{"id":212010,"date":"2021-07-07T17:10:39","date_gmt":"2021-07-07T16:10:39","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=212010"},"modified":"2021-07-10T00:16:06","modified_gmt":"2021-07-09T23:16:06","slug":"saber-aprender-a-rezar-com-infinitos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-rezar-com-infinitos\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A rezar com infinitos"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Alguma vez ficaste hipnotizado a olhar para a chama de uma vela ou fogueira? Nessa experi\u00eancia existe repeti\u00e7\u00e3o da mesma coisa vezes sem conta, mas tamb\u00e9m surpresa pelos padr\u00f5es que se podem formar. Acontecem tantos eventos ao mesmo tempo que saltamos entre a repeti\u00e7\u00e3o e a surpresa sem nos cansarmos. De onde vem esse fasc\u00ednio? Antrop\u00f3logos como Daniel Fessler dizem que prov\u00e9m de termos conseguido aprender a fazer fogueiras quando \u00e9ramos crian\u00e7as, dominando o fogo. Mas a partir do momento em que o fogo faz parte do nosso quotidiano, deixa de nos fascinar. Mas ser\u00e1 a falta de dom\u00ednio da chama que nos mant\u00e9m em contempla\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<figure id=\"attachment_212012\" aria-describedby=\"caption-attachment-212012\" style=\"width: 1296px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/vela.jpeg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-212012 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/vela.jpeg\" alt=\"\" width=\"1296\" height=\"864\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/vela.jpeg 1296w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/vela-390x260.jpeg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/vela-1024x683.jpeg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/vela-768x512.jpeg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/vela-1080x720.jpeg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/vela-1280x853.jpeg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/vela-980x653.jpeg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/vela-480x320.jpeg 480w\" sizes=\"(max-width: 1296px) 100vw, 1296px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-212012\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Prateek Gautam em unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>Gaston Bachelard, fil\u00f3sofo franc\u00eas, escreveu muito sobre como a mat\u00e9ria desperta a imagina\u00e7\u00e3o interior que, por sua vez, enche a mat\u00e9ria de mem\u00f3ria e valores. A chama de uma vela produz uma luz suave e um calor confort\u00e1vel. Muito diferente das labaredas do fogo de uma lareira. Sem sabermos bem a raz\u00e3o, \u00e0quela pequena chama associamos, misteriosamente, uma experi\u00eancia de vida espiritual. Bachelard diz que \u2014 <em>\u00abo que chamamos de Vida na cria\u00e7\u00e3o \u00e9, em todas as formas e em todos os seres, o mesmo e \u00fanico esp\u00edrito, uma s\u00f3 chama.\u00bb<\/em> \u2014 Por isso, de certo modo, olhar para a chama de uma vela apela \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o de uma unidade \u00fanica e profunda.<\/p>\n<p>Quando se fala hoje muito em intelig\u00eancia e vida artificial, as pessoas conhecem pouco a realidade e baseiam a ideia que t\u00eam nos filmes de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Mas em 1970, o matem\u00e1tico John Conway inventou no computador o \u201cJogo da Vida\u201d. Um jogo sem jogadores com regras simples onde deixamos uma popula\u00e7\u00e3o de quadrados evoluir a partir de uma situa\u00e7\u00e3o inicial e vemos o que acontece. Imaginem uma grelha de quadrados e cada quadrado tem duas condi\u00e7\u00f5es: ou est\u00e1 vivo, ou est\u00e1 morto. De gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, cada quadrado interage com os oito quadrados \u00e0 sua volta. E a cada intervalo de tempo, existem quatro possibilidades:<\/p>\n<ol>\n<li>qualquer c\u00e9lula viva com menos do que duas c\u00e9lulas vivas \u00e0 sua volta, morre sem deixar descend\u00eancia;<\/li>\n<li>qualquer c\u00e9lula com duas ou tr\u00eas c\u00e9lulas vivas \u00e0 sua volta sobrevive na pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o;<\/li>\n<li>qualquer c\u00e9lula com mais do que tr\u00eas c\u00e9lulas vivas \u00e0 sua volta morre por haver popula\u00e7\u00e3o a mais e;<\/li>\n<li>qualquer c\u00e9lula morta com <em>exactamente<\/em> tr\u00eas c\u00e9lulas vivas \u00e0 sua volta, nasce para dar vida a uma nova gera\u00e7\u00e3o!<\/li>\n<\/ol>\n<p>Em <a href=\"https:\/\/playgameoflife.com\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/playgameoflife.com<\/a>; podemos fazer a experi\u00eancia de criar condi\u00e7\u00f5es iniciais que levam \u00e0 extin\u00e7\u00e3o, ou a uma dan\u00e7a infinita de popula\u00e7\u00f5es de quadrados que parecem ganhar vida pr\u00f3pria. S\u00e3o como as velas. Impulsionam-nos a mergulhar no infinito. Ser\u00e1 esse mergulho uma forma de ora\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>A unidade indivisa entre o nosso corpo e a alma leva a que todos os nossos sentidos se envolvam num momento de ora\u00e7\u00e3o. Como questiona o Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica \u2014 <em>\u00abDe onde procede a ora\u00e7\u00e3o do homem? Seja qual for a linguagem da ora\u00e7\u00e3o (gestos e palavras), \u00e9 o homem todo que ora.\u00bb (n. 2562)<\/em> \u2014 Ou seja, como nos momentos em que contempla a simples e pequena luz de uma vela. Existem diversas vantagens em usarmos as velas para rezar:<\/p>\n<ol>\n<li>menos distrac\u00e7\u00f5es;<\/li>\n<li>a dan\u00e7a da pequena chama gera um ambiente sereno;<\/li>\n<li>recorda-nos os tempos antigos, menos acelerados;<\/li>\n<li>sensibiliza-nos para a luz de Jesus que nos quer iluminar interiormente;<\/li>\n<li>e, tal como uma pequena vela pode produzir a luz necess\u00e1ria na escurid\u00e3o da noite para encontrarmos o caminho, ao rezar com uma vela, acolhemos o sinal que essa representa da procura que fazemos de Deus na nossa vida.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Para al\u00e9m da vela, um outro infinito que nos impele \u00e0 ora\u00e7\u00e3o \u00e9 um rio, ou uma cascata, isto \u00e9, um fluir da \u00e1gua. As ondas e remoinhos existem, mas n\u00e3o se repetem. A \u00e1gua que passa n\u00e3o volta a passar. Nesse fluir sentimos uma subtil liga\u00e7\u00e3o ao momento presente, um espa\u00e7o de quietude que escava espa\u00e7o em n\u00f3s libertando-nos de algumas coisas, deixando outras. Na contempla\u00e7\u00e3o de um rio, o cora\u00e7\u00e3o tende a reencontrar, de novo, o seu ritmo. Na superf\u00edcie da \u00e1gua que est\u00e1 sempre a mudar para se adaptar \u00e0s condi\u00e7\u00f5es do momento, temos uma imagem de como Deus nos convida a ser flex\u00edveis na nossa ora\u00e7\u00e3o. Ou at\u00e9 como a mesma ora\u00e7\u00e3o, por mais que seja repetida, tem um sabor diferente por n\u00e3o sermos os mesmos a cada instante que a pronunciamos. Mas um infinito invis\u00edvel que tamb\u00e9m nos pode inspirar \u00e0 ora\u00e7\u00e3o \u00e9 o ar.<\/p>\n<p>A brisa suave e fresca num dia Ver\u00e3o pode ser o suficiente para suscitar em n\u00f3s um momento de gratid\u00e3o a Deus. Na brisa experimentamos o movimento de algo invis\u00edvel, mas que se sente. A ora\u00e7\u00e3o \u00e9 um movimento interior de di\u00e1logo com Deus.<\/p>\n<p>Quando os n\u00e3o-crentes querem desafiar as cren\u00e7as dos crentes, o alvo mais f\u00e1cil \u00e9 a ora\u00e7\u00e3o porque a interpreta\u00e7\u00e3o mais redutora \u00e9 a da realiza\u00e7\u00e3o de algo extraordin\u00e1rio dado por Deus a pedido do \u201cpedinte\u201d. \u00c9 dif\u00edcil um n\u00e3o-crente entender como a imagina\u00e7\u00e3o presente na mat\u00e9ria como a chama, a \u00e1gua e o ar s\u00e3o infinitos que podem fazer-nos experimentar a presen\u00e7a de Deus num plano existencial interior e \u00edntimo. E como a ideia mais comum de ora\u00e7\u00e3o \u00e9 a do momento vivido individualmente, reservado e privado, menos sensibilidade temos para a verdadeira amplitude da faceta relacional da ora\u00e7\u00e3o na vida do crente. Ser\u00e1 a ora\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria diante dos infinitos que a imagina\u00e7\u00e3o materializa que nos mostra como o di\u00e1logo com Deus \u00e9 uma experi\u00eancia relacional.<\/p>\n<p>Olhar para a chama de uma vela, o fluir da \u00e1gua de um rio, ou sentir a brisa na pele parecem ser momentos de infinita inutilidade. Saber aprender a rezar com estes \u201cinfinitos\u201d desenvolve em n\u00f3s a capacidade de reconhecermos e dialogarmos com o Infinito que d\u00e1 sentido e significado a tudo o que existe. A ora\u00e7\u00e3o \u00e9 um momento in\u00fatil que nos ajuda a perceber que h\u00e1 mais vida para al\u00e9m daquilo que \u00e9 \u00fatil. E, talvez, a utilidade dos momentos com Deus que parecem in\u00fateis seja mais interior do que exterior.<\/p>\n<p>Uma das crises que enfrentamos hoje \u00e9 a pouca import\u00e2ncia que damos \u00e0 nossa interioridade atrav\u00e9s da ora\u00e7\u00e3o. E, depois, sentimos o efeito dessa neglig\u00eancia com os <em>stresses<\/em> que vivemos e as perturba\u00e7\u00f5es da mente que se expressam no corpo pela ansiedade, a viol\u00eancia ou a indiferen\u00e7a. Somos finitos, mas dentro de n\u00f3s est\u00e1 um aspecto infinito da realidade que a ora\u00e7\u00e3o com os infinitos nos abre: a gratid\u00e3o a Deus por nos ter acolhido no jogo infinito da vida.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-212010","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/212010","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=212010"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/212010\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=212010"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=212010"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=212010"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}