e estar. Diz a escritora Ursula K. Le Guin que <em>\u00aba hist\u00f3ria \u00e9 o \u00fanico barco que temos para navegar no rio do tempo.\u00bb<\/em> Imagino como cada um de n\u00f3s navega pelo seu rio, mas, um dia, todos desaguaremos no mar imenso do amor de Deus onde todas as hist\u00f3rias se encontram, e onde, tamb\u00e9m um dia, o meu amigo encontrar\u00e1 de novo o seu irm\u00e3o.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o 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