{"id":211434,"date":"2021-06-30T10:54:27","date_gmt":"2021-06-30T09:54:27","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=211434"},"modified":"2021-06-30T10:54:27","modified_gmt":"2021-06-30T09:54:27","slug":"saber-aprender-a-duvidar-bem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-duvidar-bem\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A duvidar bem"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>A ci\u00eancia n\u00e3o explica tudo, nem tem de explicar. A filosofia n\u00e3o explica tudo, nem tem de explicar. A teologia n\u00e3o explica tudo, nem tem de explicar. Ci\u00eancia, filosofia e teologia s\u00e3o modos gerais de conhecer a realidade que nos ajudam a compreender o que se passa dentro de n\u00f3s, com os outros e \u00e0 nossa volta. E se essas disciplinas n\u00e3o nos d\u00e3o raz\u00f5es para crer em Deus, tamb\u00e9m n\u00e3o nos d\u00e3o raz\u00f5es para n\u00e3o crer em Deus. Ou o ate\u00edsmo\/cren\u00e7a religiosa se fundamentam na experi\u00eancia de vida das pessoas, ou n\u00e3o t\u00eam qualquer fundamento. Mas h\u00e1 muitos que se deixam influenciar por aquilo que pensam compreender do que l\u00eaem e depois saltam da cren\u00e7a para a descren\u00e7a, ou da descren\u00e7a para a cren\u00e7a. E, para mim, pular entre convic\u00e7\u00f5es \u00e9 estranho.<\/p>\n<figure id=\"attachment_211436\" aria-describedby=\"caption-attachment-211436\" style=\"width: 1200px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/tachina-lee-wjk_SSqCE4-unsplash.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-211436\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/tachina-lee-wjk_SSqCE4-unsplash.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/tachina-lee-wjk_SSqCE4-unsplash.jpg 1200w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/tachina-lee-wjk_SSqCE4-unsplash-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/tachina-lee-wjk_SSqCE4-unsplash-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/tachina-lee-wjk_SSqCE4-unsplash-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/tachina-lee-wjk_SSqCE4-unsplash-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/tachina-lee-wjk_SSqCE4-unsplash-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/tachina-lee-wjk_SSqCE4-unsplash-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-211436\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Tachina Lee em Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>Estou a ler no testemunho que Mike McHargue partilha no seu livro <em>\u201dFinding God in the Waves\u201d<\/em> (n\u00e3o traduzido para portugu\u00eas, ainda), os passos que deu da cren\u00e7a activa para uma descren\u00e7a escondida, de modo a que ningu\u00e9m na sua comunidade e fam\u00edlia se dessem conta. Ainda n\u00e3o cheguei \u00e0 parte do percurso que fez at\u00e9 se encontrar de novo com Deus. A fase em que o livro se encontra tem a ver com o passo da descren\u00e7a. Esse adveio de leituras de \u201cNovo Ateus\u201d, como Richard Dawkins (e companhia), que apelam a uma cruzada contra a religi\u00e3o. Para o ambiente americano de algum literalismo b\u00edblico, compreende-se que a pr\u00f3pria f\u00e9 seja vivida muito ao n\u00edvel dos sentidos e sentimentos, pelo que o relacionamento com Deus faz-se muito atrav\u00e9s de causas e consequ\u00eancias, sem grande espa\u00e7o para explorar dimens\u00f5es de interpreta\u00e7\u00e3o da realidade que est\u00e3o para l\u00e1 das dicotomias. \u00c9 como se Deus fosse uma m\u00e1quina de Snacks em que metemos a moeda (ora\u00e7\u00e3o) e recebemos o Snack (o que pedimos na ora\u00e7\u00e3o). Mas o curioso \u00e9 que esta mentalidade americana entrou em Portugal, mas n\u00e3o esperava do modo como isso aconteceu.<\/p>\n<p>Tenho um amigo que era cat\u00f3lico e caminhou gradualmente para o ate\u00edsmo. Pelo facto da experi\u00eancia de Mike ter envolvido a leitura do \u201cnovo ate\u00edsmo\u201d, resolvi perguntar a este meu amigo que livro que se revelou cr\u00edtico no seu percurso. Qual n\u00e3o foi o meu espanto quando me partilhou ter sido o livro <em>\u201dA F\u00f3rmula de Deus\u201d<\/em> de Jos\u00e9 Rodrigues dos Santos. Eu lembro-me de ter lido esse livro, estando sobretudo atento \u00e0s partes que o autor usa para delinear o seu argumento de que Deus \u00e9 uma quest\u00e3o cient\u00edfica, e achei curioso que isso levasse algu\u00e9m ao ate\u00edsmo. Quer isso dizer que na forma\u00e7\u00e3o crist\u00e3 n\u00e3o estamos a ter (ou tivemos) muito sucesso na explica\u00e7\u00e3o do modo como ci\u00eancia e f\u00e9 podem dialogar e interagir. E para exp\u00f4r a minha experi\u00eancia e ponto de vista penso em Psicologia e Transmiss\u00e3o de Calor.<\/p>\n<p>Se perguntasse a um psic\u00f3logo sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a dissipa\u00e7\u00e3o de calor e a capacidade de lidar com a ansiedade, saberia responder-me? Ou se perguntasse a um engenheiro como pode a ansiedade diante um trabalho stressante afectar a quantidade de calor no processo industrial sobre o qual est\u00e1 a trabalhar, saberia responder-me? Talvez o leitor pense que uma coisa nada tem a ver com a outra e que as quest\u00f5es n\u00e3o fazem qualquer sentido. E eu estaria de acordo. As quest\u00f5es da psicologia n\u00e3o competem com as quest\u00f5es de transmiss\u00e3o de calor porque dirigem-se a \u00e1rea de saber distintas. Misturar \u00e9 gerar confus\u00e3o sem raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando Jos\u00e9 Rodrigues dos Santos afirma que Deus \u00e9 uma quest\u00e3o cient\u00edfica, \u00e9 como se dissesse que a poesia de Florbela Espanca \u00e9 uma quest\u00e3o qu\u00edmica. Infelizmente, \u00e9 mais comum do que pensamos haver esta mistura de quest\u00f5es de uma \u00e1rea de saber feita a outra, desenquadrando-as, mas o que considero curioso \u00e9 como argumentos for\u00e7ados podem convencer (ao menos) um cat\u00f3lico a encetar no caminho do ate\u00edsmo. Talvez demonstre a import\u00e2ncia de uma <em><a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/evangelho-da-duvida\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Teologia da D\u00favida<\/a>.<\/em><\/p>\n<p>A teologia \u00e9 a \u00e1rea do saber que procura compreender Deus. E, apesar de n\u00e3o ser te\u00f3logo, creio que procura compreender mais o que Deus revela de Si mesmo, do que apreender por si mesma o que quer que seja sobre Deus. Caso contr\u00e1rio, a teologia seria uma realidade maior do que Deus, o que n\u00e3o faria sentido. Depois, a teologia n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 teoria, mas prov\u00e9m da reflex\u00e3o que o ser humano faz da sua experi\u00eancia com Deus. Por fim, cada vertente da teologia \u00e9 um caminho de desenvolvimento desse saber, e penso que a <em>d\u00favida<\/em> \u00e9 um dos caminhos menos explorados explicitamente.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem considere que a d\u00favida \u00e9 a atitude contr\u00e1ria \u00e0 f\u00e9, mas s\u00f3 se confundirmos d\u00favida com cepticismo. A d\u00favida genu\u00edna nasce daquele que procura verdadeiramente os caminhos de conhecimento da verdade. E qual a verdade sobre o que \u00e9 Deus? De onde vem Deus? Quem \u00e9 Deus?<\/p>\n<p>Querer responder com a ci\u00eancia implicaria que Deus fosse mais um ingrediente no meio de outros que juntos fazem a sopa c\u00f3smica em que vivemos actualmente. Os cientistas, ap\u00f3s d\u00e9cadas de procura n\u00e3o conseguiram ainda encontrar este \u201cDeus\u201d e n\u00e3o estou admirado ou impressionado. Ficaria, sim, se tivessem encontrado alguma coisa. Quem o faz, \u00e9 como se estivesse na Madeira e procurasse a fronteira com os Estados Unidos. Como encontra apenas oceano, ent\u00e3o, os Estados Unidos n\u00e3o existem.<\/p>\n<p>Na \u201cF\u00f3rmula de Deus\u201d, Jos\u00e9 Rodrigues dos Santos tenta abordar, cientificamente, a quest\u00e3o de Deus ao procurar os sinais de <em>intelig\u00eancia<\/em> e <em>inten\u00e7\u00e3o.<\/em> Mas isso \u00e9 a base da procura de vida inteligente no universo, n\u00e3o de Deus. Por isso, aquilo que as pessoas encontram nestes livros que pode levar-lhes a caminhar para o ate\u00edsmo n\u00e3o s\u00e3o as quest\u00f5es, ou argumentos certos, que as levam a duvidar da exist\u00eancia de Deus, mas, sim, desafiam os conceitos de Deus que tinham. \u201cDuvidar bem\u201d teria levado estas pessoas a fazer uma experi\u00eancia de Deus diferente que seria \u00fatil para corrigir ideias ultrapassadas sobre Deus.<\/p>\n<p>O grande desafio daqueles que se convertem ao ate\u00edsmo com aquilo que l\u00eaem n\u00e3o est\u00e1 nos argumentos que lhes apresentam, mas no facto de n\u00e3o saberem duvidar como poderiam. As d\u00favidas n\u00e3o s\u00e3o obst\u00e1culos, mas trampolins. Os obst\u00e1culos est\u00e3o nos conceitos errados de Deus que n\u00e3o estamos dispostos a reconhecer que h\u00e1 muito poderiam ter sido ultrapassados se nos tiv\u00e9ssemos deixado impulsionar pela d\u00favida na procura da verdade.<\/p>\n<p>A verdade sobre Deus n\u00e3o se encontra nos livros, mas na vida quotidiana, e nas experi\u00eancias que fazemos quando nos damos aos outros. Os livros servir\u00e3o depois para nos ajudar a compreender e interpretar essas experi\u00eancias. Saber aprender a duvidar bem implica procurar Deus na vida, dando uma m\u00e3o a quem precisa, escutando quem sofre, ou mudando o estilo de vida por amor \u00e0 cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n<p>;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-211434","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/211434","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=211434"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/211434\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=211434"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=211434"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=211434"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}